Pular para o conteúdo principal

Fé ou crença em milagres?

Fé e crença em milagres são duas coisas diversas, ainda que possam ter pontos de ligação entre si. A fé é o ato voluntário pelo qual em me entrego a Deus, aceitando-o em minha vida. A fé comporta um compromisso com Deus e com os irmãos, uma renovada visão de mundo e uma vida pautada pelos ideias de justiça, amor e misericórdia. A crença em milagres é outra coisa. Em si mesma, diz respeito a admitir como possível uma intervenção extraordinária da divindade no nosso mundo, em geral para livrar alguém de uma aflição ou de um problema.

A fé pode comportar a crença em milagres? Sim, pode, mas o que caracteriza a fé é a aceitação existencial de Deus na vida, que a muda e transforma, como foi dito. O diapasão de quem tem fé é o compromisso com um novo estilo de vida, com o ser sal da terra e luz do mundo, como dizia Jesus. Aqui o milagre pode acontecer e pode até reforçar a fé, mas não é o principalmente procurado. A fé, com efeito, induz a procurar o Reino de Deus e a sua justiça em primeiro lugar.

Para quem não tem fé ou a tem somente em forma ainda imatura, a crença em milagres pode assumir a dianteira. Aqui Deus é visto como aquele que me tira de uma complicação, mas não como quem muda e transforma a minha vida em todas as suas circunstâncias. O procurado é o milagre de Deus, não Deus em si mesmo. A crença em milagres sem a fé devida pode se manifestar como o perfeito reverso da religião. Isso mesmo! Se religião é a submissão à vontade de Deus, a crença em milagres sem a devida fé constitui a artimanha que tenta submeter Deus à vontade do homem.

Em tempos em que milagres são oferecidos nos cultos, nas missas e nas grandes manifestações de “fé”, fica bem refletir sobre o tema com atenção. Como saber se tenho fé ou somente crença em milagres? A primeira coisa a observar é esta: onde está meu principal intento? Quero apenas um milagre para transformar uma situação isolada da vida ou quero conversão para transformar a vida em qualquer situação em que ela se encontre?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Bíblia defende a submissão da mulher ao homem?

  O livro The Sexual Person: Toward a Renewed Catholic Anthropology , de Todd A. Salzman e Michael G. Lawler, aborda a questão da dominação do homem sobre a mulher na Bíblia de forma crítica e contextualizada. Os autores exploram como as Escrituras refletem as normas culturais de suas épocas e argumentam que a tradição cristã deve discernir entre elementos históricos condicionados e princípios universais de moralidade e dignidade humana (8,6). ⸻ 1. A Bíblia defende a dominação do homem sobre a mulher? A resposta, segundo os autores, depende de como se interpreta a Bíblia. Existem textos que podem ser usados para sustentar uma visão hierárquica entre os sexos, mas também há passagens que sugerem uma relação de igualdade e dignidade mútua. O livro analisa essas duas perspectivas dentro do desenvolvimento da teologia cristã. 1.1. A visão subordinacionista Essa perspectiva entende que a Bíblia estabelece uma ordem natural em que o homem lidera e a mulher lhe deve submissão. Os principa...

Caraça

  A Parte I – Caraça do Irmão Lourenço (1770–1819), no livro Caraça: Peregrinação, Cultura e Turismo, de Pe. José Tobias Zico C.M., constitui a narrativa fundacional da história do Caraça, com forte tom memorialista, documental e espiritual. A seguir, apresento um resumo estruturado dessa seção: Parte I – Caraça do Irmão Lourenço (1770–1819) 1. O que é o Caraça? Situado no coração de Minas Gerais, a 1.400 m de altitude, o Caraça é descrito como lugar de silêncio, solidão e santidade, que por 200 anos atraiu pessoas para oração, estudo e convivência. O autor ressalta o impacto histórico e formativo do Colégio, fundado em 1820 e fechado após o incêndio de 1968, mas que ainda mantém seu papel como Santuário e centro cultural. É chamado por Juarez Caldeira Brant de “mais velho que o Império”, contemporâneo de Tiradentes. 2. Quem foi o Irmão Lourenço? Nome religioso: Irmão Lourenço de Nossa Senhora. Origem provável: português, natural de Nagozelo (diocese de Lam...

A morte de Jesus. Visão de Raymond Brown

  A visão de Raymond E. Brown sobre a morte de Jesus é uma das mais respeitadas no campo da exegese católica contemporânea. Brown foi um dos maiores especialistas em literatura joanina e autor da monumental obra The Death of the Messiah (1994, 2 vols.), que analisa de maneira técnico-teológica os relatos da Paixão nos quatro evangelhos. Seu trabalho é uma síntese rigorosa de crítica histórica, análise literária e teologia bíblica, sustentada por fidelidade à fé católica e abertura ao método científico. Abaixo, apresento um resumo estruturado da sua interpretação da morte de Jesus: ⸻ 1. A morte de Jesus como fato histórico e evento teológico Para Brown, a morte de Jesus deve ser compreendida em duplo registro:  • Histórico: Jesus foi condenado e crucificado por decisão de Pôncio Pilatos, sob a acusação de reivindicar uma realeza messiânica que ameaçava a ordem romana.  • Teológico: desde o início, os evangelistas narram a Paixão à luz da fé pascal, como o momento culminant...