sábado, 31 de janeiro de 2009

O mandato maior

A 7 de maio de 2005, o Papa Bento XVI tomou posse da Cátedra de São Pedro na Basílica do Latrão (Roma) e proferiu uma belíssima homilia, da qual destaco o seguinte trecho, que bem nos mostra a necessidade do Magistério do Papa e dos Bispos em comunhão com ele na Igreja de Cristo para a legítima interpretação das Sagradas Escrituras:

"Onde a Sagrada Escritura é separada da voz viva da Igreja, torna-se vítima da controvérsia dos peritos. Sem dúvida, tudo o que eles têm para nos dizer é importante e precioso; o trabalho dos sábios é para nós um grande contributo para poder compreender a sua riqueza histórica. Mas a ciência sozinha não nos pode fornecer uma interpretação definitiva e vinculante; não é capaz de nos fornecer, na interpretação, aquela certeza com a qual podemos viver e pela qual podemos até morrer. Por isso é necessário um mandato maior, que não pode surgir unicamente das capacidades humanas. Por isso é necessária a voz da Igreja viva, daquela Igreja confiada a Pedro e ao colégio dos apóstolos até o fim dos tempos".

Bento XVI, sábio estudioso que é, não duvida da importante contribuição que a ciência exegética e teológica pode oferecer à Igreja na tarefa de interpretar as fontes da fé, de modo especial a Sagrada Escritura. Entretanto, não raro, dão-se controvérsias entre os estudiosos em matéria importante para a vida cristã. Como resolver? Aqui já não é suficiente a perícia dos estudiosos.

Com efeito, o Senhor Deus não deixou ao léu ou ao vento a mensagem que Jesus veio trazer à humanidade, mensagem decisiva, diante da qual devemos fazer nossa opção fundamental. Por isso, existe na Igreja, desde seus primórdios, uma instância divinamente assistida para indicar a correta interpretação da herança de Jesus Cristo: é o colégio apostólico, tendo Pedro à sua frente. Hoje o colégio dos Bispos com o Papa e sob o Papa sucede ao primitivo colégio apostólico com e sob Pedro. Vemos, portanto, a necessidade do Magistério eclesiástico na vida da Igreja. É a garantia, em última instância, de que a mensagem de Jesus conserva todo seu frescor, legitimidade e originalidade.

Se Jesus não houvesse deixado essa instância divinamente assistida para guiar-nos, estaríamos à mercê das controvérsias dos estudiosos, que ora apresentam uma hipótese, ora, outra que nega a anterior. Ultimamente, tais controvérsias tem atingido questões de suma importância para a vida cristã; em nome da Sagrada Escritura, estudiosos põem em dúvida verdades como a divindade de Cristo, a Santíssima Trindade, a natureza sacrifical da Eucaristia, etc. Pela fé, sabemos que só à Igreja confiada a Pedro e a seus sucessores, só ao Magistério do Papa e dos Bispos em comunhão com ele, cabe apresentar, de modo vinculante, qual é o conteúdo da Revelação. Sabiamente já constatava o Cardeal Newman que não se pode falar de Revelação se não há uma instância autorizada que a apresente.

Com isso, não quero negar a importância dos trabalhos dos peritos, que, por vezes, realçam e aprofundam com grande competência verdades que pertencem ao depósito da fé. E Bento XVI está bem consciente disso. Apenas, seguindo o ensinamento do Papa, digo que, em última análise, só ao Magistério da Igreja cabe a tarefa de interpretar, de modo vinculante, as fontes da fé.

Amemos, pois, o Papa e os Bispos em comunhão com ele, a quem foi confiado "um madato maior, que não pode surgir unicamente das capacidades humanas" (Bento XVI).
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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Dom Gil Antônio Moreira é o novo Arcebispo de Juiz de Fora

O Papa Bento XVI nomeou na manhã de quarta-feira, dia 28 de janeiro de 2009, o novo Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora: Dom Gil Antônio Moreira, até então Bispo Diocesano de Jundiaí, Estado de São Paulo. A posse está prevista para o dia 28 de março de 2009, às 14h30, na Catedral Metropolitana de Juiz de Fora.

Dom Gil é natural de Itapecerica, MG. É Bispo desde 1999. Foi Bispo Auxiliar de São Paulo e, desde 2004, era Bispo Diocesano de Jundiaí. Sucede, agora, ao nosso querido Dom Eurico dos Santos Veloso, que por sete anos esteve à frente da Arquidiocese de Juiz de Fora. Até a posse de Dom Gil, Dom Eurico fica como Administrador Apostólico. A Dom Eurico nossa profunda gratidão pelos inúmeros trabalhos realizados.

A Dom Gil Antônio Moreira desejamos, do fundo do coração, as boas-vindas e um fecundo ministério em nossa Arquidiocese. Seja bem-vindo, ó nosso pastor!
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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Santo Tomás de Aquino, mestre para o nosso tempo

A Santa Igreja hoje celebra a memória de Santo Tomás de Aquino (1225-1274), um dos maiores luminares da teologia católica. Santo Tomás tem muito a falar para o nosso tempo, tão marcado por desatinos e falta de orientação. Entre outras coisas, o grande mestre dominicano ensina a:

a) Buscar com interesse a verdade divina e humana. A vida inteira de Tomás foi um ato contínuo de investigação sincera da verdade. Infelizmente, hoje são muitos os que não acreditam na possibilidade de se alcançar a verdade básica sobre Deus e sobre o homem.

b) Ver a harmonia existente entre fé e razão, pois que Deus é, a um só tempo, o autor da fé e o fundamento da ordem racional. Infelizmente, hoje são muitos os que são ou fideístas (afirmam a fé, mas negam a razão) ou racionalistas (vêem a razão como única fonte confiável de conhecimento, excluindo a fé).

c) Considerar a Igreja como a Casa da Verdade sobre Deus e o seu Cristo. Santo Tomás nutriu verdadeira fé na Igreja, vendo-a como um organismo instituído e assistido por Deus para guardar e difundir a verdade da salvação. No leito de morte, renovou sua fé no Sacramento da Eucaristia, submetendo tudo o que escrevera ou dissera sobre o augusto Sacramento à autoridade da Santa Igreja Romana. Infelizmente, hoje são muitos os que vêem na Igreja apenas uma instituição humana.

d) Ver a realidade por inteiro, o que significa vê-la em Deus. Tomás era uma alma profundamente religiosa, e sabia que ser realista é considerar a realidade em sua totalidade, o que equivale a ver o fundamento de todas as coisas em Deus e confiar nele. O que é a realidade? Será que é só o que vemos ou tocamos pelos sentidos? O ens realissimum não é Deus? São pseudo-realistas aqueles que não querem enxergar Deus como o suporte e o fundamento do mundo e do homem. Enxerga apenas a superfície do real quem descarta Deus ou o coloca entre parênteses.

Outras coisas poderíamos dizer do grande Doutor da Igreja, “o mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios”. Ficamos por aqui, na certeza de que no céu Tomás intercede pela Igreja para que jamais se afaste da Verdade, que, em última análise, é Deus mesmo.

Padre Elílio de Faria Matos Júnior
28 de janeiro de 2009, memória de Santo Tomás de Aquino.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Deus se revela

A Igreja sempre defendeu que Deus revelou-se positivamente na história dos homens, ao contrário do deísmo, que vê na Divindade algo um tanto quanto impessoal. Não se revelaria pessoalmente o Criador das pessoas? O Amor-Doação não se doaria ao homem? A Igreja sustenta que a Beleza infinita quer que participemos de seu esplendor, e, para tanto, manifestou-se na história para além daquilo que chamaríamos de revelação natural.

A finalidade da Revelação de Deus na história é a elevação do homem à vida divina1, elevação essa que, ultrapassando as possibilidades meramente humanas, leva o ser humano a participar da felicidade absoluta no seio da Trindade eterna, que é o único Deus verdadeiro. Deus revela-se a si mesmo e o plano de sua vontade salvífica; ele, "levado por seu grande amor, fala aos homens como a amigos, e com eles se entretém para os convidar à comunhão consigo e nela os receber"2. A Revelação divina é histórica e progressiva, de modo que, tendo começado com os patriarcas do Antigo Testamento, atinge seu zênite em Jesus Cristo, o "exegeta do Pai"3.

A Revelação, pois, de que a Igreja é depositária, é algo que nos vem de fora. Não é produto da cultura ou mera invenção do espírito humano. Essa Revelação é histórica e se dá através de "acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si, de modo que as obras realizadas por Deus na História da Salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras"4.

A Revelação, ainda, é dita sobrenatural porque tem como fim levar o homem à visão de Deus face-a-face. Ora, ver a Deus face-a-face ultrapassa as possibilidades da natureza humana. O caráter sobrenatural da Revelação não faz dela algo estranho ao homem, mas simplesmente quer realçar que autocomunicação de Deus na história não é algo que possa ser deduzido pela reflexão filosófica ou algo que seja simplesmente exigido pela natureza humana. Pela sua autocomunicação, Deus apresenta ao homem verdades que ultrapassam as capacidades da mente humana, como a Triunidade de Deus, e o convida a participar de sua vida divina. Deve-se dizer, contudo, que a Revelação vem calhar com as mais lídimas aspirações do coração humano, tendo como fim levá-lo ao Absoluto do Ser, Verdade, Bondade e Beleza. Entretanto, é uma iniciativa livre de Deus, que deve ser vista como graça, uma vez que o homem, por si só, não pode atingir o que a Revelação propõe.

A estrutura sacramental é outra característica básica da Revelação. Por estrutura sacramental, entendemos o modo pelo qual Deus, o Invisível, se dá a conhecer mediante sinais sensíveis, pertencentes ao âmbito histórico. O Vaticano II fala de acontecimentos e palavras (verba et gesta). A estrutura sacramental está em harmonia com a condição do homem, a quem se destina a Revelação. Com efeito, o homem não é puro espírito, mas é um complexo noo-psico-somático. Todo conhecimento humano começa pelos sentidos. A encarnação do Verbo segue esta estrutura sacramental disposta pelo sábio plano de Deus: pela visibilidade da humanidade de Cristo, tocamos o próprio Deus invisível.

Deve-se dizer aqui que à Revelação de Deus deve corresponder a obediência de nossa fé. A fé é o ato pelo qual o homem se entrega a Deus com absoluta confiança e aceita como verdadeiro tudo aquilo que Deus revelou. É um ato da inteligência movida pela vontade, ato esse tornado possível pela graça de Deus que a ninguém falta. De fato, a fé não é um ato cego. Envolve a inteligência, ainda que a inteligência não possa abarcar todo o Objeto da fé, que, sendo em última análise o próprio Deus, ultrapassa-a infinitamente. Não é pela evidência intrínseca das verdades de fé que a inteligência as abraça, mas pela autoridade de Deus que as revela. A inteligência, assim, é movida pela vontade que, fortalecida pela graça, adere à Revelação em virtude da autoridade de Deus, que não se engana nem pode enganar ninguém.

Aqui tocamos um problema: como certificar que Deus realmente se revelou. A Igreja, nesse tocante, sempre rejeitou o fideísmo, admitindo que a Revelação de Deus oferece credenciais que, bem ponderadas, são suficientes para garantir a responsabilidade do ato de fé, apresentando as motivações racionais que se têm quando alguém entrega-se à Revelação. Tais credenciais são, em síntese, o próprio fato de Israel e a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo5. Com efeito, a história mesma do povo bíblico constitui um desafio ao historiador: "Toda pessoa que reflete não passa indiferente diante de Israel"6. Israel é um pequeno povo, culturalmente medíocre em comparação com outros povos antigos, sempre atribulado por invasões, deportações, dominações estrangeiras, mas com duas características fenomenais: a de não desaparecer nem perder sua consciência nacional e a de ter estruturada sua identidade sobre as bases de uma extraordinária convicção religiosa. O significado e a obra de Jesus também não se explicam satisfatoriamente sem recorrer ao poder do Alto que nele operava e do qual ele mesmo tinha consciência. A própria ressurreição, que em si mesma não é controlável pela ciência histórica, sai vitoriosa pelos efeitos históricos e sociais que provocou, sendo impossível atribuí-la a uma invenção ou sonho dos primeiros discípulos. Os milagres, atestados em toda a história da salvação, são também credenciais da Revelação, milagres que têm acompanhado a Igreja ao longo de sua trajetória de 2000 anos. Entretanto, em última instância, o ato de fé na Revelação positiva de Deus na história está entregue à responsabilidade da liberdade humana, que, mesmo tendo o abono das credenciais, pode decidir contra Deus.

A Revelação de Deus, que atinge seu cume em Jesus, está encerrada na Sagrada Escritura e na Sagrada Tradição, e é interpretada autenticamente pelo Magistério da Igreja, que tem a missão de conservá-la sempre íntegra e transmiti-la a todas as gerações7.
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Padre Elílio de Faria Matos Júnior
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1 "Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério de sua vontade (cf. Ef 1,9), pelo qual os homens, por intermédio do Cristo, Verbo feito carne, e no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2Pd 1,4)" (Constituição Dei Verbum do Vaticano II (DV), n. 2).
2 DV, n. 2.
3 Cf. Jo 1,18.
4 DV, n. 2.
5 Desenvolveremos o argumento adiante, ainda que de modo limitado.
6 Renckens, H. A religião de Israel.
7 Cf. DV, n. 7-10.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Sentenças de G. K. Chesterton

"Tornar-se católico não significa que se deixe de pensar, mas que se aprende a pensar.”

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“Somente a ortodoxia católica fez o homem feliz: é como os muros postos ao redor de um precipício onde pode brincar uma porção de crianças.”
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“Uma coisa morta pode seguir a correnteza, mas somente uma coisa viva pode contrariá-la.”
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“A verdade integral é, geralmente, a aliada da virtude; a meia verdade é sempre aliada de algum vício.”
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“O círculo é perfeito e infinito por natureza, mas ele está para sempre amarrado a suas dimensões, não podendo crescer ou diminuir, já que na sua definição o raio é constante. Mas a cruz, embora tenha no centro uma colisão e uma contradição, pode sempre estender os braços sem modificar sua forma. Pelo fato de abrigar um paradoxo em seu centro, a cruz pode crescer sem mudar. O círculo volta-se sobre si mesmo como prisioneiro. A cruz abre seus braços aos quatro ventos e serve de marco indicador aos viajantes livres.»
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“A dificuldade em explicar 'Por que eu sou católico' é que há dez mil razões para isso, todas se resumindo a uma única: o catolicismo é verdadeiro.”
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“Nove dentre dez do que chamamos novas idéias são simplesmente erros antigos. A Igreja Católica tem como uma de suas principais funções a de prevenir que os indivíduos comentam esses velhos erros; prevenir de cometê-los repetidamente, como eles fariam se deixados livres.”
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“Não há nenhum outro caso de uma instituição inteligente e contínua que tenha pensado sobre o pensamento por dois mil anos. Sua experiência cobre naturalmente quase todas as experiências; e especialmente quase todos os erros. O resultado é um mapa no qual todas as ruas sem saída e as estradas ruins estão claramente marcadas, todos os caminhos que se mostraram sem valor pela melhor de todas as evidências: a evidência daqueles que os percorreram.”
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“A Igreja não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo."
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“Somente a Igreja Católica pode salvar o homem da destrutiva e humilhante escravidão de ser filho de seu tempo. Já faz muito, entretanto, que a Igreja Católica tem provado não ser ela uma invenção de seu tempo: é a obra de seu Criador, e continua sendo capaz de viver o mesmo em sua velhice como em sua primeira juventude: e seus inimigos, no mais profundo de suas almas, perderam já a esperança de vê-la morrer algum dia."
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"Uma espécie de teósofo me disse: 'O bem e o mal, a verdade e a mentira, a loucura e a sanidade, são apenas aspectos do mesmo movimento ascendente do Universo'. Já nessa época me ocorreu perguntar: 'Supondo que não exista diferença entre o bem e o mal, ou entre a verdade e a mentira, qual é a diferença entre ascendente e descendente?'"
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“A Igreja não pode mudar com os tempos [...]. Sua missão é salvar toda a luz e toda a liberdade que podem salvar-se, opor-se ao arrastre descendente do mundo e esperar dias melhores [...]. Não necessitamos de uma Igreja que se mova com os tempos. Necessitamos de uma Igreja que mova o mundo. Necessitamos de uma Igreja que o aparte de muitas das coisas para as quais agora se inclina [...]. Para qualquer Igreja será esta a prova histórica de se é ou não a verdadeira Igreja”(G. K. Chesterton, The New Witness).
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“A Igreja tem o que o mundo não tem. A própria vida não atende tão bem como a Igreja à todas as necessidades do viver. A Igreja pode orgulhar-se de sua superioridade sobre todas as religiões e todas as filosofias. Aonde tem os estóicos um Menino Jesus? Aonde está Nossa Senhora dos muçulmanos, a mulher que não foi feita para nenhum homem, e que está sentada acima de todos os anjos? Qual é o São Miguel de Buda, cavaleiro e soldado, que tem preparada uma espada [...]? Que poderia fazer Santo Tomás de Aquino na mitologia do bramanismo, ele que estabeleceu a ciência e o racionalismo da Cristandade?[...] Como teria sido Francisco Trovador entre os calvinistas [...]? Como teria vivido Joana D’arc, uma mulher, esgrimindo a espada que conduzia a guerra, entre os quackers e os pacifistas [...]?” (G. K. Chesterton, O Homem Eterno).


quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Só Deus é o Sumo Bem

O homem, dentre todos os animais, é o único dotado de espiritualidade. Possui inteligência e vontade. Ao contrário dos brutos, ele nunca está satisfeito consigo mesmo. Sempre deseja algo mais. É o único que pode transcender sua própria situação existencial e almejar, sempre mais, a perfeição que ainda não atingiu.
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Quem reflete, porém, percebe que nem mesmo as maiores conquistas que ele pode empreender nesta vida, como o poder, a riqueza, a honra, o sucesso profissional, etc, estão à altura de dar-lhe pleno deleite e repouso satisfatório. Na verdade, o ser humano aspira a um Amor verdadeiro sem mancha alguma de traição, a uma Beleza infinita sem mescla de fealdade, a uma Verdade sem sombras de erro; enfim, o ser humano deseja, do fundo do coração, o Sumo Bem (Summum Bonum), que, paradoxalmente, não pode encontrar nas criaturas ou nas coisas deste mundo, cujo amor, beleza, verdade e bem são sempre finitos e contraditados pelo respectivo contrário. Com efeito, o homem quer uma vida plena e feliz que não possa ser desfigurada pela dor nem suplantada pela morte. Isso, este mundo aqui não pode garantir.
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Haveria, então, solução para esse paradoxo humano? Por um lado, o homem é capaz de alimentar tão nobres ideais; por outro, vê-se impossibilitado de realizá-los. Seria o homem, como certos pensadores já afirmaram, um desejo inútil?
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Há dois mil anos, a S. Igreja anuncia esta mensagem: “Só Deus é o grande TU para o qual o homem foi feito. N’Ele é que se encontram as respostas para as mais legítimas aspirações do homem”. Mensagem esta que não é sua, mas de seu Senhor, o Cristo Jesus, que é a autêntica manifestação do próprio Deus entre os homens. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), diz Jesus.
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Com razão, a teologia católica afirma que o ser humano é criado por Deus e para Deus. Há no homem uma abertura para o infinito que só pode ser preenchida pelo Absoluto de Deus. Só Deus é o Sumo Bem, a Beleza infinita, a Verdade sem erro, o Amor sem traição e a Vida sem fim. Só Deus é a resposta definitiva ao homem. “Fizeste-nos para ti, Senhor, e o nosso coração estará inquieto enquanto não repousar em ti” (Conf. I,1), já atestava o grande bispo de Hipona, Santo Agostinho.
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A vida interior, que caracteriza as grandes personalidades e, especialmente, os santos, far-nos-á ver com lucidez que os bens deste mundo são relativos e caducos (cf. 1Cor 7,31) e que o sentido de nossa existência e de tudo o que fazemos está em Deus. Assim, despertar-se-á a nossa consciência para Deus e para os autênticos valores que Ele nos propõe. Santa Teresa D’Ávila estava tão mergulhada nessa verdade que disse ao Senhor: “Viver sem vós é morrer muitas vezes” (Moradas II).
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De fato, a verdadeira sabedoria está em descobrir, em meio às vicissitudes do tempo presente, o caminho do Definitivo e Absoluto. Quem assim pensa, terá coragem para, com a graça divina, comportar-se neste mundo conforme o critério do Evangelho, do qual a S. Igreja é depositária e mensageira por vontade de Cristo, pois Christus in Ecclesia vivit – Cristo vive na Igreja.
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Quem procura corajosamente a Deus, avivando sempre seu ideal, pode fazer experiência d’Ele e de sua salvação ainda nesta vida e, de modo pleno, na vida futura, bem-aventurada e sem fim, que Ele prometeu àqueles que n’Ele confiam.
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Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

domingo, 11 de janeiro de 2009

De rationibus fidei (Santo Tomás de Aquino) - Cap. VI

Capítulo VI

Como se deve entender a afirmação de que Deus se fez homem:

Quando afirmamos que Deus se fez homem, ninguém pense que isso queira dizer que Deus se tenha convertido em homem, assim como o ar se faz fogo quando em fogo se converte. Ora, a natureza de Deus é imutável. Os corpos é que se convertem um no outro. A natureza espiritual não se converte em natureza corpórea, mas pode unir-se-lhe de algum modo pela eficácia de seu poder, como a alma se une ao corpo. Embora a natureza humana conste de alma e corpo, a alma, contudo, não é de natureza corpórea, mas espiritual.

Ora, toda criatura espiritual dista da simplicidade divina muito mais do que dista a criatura corporal da natureza espiritual. Assim como a natureza espiritual une-se à corporal pela eficácia de seu poder, de modo semelhante Deus pode-se unir tanto à natureza espiritual quanto à corporal, e segundo tal modo afirmamos que Deus uniu-se à natureza humana.

Deve-se observar que é sobretudo o elemento principal de qualquer coisa que seja que determina o que ela parece ser. Todos os outros elementos parecem aderir àquele que é o principal e, de certo modo, ser assumidos por ele, na medida em que o principal se vale dos outros segundo sua disposição, o que é manifesto em uma comunidade civil, em que os maiorais parecem constituir toda a cidade e dispõem dos outros segundo sua disposição na qualidade de membros seus. Tal se dá também na união natural. Embora o homem conste naturalmente de alma e corpo, ele parece ser principalmente alma, à qual o corpo está unido, corpo de que dispõe a alma para as operações convenientes. Assim, na união de Deus à criatura, a natureza divina não é subtraída pela natureza humana, mas, antes, a natureza humana é assumida por Deus, não de modo que se converta em Deus, mas que a ele se una (adhaereat), e a alma e o corpo assim assumidos sejam, de certo modo, a alma e o corpo do próprio Deus, assim como as partes do corpo assumidas pela alma são, de certo modo, membros da própria alma.
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Há nisso, porém, uma diferença a ser notada. Embora a alma seja mais perfeita do que o corpo, não possui em si mesma toda a perfeição da natureza humana; donde o corpo sobrevir a ela para que da alma e do corpo se complete uma só natureza humana, da qual a alma e o corpo são certas partes. Deus, ao contrário, é tão perfeito em sua natureza que nada pode ser acrescentado à sua plenitude; donde não poder a natureza divina unir-se a algo de modo a formar a partir dessa união uma natureza comum, pois, assim, a natureza divina seria parte daquela natureza comum. Ora, isso repugna à perfeição da divina natureza, já que toda parte é imperfeita. Deus, isto é, o Verbo de Deus assumiu a natureza humana composta de alma e de corpo modo que não houvesse a transformação de uma natureza em outra nem fusão de duas naturezas em uma só, mas de modo que, depois da união, permanecessem as duas naturezas distintas quanto às suas propriedades. É preciso considerar ainda que, uma vez que a natureza espiritual se une à natureza corpórea pelo poder espiritual, tanto mais perfeita e firmemente a natureza espiritual assumirá a que lhe é inferior quanto maior for o seu poder. Ora, o poder (virtus) de Deus é infinito, e toda criatura lhe é submissa, ele que dispõe de cada qual conforme lhe apraz, o que não seria possível a não ser que, de algum modo, estivesse unido à criatura pela eficácia de seu poder. E tanto mais perfeitamente está unido a uma natureza criada quanto mais exerce sobre ela o seu poder. Deus, na verdade, exerce seu poder sobre todas as criaturas, comunicando-lhes o ser e o movimento para que realizem suas operações próprias; por isso, dizemos que ele está em todas as coisas de algum modo. Mas de modo especial está na mentes santas, não somente conservando-lhes o ser e dando-lhes o movimento para operar, como acontece com as demais criaturas, mas também convertendo-as para o conhecimento e o amor de Deus. Daí dizermos que Deus habita especialmente nas mentes santas, e que estas estão cheias de Deus.

Assim, uma vez que se diz que Deus está mais ou menos unido às criaturas em proporção da quantidade de poder que ele exerce sobre elas, é manifesto que, não podendo o intelecto humano compreender a eficácia do poder divino, Deus pode muito bem unir-se à criatura de um modo superior ao que o intelecto humano possa captar. É, então, segundo um modo incompreensível e admirável que dizemos que Deus se uniu à natureza humana em Cristo, não só por in-habitação como nos outros santos, mas de um modo singular, de tal maneira que a natureza humana fosse, de algum modo, a natureza do Filho de Deus, e o Filho de Deus, que desde toda a eternidade possui a natureza divina do Pai, tivesse uma natureza humana do nosso gênero, assumida admiravelmente no tempo. Assim, quaisquer partes da natureza humana podem ser ditas do próprio Filho de Deus, e o que faz ou sofre qualquer parte da natureza humana pode ser atribuído ao unigênito Verbo de Deus. Donde dizermos, não inconvenientemente, que a alma e o corpo são do Filho de Deus, e também os olhos e as mãos; e, nesse sentido, dizemos que o Filho de Deus viu com os olhos do corpo (corporaliter) e ouviu com os ouvidos corpóreos, e do mesmo modo afirmamos a respeito de outras coisas, quer sejam partes da alma ou do corpo. O capítulo VI continua...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

De rationibus fidei (Santo Tomás de Aquino) - Cap. V

Capítulo V

Qual foi a causa da encarnação do Filho de Deus:

Com semelhante cegueira de espírito, impugnam a fé cristã por confessar que Cristo, Filho de Deus, morreu, não entendendo a profundidade de tão grande mistério. E para que a morte do Filho de Deus não seja perversamente entendida, antes é preciso dizer algo sobre a sua encarnação. Não dizemos que o Filho de Deus esteve sujeito à morte segundo a natureza divina, pela qual é igual ao Pai e que é a fonte de toda vida, mas segundo a nossa natureza, que assumiu na unidade da pessoa.

Para considerar o mistério da divina encarnação, é preciso advertir que tudo o que age pelo intelecto opera pela concepção do intelecto, concepção que chamamos verbo, como é claro a respeito do construtor e de qualquer artífice, que opera exteriormente segundo a forma que concebe na mente. Sendo o Filho de Deus o próprio Verbo de Deus, conseqüentemente Deus fez todas as coisas através do Filho.

Qualquer coisa é feita e reparada pela mesma razão: se, portanto, uma casa for danificada, será reparada pela mesma forma de arte através da qual foi construída. Entre as criaturas feitas por Deus através de seu Verbo, a criatura racional ocupa o principal lugar, sendo que todas as demais criaturas servem-na e lhe parecem estar ordenadas; tal se dá de acordo com a reta razão, pois que somente a criatura racional tem domínio de seu ato pela liberdade de arbítrio. As outras criaturas, na verdade, não agem a partir do livre juízo, mas são levadas a agir por uma espécie de força da natureza. Quem é livre está acima do servo, e os servos são ordenados ao serviço dos livres e pelos livres são governados.

A falta da criatura racional, desse modo, segundo uma avaliação verdadeira, deve ser mais considerada do que o defeito de qualquer criatura irracional. Nem é duvidoso que, de acordo com o juízo de Deus, as coisas sejam julgadas segundo a verdadeira avaliação. É conveniente, portanto, que a sabedoria divina repare principalmente a falta da criatura racional, e isso mais do que se os céus fossem abalados ou outra coisa nas coisas corpóreas pudesse acontecer.

Há, contudo, dois tipos de criatura racional ou intelectual: uma separada do corpo, denominada anjo; outra unida ao corpo, que é a alma humana. Em ambas pôde dar-se a falta devido à liberdade de arbítrio. Digo falta não como deficiência do ser, mas como deficiência da retidão da vontade. A falta, ou defeito, é considerada principalmente em relação àquilo através do qual uma coisa opera, como quando dizemos que o artífice erra se houver deficiência naquilo através do qual ele deve operar; também dizemos que uma coisa natural é deficiente e danificada se a virtude pela qual age estiver corrompida, como quando há deficiência no poder de germinação da planta ou no poder de frutificação da terra. Aquilo através do qual a criatura racional opera é a vontade, na qual está a liberdade de arbítrio. Portanto, a falta da criatura racional está relacionada à deficiência da retidão da vontade, o que se dá pelo pecado.

Remover o defeito do pecado, que não é senão a perversidade da vontade, convém principalmente a Deus, e isso através de seu Verbo, pelo qual fez o universo das criaturas. Para o pecado dos anjos não há remédio, uma vez que, de acordo com a imutabilidade de sua natureza, não são passíveis de penitência em relação àquilo em que uma vez se convertem. Os homens, todavia, segundo a condição de sua natureza, têm a vontade mutável, de modo que não somente podem escolher o bem ou o mal, mas também, depois de escolhido um, podem arrepender-se e voltar-se ao outro; e essa mutabilidade da vontade do homem permanece tanto tempo quanto estiver unido à variação do corpo. Quando, porém, a alma estiver separada do corpo, terá a mesma imutabilidade da vontade que, naturalmente, tem o anjo; donde a alma humana não ser passível de penitência após a morte, não podendo converter-se do bem ao mal ou do mal ao bem.

Assim, coube à bondade de Deus reparar por seu Filho a natureza humana corrompida. O modo da reparação devia ser tal que conviesse à natureza a ser reparada e à desordem. À natureza a ser reparada porque, sendo o homem de natureza racional e ordenado pelo livre-arbítrio, devia ser reconduzido ao estado de retidão, não por coação externa, mas pela própria vontade. À desordem também porque, consistindo ela na perversidade da vontade, foi preciso que a reparação fosse feita por algo que reduzisse a vontade à retidão. A retidão da vontade humana consiste na ordenação do amor, que é a principal afeição. O amor é ordenado quando amamos, como Sumo Bem, a Deus sobre todas as coisas e referimos-lhe, como ao fim último, tudo o que amamos, e, ainda, quando, para que a justa ordem seja preservada, preferimos as coisas espirituais às temporais.

Nada pode ser mais eficaz para provocar nosso amor a Deus do que o fato de o Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas, ter assumido nossa própria natureza, de modo a ser Deus e homem, para nossa reparação. Primeiro, porque isso demonstra maximamente quanto Deus, que quis fazer-se homem para a salvação do homem, ama o homem. Nada mais provoca tanto o amor do que o fato de alguém saber-se amado. Depois, porque, tendo o homem o intelecto e o afeto voltado para as coisas corporais, não teria podido elevar-se facilmente ao que está acima de si. É fácil a qualquer homem conhecer e amar outro homem, mas considerar a altitude divina e a ela se dirigir pelo reto afeto do amor não é próprio de qualquer homem, mas daqueles que, pelo auxílio divino, com grande empenho e labor, se elevam das coisas corporais às espirituais. Portanto, para que a todos os homens se mostrasse fácil o caminho que conduz a Deus, quis Deus fazer-se homem, para que também os pequenos (os menos dotados) pudessem pensar em Deus e amá-lo como sendo-lhes semelhante, e, assim, por aquilo que podem apreender, pouco a pouco fossem levados ao que é perfeito. Por isso também, já que Deus se fez homem, é dada ao homem a esperança de participar da perfeita bem-aventurança, que só Deus possui naturalmente.

O homem, conhecendo sua enfermidade, mal poderia esperar pela posse da bem-aventurança, de que apenas os anjos são capazes e que consiste na visão e fruição de Deus, se tal posse lhe fosse prometida, a não ser que, de outra parte, lhe fosse mostrada a dignidade da natureza humana, tão estimada por Deus a ponto de ele querer fazer-se homem pela sua salvação. E, assim, pelo fato de Deus ter-se feito homem, foi dada ao homem a esperança de unir-se a Deus por beata fruição. O conhecimento de sua dignidade, que foi possível pelo fato de Deus ter assumido a dignidade humana, é também importante ao homem para que ele não submeta seu afeto a alguma criatura, cultuando pela idolatria os demônios ou quaisquer criaturas, nem se submeta às criaturas corporais por afeto desordenado. É indigno do homem, que possui tão grande dignidade e está tão próximo de Deus a ponto de Deus ter querido fazer-se homem, submeter-se desordenadamente a coisas inferiores a Deus.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

De rationibus fidei (Santo Tomás de Aquino)

Continuação de nossa tradução. Pe. Elílio Júnior

Capítulo IV

Como se deve entender a processão do Espírito Santo a partir do Pai e do Filho:

Deve-se considerar, ademais, que a todo conhecimento segue-se alguma operação apetitiva. De todas as operações apetitivas, o amor é o princípio. Se o amor for subtraído, não haverá gozo nem tristeza, e, consequentemente, serão também subtraídas todas as outras operações apetitivas, que, de certo modo, referem-se ao gozo e à tristeza. Existindo, pois, em Deus perfeitíssimo conhecimento, importa que nele haja também perfeito Amor, cuja processão se exprime por operação apetitiva, ao passo que a do Verbo, por operação do intelecto.

Deve-se, contudo, considerar certas diferenças entre a operação intelectual e a apetitiva, pois a operação intelectual, e absolutamente toda operação cognitiva, completa-se pelo fato de o cognoscível existir de certo modo no cognoscente, a saber, o sensível nos sentidos e o inteligível no intelecto. Já a operação apetitiva completa-se segundo certa ordem ou movimento do apetente ao objeto do apetite. Aquilo cujo princípio do próprio movimento é oculto recebe o nome de espírito, assim como o vento é dito espírito, uma vez que o sopro não aparece. Também a respiração e o movimento das artérias, procedendo de um princípio intrínseco oculto, recebem o nome de espírito. Daí que, convenientemente, na medida em que as coisas divinas podem ser significadas por palavras humanas, o Amor divino procedente recebe o nome de Espírito.

Entretanto, em nós o amor procede de dupla causa: ora da natureza corporal e material, o qual muitas vezes é amor imundo, já que por ele a pureza de nossa mente é contaminada; ora da propriedade natural do espírito, como quando amamos as boas coisas inteligíveis, que convêm à razão: tal amor é puro. Já em Deus não há lugar para o amor material. Convenientemente, portanto, denominamos o seu Amor não só Espírito, mas Espírito Santo, sendo que santo denota a sua pureza. É manifesto, contudo, que nada podemos amar com amor inteligível e santo a não ser aquilo que conhecemos em ato pelo intelecto. A concepção do intelecto é o verbo, donde ser necessário que o amor tenha origem do verbo. O Verbo de Deus dizemos ser o Filho, por onde fica claro que o Espírito Santo existe a partir do Filho.

Como, no entanto, o divino inteligir é o seu próprio ser, assim também o amor de Deus é o seu ser; e como Deus sempre intelige em ato, e, inteligindo-se a si mesmo, todas as coisas intelige, assim também sempre ama em ato e ama todas as coisas amando a sua própria bondade. E como o Filho de Deus, que é o seu Verbo, é subsistente na divina natureza, coeterno ao Pai, perfeito e único, assim também é preciso que todas essas coisas sejam afirmadas do Espírito Santo.

Dito isso, podemos considerar que, uma vez que tudo o que subsiste em natureza inteligente é dito pessoa (de acordo com os latinos) e hypóstase (de acordo com os gregos), é necessário dizer que o Verbo de Deus, que denominamos Filho de Deus, é hypóstase ou pessoa; e o mesmo é preciso dizer a respeito do Espírito Santo. A ninguém é duvidoso que Deus, de quem o Verbo e o Amor procedem, seja também subsistente, de modo que possa ser dito hypóstase ou pessoa. Assim, convenientemente, dizemos haver em Deus três pessoas, a saber, a pessoa do Pai, a pessoa do Filho e a pessoa do Espírito Santo. Não dizemos que essas três pessoas são diversas em essência, já que, como foi dito acima, assim como o inteligir e o amar de Deus são o seu próprio ser, assim também o seu Verbo e o seu Amor são a sua própria essência.

Tudo o que se diz absolutamente de Deus outra coisa não é que sua própria essência. Deus não é ou grande ou poderoso ou bom acidentalmente, mas essencialmente; donde não dizemos que as três pessoas ou hypóstases são distintas em Deus por algo absoluto, mas tão somente pelas relações que provêm da processão do Verbo e do Amor. E porque chamamos a processão do Verbo de geração, da geração provêm as relações de paternidade e filiação; a pessoa do Filho distingue-se da pessoa do Pai somente pela paternidade e filiação: todas as outras coisas são predicadas comum e indiferentemente de ambos. Assim como afirmamos que o Pai é verdadeiro Deus, onipotente, eterno e outras coisas semelhantes, assim também é o Filho, e o mesmo deve-se afirmar a respeito do Espírito Santo. Já que o Pai e o Filho e o Espírito Santo não se distinguem na natureza da divindade a não ser tão somente pelas relações, convenientemente não afirmamos que as três pessoas são três deuses, mas professamos existir um só verdadeiro e perfeito Deus.

Nos homens, porém, três pessoas são ditas três homens, não um só homem, porque a natureza da humanidade, que é comum aos três, diferentemente lhes convém segundo a divisão material, que em Deus absolutamente não existe. Segue-se daí que existindo em três homens três humanidades diferentes em número, só uma essência da humanidade se encontra neles. Entretanto, nas três pessoas divinas não existem três divindades diferentes em número, mas é necessário que haja uma única e simples divindade, já que a essência do Verbo e do Amor não é outra que a essência de Deus; e, assim, confessamos, não três deuses, mas um único Deus, por causa da única e simples divindade em três pessoas.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

De rationibus fidei (Santo Tomás de Aquino)

Apresentamos aos caros leitores uma tradução nossa, diretamente do latim, de um opúsculo escrito por Santo Tomás de Aquino, o maior teólogo do séc. XIII. O opúsculo intitula-se De rationibus fidei (Sobre as razões da fé), e presta-se ao esclarecimento sobre os fundamentos da nossa fé católica. A tradução será publicada em várias partes.

Pe. Elílio Júnior

DE RATIONIBUS FIDEI

Capítulo I

O plano do autor:

O bem-aventurado apóstolo Pedro recebeu do Senhor a promessa de que, sobre sua confissão, seria fundada a Igreja, contra a qual as portas do inferno não podem prevalecer. Para que a fé da Igreja a ele entregue permanecesse inviolada contra as portas do inferno, diz aos fiéis de Cristo: venerai o Senhor Jesus em vossos corações, isto é, pela firmeza da fé, por cujo fundamento, colocado no coração, poderemos permanecer seguros contra todas as impugnações ou irrisões dos infiéis. Donde também diz em seguida: estai sempre preparados a dar satisfação a todo aquele que vos pede a razão das coisas da vossa esperança e fé.

Ora, a fé cristã consiste principalmente na confissão da Santíssima Trindade, e especialmente em que se glorie da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois a sabedoria da cruz, como Paulo diz, embora seja estultícia para os que se perdem, para os que se salvam, isto é, para nós, é força de Deus.

Também a nossa esperança em duas coisas consiste: evidentemente naquilo que se espera depois da morte, e no auxílio de Deus, pelo qual somos ajudados nesta vida para alcançar, através das obras do livre arbítrio, a futura bem-aventurança prometida.

Estas, portanto, são as coisas, como afirmas, que são impugnadas e escarnecidas pelos infiéis. Zombam, pois, os sarracenos de que, como dizes, sustentamos que Cristo é Filho de Deus, sendo que Deus não tem esposa; e julgam-nos insanos porque confessamos haver três pessoas em Deus, estimando, por isso, que professamos três deuses. Zombam ainda por que dizemos que Cristo, Filho de Deus, foi crucificado pela salvação do gênero humano: porque se Deus é onipotente, teria podido salvar o gênero humano sem a paixão de seu Filho, teria podido também constituir de tal modo o homem que não pudesse pecar. Censuram também os cristãos porque cotidianamente manducam seu Deus e porque o Corpo de Cristo, mesmo se fosse tão grande como um monte, deveria já estar consumido. Em relação ao estado das almas depois da morte, afirmas que os gregos e os armênios erram, dizendo que as almas até o dia do juízo nem são punidas nem premiadas, mas estão como que em um depósito, porque nem pena nem prêmio devem ter sem o corpo. E, em conformidade com a afirmação de seu erro, alegam que o Senhor no Evangelho diz: Na casa de meu Pai há muitas moradas. Acerca do mérito que depende do livre-arbítrio, afirmas que tanto os sarracenos quanto outros povos atribuem necessidade aos atos humanos em virtude da presciência ou ordenação divina, dizendo que o homem não pode morrer nem pecar a não ser que Deus assim tenha ordenado a seu respeito, e que qualquer pessoa tem seu destino escrito na fronte.

Sobre isso, pedes razões morais ou filosóficas que os sarracenos aceitam. Em vão, pois, seria contrapor autoridades aos que não aceitam autoridades. Querendo satisfazer, então, a tua petição, que parece proceder de um pio desejo, e para que estejas, de acordo com a doutrina apostólica, preparado a dar satisfação a todo aquele que te pede razões, expor-te-ei algumas coisas fáceis, conforme a matéria exige, sobre premissas de que tratei mais amplamente alhures.


Capítulo II

Como se deve disputar com os infiéis:

Quero advertir-te primeiramente sobre isto: nas disputas sobre os artigos de fé contra os infiéis, não te deves esforçar para provar a fé por meio de razões necessárias. Isso derrogaria a sublimidade da fé, cuja verdade não só excede as mentes humanas como também as dos anjos; a verdade da fé é crida por nós como revelada por Deus. Ademais, uma vez que aquilo que procede da Suma Verdade não pode ser falso, a verdade da fé não pode ser impugnada por alguma razão necessária; assim como a nossa fé não pode ser provada por razões necessárias, já que excede a mente humana, de igual modo, por causa de sua verdade, não pode ser refutada por razão necessária. A isto, portanto, deve tender a intenção do disputador cristão: não prove ele a fé, mas a defenda; donde o bem-aventurado Pedro não diz: estai preparados para provar, mas para dar satisfação, de modo que se mostre racionalmente não ser falso o que a fé católica confessa.


Capítulo III

Como a geração em Deus deve ser entendida:

Primeiramente, deve-se considerar que o motivo por que zombam de nós, segundo o qual colocamos Cristo como Filho de Deus como se Deus tivesse esposa, é irrisório. Sendo, pois, carnais, não podem pensar senão nas coisas que são da carne e do sangue. Ora, qualquer sábio pode considerar que não há um só e mesmo modo de geração em todas as coisas, mas que em cada coisa encontra-se a geração segundo a propriedade de sua natureza. Em certos animais, por exemplo, através do acasalamento do macho e da fêmea; nas plantas, pelo crescimento ou germinação, e em outras coisas de outro modo.

Deus, porém, não é de natureza carnal para que exija uma fêmea com quem se unir para a geração da prole, mas é de natureza espiritual ou intelectual, natureza intelectual esta que está acima de todo intelecto.

Deve-se, portanto, entender a geração n’Ele segundo o que convém à natureza intelectual. E por mais que nosso intelecto seja inferior ao Intelecto divino, não podemos todavia falar de outro modo do Intelecto divino senão segundo a semelhança das coisas que encontramos em nosso intelecto. Nosso intelecto, na verdade, ora está em potência, ora em ato. Quando intelige em ato, forma determinado inteligível, que é como que a sua prole, donde é também denominado conceito (concebido - conceptus) da mente. E o conceito, na verdade, é aquilo que é significado pela voz exterior: donde, assim como a voz significante é dita verbo exterior, de igual modo o conceito interior da mente, significado pelo verbo exterior, é dito verbo do intelecto ou da mente. Este conceito de nossa mente, porém, não é a própria essência de nossa mente, mas é certo acidente dela, visto que o nosso inteligir não é o próprio ser de nosso intelecto; de outro modo, o nosso intelecto seria o que inteligisse em ato. O verbo de nosso intelecto, portanto, pode ser dito, segundo certa semelhança, ou conceito ou filho, principalmente quando nosso intelecto intelige a si mesmo, quando, evidentemente, o verbo é certa semelhança do intelecto, a qual procede de sua virtude intelectual, assim como o filho tem a semelhança do pai, procedendo de sua virtude generativa. Todavia, o verbo de nosso intelecto não pode ser dito propriamente filho ou prole, visto que não é da mesma natureza de nosso intelecto. Nem tudo que procede de algo, embora lhe seja semelhante, é dito filho; de outro modo, a imagem de si, que alguém pinta, seria propriamente dita filha. Mas, para que algo seja filho, requer-se que não somente tenha a semelhança daquele de que procede, mas também seja da mesma natureza dele. Visto que em Deus o inteligir não é outra coisa que o seu ser, consequentemente o Verbo que é concebido em seu Intelecto não é algum acidente ou um outro distinto de sua natureza; todavia, tem a relação de procedente de outro referente Àquele a partir de quem existe: isso se dá em nosso verbo.

Mas aquele Verbo divino, além de não ser algum acidente nem alguma parte de Deus, que é simples, nem um outro distinto da divina natureza, é subsistente completo na natureza divina, relacionando-se com outro como dele procedente. Sem isso, pois, o Verbo não pode ser entendido. O que procede assim, segundo o costume da linguagem humana, é denominado filho, porque, procedendo de outro, é-lhe semelhante, subsistindo na mesma natureza com ele. Na medida em que as coisas divinas podem ser denominadas com palavras humanas, denominamos Filho o Verbo do Intelecto divino; Deus, de quem é o Verbo, chamamos de Pai; e a processão do Verbo dizemos que é a geração do Filho imaterial, não carnal como os homens carnais supõem.

Há, porém, ainda outra coisa por que a predita geração do Filho de Deus ultrapassa toda geração humana, seja material, segundo a qual o homem nasce do homem, seja inteligível, segundo a qual um verbo é concebido na mente humana. Em ambos os casos, aquilo que procede por geração encontra-se depois no tempo daquele do qual procedeu. O pai, na verdade, não gera imediatamente desde o princípio de sua existência, mas é preciso que vá do estado imperfeito ao perfeito, no qual pode gerar. Nem, em segundo lugar, o ato de geração se dá de uma só vez; o filho nasce de tal modo que a geração carnal consiste em certa mutação e sucessão. Também, segundo o intelecto, o homem não está apto logo desde o princípio para formar os conceitos inteligíveis, vindo ao estado de perfeição posteriormente. Nem sempre intelige em ato, mas antes está somente em potência e só depois se faz inteligente em ato, e de quando em quando deixa de inteligir em ato, permanecendo o intelecto em potência ou em hábito apenas. Assim, o verbo do homem se encontra depois do homem no tempo e cessa de existir antes do homem. Mas isso é impossível convir a Deus, no qual nem imperfeição nem mutação alguma tem lugar, nem ainda qualquer passagem da potência ao ato, uma vez que Ele é o ato puro e primeiro. O Verbo de Deus é, portanto, coeterno ao próprio Deus.

Há ainda outra coisa pela qual nosso verbo difere do Verbo divino. O nosso intelecto não intelige todas as coisas simultaneamente nem em um único ato, mas por muitos, e por isso são muitos os verbos de nosso intelecto; Deus, porém, intelige todas as coisas simultaneamente e em um único ato, porque seu inteligir não pode ser senão um só, uma vez que é o seu ser: donde se segue que em Deus há somente um só Verbo.

Ademais, outras diferenças devem ser consideradas: o verbo de nosso intelecto não é proporcional à capacidade do intelecto, porque, quando concebemos algo na mente, muitas outras coisas ainda podemos conceber; segue-se que o verbo de nosso intelecto é também imperfeito, podendo nele haver composição, como quando de muitos verbos se faz um verbo mais perfeito, como no caso em que o intelecto concebe uma enunciação ou uma definição de alguma coisa. Mas o Verbo divino é proporcional à virtude de Deus, já que Deus, por sua essência, intelige-se a si mesmo e todas as outras coisas, donde seguir-se que o Verbo que concebe por sua essência, inteligindo a si mesmo e todas as coisas, seja tão imenso quanto a sua própria essência. É perfeito, simples e igual a Deus: tal Verbo denomina-se, pela sobredita razão, Filho de Deus, que confessamos ser da mesma natureza do Pai, coeterno a ele, unigênito e perfeito.

Sobre o modo de estudar (Santo Tomás de Aquino)

Já que me pediste, frei João - irmão, para mim, caríssimo em Cristo -, que te indicasse o modo como se deve proceder para ir adquirindo o tesouro do conhecimento, devo dar-te a seguinte indicação: deves optar pelos riachos e não por entrar imediatamente no mar, pois o difícil deve ser atingido a partir do fácil. E, assim, eis o que te aconselho sobre como deve ser tua vida:

1. Exorto-te a ser tardo para falar e lento para ir ao locutório.
2. Abraça a pureza de consciência.
3. Não deixes de aplicar-te à oração.
4. Ama freqüentar tua cela, se queres ser conduzido à adega do vinho da sabedoria.
5. Mostra-te amável com todos, ou, pelo menos, esforça-te nesse sentido; mas, com ninguém permitas excesso de familiaridades, pois a excessiva familiaridade produz o desprezo e suscita ocasiões de atraso no estudo.
6. Não te metas em questões e ditos mundanos.
7. Evita, sobretudo, a dispersão intelectual.
8. Não descuides do seguimento do exemplo dos homens santos e honrados.
9. Não atentes a quem disse, mas ao que é dito com razão, e isto, confia-o à memória.
10. Faz por entender o que lês e por certificar-te do que for duvidoso.
11. Esforça-te por abastecer o depósito de tua mente, como quem anseia por encher o máximo possível um cântaro.
12. Não busques o que está acima de teu alcance.
13. Segue as pegadas daquele santo Domingos que, enquanto teve vida, produziu folhas, flores e frutos na vinha do Senhor dos exércitos.

Se seguires estes conselhos, poderás atingir o que queres.
Saudações.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Deus no Novo Testamento

No centro do anúncio (kerigma) dos escritos do Novo Testamento está o mesmo Deus de Israel, que agora se mostra de forma inaudita como "Emanuel" (Deus conosco) através da pessoa e atuação de Jesus Cristo, que, por sua vida, morte e ressurreição, garante a todos a beleza da salvação e da plena realização humana na comunhão com Deus, o que desperta em nós "incondicional confiança justamente quando as possibilidades humanas desmoronam"[1]. A partir da perspectiva querigmática pós-pascal, o Novo Testamento procura, através dos evangelhos, reconstituir o seu fundamento, que está na atuação pré-pascal de Jesus.

Jesus não anuncia outro Deus senão Iahweh, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó. A pregação de Jesus pressupõe a experiência de Deus que Israel fez em sua história, recordando explicitamente a profissão de fé característica dos israelitas: "O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor teu Deus de todo coração..."[2]. Com efeito, podemos afirmar: "O Novo Testamento se instaura sobre a concepção da Divindade conhecida no Antigo e adorada como plenitude do ser, de verdade, de bem, origem e fim de todas as coisas"[3]. Estamos, pois, diante do mesmo Deus que atuou pelos patriarcas e profetas.

Entretanto, a partir dessa real continuidade, não ficou impedido que houvesse significativo aprofundamento pela revelação de algo inaudito sobre o mistério de Deus em si mesmo e em relação a nós. Referimo-nos à revelação da paternidade divina, tanto no plano insondável da vida divina (o Mistério trinitário) quanto no plano da Graça (o Mistério da adoção filial). Tal revelação sugere com vigor incisivo o que nos parece ser um dos nomes mais apropriados a Deus: "Deus é amor"[4].

É com freqüência nova e com novo sentido que Jesus chama a Deus de Pai nos evangelhos. Não resta dúvida que esta palavra - Pai - esteve realmente nos lábios de Jesus de modo freqüente e inaudito, integrando o que se convencionou chamar de ipsissima verba Iesu. De fato, a idéia de paternidade divina não é totalmente estranha ao Antigo Testamento e mesmo a outras religiões. O Antigo Testamento a utiliza algumas vezes para qualificar a relação entre Deus e seu povo ou Deus e os justos ou ainda entre Deus e o messias, tendo como base a teologia da Aliança[5]. Em outras religiões, a idéia aparece com conotações míticas, naturistas e panteístas; entre os gregos, com a expressão pai, enuncia-se de modo metafórico o governo divino, de modo que Zeus, o soberano universal, é intitulado o "pai dos deuses e dos homens".

O judaísmo do tempo de Jesus também invocava a Deus como Pai; entretanto, a essa invocação estava sempre associada uma atitude marcada por respeitosa distância, e, assim, procurava-se evitar qualquer confusão com o pai terrestre[6].

Jesus, de modo diverso, valeu-se, no relacionamento com Deus, da maneira como as crianças dirigiam-se a seu pai: Abbá[7] (meu pai, papai), indicando, com isso, a peculiaridade inaudita de sua postura para com Deus, carregada de intimidade e de absoluta confiança.

Jesus, é verdade, "não diminuiu de forma alguma o respeito religioso"[8] devido a Deus reconhecendo-lhe o senhorio universal, mas convidou os seus discípulos a também tratá-lo como Pai[9]. Com isso, Jesus procurou inculcar a bondade de Deus, sua inclinação ao perdão e sua solicitude sempre pronta a atender. Deus supera, de muito, os pais humanos: "Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!"[10]. A paternidade de Deus para com os homens é anunciada através de muitas parábolas, entre as quais se destaca a do Pai misericordioso[11]. "A verdade é que Jesus, mantendo a noção de senhorio divino, a associa - e como a subordina - à do bom Pai: 'Pai... venha a nós o vosso reino', 'não temais... foi do agrado de vosso Pai dar-vos o seu Reino'"[12].

Essa imagem paterna de Deus está estreitamente ligada à mensagem escatológica de Jesus: todos são convidados a procurar em primeiro lugar o Reino de Deus; todo o mais virá por acréscimo. Escolhe-se o Reino optando pelo próprio Jesus, e os que crerem em sua mensagem serão recompensados além do merecido[13]. Deus quer salvar a todos, quer que todos tenham vida e a tenham em abundância[14].

A Revelação neotestamentária completa-se com a revelação do excelso Mistério da vida íntima de Deus, o Mistério da Santíssima Trindade. Deus, embora único, é Pai, Filho e Espírito Santo. Este é o mistério central da fé cristã, o que a distingue das demais religiões monoteístas, sem o qual o entendimento do plano salvífico de Deus, que é Trindade, ficaria comprometido.

A revelação do mistério da Santíssima Trindade é obra do Novo Testamento selado em Cristo Jesus[15]. De fato, o Filho revela o Pai que o enviou e promete o dom do Espírito Santo, o Paráclito, quando tiver regressado ao Pai. Evidentemente, a revelação trinitária no Novo Testamento não se deu de forma sistemática, isto é, não foi enunciada expressamente como depois o seria pela Igreja: "três hipóstases (ou pessoas) e uma só essência (ou substância)". Todavia, há um conjunto de afirmativas e atestações da presença da Tríade divina na história da salvação. O Mistério da vida íntima de Deus manifesta-se-nos no seu atuar na história em vista de nossa salvação.

Em primeiro lugar, vemos, no plano histórico, a atuação de dois Enviados que procedem de Deus: o Filho que, por sua vida, ensinamentos, paixão, morte e ressurreição, revela sua identidade divina; em seguida, o Espírito Santo, presente na Encarnação, no Batismo e na atuação de Jesus, Espírito que é prometido pelo Filho como dom, cuja força impulsiona a primitiva comunidade dos discípulos a testemunhar com destemor a nova e definitiva Aliança selada em Jesus.
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A intimidade de Jesus para com o Pai e sua pretensão inaudita de ser o único a conhecer verdadeiramente o Pai, o que dificilmente poderia ser atribuído à invenção da comunidade dos discípulos, sugere uma relação única com Deus, ultrapassando o plano meramente humano: "Todas as coisas me foram dadas por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar"[16]. Ora, é esse mesmo Jesus, que conhece o Pai como ninguém, que promete o Paráclito para que a obra da salvação tenha seguimento.
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Em segundo lugar, a consciência dos que assistem à manifestação histórica de Deus colocará a pergunta pela realidade de Deus em si mesmo, pergunta que foi sendo respondida de forma gradual e com linguagem nem sempre perfeita[17].

Em síntese, o Novo Testamento fala explicitamente de três Sujeitos divinos na obra da salvação. Três Sujeitos intimamente unidos, mas distintos entre si. A fórmula de Mateus é paradigmática: "Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo"[18]. O monoteísmo do Antigo Testamento é afirmado com toda clareza no Novo Testamento, embora aqui se fale dos Divinos três. A conciliação dos elementos aparentemente contraditórios de tal mistério requisitará o esforço reflexivo da Igreja dos primeiros séculos.

O mistério da Santíssima Trindade é, pois, central para a fé cristã. Não resulta de meras reflexões abstratas, mas, antes, tem seu ponto de partida na autocomunicação de Deus na história salvífica. Sem esse mistério, a fé cristã seria mutilada em suas afirmações fundamentais. É a partir do modo como Deus se revelou na história que ascendemos à consideração do que Deus é em si mesmo. Deus se revelou atuante na história como Pai, Filho e Espírito (Trindade econômica); logo, Deus é em si mesmo Pai, Filho e Espírito (Trindade imanente). Pois ele não se revelaria de maneira distinta do que ele é em si mesmo desde toda a eternidade.
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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

[1] Sattler, Dorothea; Schneider, Theodor. Doutrina sobre Deus. In: Schneider, Theodor (org.). Manual de dogmática. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2002, vol. I, p. 78.
[2] Mc 12,29.
[3] Gomes, Cirilo Folch. Riquezas da mensagem cristã. 2.ed. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 1981, p. 120.
[4] 1Jo 4,8.
[5] "Vós, Iahweh, sois nosso Pai, nosso Redentor. Este é o vosso nome desde os tempos imemoriais. Por que, Iahweh, permitis que andemos errantes, longe de vossas vias, com o coração insensível ao vosso temor?" (Is 63,16).
[6] Deus (NT). In: Bauer, Johannes B (dir). Dicionário bíblico-teológico. São Paulo: Loyola, 2000, p. 104.
[7] Cf. Mc 14,36
[8] [8] Deus (NT). In: Bauer, Johannes B (dir), op. cit., p. 102.
[9] Cf. Mt, 6; Lc 11,1ss.
[10] Lc 11,13.
[11] Cf. Lc 15,11-32.
[12] Gomes, Cirilo Folch, op. cit., p. 123.
[13] Cf. Lc 17,7-10; Mt 20,1-15.
[14] Cf. Jo 10,10.
[15] "Recorda nosso Catecismo no n. 237 que a Trindade é um mistério de fé no sentido estrito, um dos "mistérios escondidos em Deus, que não podem ser conhecidos se não forem revelados por Deus (cf. Vaticano I, DS 3015). Deus deixou, sem dúvida vestígios do seu ser trinitário na obra da Criação e na sua Revelação ao longo do Antigo Testamento; mas, continua nosso Catecismo, a intimidade de seu Ser como Santíssima Trindade constitui um mistério inacessível à pura razão e até mesmo à fé de Israel antes da Encarnação do Filho de Deus e da missão do Espírito Santo. Só com a vinda do Verbo em Jesus de Nazaré recebemos as primeiras insinuações sobre a pluralidade das pessoas em Deus. Garante-nos o evangelista São João que 'a graça e a verdade vieram por intermédio de Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que é Deus, que está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer' (Jo 1,17-18)" (Kloppenburg, Boaventura. A Trindade. O amor em Deus. Petrópolis: Vozes, 1999, p.27-28).
[16] Mt 11,27.
[17] "Este processamento da revelação inclui a tomada de consciência gradual, por parte dos que o assistem e o testemunham, sendo compreensível que, ao interpretá-lo, não possuam desde logo enunciados perfeitos... Mas estas imperfeições de linguagem se explicam a partir do enfoque primariamente histórico ou 'econômico' do mistério, de sua abordagem 'de baixo para cima'; e da necessidade de se afirmar o monoteísmo, exprimindo-se portanto a divindade de Cristo e do Espírito sob o ângulo básico de suas procedências de Deus Pai" (Gomes, Cirilo Folch, op. cit., p. 129).
[18] Mt 28,19.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Deus no Antigo Testamento

A concepção que Israel alcançou de Deus se deu no âmbito da história, não da reflexão filosófica. Foi a experiência da ação de Deus em sua história que revelou o rosto de Deus ao povo, experiência esta que se acha documentada de forma canônica nos livros bíblicos do Antigo Testamento. O conjunto desses livros indica uma evolução que se elaborou durante quase mil anos, e, por isso mesmo, como registro da experiência de Deus que age poderosamente na história de Israel, não se presta a um tratado sistemático ou catecismo sobre Deus. Tal evolução percorre um caminho que vai desde o "Deus da história", experimentado como aquele que age junto de seu povo, ao "Deus cósmico", criador do céu e da terra. No entanto, ao estudioso perspicaz, é possível detectar certos atributos que pretendem dizer qual é o rosto desse Deus que age na história de Israel e manifesta, no percurso mesmo da história, sua identidade.

De acordo com os estratos mais antigos do Antigo Testamento, a experiência de Deus primeiramente se dá como uma experiência familiar: Deus é o Deus dos pais, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Deus escolhe a família para si e mantém relações pessoais com ela e promete-lhe descendência[1]. Entretanto, a experiência decisiva de fé no Antigo Testamento se dá por ocasião da libertação da escravidão do povo hebreu do Egito, da Aliança estabelecida no Sinai e da promessa da terra de Canaã. É nesse acontecimento, a libertação do Egito, a Aliança e a promessa da terra, que Israel experimenta com vigor inédito a ação de Deus em seu favor e se constitui como o povo da Aliança. O nome do Deus que liberta o povo com poder e majestade, é Iahweh[2]. Segundo a tradição javista, o culto a Iahweh remonta aos tempos anteriores ao dilúvio[3]. Pela tradição sacerdotal, Iahweh ter-se-ia dado a conhecer aos patriarcas com o nome de El-Shaddai[4] . Para o texto de Ex 3,12ss, de tradição eloísta, é no momento da libertação egípcia que Deus revela seu verdadeiro nome - Iahweh - pelo qual deseja ser reconhecido doravante pelos israelitas.

Iahweh, ao que tudo indica, segundo os estudiosos, é uma forma primitiva do verbo ser. A tradição o traduziu por Aquele que é. Essa designação, na tradição filosófica, se tornaria a noção mais apropriada que o homem pode aplicar a Deus, no sentido de, por ela, designar o Ser Absoluto, o Ato Puro de existir. Entretanto, certamente a designação de Deus como Iahweh não foi fruto de especulações filosóficas entre os israelitas. Há várias interpretações para o nome: indicaria a solicitude de Deus para com o povo, e, assim, deveria ser traduzido por "Eu sou aquele que é convosco"; indicaria a existência do Deus verdadeiro em contraposição ao nada dos outros deuses; ou mesmo seria um artifício para evitar nomear Deus, pois Deus não se deixa nomear pelos homens, para que o dominem. Como quer que seja, Iahweh indica positividade e concretude, porque está associado à ação divina na libertação de Israel por meio de Moisés, com os atributos divinos de bondade que supõe.

Com os profetas, os atributos de Deus, tais como o poder sobre Israel, sobre outras nações e sobre o mundo inteiro, a misericórdia, a justiça, a santidade, desenvolvem-se. A partir do século VI, por ocasião dos reveses do Exílio, a idéia do Deus único, criador e organizador da matéria afirma-se de vez. Os escritos apocalípticos vétero-testamentários enfatizam a providência de Deus, em cujas mãos está a sorte de todos os povos e o domínio direto sobre todas as coisas.

A fé vétero-testamentária no Deus único, criador do céu e da terra, ao mesmo tempo transcendente e imanente ao mundo, é o resultado da experiência histórica da ação de Iahweh, que, por sua vez, mostra-se, cada vez mais, no decorrer dos acontecimentos, o Soberano dos povos e da natureza, o Princípio último de toda realidade.

Em síntese, podemos dizer que o Antigo Testamento apresenta-nos Deus como único[5], pessoal[6], transcendente, santo, eterno[7], imutável[8], como alguém que ultrapassa os limites corpóreos[9], solícito para com os homens, benevolente, justo e sábio[10]; criador de tudo o que existe, infinito, como o Primeiro e o Último[11], como o Bem e a Beleza inebriante que causa gozo e admiração para quem o conhece e felicidade para quem o serve. Associado à idéia da beleza de Deus, o termo glória (kabod) é freqüentemente usado e designa propriedade exclusiva de Deus, significando a riqueza e a transcendência do divino Ser e o esplendor inebriante e terrificante de suas teofanias[12]. O livro da Sabedoria, partindo da observação da beleza das criaturas, convida a reconhecer a fonte de toda beleza, a Beleza mesma que as criou: "aprendam quanto lhes é superior o Senhor dessas coisas, pois foi a própria fonte da beleza que as criou"[13].

Enfim, percebemos um eixo central da auto-revelação de Deus no Antigo Testamento: transcendente ao mundo, Deus interessa-se por ele em sua ilimitada autodisponibilidade, não para ter mais alguma coisa, mas para que o mundo e o homem sejam e tenham em Deus mesmo a sua plenitude.
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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

[1] Cf. Gn 46,3.
[2] Cf. Ex 3,14.
[3] Cf. Gn 4,26.
[4] Cf. Gn 17,1; Ex 6,2-3.
[5]"Ouve, Israel, Iahweh, nosso Deus, é o único" (Dt 6,4).
[6] Sua personalidade não implica limitação, no sentido de ser uma entre outras pessoas, mas é experienciada como presença do Mistério no âmago da história e da vida das pessoas, Mistério este que é consciência, liberdade, vontade, palavra dirigida.
[7] Cf. Hab 1,12; Dt 32,40; Ex 15,18.
[8] Cf. Sb 7,27; Is 40,8; Sl 102,26-28.
[9] "Mesmo se a Escritura fala, várias vezes, de Deus como se ele tivesse um corpo, membros corpóreos, atribui a Deus coisas que não podem convir a um ser corpóreo: transcendência, eternidade, imutabilidade, onipresença" (Patfoort, A. O mistério do Deus vivo. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 1983, p.43).
[10] Cf. Dt 10,14-15; Sl 116,6; Jr 24,6-7, Ez 11,19-20; Gn 18,25.
[11] Cf. Is 44,6; 48,12.
[12] Cf. Is 6,3-5; Ex 29,43; 33,18.20; 40,34ss.
[13] Sb 13, 3.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Salvemos a liturgia!

O texto abaixo ("Escritora brasileira defende resgate da beleza na celebração da liturgia"), publicado no final de 2007, vai ao âmago da questão sobre o descaso que a liturgia católica tem sofrido nos últimos anos. Mostra a posição de Adélia Prado, reconhecida poetisa mineira, sobre os nossos maus procedimentos litúrgicos. Como enfatiza Adélia, não se percebe que o modo de se comportar diante do Mistério não é o mesmo com o qual nos comportamos na diversão, na recreação, na conversa com os semelhantes etc. O povo é o primeiro a perceber a diferença. No entanto, as práticas litúrgicas dos últimos anos, decorrentes de uma equivocada interpretação da reforma litúrgica promovida pelo Concílio do Vaticano II, não querem ver a diferença, e, em nome de adaptação ao povo, têm feito grandíssimo mal ao mesmo povo.

Bento XVI, quando era ainda o Cardeal Ratzinger, lançou um livro sobre liturgia (
Introdução ao espírito da liturgia. Lisboa: Paulinas, 2001), no qual podemos encontrar valiosíssimas reflexões e orientações. É uma tentativa de ajudar a criar uma nova compreensão litúrgica, após muitos desvarios do pós-concílio. Ratzinger faz aí afirmações muito próximas às de Adélia Prado:

A verdadeira liturgia pressupõe que Deus responde e expõe o modo de ser venerado. Ela inclui, duma certa maneira, algo como ‘nomeação’. Ela não pode ser fruto da nossa fantasia e criatividade – pois assim, seria apenas um grito na escuridão ou simplesmente a afirmação de nós próprios. A liturgia pressupõe algo de concreto diante de nós, algo que se nos revela, indicando o percurso de nossa existência” (p.15; os grifos são nossos).

E, por ocasião das celebrações dos dez anos do Motu Proprio Ecclesia Dei, afirmou de modo bem rotundo:"O Mistério sagrado foi substituído por uma criatividade selvagem".

Padre Elílio de Faria Matos Júnior


Vejamos as afirmações de Adélia, nas quais fizemos alguns grifos para destacar afirmações importantes:



Escritora brasileira defende resgate da beleza na celebração da liturgia

Por Alexandre Ribeiro

APARECIDA, domingo, 2 de dezembro de 2007 (
ZENIT.org).- Ao defender o esmero com as celebrações litúrgicas e a beleza como uma «necessidade vital» que deve permeá-las, a escritora brasileira Adélia Prado afirma que «a missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum».

«A missa é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso», enfatiza.

Poeta e prosadora, uma das mais renomadas escritoras brasileiras da atualidade, Adélia Prado, 71 anos, falou sobre o tema da linguagem poética e linguagem religiosa essa quinta-feira, em Aparecida (São Paulo), no contexto do evento «Vozes da Igreja», um festival musical e cultural.

Ao propor a discussão do resgate da beleza nas celebrações litúrgicas, Adélia Prado reconheceu que essa é uma preocupação que a tem ocupado «há muitos anos». «Como cristã de confissão católica, eu acredito que tenho o dever de não ignorar a questão», disse.

«Olha, gente – comentou com um tom de humor e lamento –, têm algumas celebrações que a gente sai da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar.»

Como um primeiro ponto a ser debatido, Adélia colocou a questão do canto usado na liturgia. Especialmente o canto «que tem um novo significado quanto à participação popular», ele «muitas vezes não ajuda a rezar».

«O canto não é ungido, ele é feito, fazido, fabricado. É indispensável redescobrir o canto oração», disse, citando o padre católico Max Thurian, que, observador no Concílio Vaticano II ainda como calvinista, posteriormente converteu-se ao catolicismo e ordenou-se sacerdote.

Adélia Prado reforçou as observações, enfatizando que
«o canto barulhento, com instrumentos ruidosos, os microfones altíssimos, não facilita a oração, mas impede o espaço de silêncio, de serenidade contemplativa».

Segundo a poetisa, «a palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição».

«Nós não encontramos mais em nossas igrejas o espaço do silêncio. Eu estou falando da minha experiência, queira Deus que não seja essa a experiência aqui», comentou.

«Parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto». «Não há silêncio.
Não havendo silêncio, não há audição. Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério», disse.

De acordo com a escritora mineira (natural de Divinópolis),
«muitos procedimentos nossos são uma tentativa de domesticar aquilo que é inefável, que não pode ser domesticado, que é o absolutamente outro».

«Porque a coisa é tão indizível, a magnitude é tal, que eu não tenho palavras. E não ter palavras significa o quê? Que existe algo inefável e que eu devo tratar com toda reverência.»

Adélia Prado fez então críticas a interpretações equivocadas que se fizeram do Concílio Vaticano II na questão da reforma litúrgica.

«Não é o fato de ter passado do latim para a língua vernácula, no nosso caso o português, não é isso. Mas é que nessa passagem houve um barateamento. Nós barateamos a linguagem e o culto ficou empobrecido daquilo que é a sua própria natureza, que é a beleza.»

«A liturgia celebra o quê?» – questionou –. «O mistério. E que mistério é esse? É o mistério de uma criatura que reverencia e se prostra diante do Criador. É o humano diante do divino. Não há como colocar esse procedimento num nível de coisas banais ou comuns.»

Segundo Adélia,
o erro está na suposição de que, para aproximar o povo de Deus, deve-se falar a linguagem do povo.

«Mas o que é a linguagem do povo? É aí que mora o equívoco», – disse –.
«Não há ninguém que se acerca com maior reverência do mistério de Deus do que o próprio povo».

«O próprio povo é aquele que mais tem reverência pelo sagrado e pelo mistério», enfatizou.

«Como é que eu posso oferecer a esse povo uma música sem unção, orações fabricadas, que a gente vê tão multiplicadas e colocadas nos bancos das igrejas, e que nada têm a ver com essa magnitude que é o homem, humano, pecador, aproximar-se do mistério.»

Segundo a escritora brasileira, barateou-se o espaço do sagrado e da liturgia «com letras feias, com músicas feias, comportamentos vulgares na igreja».

«E está tão banalizado isso tudo nas nossas igrejas que até o modo de falar de Deus a gente mudou. Fala-se o “Chefão”, “Aquele lá de cima”, o “Paizão”, o “Companheirão”.»

«Deus não é um “Companheirão”, ele não é um “Paizão”, ele não é um “Chefão”. Eu estou falando de outra coisa. Então há a necessidade de uma linguagem diferente, para que o povo de Deus possa realmente experimentar ou buscar aquilo que a Palavra está anunciando», afirmou.

Para Adélia Prado, «linguagem religiosa é linguagem da criatura reconhecendo que é criatura, que Deus não é manipulável, e que eu dependo dele para mover a minha mão».

Com esse espírito, enfatizou, «nossa Igreja pode criar naturalmente ritos e comportamentos, cantos absolutamente maravilhosos, porque verdadeiros».

Ao destacar que a missa é como um poema e que não suporta enfeites, Adélia Prado afirmou que a celebração da Eucaristia «é perfeita» na sua simplicidade.

«Nós colocamos enfeites, cartazes para todo lado, procissão disso, procissão daquilo, procissão do ofertório, procissão da Bíblia, palmas para Jesus. São coisas que vão quebrando o ritmo. E a missa tem um ritmo, é a liturgia da Palavra, as ofertas, a consagração… então ela é inteirinha.»

«A arte a gente não entende. Fé a gente não entende. É algo dirigido à terceira margem da alma, ao sentimento, à sensibilidade. Não precisa inventar nada, nada, nada», disse Adélia.

E encerrou declamando um poema seu, cujo um fragmento diz:

"Ninguém vê o cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém”.