terça-feira, 31 de março de 2009

Santo Agostinho

Santo Agostinho é um dos maiores luminares da Igreja, uma das inteligências mais lúcidas da humanidade. De mãe cristã (Santa Mônica) e pai pagão, nasceu no ano de 354 em Tagasta, África. Espírito inquieto, procurou a felicidade por muitas vias, inclusive na sensualidade, mas só a encontrou na mensagem autêntica de Cristo, tal como era apresentada pela Igreja católica. Aos 19 anos lera uma obra de Cícero – Hortêncio -, hoje perdida, que muito o impressionou. Essa obra era um convite à filosofia, à busca da sabedoria. Em suas peripécias e ânsias, Agostinho reconheceu a Sabedoria imortal em Cristo e converteu-se totalmente a ele. Sua vida é uma lição para todo homem que busca a verdade e deixa-se cativar por ela. Enfatizou como ninguém a urgência da vida interior, pois no interior do homem a presença do Mestre se faz sentir. A partir do seu encontro com Jesus Cristo, Agostinho tornou-se, de fato, um homem de Deus e da Igreja. Foi padre e zeloso bispo de Hipona. Cuidou incansavelmente do seu rebanho, nutrindo-o com a doutrina da fé. Sua caridade pastoral e amor pela verdade levaram-no a publicar inúmeros escritos de enorme valor teológico, filosófico, exegético, ascético e místico. Entregou a alma a Deus no ano de 430, quando os vândalos invadiam sua cidade episcopal, depois de ter deixado para os seus e para os pósteros um grande legado e um exímio exemplo de conversão e adesão ao Eterno.

Oração
Ó Santo Agostinho, vós que afirmastes “Nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Deus”, alcançai-nos do Céu a sabedoria e a determinação para que, caminhando entre as coisas que passam, busquemos sempre a Deus, que não passa. Intercedei por nós para que nossa vida se encha da alegria que vem do Alto, e saibamos confiar na Providência, que tudo dispõe para o nosso bem. Santo Agostinho, rogai por nós em todas as nossas necessidades! Amém!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Papa mostra com intensidade sua alma de pastor

Padre Elílio de Faria Matos Júnior
Sua Santidade o Papa Bento XVI dirigiu uma carta aos bispos da Igreja católica (10-3-09) para explicar-lhes o sentido do levantamento da excomunhão dos quatro bispos sagrados por Dom Lefebvre em 1988. Trata-se de uma carta sob muitos aspectos inédita, em que um Papa deixa transparecer sua alma, seus firmes propósitos e também suas aflições ao explicar um ato seu que “suscitou fora e dentro da Igreja uma discussão de tal veemência que desde há muito tempo não se tinha notícia”. O estilo lembra as cartas de um Paulo ou de um Clemente Romano.

Como se sabe, o caso foi apimentado pelas declarações reducionistas de Dom Williamson, que de modo algum estavam em questão na intenção de Bento XVI. Aliás, creio que a tal entrevista polêmica de Dom Williamson, que foi gravada em novembro de 2008 e só divulgada na mídia três dias antes do levantamento da excomunhão (em janeiro de 2009), tenha sido usada, de adrede, para desautorizar o gesto papal.

Bento XVI, ao mesmo tempo em que reconhece erros de percurso no processo que o levou a levantar a excomunhão dos bispos lefebvrianos – a Santa Sé deveria levar mais em conta a internet como meio de difusão de notícias e o ato papal deveria ter sido acompanhado de explicações -, dá a conhecer claramente sua intenção. Ele quer a reconciliação dos lefebvrianos com a Igreja. Não está arrependido de ter levantado a excomunhão, que é mais um passo em direção à reconciliação, como o fora a liberação da Missa tradicional em julho de 2007. E ainda mais: anuncia que as tentativas de reconciliação vão continuar, agora no nível propriamente doutrinal, que diz respeito à aceitação do Concílio Vaticano II e do magistério pós-conciliar dos Papas; e para isso a Comissão Ecclesia Dei, encarregada do diálogo com os lefebvrianos, será coligada à Congregação para a Doutrina da Fé.

O coração da carta, contudo, não diz respeito a questões de estratégias e planos de ação. Mostra, na verdade, a caridade de um pastor que, ferido por incompreensões e calúnias incabíveis, é capaz de dirigir uma palavra humilde e reveladora de suas ótimas intenções. Bento XVI deixa transparecer sua profunda espiritualidade e seu coração de verdadeiro pastor ao afirmar com clareza que a prioridade de seu pontificado foi já fixada pelo Senhor quando disse a Pedro: “Tu... confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). Sim, a prioridade do Papa é confirmar na fé que salva os homens de todos os tempos. Essa tarefa hoje se reveste de uma singular urgência: “No nosso tempo, em que em vastas regiões da terra a fé encontra-se no perigo de desaparecer como uma chama que não encontra mais alimento, a prioridade que está acima de tudo é a de tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens acesso a Deus”. E ainda: “Conduzir os homens a Deus, ao Deus que fala na Bíblia: esta é a prioridade suprema da Igreja e do Sucessor de Pedro neste tempo”.

É à luz dessa prioridade que os atos de Bento XVI devem ser interpretados. Muitos o têm acusado de querer fazer retroceder a caminhada da Igreja para os tempos anteriores ao Concílio Vaticano II. Nada mais falso. O que o Papa deseja é que o concílio seja visto como deve: uma renovação na continuidade da grande Tradição da Igreja. Os acusadores de Bento XVI querem, muitas vezes, considerar o Vaticano II como um início absoluto na Igreja, o que é um despropósito. A esses, o Papa adverte: “A alguns daqueles que se distinguem como grandes defensores do concílio, deve ser-lhes recordado que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja. Quem quer ser obediente ao concílio, deve aceitar a Fé professada no curso dos séculos, e não pode cortar as raízes das quais vive a árvore”. Não podia ser mais claro! Quem tem ouvidos ouça!

O seu desejo de reconciliação com os lefebvrianos é uma derivação lógica da prioridade de seu pontificado. A união entre os fiéis testemunha a favor do anúncio de Deus para o mundo. Ademais, o Papa não poderia deixar seguir à deriva os quatro bispos com quase 500 sacerdotes e milhares de fiéis. Bento XVI reconhece neles o amor à Tradição da Igreja, e por isso deseja continuar a percorrer o caminho da reconciliação. Mas também os adverte: “Não se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja ao ano de 1962”.

O Papa ainda lamentou profundamente a incompreensão de muitos católicos, que deveriam saber entender melhor as coisas e, no entanto, não perderam a oportunidade de atacar sem piedade o Sucessor de Pedro. Advertiu também a todos na Igreja contra o uso de uma falsa liberdade: o “morder” e o “devorar” dos quais falava Paulo aos gálatas existem hoje na Igreja como expressão de uma liberdade mal interpretada.

Rezemos por Bento XVI e pela Igreja! Que o Cristo sustente neste mundo o seu Vigário, e a paz na Igreja aconteça para o bem de todo o mundo, que tem necessidade do Deus que assumiu um rosto humano em Jesus!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Entrevista com o Cardeal Cañizares

Publicamos parcialmente a entrevista que o Cardeal Cañizares, novo Prefeito da Congregação do Culto divino e Disciplina dos Sacramentos, concedeu à Revista 30 Dias. Esta versão espanhola da entrevista deve-se ao blog La Buhardilla de Jerónimo, que traz o texto integral. O Cardeal fala sobre a reforma litúrgica, a Missa de S. Pio V e outras coisas.
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El cardenal Antonio Cañizares Llovera, español originario de la región valenciana, que cumplirá 64 años en octubre, es el nuevo prefecto de la Congregación para el Culto divino y la Disciplina de los sacramentos. Con él, España vuelve a tener un jefe de dicasterio en la Curia Romana. De carácter jovial, aún teniendo fama de ser un “duro”, el purpurado nos recibe en las oficinas que dan a la Plaza de San Pedro. Antes de venir a Roma, el cardenal ha sido obispo de Ávila, luego de Granada y, por último, de Toledo. Ha sido también vicepresidente de la Conferencia episcopal española. El hecho de que ahora su residencia se encuentre en la Urbe no le impide mantener un vínculo con su país. También por esto ha aceptado escribir semanalmente para el periódico madrileño La Razón.

Eminencia, usted ha sido nombrado por el Papa prefecto de la Congregación para el Culto Divino y la Disciplina de los Sacramentos el pasado 9 de diciembre. De esta llamada a Roma se hablaba desde algún tiempo atrás…
En efecto, era así. Se había convertido casi en una persecución. No podía aparecer en público que los periodistas, pero no sólo ellos, me preguntaban: ¿cuándo parte para Roma? Pero eran “rumores”. Y así ha sido hasta que el Papa me comunicó su decisión en el curso de la audiencia que me concedió el 20 de noviembre de 2008.
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Su formación sacerdotal ha madurado durante la transición del pre al post Concilio…
En efecto, he ingresado en el seminario diocesano de Valencia en 1961, a los 16 años. Luego, desde 1964 a 1968 he estudiado en la Pontificia Universidad de Salamanca donde he conseguido la licenciatura en Teología. En 1970 he sido ordenado sacerdote y al siguiente año he conseguido, en el mismo Ateneo, el doctorado con la especialización en Catequesis.
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Por lo tanto, usted es el primer prefecto de la Congregación para el Culto Divino que ha celebrado directamente con el Novus Ordo postconciliar…
Evidentemente es así. He celebrado con el Misal de 1962 sólo recientemente, en el 2007, cuando ordené dos sacerdotes del Instituto Cristo Rey en Gicigliano, cerca de Florencia.
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¿Qué recuerdo tiene de aquella fase de reforma litúrgica?
Creo que una profundización y una renovación de la Liturgia eran necesarias. Pero, por como yo la he vivido, no ha sido una operación perfectamente lograda. La primera parte de la constitución Sacrosanctum Concilium no ha entrado en el corazón del pueblo cristiano. Ha sido un cambio en las formas, una reforma, pero no una verdadera renovación como pidió la Sacrosanctum Concilium. A veces se ha cambiado por el simple gusto de cambiar respecto a un pasado percibido como todo negativo y superado. A veces se ha concebido la reforma como una ruptura y no como un desarrollo orgánico de la Tradición. De aquí todos los problemas suscitados por los tradicionalistas ligados al rito de 1962.
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Por lo tanto, ¿se ha tratado de una reforma que, en los hechos, no ha respetado plenamente el mandato conciliar?
Más que otra cosa, diría que ha sido una reforma que ha sido aplicada y principalmente ha sido vivida como un cambio absoluto, como si se debiera crear un abismo entre el pre y el post Concilio, en un contexto en el que “preconciliar” era usado como un insulto.
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A decir verdad, incluso hoy en día normalmente es así. Sin embargo, cuando fue publicado su nombramiento, hubo quien describió su evolución teológica como una parábola que ha partido de posiciones más bien progresistas para arribar luego en posiciones conservadoras. En la práctica, es el mismo itinerario “imputado” al Papa Benedicto. ¿Usted lo reconoce?
En 1967, cuando estudiaba para sacerdote, leí un artículo del entonces profesor Joseph Ratzinger sobre la renovación de la Iglesia después del Concilio, artículo que ponía en guardia sobre algunos desvíos que ya estaban en acto. Lo compartí plenamente. El Concilio ha sido una bendición para la Iglesia. Yo lo he vivido siempre no como una ruptura con la Tradición sino como una confirmación de la Tradición, actualizada para poder ser ofrecida al hombre de hoy. En esto, no creo haber cambiado. Quien me conoce, sabe bien que, en mi vida, no ha habido “vueltas en u”. Basta leer lo que ha escrito Juan Martín Velasco en el País después de mi nombramiento.
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Usted, en los medios de comunicación, es conocido como “el pequeño Ratzinger”. ¿Qué efecto le produce este epíteto?
Bah… [sonríe, ndr], será porque ambos tenemos el cabello completamente blanco… Tal vez el sobrenombre ha nacido cuando, entre 1985 y 1992, he sido secretario de la Comisión episcopal para la Doctrina de la fe. Para mí, obviamente, ha sido un grandísimo honor ser comparado con el cardenal Ratzinger, con mayor razón hoy. Pero, que quede claro, no me considero digno. Non sum dignus. Sinceramente.
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¿Cuándo lo ha conocido personalmente?
En 1987, durante una reunión de los presidentes de las Comisiones episcopales europeas para la Doctrina de la fe. Luego este conocimiento pudo profundizarse también por mi colaboración en la preparación del Catecismo de la Iglesia Católica publicado en 1992 y en su traducción a la lengua española. Y, por último, con mi nombramiento como miembro de la Congregación para la Doctrina de la fe.
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Usted es también miembro de la Pontificia Comisión “Ecclesia Dei”. ¿Cómo valora el motu proprio Summorum Pontificum?
Aún si alguno lo ha acogido con mal humor, ha sido un gesto de extraordinario sentido común eclesial. Con el que se ha reconocido plenamente válido un rito que ha nutrido espiritualmente a la Iglesia latina por más de cuatro siglos. Creo que este motu proprio es una gracia que fortificará la fe de grupos tradicionalistas que ya están orgánicamente presentes en la Iglesia y que ayudará al retorno de los llamados lefebvristas… Será también una ayuda para todos.
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Usted ha tenido contactos con los lefebvristas, ¿qué piensa del levantamiento de las excomuniones a los obispos y las polémicas que siguieron?
No he tenido contactos con el mundo llamado “lefebvrista”. Con respecto al levantamiento de las excomuniones, mi pensamiento es sencillo. Ha sido un gesto de misericordia gratuita del Santo Padre para ayudar a su plena inserción en la Iglesia Católica. Es evidente que esto podrá ocurrir sólo después de que ellos reconozcan todo el Magisterio de la Iglesia, incluido el expresado por el Concilio Vaticano II y por los últimos pontífices. Pero debemos reconocer que la unidad es inseparable de la cruz.
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¿Y respecto a las afirmaciones negacionistas o reduccionistas de la Shoah del obispo Williamson?
Se trata de insensateces que el Papa y la Santa Sede han rechazado con firmeza en reiteradas ocasiones. Espero y rezo para que, cuanto antes, el interesado se retracte oficial y claramente. Añado, sin embargo, que no ha sido un bello espectáculo el modo en que el Papa ha sido tratado, también por quienes están dentro de la Iglesia, en todo este asunto. Afortunadamente, al menos, la Iglesia española ha emitido un bello comunicado de filial apoyo a nuestro gran Benedicto XVI.
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Volvamos a la Liturgia. Usted, como arzobispo de Toledo, ha celebrado también el antiquísimo rito mozárabe.
En efecto, cada día en la Catedral de Toledo se celebra la Misa y se recitan las laudes, también según este antiquísimo rito que sobrevivió a la reforma tridentina. Es necesario recordar, de hecho – y a algunos tal vez no les gusta hacerlo -, que el así llamado Misal de san Pío V no abolió todos los ritos precedentes. Fueron, de hecho, “preservados” aquellos ritos que tenían, por lo menos, dos siglos de historia. Y el rito mozárabe – junto, por ejemplo, al rito propio de la orden dominica – estaba entre éstos. De este modo, después del Concilio de Trento no hubo una absoluta uniformidad en la Liturgia de la Iglesia latina.
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¿Cuáles son, además de las que ya hemos mencionado, las cuestiones que deberá afrontar al desempeñar esta nueva misión?
Ayudar a toda la Iglesia a seguir plenamente lo que ha indicado el Concilio Vaticano II en la constitución Sacrosanctum Concilium. Ayudar a comprender plenamente lo que el Catecismo de la Iglesia Católica dice sobre la Liturgia. Atesorar lo que el Santo Padre - cuando era el cardenal Joseph Ratzinger – ha escrito sobre el argumento, especialmente en el bellísimo libro “Introducción al espíritu de la liturgia”. Atesorar cómo el Santo Padre – asistido por la Oficina de las celebraciones litúrgicas que preside monseñor Guido Marini – celebra la Liturgia. Las liturgias pontificias, de hecho, han sido siempre, y siguen siendo, ejemplares para todo el orbe católico.
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En una entrevista concedida en España, usted ha elogiado la decisión del Papa de distribuir la Eucaristía, en las liturgias que preside, sólo de rodillas y en la boca. ¿Están previstos cambios, al respecto, en la disciplina universal de la Iglesia?
Como es sabido, la actual disciplina universal de la Iglesia dispone que, por norma, la Comunión sea distribuida en la boca de los fieles. Hay, luego, un indulto que permite, a petición de los episcopados, distribuir la Comunión también sobre la palma de la mano. Es bueno recordar esto. El Papa, entonces, para dar mayor importancia a la debida reverencia con que debemos acercarnos al Cuerpo de Jesús, ha querido que los fieles que toman la Comunión de sus manos lo hagan de rodillas. Me ha parecido una hermosa y edificante iniciativa del obispo de Roma. Las normas actuales no obligan a nadie a hacer lo mismo. Pero tampoco lo impiden.

Texto original: 30Giorni
Traducción: La Buhardilla de Jerónimo

segunda-feira, 9 de março de 2009

Ingente polêmica

Padre Elílio de Faria Matos Júnior
Nos últimos dias, acendeu-se uma ingente polêmica, patrocinada pela mídia, em torno do aborto de dois gêmios, realizado em uma menina de 9 anos de idade, que se engravidou devido ao repudiável abuso sexual do padrasto. A polêmica acendeu-se sobretudo porque Dom José Cardoso Sobrinho, Arcebispo de Olinda e Recife, declarou a excomunhão dos médicos que fizeram o aborto e da mãe da menina que supostamente teria apoiado o ato.

Gostaríamos de registrar aqui, antes do mais, nosso repúdio ao hediondo crime de abuso sexual sofrido pela menina, desde há, ao que parece, três anos. Ante o episódio, a sociedade como um todo tem uma oportunidade para refletir mais sobre a onda de erotização a que se tem submetido. O instinto sexual é um dos mais fortes no ser humano. Deus no-lo deu para que fosse garantida a perpetuidade da espécie, assim como o instinto da alimentação garante a vida do indivíduo. Se não há educação, se não há valores morais, o que podemos esperar? Se o que há é uma cultura do hedonismo, que ridiculariza a família, incentiva o amor livre e promove o relativismo, dando a entender que tudo é “normal”, quais serão as consequências? Os casos de pedofilia, de abusos sexuais, de gravidez indesejada na adolescência e, em suma, de desrespeito à dignidade da pessoa multiplicam-se cada vez mais. Não quero aqui julgar sobre a “normalidade” do padrasto, mas não se pode negar que muitos se corrompem por essa mentalidade hedonista e erotizada que grassa por toda parte. Qual a nossa reação? A mídia tem feito alguma coisa para colaborar com uma educação séria das crianças e dos adultos? Tem disseminado valores morais e cívicos? A resposta é óbvia.

O noticiário tem divulgado, erroneamente, que Dom José excomungou os médicos e familiares da menina. Ora, Dom José não excomungou ninguém; apenas declarou que as pessoas envolvidas no aborto estavam excomungadas, conforme prevê a lei da Igreja. Quem provoca o aborto ou colabora para que ele aconteça, seguindo-se o efeito, está excomungado automaticamente. Em termos técnicos, trata-se de excomunhão latae sententiae (cf. cânon 1398). A excomunhão é uma penalidade canônica imposta a quem comete pecados gravíssimos. O efeito dessa penalidade é privar o excomungado da comunhão visível da Igreja e, consequentemente, dos bens espirituais que a Igreja, como dispensadora dos mistérios salvíficos de Cristo através dos sacramentos, tem a tarefa de administrar. Toda penalidade na Igreja tem caráter medicinal. O objetivo é que o excomungado reflita sobre a gravidade de seu pecado, arrependa-se e, pela confissão feita ao bispo, obtenha o perdão e volte à comunhão eclesial. A Igreja é mãe e, como tal, sabe valer-se do doce rigor em vista do bem espiritual de seus filhos. Por isso, Dom José deixou claro que a excomunhão não é a última palavra; há a possibilidade do perdão, desde que haja também arrependimento.

Correu ainda a falsa idéia de que Dom José não teria dado tanta importância ao pecado do estupro contra a menina. Falso. Dom José declarou abertamente que o estupro é um pecado grave, ainda mais contra uma criança, mas também disse que mais grave ainda é o aborto. Sim, ninguém pode negar que o estupro contra a menina tenha sido um crime bárbaro e também um pecado gravíssimo. O aborto, contudo, por se tratar de um homicídio, é ainda mais grave. Foi só isso que Dom José disse. Com toda clareza. É bom dizer com todas as letras que quem realiza violência sexual contra uma criança, ainda que esse delito não esteja previsto pela lei da Igreja como causa de excomunhão automática, comete um pecado gravíssimo, que brada aos céus, e fica privado da vida da graça. Ambos os pecados, o do aborto e o da violência sexual, são gravíssimos e interrompem a comunhão com Deus, como todo pecado grave.

Mas a lei brasileira não permite o aborto em caso de estupro e de risco de vida para a gestante? E a menina não estava enquadrada em ambos os casos? Ora, há, acima da lei promulgada por legisladores humanos, a lei natural. A lei natural é reconhecível por toda criatura racional. Ela tem um princípio básico, que clama desde o mais profundo da consciência humana: “Faze o bem e evita o mal”. Aplicando-se esse princípio, deve-se dizer que nunca é lícito matar a vida inocente. Matar a vida inocente é sempre um mal. E, desde a concepção no ventre materno, temos uma vida humana, que, além de inocente, é indefesa. Desse modo, não vale a lei brasileira, pois que uma lei positiva humana só é legítima se estiver em conformidade com a lei moral natural, que é, em última análise, a lei de Deus, o criador da ordem racional. E a lei brasileira está em contradição com a lei natural. Mas se a gestante corre risco de vida? Ora, nada nos autoriza a preferir uma vida à outra e, assim, matar uma em favor da outra. A medicina deve tentar, até o limite, salvar todas as vidas, a da gestante e a do(s) nascituro(s), sem provocar diretamente uma morte.

Este breve artigo quis ter por objetivo o esclarecimento dessas questões debatidas. Pretendeu mostrar que a posição da Igreja com relação ao aborto não é arbitrária, mas fundada em sólidos argumentos. Pretendeu ainda mostrar que Dom José Cardoso Sobrinho agiu, em consciência, conforme a lei moral natural e a lei da Igreja.

Por fim, que se desperte em nós, como sociedade, a séria reflexão sobre a moralidade e os costumes. Que o governo, a mídia e as instituições promovam, de fato, uma educação que ame o bem verdadeiro, valorize a família e reconheça a dignidade de cada pessoa humana, desde a concepção no ventre materno até o seu declínio natural! Que uma atitude assim possa ajudar-nos a prevenir tantos casos dramáticos que surgem por causa, muitas vezes, de uma mentalidade hedonista, erotizada e irresponsável! E que Deus abençoe a menina, vítima de tão grave crime, e que ela possa contar com a ajuda e solidariedade de pessoas amigas em vista de um desenvolvimento espiritual e psíquico desejável!

domingo, 8 de março de 2009

Papa sublinha validez das práticas cristãs «de sempre»

Permalink: http://www.zenit.org/article-20992?l=portuguese
Propõe Nossa Senhora como «modelo de escuta da Palavra»

Por Inma Álvarez
ROMA, sexta-feira, 6 de março de 2009 (ZENIT.org).- O Papa afirmou que as práticas de devoção cristã «de sempre» não foram abolidas pelo Concílio Vaticano II, mas continuam «sendo válidas», durante o encontro com os párocos da diocese de Roma no dia 26 de fevereiro.

Diante da pergunta do sacerdote Pietro Riggi, do Bairro dos Meninos Dom Bosco, sobre a vigência ou não de práticas devocionais cristãs como os sufrágios pelos falecidos ou as sextas-feiras dedicadas ao Sagrado Coração, o Papa explicou que «são realidades das quais o Concílio não falou, mas que supõe como realidade na Igreja».

Estas práticas «não são coisas necessárias, mas surgidas na riqueza da meditação do mistério» da redenção de Cristo, e advertiu que ainda que «cada um pode entender mais ou menos o que é mais importante e o que não é», contudo «ninguém deverá desprezar esta riqueza, crescida durante os séculos como oferenda e como multiplicação das luzes na Igreja».

Sobre a questão das indulgências, o Papa explicou que «trata-se simplesmente de uma troca de dons, ou seja, o que na Igreja existe de bem, existe para todos. Com esta chave da indulgência podemos entrar na comunhão dos bens da Igreja».

«Os protestantes se opõem, afirmando que o único tesouro é Cristo», acrescentou, e explicou que, para os católicos, «o maravilhoso é que Cristo – que é realmente mais que suficiente em seu amor infinito, em sua divindade e humanidade – queria acrescentar a tudo o que fez, também nossa pobreza».

«Não nos considera só como objetos de sua misericórdia, mas nos torna sujeitos de sua misericórdia e do amor junto com Ele, de modo que – ainda que não quantitativamente, ao menos em sentido de mistério – quer nos unir ao grande tesouro do Corpo de Cristo.»

Queria ser a Cabeça com seu corpo, no qual se realiza toda a riqueza do que fez. Deste mistério resulta precisamente que existe um tesaurus ecclesiae, que o corpo, como a cabeça, entrega e que nós podemos ter um do outro e entregar um ao outro.

«A única luz é a de Cristo. Aparece em todas as suas cores e oferece o conhecimento da riqueza de seu dom, a interação entre cabeça e corpo, a interação entre os membros, de maneira que podemos, juntos, ser verdadeiramente um organismo vivo», declarou.

Maria da escuta

À pergunta do sacerdote Guillermo M. Cassone, vigário paroquial de São Francisco e Santa Catarina, no Trastevere, sobre a necessidade de conjugar a piedade mariana com a Palavra de Deus, o Papa destacou que Maria «é a mulher da escuta».

Maria «é o símbolo da abertura, da Igreja que espera a vinda do Espírito Santo», de «uma escuta verdadeira, uma escuta que deve ser interiorizada, que não diz simplesmente ‘sim’, mas que assimila a Palavra».

Por exemplo, o canto mariano por excelência, o Magnificat, «é um tecido feito de palavras do Antigo Testamento – explicou o Papa. Maria conhecia em seu coração a Escritura. Não conhecia só alguns textos, mas estava tão identificada com a Palavra, que as palavras do Antigo Testamento se convertem, sintetizadas, em um canto em seu coração e em seus lábios».

Recordando que Maria é a que «conservou a Palavra no coração», Bento XVI explica que ela é, para a Igreja, modelo de interpretação da Escritura.

Maria, sublinhou, é «modelo do crente que conserva a Palavra, leva em si a Palavra; não só a lê ou a interpreta com a inteligência para saber o que aconteceu naquele tempo, quais são os problemas filológicos. Tudo isso é interessante, importante, mas é mais importante escutar a Palavra que se conserva e que se converte em Palavra em mim, vida em mim e presença do Senhor».

sexta-feira, 6 de março de 2009

Espírito do Concílio?

Padre Elílio de Faria Matos Júnior
Enviaram-me o seguinte texto, que traduzi do francês:

“O catolicismo sofre de uma falta de modernidade”, escreve Rudolf Walter no semanário de esquerda Der Freitag. “E isso não concerne à atitude midiática do papa e da Cúria. Trata-se de um modo de reflexão ultrapassado e de promessas não realizadas. Contrariamente ao “espírito do Concílio”, o papa defende com rigidez a supremacia da Igreja católica sobre as outras religiões. Ele se refere quanto a isso à unidade presumida de razão e de fé, e preconiza a superioridade de Roma em virtude da proximidade privilegiada da fé católica com a razão. Ele se apóia sobre um conceito de razão de antes da época das Luzes. Segundo essa corrente filosófica, não convém condenar ou insultar a religião, mas estabelecer uma fronteira entre fé e conhecimento, isto é, proteger o saber dos ataques religiosos e preservar a fé de exigências racionalistas... Sob a pressão da teologia da libertação, da emancipação da mulher e de outros movimentos modernos, Ratzinger se opõe cada vez mais à modernidade – e se marginaliza cada vez mais” (» Ensemble de la revue de presse de mercredi, 4. mars 2009).

Essas palavras de Rudolf Walter bastam para termos uma idéia do que se defende apelando-se ao presumido “espírito do Concílio”. Em nome do Vaticano II, o texto defende: a) a relativização da Igreja católica e sua equiparação às demais religiões; b) a separação entre razão e fé, conhecimento e religião; c) a introdução de uma razão “iluminista”, que, todos sabemos, é racionalismo e secularismo; d) outras coisas mais parecem ser sugeridas pelo texto: aceitação da teologia da libertação, da ordenação de mulheres e de movimentos modernos (Quais seriam? Movimento abortista? Movimento gay? Movimento de casais homossexuais?). Defende tudo isso acusando o Papa Bento XVI de ser infiel ao “espírito do Concílio” e de se opor à modernidade.

Ora, se o tal “espírito do Concílio” deve nos levar a tudo isso, melhor seria chamá-lo de “espírito de Satanás”. Seguir o caminho proposto é querer destruir a Igreja. E o concílio foi convocado para revigorá-la, não destruí-la; para renová-la, sim, mas sem trair a sua constituição fundamental.

Poderá a Igreja renunciar à sua consciência bimilenar de que é, não por mérito próprio, mas por graça, a depositária da Revelação de Deus por meio de Jesus? Poderá ela abrir mão da Revelação que lhe foi confiada para equiparar-se às demais religiões? Com todo o respeito que nutre pelas religiões, a Igreja tem consciência de que ocupa um lugar singular no Plano de Deus, lugar este que não pode ser equiparado aos demais. E essa consciência foi reafirmada pelos textos do concílio.

Poderá a Igreja separar a razão e a fé? O que ela propõe para o homem é algo irracional? É apenas um sentimento? Se ela acredita em Deus como criador e revelador, a razão pode estar separada da fé? Se Deus cria a razão humana e também propõe a fé, como estas instâncias podem estar separadas? Ora, embora a fé seja distinta da razão, uma contribui com a outra. A fé sem a razão degenera em superstição, e a razão sem a fé torna-se incapaz de enxergar mais longe, até o fim sobrenatural a que Deus nos elevou. Ademais, o homem, do qual Deus pede a fé, é um ser racional. O iluminismo é que faz muito mal ao separar razão e fé.

Sobre a teologia da libertação, muito já se discutiu. Deve-se dizer que há várias teologias da libertação. E algumas correntes fiéis à Igreja trouxeram seu contributo para a reflexão teológica e para o próprio Magistério. É claro que a Igreja não pode aceitar as correntes mais extremadas, que se valem de um sistema filosófico fundamentalmente ateu – o marxismo- para elaborar seu discurso, que por sua vez, fica marcado por uma incompatibilidade radical com as exigências da fé. Ademais, a epistemologia de certas correntes da teologia da libertação sofre de um vício que coloca em questão sua própria natureza teológica. Ao pretender fazer do “pobre” a fonte principal de sua reflexão, compromete a natureza propriamente “teológica” de seu discurso.

Quanto à ordenação de mulheres, a Igreja já se pronunciou que não se sente autorizada para fazê-lo. Não se trata de descriminalização. De jeito nenhum. O ser humano – puramente humano - mais reverenciado na Igreja é uma mulher: Maria Santíssima. E na Igreja não deve contar tanto o cargo que se ocupa, mas a santidade de vida, que é o que realmente nos faz grandes aos olhos de Deus.

E que dizer dos “movimentos modernos” que deveriam ser aceitos em nome do espírito conciliar? Pode-se aceitar tudo em nome do concílio? Faz muito bem Bento XVI em insistir na verdadeira interpretação do maior evento eclesial do século XX, o Concílio Vaticano II.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Destinação da razão na filosofia ocidental

Padre Elílio de Faria Matos Júnior
A concepção que se tinha da razão nas grandes filosofias da Antigüidade e da Idade Média era bem diversa da concepção que se foi delineando já a partir do ocaso da Idade Média, com o advento do problema dos universais e sua solução em favor do nominalismo encontrada bem claramente em Guilherme de Ockham (+1349).

A razão antiga e medieval, tal como a podemos encontrar num Platão, num Aristóteles, num Plotino, num Agostinho, num Tomás de Aquino, possui um caráter decididamente teológico. O adjetivo teológico aqui, evidentemente, não se refere à teologia revelada, que assume o seu discurso do ato de fé numa revelação divina[1]. Por razão teológica entendemos uma certa concepção de razão, segundo a qual, ao filósofo, no próprio ato do exercício filosófico, num movimento de anabasis (subida), é possível deparar-se com o Princípio de todas as coisas (o divino), ainda que não o possa compreender analiticamente, já que o excesso de sua luz inteligível está para o filósofo como o sol para os olhos do morcego[2]. O grande filósofo brasileiro, Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz, de saudosa memória, chamou essa razão teológica de inteligência espiritual[3]. Por ela, pode-se contemplar, com o que Platão chamou o "olho da alma", o Absoluto, que está para além da multiplicidade das coisas e dos conceitos, e que lhes dá verdadeiro fundamento. Não se trata de "dominar" intelectualmente o Absoluto, mas de fruí-lo como terminus ad quem do processo do filosofar. Uma razão, assim teológica, trabalha com uma concepção analógica do ser, não unívoca. Ela reconhece a transcendência do Princípio no qual o Inteligente em ato e o Inteligível em ato se identificam[4], dando fundamento, assim, à inteligibilidade objetiva e radical de todas as coisas[5]. Ela não procura resolver a inteligibilidade radical em suas categorias finitas e limitadas ou dissecar o ser na imanência do sujeito. Por isso entrega-se ao frui, à fruição desinteressada e deleitosa do Absoluto[6].

Entretanto, a partir da filosofia tardo-medieval, o conceito analógico de ser vai cedendo lugar ao conceito unívoco de ser. Há uma passagem progressiva do ser à representação, do pólo objetivo à imanência do sujeito. Se o ser, em sua transcendência real, ocupava o centro dos mais altos esforços de especulação, que vão de Platão a Tomás de Aquino, o nominalismo coloca no centro a representação (ser ut nomen) resolúvel na imanência do sujeito. Descartes, considerado o pai da filosofia moderna, propõe o ponto de partida de sua reflexão filosófica em bases inteiramente imanentistas, de modo que a atenção desloca-se do ser para o sujeito cognoscente, que, possuindo um conceito unívoco de ser, é capaz de "domesticá-lo" segundo suas próprias medidas: isso é o que se percebe no ideal, inspirado na matemática, das idéias claras e distintas. Descartes, todavia, depois de lançar os fundamentos em bases idealistas, caminha em direção ao realismo ao reconhecer Deus como o fundamento sem o qual não seria possível o conhecimento.

O caminho do ser à representação atinge seu clímax em Immanuel Kant (+1804). Segundo o filósofo de Königsberg, não temos acesso à "coisa em si", de tal modo que todo nosso conhecimento é o resultado da aplicação das formas a priori do “eu penso” ao dado sensível. O conhecimento é, assim, construção do sujeito. A forma do conhecimento são as formas a priori do sujeito, e a matéria, o dado sensível. Desse modo, para Kant, a metafísica, com seus temas básicos sobre a alma, o mundo e Deus, está destituída de todo caráter científico, pois lida com as formas puras sem poder aplicá-las a qualquer dado sensível.

Ao longo desse caminho que vai do ser à representação, percebe-se a efetivação da transposição da Transcendência real para a transcendência lógica. Isto é: se antes o ser, em sua transcendência real, é que era central na filosofia, agora o sujeito, na sua imanência, é que é central. A razão deixa de ser uma inteligência espiritual e passa a ser uma instância operacional. Deixa de ser uma razão substantiva, que confere sentido e valor à realidade, e passa a ser razão instrumental, lidando apenas com os fenômenos e as relações lógicas entre eles. Usando as categorias de S. Agostinho, a ratio superior, que procura ir até o fundamento último, a algo de básico, cede lugar à ratio inferior, que apenas lida com a multiplicidade dos fenômenos.

Hegel, percebendo tal ruptura, tentou recuperar o vigor metafísico da razão, ao construir seu sistema como sistema do Espírito Absoluto, embora o tenha feito no clima da subjetividade, próprio da filosofia moderna. Depois de Hegel, entretanto, qualquer tentativa de discurso metafísico foi condenado pelo establishment filosófico ao non-sense. A metafísica foi simplesmente banida como espúria e ilegítima.
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[1]"Sic igitur theologia, sive scientia divina, est duplex. Una... est theologia quam philosophi prosequuntur quae alio nomine metaphysica dicitur; alia vero... est theologia, que in sacra Scriptura traditur" (S. Tomás, In Librum Boethii de Trinitate, q. 5, a. 4).

[2]Citando Aristóteles, Tomás de Aquino realça esta verdade: "O nosso intelecto está para as primeiras noções dos seres, que em si mesmas são evidentíssimas, como os olhos do morcego para o sol" (Summa contra gentiles I, c. III).

[3]Cf. VAZ, Henrique C. de Lima. Antropologia filosófica I. Loyola: São Paulo, 1991, p.239-289.

[4]Veja o que diz Tomás de Aquino, apontando Deus como a realização plena da coincidência entre inteligente e inteligível em ato: "Efetivamente, a intelecção é ato do sujeito inteligente, nele existindo, e que não se transmite a uma coisa extrínseca, como acontece com o aquecimento, o qual se transmite ao que é aquecido. Assim, o objeto da intelecção não recebe coisa alguma por ser apreendido, mas o sujeito inteligente é que é aperfeiçoado. Ora, tudo que está em Deus identifica-se com sua essência. Logo, a intelecção de Deus é a própria essência divina, o ser divino e o próprio Deus, já que Deus é sua essência e seu ser (como foi provado)"(Summa contra gentiles, I, c. XLV).

[5]Eis um texto esclarecedor de Pierre Secondi sobre a inteligibilidade das coisas: "Há muito tempo que Aristóteles justificou esta relação matéria-espírito: se a inteligência procura o espírito nas coisas mais comuns é porque ela sabe que o espírito se encontra nelas, porque tudo o que existe é a realizaão de uma idéia. Uma mesa não seria o que ele é se o carpinteiro não tivesse na cabeça a idéia de mesa, qualquer que seja a matéria utilizada. Se me permitem uma comparação belicista, a inteligência funciona como a ogiva dos novos mísseis que sabe onde está o seu alvo e como penetrar no íntimo dele. Longe de estar em oposição, matéria e espírito coincidem nas realidades. O que o filósofo chama de ordem real e ordem ideal é correlativo, segundo a fórmula um tanto solene de nossos mestres: Tudo o que existe é pensável, tudo o que é pensável pode existir; inversamente, o que é impossível nas coisas reais, um círculo quadrado por exemplo, é impossível no espírito" (SECONDI, Pierre. Philosophia perennis. Atualidade do pensamento medieval. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 24).

[6]Diz Platão a respeito do homem que se entregou a tal contemplação: "Um homem desses se desliga dos interesses humanos e dirige seu espírito para objetos divinos; a multidão o considera louco, sem perceber que nele habita a divindade... Recorda-se da beleza verdadeira, recebe asas e deseja voar para o alto; não o podendo, porém, volta seu olhar para o céu... De todos os entusiasmos este é o de mais pura origem; saudável para quem o possui e dele participa" (Fedro, 249).

terça-feira, 3 de março de 2009

Quem está contra o Vaticano II?

Hans Küng, famoso e controvertido teólogo suíço, volta a contestar e criticar amargamente o Sucessor de Pedro. Suas invectivas contra Roma são já conhecidas desde tempos remotos. Recentemente (25/2/2009), publicou-se uma entrevista sua no jornal Le Monde, que diz que a Igreja, com Bento XVI, corre o risco de se tornar uma seita.

Não quero dizer que é ilegítima toda e qualquer crítica à autoridade eclesiástica. Conhecemos já pelo texto bíblico a contestação que São Paulo fez à atitude discriminatória de São Pedro para com os pagãos em Antioquia. A crítica, pois, desde que seja justa, criteriosa, movida por amor à Igreja e com o devido respeito, é possível. Mesmo em se tratando do Papa, pois que a infalibilidade papal, na qual a fé católica nos manda crer, requer condições bem definidas para se exercer, de modo que o Papa não é infalível sempre e em qualquer ato seu.

Entretanto, sinceramente, não vi na entrevista de Küng nem respeito, nem justiça, nem muito menos amor. O teólogo suíço parece mostrar todo seu rancor contra a instituição eclesiástica, que, a justo título, proibiu-lhe, nos tempos de João Paulo II, o ensino em nome da Igreja, pois que já não representava a teologia católica.

O problema central que move as acerbas críticas de Küng é relativo à concepção de Igreja. É um problema eclesiológico. É relativo, para colocar o dedo na ferida, à interpretação do Concílio Vaticano II. Sua irritação, em última análise, não se deve simplesmente ao fato de o Papa ter levantado a excomunhão dos quatro bispos lefebvrianos, entre eles o polêmico Dom Williamson. Deve-se, antes, ao que isso manifesta e representa.
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E o que o levantamento da excomunhão representa? Na visão de Hans Küng, representa a desvalorização do Vaticano II, tal como interpretado por ele:
Para mim é escandaloso que, no cinqüentenário do lançamento do Concílio por João XXIII (janeiro de 1959), o Papa não tenha feito o elogio de seu predecessor, mas tenha optado por suspender a excomunhão de pessoas opostas a esse Concílio”, disse. Küng vê em Bento XVI um opositor da modernidade e da reforma que o concílio trouxera à Igreja: “No fundo, Bento XVI tem uma posição ambígua sobre os textos do Concílio, porque ele não se sente cômodo com a modernidade e a reforma. Ora, o Vaticano II representou a integração do paradigma da reforma e da modernidade na Igreja católica. O Mons. Lefebvre nunca a aceitou, e seus amigos na Cúria também não. E nisso Bento XVI tem uma certa simpatia pelo Mons. Lefebvre.
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A meu ver, tudo se resume na questão: Qual o verdadeiro Concílio Vaticano II? Tanto os lefebvrianos quanto Küng consideram que o concílio significou uma ruptura na vida da Igreja. Nisso eles estão de acordo. Com uma grande diferença, é claro. Enquanto Küng vê essa ruptura como algo bom e desejável, os lefebvrianos a vêem como uma traição à mais legítima Tradição católica. Na verdade, ver o concílio como ruptura, como introdução de uma nova Igreja, é o grande erro de ambas as partes.
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Nenhum concílio pode, por natureza, transformar-se simplesmente numa Assembléia Constituinte, porque a Igreja não está entregue aos Padres conciliares como se eles fossem deputados da vontade popular e tivessem, assim, autonomia para legislar e provocar rupturas fundamentais. São, antes, administradores do que vem do Senhor. A Igreja possui uma constituição fundamental imutável que lhe foi dada por Cristo mesmo. Assim, os Padres conciliares jamais poderiam mudar a Igreja, provocando uma ruptura com o passado, como querem tanto os lefebvrianos como os progressistas ao estilo de Küng; ninguém lhes podia ter dado esse mandato. É o que ensinou Bento XVI quando, em seu discurso à Cúria, em 2005, por ocasião das festas natalinas, falava sobre os 40 anos do encerramento do concílio:
Os Padres não tinham tal mandato e ninguém lhos tinha dado; ninguém, afinal, podia dá-lo porque a constituição essencial da Igreja vem do Senhor e nos foi dada para que pudéssemos chegar à vida eterna e, partindo desta perspectiva, conseguimos iluminar também a vida no tempo e o próprio tempo.
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Hans Küng quer que a Igreja se transforme cada vez mais ao sabor dos tempos e dos gostos. Não lhe interessa muito perguntar se algo nos vem do Senhor e, por isso, deve permanecer inalterado. E o atual Papa é muito cioso da Tradição da Igreja, porque tem a clara consciência de que nem tudo na Igreja é obra e decisão humana. Há algo colocado pelo Senhor mesmo. Por isso, disse uma vez, quando ainda era Cardeal: "Reforma verdadeira não significa tanto um atarefar-se para erigir novas fachadas, e sim procurar fazer desaparecer, por todos os modos, aquilo que é nosso, para que apareça melhor o que é Seu, do Cristo".
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Do fato de que a constituição fundamental da Igreja vem do Senhor, segue-se o seguinte: Se houver na Igreja um evento fundador de uma nova religião, ou que pretenta anular a Igreja de sempre para colocar uma nova, totalmente distinta, em seu lugar, esse evento não deve contar com a aquiescência dos católicos, ainda que ele seja um concílio. Seria um falso concílio.
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Nesse sentido, Bento XVI tem combatido grandemente uma mentalidade, que se instalou em muitos ambientes eclesiais e que tem feito grande mal à causa do Evangelho, segundo a qual o Vaticano II deu-nos carta branca para fazer da Igreja o que julgarmos melhor. E é essa posição clara e firme do Santo Padre que lhe atrai tanto ódio daqueles que vêem na Igreja, antes de tudo, um grande canteiro de obras simplesmente humanas. E essa mesma justa posição o faz, evidentemente, mais próximo dos lefebvrianos do que de Küng, uma vez que os lefebvrianos, embora tenham dificuldades com o Vaticano II (que se quis simplesmente pastoral) - o que precisa ser superado-, não chegam a negar dogmas da fé, enquanto Küng já o fez (veja-se o questionamento lançado pelo estudioso contra a infalibilidade papal). O levantamento da excomunhão, além de ser um ato de misericórdia do Santo Padre para com os lefebvrianos, mostra que Bento XVI sabe ver onde existe um profundo amor sobrenatural pela Igreja, Esposa de Cristo, ainda que esse amor precise ser corrigido em certos aspectos.
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Quanto ao verdadeiro Concílio Vaticano II, tanto Bento XVI como seus predecessores que governaram a Igreja nos tempos pós-conciliares, a saber, João Paulo II e Paulo VI (que, sucedendo a João XXIII, deu continuidade ao concílio e conduziu três de suas quatro sessões), nunca o viram como uma ruptura na vida da Igreja, mas, sim, como uma renovação na continuidade da Tradição. O concílio quis apresentar de maneira nova a doutrina de sempre, sem alteração ou modificação de significado. Das atas conciliares pode-se colher a intenção dos Padres, que não era a de negar o passado nem a de fundar uma nova Igreja. Nenhum ensinamento autorizado da Igreja apresentou o Vaticano II como ruptura. E como vimos, nenhum concílio, por natureza, pode apresentar-se como ruptura. Quem é, então, que está sendo infiel ao concílio? Bento XVI ou Küng?
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Padre Elílio de Faria Matos Júnior