sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Porque filosofar é fundamental...

O que dizer da filosofia na hora atual da história da humanidade? Para muitos, ela já não tem nenhuma razão de ser, uma vez que as ciências particulares haveriam tomado o seu lugar. Para outros, ela não oferece nenhuma resposta às questões fundamentais da vida humana, mas está sempre às voltas com os problemas que rechearam a sua longa trajetória e que ela, a filosofia, nunca pôde resolver de maneira definitiva.

Como quer que seja, para mim não se pode fugir da filosofia, ainda que se a considere um saber reformável e sem muitas respostas definitivas para as grandes questões humanas. A filosofia ocupa um lugar teórico que jamais pode ser ocupado pelas ciências particulares e que encontra seu fundamento na constituição do espírito humano, que tende a ir às últimas consequências do pensamento enquanto tal. Na verdade, a filosofia é aquela instância do saber crítico e reflexivo que mantém o olhar dirigido para o todo, sem os limites que o estatuto de cada ciência particular impõe. Só a filosofia pode encarar o ser como tal e no seu todo, ainda que não possa desvendar-lhe o mistério último. Sem a filosofia, o pensar humano se reduz a uma pobre coisa, sem a perspectiva de liberdade infinita que só o olhar filosófico pode trazer.

Alguém talvez dirá que não é preciso nem é possível filosofar, aduzindo uma série de argumentos para justificar a sua posição. Mas, como já reconhecia Aristóteles, até mesmo para dizer que não se deve filosofar, deve-se filosofar, isto é, devem-se colocar questões que assumem o caráter da radicalidade que ultrapassa o âmbito metodológico das ciências. A filosofia não pode ser negada sem que se filosofe. Até para concluir que certas perguntas permanecem sem resposta definitiva, deve-se refletir em nível filosófico. Se não queremos plainar sorrateiramente apenas buscando teorias que expliquem o comportamento dos entes do mundo, devemos abraçar a reflexão que oferece as asas da crítica radical, do pensamento abissal e das perguntas mais derradeiras e que faz o homem voar segundo as suas genuínas possibilidades; tal reflexão se chama filosofia.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Pingos de filosofia - Quem é niilista?

Niilismo é um termo que vem do latim nihil (= nada). A ideia que traz tem a ver com o nada, o vazio, a ausência. Segundo Nietzsche, o niilismo acontece quando falta a finalidade, quando é ausente o porquê e quando os valores supremos se desvalorizam.

Nossa cultura atual tem sido vista como niilista porque já não acredita que a realidade tenha sentido dado. Quem acredita em Deus afirma necessariamente que a realidade foi pensada por Deus e que o mundo tem um sentido, um porquê e um valor. Para o niilismo, não existe nenhum sentido pré-dado. Por isso o niilista não aceita um Deus que tenha pensado o mundo. Nietzsche, o grande proclamador do niilismo, foi também o proclamador da “morte de Deus”. Para o niilista não há outro mundo - Deus, ideias eternas ou valores supremos - que dê sentido ao nosso mundo.

João Paulo II lamentava a condição da presente hora quando via em correntes da pós-modernidade os traços do niilismo: "Uma coisa, todavia, é certa: as correntes de pensamento que fazem referência à pós-modernidade merecem adequada atenção. Segundo algumas delas, de fato, o tempo das certezas teria irremediavelmente passado, o homem deveria finalmente aprender a viver num horizonte de ausência total de sentido, sob o signo do provisório e do efêmero. Muitos autores, na sua crítica demolidora de toda a certeza e ignorando as devidas distinções, contestam inclusivamente as certezas da fé" (Encíclica Fides et Ratio, n. 91).

Nietzsche pensava que o substrato do nosso mundo é caótico e sem sentido. Os valores que existem são todos inventados pelo homem, já que as coisas não trazem nenhuma racionalidade consigo. Para Nietzsche, quem acredita em valores supremos, como o cristão ou o comunista, acredita, na verdade, em nada.  Nesse sentido, é niilista. Na realidade, segundo Nietzsche, pode ser chamado niilista quem acredita que valores eternos existam como pensava Platão. O que existe é o sem sentido das forças caóticas que regem o mundo e ao qual o homem quer sempre atribuir um significado. O grande erro para Nietzsche é negar este mundo, trágico e sem sentido como é, em nome de outros mundos que estão somente na cabeça de quem os concebe. Platão é o niilista por excelência porque inventou um outro mundo, o mundo das ideias eternas, que nada é.

Vê-se, então, que niilismo assume significados contrapostos. Nietzsche usa o termo em diversos sentidos. Niilista pode ser quem nega os valores supremos e diz que o outro mundo nada é, ou, por outro lado, pode ser quem nega este mundo em nome de valores supremos que, na realidade, nada seriam segundo Nietzsche. Quem é niilista? A resposta depende do ponto de vista. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O terror da morte e a fé

A morte é um terror para o homem. Uma antiga epopeia mesopotâmica apresenta Gilgamesh, rei da Suméria, atormentado pela sua condição mortal. Em busca incansável pela imortalidade, foi avisado de que sob o mar existia uma planta que vencia a força da morte. Gilgamesh não mede esforços, mergulha no profundo azul e consegue apanhar a planta da vida imortal. Entretanto, em um momento de descuido, antes mesmo de ganhar a superfície das águas profundas, uma serpente lhe rouba a desejada planta e o rei fica privado, como antes, da imortalidade pela qual tantos esforços despendera.

A epopeia de Gilgamesh mostra que o homem deseja ver-se livre de sua natural condição mortal. A morte o assusta sobremaneira. Ele procura intensamente a imortalidade, mas seus esforços acabam sendo todos vãos. As religiões, a filosofia e a ciência são formas pelas quais o ser humano tenta apanhar a planta da imortalidade. Entretanto parece prevalecer, ao fim e ao cabo, a consciência da mortalidade e o terror que ela traz consigo. O homem acaba chorando seus entes queridos defuntos como se nunca mais os fosse encontrar.

O cristianismo, de sua parte, propõe uma solução através da fé numa revelação especial da divindade. A vida, os feitos e a morte na cruz de Jesus de Nazaré são, segundo a fé cristã, epifania (revelação) de Deus no mundo. A fé cristã ensina que o destino de Jesus não terminou na morte, mas teve um fim glorioso porque Deus mesmo o ressuscitou. A promessa da ressurreição e da vida imortal é feita a cada qual que se dispuser a acreditar no mistério de Jesus, aceitando-o na existência concreta de sua vida.

Desse modo, a planta da imortalidade não deve ser mais buscada pelo homem, mas lhe é oferecida pela divindade que se revela na vida, morte e ressurreição de Jesus. Do homem, requer-se apenas a fé que acolhe o mistério. Eis a grande característica do cristianismo: não é o homem que tem a iniciativa de buscar a imortalidade, mas é o Imortal que se revela ao homem e lhe oferece a sua vida eterna através da mortalidade de um homem que foi ressuscitado e vive para sempre. Aqui o único instrumento exigido para fazer parte do mistério de morte e ressurreição, mistério que promete a imortalidade através da morte, é a fé.

Se autêntica, a fé pode ser aquela força que vence a morte... Vence a morte porque assegura a ressurreição... Há pessoas que estão tão mergulhadas na fé que não choram como os demais os que partiram. A questão, pois, é a fé...

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Nas mãos do imprevisível

O vir a ser foi sempre um problema para a filosofia. Já em seu aparecimento na Grécia antiga, os filósofos se perguntavam como as coisas se transformam naquilo que são e como deixam de ser o que são para se tornar outra coisa. Com efeito, o mundo da nossa experiência é o mundo do movimento incessante e insaciável. Tudo parece escorrer como um rio vívido e vigoroso.

A constante mudança, porém, causa medo no homem. Se tudo o que é deixa de ser para adquirir outra identidade, como deve o homem comportar-se diante das coisas? Se reina a instabilidade, como fundar a vida? Se reina a imprevisibilidade, como controlá-la?

Aterrorizado por causa do vir a ser, o homem procurou na filosofia uma saída para o impasse que deriva da natureza mutável de todas as coisas. Com a filosofia, o homem quis alcançar uma certa estabilidade e, assim, vencer o medo incutido pelo movimento. O nome do remédio dado pela filosofia à doença que aterrorizava o homem foi o saber (epistéme = saber que permanece).

Através do saber, o homem, de alguma maneira, tenta afrontar o que lhe mete tanto medo: a mudança constante de tudo, a instabilidade, a imprevisibilidade. O saber passou a ser uma forma de poder nas mãos do homem. Da mãe filosofia nasceram tantas filhas, isto é, as diversas ciências que preenchem o cenário do mundo atual, todas elas procurando dar ao homem o poder para reger a vida.

Como quer que seja, hoje o que continua nos assustando é a instabilidade e a imprevisibilidade das coisas, e, assim como os gregos, nos valemos do saber para remediar o caso. Entretanto, uma pergunta se levanta: pode-se remediar tudo com o saber? Não resta sempre uma potente zona de instabilidade e imprevisibilidade na nossa vida? O incontrolável não é maior que o controlável?

Apesar de tentar remediar tudo com o potente saber científico e tecnológico acumulado pela modernidade, o homem não pode dominar o todo da vida, vida que se mostra como um constante vir a ser. A morte é a grande testemunha de que o saber não consegue remediar tudo. Pela morte o homem cai no absoluto vir a ser; ele deixa de levar e passa a ser levado. Deixa de ser no mundo, isto é, vem a não ser mais no mundo. E ela, a morte, vem sem avisar e, quando chega, não pede o consenso do homem para atuar. Então: a força do mistério e do não controlável continua a atuar e a rir das nossas tentativas de dominação. O homem esteve e está nas mãos do imprevisível. 

sábado, 22 de agosto de 2015

Homo sapiens

A espécie "homo sapiens" não é a única do gênero "homo". O "homo neanderthalensis", por exemplo, é uma outra espécie do gênero "homo" e surgiu por volta de 500 mil anos antes de Cristo na Europa e na Ásia ocidental, mas foi extinta há cerca de 30 mil anos. Já o "homo sapiens" apareceu há 200 mil anos atrás na África oriental e dura até hoje. Nós mesmos o somos na sua subespécie "homo sapiens sapiens", a única que, do gênero "homo", sobrevive. Há 12 mil anos aprendemos a gerir a agricultura, o que foi uma grande revolução no nosso percurso sobre a face da terra. A partir da agricultura é que foram possíveis os primeiros povoamentos e, mais tarde, as grandes civilizações da Antiguidade. A cidade mais antiga do mundo é, provavelmente, Jericó (Oriente Próximo), cujos sinais de existência datam de 9 mil anos antes de Cristo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Pingos de filosofia - O simples existir e o irracionalismo

Santo Tomás de Aquino (séc. XIII) descobriu que o ato de existir (esse, em latim), é o que há de mais originário na realidade. Não é a essência, como diziam os gregos, mas o ato de existir que é a fonte da realidade, pois sem tal ato nenhuma essência existiria.

Mas, pode-se perguntar, qual é o sentido do ato de existir? A essência tem o seu sentido evidente, pois essência quer dizer ‘o que é’. Ora, o ‘que’ é luz para a inteligência. Só conhecemos as coisas na medida em que vemos o ‘que’ no qual elas consistem. Assim, para uma filosofia das essências, como aquela grega, o sentido não era difícil de encontrar, pois cada coisa tinha o seu 'que' (quid, em latim).

Depois de Tomás de Aquino, no entanto, aprendemos que a essência é secundária em relação ao ato de existir. Como encontrar, então, o sentido derradeiro da realidade? Devemos ir ao ato de existir. Mas o ato de existir como tal não tem uma essência. Como descobrir a sua inteligibilidade, que não é aquela da essência? Qual é a luz do ato de existir?

Santo Tomás conseguiu iluminar o ato de existir dos entes mundanos porque reconheceu a existência do Ato de Existir absoluto. À luz do Absoluto Existir (Ipse Esse Subsistens), o ato de ser dos entes assumiu o seu sentido básico, que é o de ter sido posto por Outro. O Outro, o Existir Absoluto não deixou sem luz o existir dos entes. Para além da essência, Tomás ensinou a pensar o existir como tal e a ver a luz que o ilumina. A filosofia, depois de Tomás, não voltaria à essência grega para colocá-la como o sentido último do real.

Entretanto, a partir do século XIX a filosofia não tem reconhecido mais o Ato de Existir Absoluto como causa do ato de ser dos entes mundanos. A Transcendência tem sido sistematicamente negada. O que acontece, então? Acontece que sem a essência dos gregos e sem o Ato de Existir de Tomás de Aquino, o que resta é o simples existir dos entes sem sentido e sem inteligibilidade alguma. Do fundo do mar do simples existir surgem os maremotos e as grandes ondas do relativismo e do niilismo. Se já não existe nenhuma luz, mas somente o mero existir dos entes mundanos, então não se pode deter a vaga irracionalista a que temos assistido no mundo atual. No século XX, o existencialismo ateu foi o protótipo do pensamento que considera o mero existir sem a luz da essência dos gregos e sem a luz do Ato de Existir Absoluto de Tomás de Aquino. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Pingos de filosofia - A verdade e sua busca

A verdade se apresenta a nós em suas múltiplas facetas. Somente prestando atenção nos nossos limites, que são também a condição de possibilidade do nosso início e do nosso crescimento na busca da verdade, poderemos perceber que, para ser apropriada, a verdade requer de nós o tato de saber reconhecer nossa situação e de saber retornar sempre a ela para iluminá-la e enriquecê-la com o ganho de nossas buscas, encontros, diálogos e interpretações. Estamos no horizonte da verdade, mas cada um, cada povo ou cada época, está numa situação diversa. Daí que palavras como encontro e diálogo nos são necessárias para crescer neste horizonte a partir da nossa situação particular e para enriquecer-nos entre nós, enriquecendo também a nossa situação. O encontro entre as diversas situações promove a fusão de horizontes dentro do único horizonte da verdade.

sábado, 15 de agosto de 2015

Pingos de flosofia - Nietzsche

Você sabia que o filósofo alemão Frederich Nietzsche (1844-1900) dizia que há dois tipos de dor na realidade humana? Sim, ele dizia que há uma dor da qual nenhum ser humano pode escapar e há uma outra cuja grandeza, proporção e intensidade estão nas nossas mãos, sob o nosso domínio. A primeira deriva da nossa finitude. Sempre nos veremos às voltas com a doença, com o envelhecimento, com as más surpresas do acaso, enfim, com tudo aquilo que é inevitável ao nosso ser finito e temporal. Não podemos tudo nem podemos sempre. Somos naturalmente limitados. O segundo tipo de dor diz respeito às interpretações que damos ao primeiro. Tais interpretações são crenças que geramos em nosso interior e que aplicamos ao modo de ver e de relacionar-se com a nossa condição finita. Haverá quem interprete a sua dor como culpa, azar, resultado de forças maléficas, etc, o que pode levar o sujeito a sofrer grandemente. Às vezes as nossas crenças parecem tão naturais que não nos damos conta de que são fabricadas por nós e estão sob o nosso domínio. O que se deve fazer, então, é jogar para bem longe as crenças que nos fazem mal, que paralisam a vida, exercendo sobre elas o nosso poder de derrotar a dor, aquela que nós criamos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Pingos de filosofia - Big bang e humildade humana

O universo, tal qual nós o conhecemos, surgiu há 13,7 bilhões de anos. Dado que hoje sabemos que o universo se expande, podemos retroceder no tempo e alcançar o seu nascimento no longínquo passado. Big bang é o nome que se reservou para a explosão inicial que colocou em marcha a expansão atual. A explosão surgiu a partir de uma realidade em que as leis atuais da física não existam. Aliás, o espaço e o tempo só começaram a existir com a explosão; antes não existiam. A essa realidade – inconcebível para os parâmetros atuais da física – os físicos dão o nome de singularidade inicial. Era, com efeito, uma singularidade, porque não possuía nem espaço nem tempo, mas se tratava de um pequeno ponto em que toda a energia e matéria do universo atual estavam concentrados.

Algumas questões se colocam se aceitamos essa teoria, que ficou conhecida como Teoria do Big Bang. O que havia antes do big bang? O que deu origem ao big bang? Pode-se dizer que foi Deus quem criou a singularidade inicial?

Sabemos que antes da grande explosão – big bang – existia a singularidade, mas a singularidade como tal não podemos aferrá-la com o aparato atual da física. Desse modo, do ponto de vista da física, não podemos dizer o que colocou em ação o processo do big bang. Só sabemos que a explosão aconteceu, mas não podemos descrever o tipo de realidade que existia antes e nos primeiríssimos instantes da explosão. Já se disse que se tratava de uma singularidade.

Para quem professa a existência de Deus, Ele é o criador de todo o universo e de todos os mundos que porventura existam. Como quer que seja, não sabemos se o universo teve a sua origem absoluta com a singularidade e com o big bang. Pode-se dar que este seja somente o universo que conhecemos, o nosso universo, antes do qual tenha havido outros, dos quais este nosso seria uma espécie de continuação. Antes do nosso universo pode ter havido inúmeros universos com suas inúmeras singularidades iniciais e seus inúmeros big bangs. Paralelamente a ele, ainda, pode haver outros mais. Quem sabe o nosso universo, depois de se expandir ao máximo de suas forças centrífugas, não passe a ser caracterizado por uma força de contração, centrípeta, até que tudo volte a cair e se condense sobre um pequeníssimo ponto? Seria o big crush, ao qual poderia suceder um novo big bang.

A dança cósmica pode parecer abissal, e causará, sem dúvidas, vertigens a quem a considera atentamente. Nós seres humanos somos minúsculas criaturas que vivem num planeta minúsculo em uma minúscula fração de tempo. A Terra é por demais pequena quando comparada aos outros corpos da nossa galáxia; e o que dizer em relação aos bilhões de galáxias que existem e se foram formando neste universo que deu os seus primeiros gritos de bebê há 13,7 bilhões de anos? Se os números e as dimensões nos assustam, deveria fazer-nos crescer em humildade a nossa pequenez diante de tamanho espetáculo cósmico. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Lucy: 3,2 milhões de anos

Lucy é o nome dado ao fóssil de um Australopithecus (literalmente "macaco do sul", mas que designa um hominídeo de marcha bípede) afarensis. Viveu há 3,2 milhões de anos aproximadamente. O esqueleto (na verdade 40% do inteiro esqueleto) foi achado em 1974 e indica um hominídeo do sexo feminino, de baixa estatura, de longos braços e pernas curtas. O cérebro era pequeno, comparado com o dos homens atuais. A descoberta de Lucy mostra quanto é antiga a força que colocou em evolução aquele processo que viria a gerar o homem atual. Há 3,2 milhões de anos Lucy tinha marcha bípede! Faltava ainda muito para chegar a nós, principalmente no que toca ao tamanho cérebro, mas grande coisa era já a condição bípede.

Quando terá aparecido o espírito e, com ele, o homem propriamente dito? Não sabemos precisar o quando, mas é fato que o espírito apareceu e deu ao ser vivente que chamamos homem capacidades incríveis, como a da autoconsciência e a de ultrapassar a si mesmo. O homem, dizia Blaise Pascal, ultrapassa infinitamente a si mesmo. Somos capazes de olhar a imensidão do universo e de pensar o infinito!

Fé ou crença em milagres?

Fé e crença em milagres são duas coisas diversas, ainda que possam ter pontos de ligação entre si. A fé é o ato voluntário pelo qual em me entrego a Deus, aceitando-o em minha vida. A fé comporta um compromisso com Deus e com os irmãos, uma renovada visão de mundo e uma vida pautada pelos ideias de justiça, amor e misericórdia. A crença em milagres é outra coisa. Em si mesma, diz respeito a admitir como possível uma intervenção extraordinária da divindade no nosso mundo, em geral para livrar alguém de uma aflição ou de um problema.

A fé pode comportar a crença em milagres? Sim, pode, mas o que caracteriza a fé é a aceitação existencial de Deus na vida, que a muda e transforma, como foi dito. O diapasão de quem tem fé é o compromisso com um novo estilo de vida, com o ser sal da terra e luz do mundo, como dizia Jesus. Aqui o milagre pode acontecer e pode até reforçar a fé, mas não é o principalmente procurado. A fé, com efeito, induz a procurar o Reino de Deus e a sua justiça em primeiro lugar.

Para quem não tem fé ou a tem somente em forma ainda imatura, a crença em milagres pode assumir a dianteira. Aqui Deus é visto como aquele que me tira de uma complicação, mas não como quem muda e transforma a minha vida em todas as suas circunstâncias. O procurado é o milagre de Deus, não Deus em si mesmo. A crença em milagres sem a fé devida pode se manifestar como o perfeito reverso da religião. Isso mesmo! Se religião é a submissão à vontade de Deus, a crença em milagres sem a devida fé constitui a artimanha que tenta submeter Deus à vontade do homem.

Em tempos em que milagres são oferecidos nos cultos, nas missas e nas grandes manifestações de “fé”, fica bem refletir sobre o tema com atenção. Como saber se tenho fé ou somente crença em milagres? A primeira coisa a observar é esta: onde está meu principal intento? Quero apenas um milagre para transformar uma situação isolada da vida ou quero conversão para transformar a vida em qualquer situação em que ela se encontre?

Pingos de filosofia - Política

O que é política? Segundo Aristóteles, a política é uma ciência importantíssima, porque trata do bem da multidão, que é mais perfeito e mais divino que o bem de um só. Na sua original realidade, a política pode mesmo ser chamada divina por causa de seus nobres ideais, isto é, garantir a justiça e trabalhar pelo bem comum, do qual depende em larga medida o bem de cada indivíduo.

O que suja e emporca a atividade política é o modo inadequado com que vem sendo praticada, sobretudo no Brasil. Numa democracia, é legítimo que os partidos e suas ideologias se apresentem e se confrontem, mas tudo deveria ser guiado pelo princípio do bem dos cidadãos em geral.

O que vemos no Brasil, contudo, são partidos e políticos sem ideologia, sem proposta teórica, interessados somente no ganho imediato da legenda e na vantagem pessoal, em geral econômica, de quem se apodera da política para fazer o que política não é.

Que os partidos tracem claramente as suas propostas para a sociedade! Que a sociedade possa, através de uma discussão sadia de ideias, ter elementos para discernir, escolher e crescer. Como seria bom ser estimulado a pensar o futuro de nosso país! O Brasil precisa de propostas, de ideias e de ideais. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Pingos de filosofia - Gadamer

Gadamer foi discípulo de Heidegger. Do mestre aprendeu que a posição do homem no mundo é uma posição hermenêutica, isto é, interpretativa. Na sua principal obra - Verdade e médoto -, Gadamer sustenta que a ciência moderna, herdeira do modo grego raciocinar, não é a única a ter acesso à verdade. Aliás, a verdade acontece sobretudo fora dos âmbitos por demais restritos do método científico, que há a irrealizável pretensão de agarrar de uma vez por todas o objeto de conhecimento. A pretensão de uma objetivação completa é impossível. Seria o domínio total do sujeito finito, situado e histórico sobre a verdade. A verdade, segundo Gadamer, não é aferrada pelo sujeito, mas acontece ao sujeito, à semelhança do que se dá na arte. Quando me ponho diante de uma obra de arte, não sou eu que a aferro com um método qualquer, mas é a obra que me fala e abre para mim um horizonte novo. A obra de arte acontece para quem a contempla, de maneira que se patenteia que ela é portadora de uma verdade maior do que o contemplador e que o envolve, transformando o seu olhar pela abertura de novos mundos. A obra fala. Não fala, porém, no vazio. O contemplador já traz consigo um mundo de representações e pré-juízos. É a partir dessa pré-compreensão do sujeito que a obra fala. A pré-compreensão não é obstáculo à compreensão da obra, mas sua condição de possibilidade. A partir da "fala" da obra, o sujeito experimenta a possibilidade de crescer e até de transformar a pré-compreensão que lhe permitira olhar a obra. Assim é a experiência da verdade na nossa vida: a partir de nossa pré-compreensão, olhamos o mundo, os textos da nossa tradição, o outro que nos fala; olhamos e nos envolvemos com os diversos textos do mundo, e tudo isso significa um apelo para nós, que nos convida a crescer rumo à verdade num processo infinito de interpretação. Gadamer não renuncia à verdade, mas sustenta que a verdade total não cabe ao sujeito situado, finito e histórico. O sujeito pode sempre crescer rumo à verdade, deixar-se envolver com ela, sem jamais aferrá-la ou transformá-la num objeto (ob-iectus = o que está simplesmente diante do sujeito). A verdade é sempre maior.

domingo, 9 de agosto de 2015

Pingos de filosofia - Tomás de Aquino

Você sabia que, segundo Tomás de Aquino, a existência de Deus pode ser demonstrada pela razão? O filósofo italiano dizia que o universo não podia ser entendido sem um Motor imóvel, sem uma Causa primeira, sem um Ser necessário, sem um Ser máximo ou sem um Ordenador. Não seria possível explicar o universo sem recorrer a um Ser que fosse mais originário que o universo, pois o universo como não basta para explicar a própria condição ou origem. Um dos argumentos preferidos de Tomás é o do movimento. Por movimento deve-se entender qualquer transformação ou mudança (geração, corrupção, mudança de lugar, crescimento, diminuição). Se o mundo que conhecemos se move (porque as coisas se transformam e mudam), então é preciso buscar a origem do seu movimento, pois nada se move a si mesmo; tudo que se move é movido por um outro. A origem última do movimento do mundo só pode estar em um Ser que move outros seres sem ser movido por nenhum outro. Só um Ser que move sem ser movido pode explicar a origem e a fonte absoluta de todo o movimento. Tal Ser, Motor imóvel, segundo Tomás, é o que nós chamamos de Deus.

sábado, 8 de agosto de 2015

Pingos de filosofia - Platão

Por que Platão teve que recorrer a um outro mundo, o mundo das ideias puras? Fundamentalmente porque reconheceu que havia uma assimetria (disparidade) entre as nossas ideias e as coisas do mundo sensível. Pensamos na beleza perfeita, mas no mundo só existem belezas relativas. E a justiça perfeita? Ela só existe na nossa cabeça. Mas de onde vêm essas ideias perfeitas? Será que as formamos a partir das coisas imperfeitas? O perfeito viria do imperfeito? Platão achava o contrário. Para ele o originário não era o imperfeito, mas o perfeito. Então, assim como o perfeito não existia no mundo dos nossos sentidos, Platão se viu na necessidade de admitir a existência de um mundo de perfeições, distinto e separado do nosso, para explicar as ideias que temos de coisas perfeitas. A causa da ideia perfeita em nós só podia ser a ideia perfeita existente fora de nós num mundo diverso do nosso. O "mais" (nossa ideia de perfeição) não podia ser explicado pelo "menos" (coisas imperfeitas do nosso mundo), mas pelo "Máximo" (mundo perfeito existente e distinto do mundo sensível).

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Pingos de filosofia - Heidegger

Você sabia que, segundo o filósofo alemão Martin Heidegger, existe uma diferença, que, segundo ele, passou despercebida pelos filósofos em geral, entre o ente e o seu ser? O ente é o que está aí, diante de nós. Mas o ser do ente, o que é? Para Heidegger é a luz sob a qual enxergamos o ente. O ente só se mostra na luz do seu ser. Essa luz se dá ou se oferece a nós e não permanece sempre a mesma. Por isso Heidegger falou de uma "história do ser". O interessante neste pensador alemão é que ele nos faz perceber que nem sempre somos conscientes da luz que nos faz enxergar os entes. Esquecemos o ser e consagramos o ente como se ele fosse a última palavra. Heidegger ensina a andar além ou, o que é o mesmo, dar um passo para trás para ver a luz que faz com que o ente seja.

Pingos de filosofia - Hegel

Hegel pensava que a verdade é histórica, mas não professava nenhum relativismo histórico. Segundo o pensador alemão, a verdade se faz na história, em suas diversas etapas, até tomar consciência de si mesma - o Espírito Absoluto. Ele pensava que cada época histórica encerrava a sua verdade, mas não a verdade como tal. Cada época trazia uma contribuição para o conhecimento da verdade, mas todas elas deveriam ser ultrapassadas, uma vez que eram limitadas. A história seria a história das diversas faces ou épocas da verdade, afirmadas, negadas e suprassumidas dialeticamente. O que impediu que Hegel caísse no relativismo foi o fato de ele ter sustentado que as diversas faces ou épocas da verdade se afirmariam e se negariam para, no final, compor a verdade total. O filósofo - no caso, ele, Hegel - veria que o processo histórico é endereçado a um fim. A consciência do filósofo é a consciência de que a verdade total está somente no fim do processo e no olhar filosófico, que vê o processo como um todo.