quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Memória de Santo Tomás de Aquino

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Homilia proferida por mim na festa de Santo Tomás de Aquino em Missa celebrada no Instituto Cultural Santo Tomás de Aquino, de Juiz de Fora, MG, do qual sou membro.

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

Prezados irmãos e irmãs na santa fé católica,

Ao celebrarmos a memória de Santo Tomás de Aquino, patrono de nosso instituto, desejo reportar-me às palavras que o santo doutor, tomando-as emprestadas de Santo Hilário, escreveu logo no início de uma de suas mais importantes obras, a Summa contra gentes, e que bem representam a profunda espiritualidade do Aquinate e a vida mística que envolvia sua alma. Sim, Santo Tomás, além de filósofo e teólogo, homem das especulações profundas e áridas, era também um santo e um místico, homem da união com Deus. São estas as palavras: “Ego hoc vel praecipuum vitae meae officium debere me Deo conscius sum, ut eum omnis sermo meus et sensus loquatur”, isto é, “Estou consciente de que o principal ofício de minha vida está relacionado a Deus, a quem me sinto obrigado, de modo que toda palavra minha e todos os meus sentimentos dele falem”.

A vida mística, irmãos e irmãs, não deve ser vista como um luxo espiritual reservado a poucos cristãos; ao contrário, deve ser considerada como o termo natural de uma vida batismal fundamentalmente orientada pelas virtudes sobrenaturais da fé, esperança e caridade. Santo Tomás nunca fala de si mesmo ou de sua vida pessoal em seus escritos, que são abundantes. Mas, com a citação acima, deixou transbordar, como que não podendo impedi-lo, algo da rica torrente que irrigava o profundo de sua alma. Santo Tomás, com efeito, não só como estudioso e profundo conhecedor da condição humana, mas também por experiência própria, tinha a clara consciência de que o homem não pode ser autenticamente homem se prescinde de Deus, a fonte de seu ser, de sua vida. 

O apelo à vida mística, fim da existência cristã, encontra hoje muitos desafios. Desde os fins da Idade Média, passando pelo Renascimento, a Revolução Científica, o Iluminismo, a Revolução Industrial, as ideologias de esquerda e de direita, até a vida contemporânea, assinalada pelo relativismo, consumismo e hedonismo, a cultura da nossa civilização ocidental tem se secularizado cada vez mais, e a fé em Deus, em muitas partes, comporta-se como uma chama que corre o risco de apagar-se por não encontrar mais alimento. A secularização da cultura é o movimento de volta para o mundo e para os valores do mundo. Existe um sentido positivo do termo secularização: aquele que reconhece a relativa autonomia das realidades temporais. Mas se se quer afirmar uma autonomia absoluta do mundo, que o desligue definitiva e irrevogavelmente de Deus, seu Criador, então caímos no secularismo, o modo negativo de entender o movimento de volta para o mundo. O mundo e o homem, meus irmãos e irmãs, se gozam de uma autonomia, esta só pode ser relativa, jamais absoluta. Em última análise, a novidade do mundo não está no mundo, mas fora dele, como ensina Santo Tomás. O mundo e o homem são realidades contingentes, cujo ser é recebido d’Aquele que é o próprio Ser subsistente – Ipsum Esse Subsistens

A vida e os escritos do Aquinate, que a Igreja proclamou seu doutor comum – Doctor Communis Ecclesiae -, tem muito a nos ensinar hoje. Se almejamos um autêntico humanismo, não podemos deixar Deus de lado. Há quem diga que quem vive da fé, vive de forma alienada, e distancia-se da realidade. Mas a esses devemos perguntar: que é a realidade? É apenas o mundo material? São apenas as realidades temporais? Não. A realidade que vemos com os olhos da carne não é tudo nem é o mais fundamental. Em virtude do dinamismo de nosso espírito, podemos reconhecer uma realidade transcendente ao mundo e ao próprio homem, realidade fundamental, que é a causa primeira da realidade mundano-humana. Aquele, pois, que encaminha sua vida a Deus não vive fora da realidade; ao contrário, edifica sua vida sobre o fundamento inconcusso da "realidade mais real", a Realidade primeira.

As sórdidas conseqüências da negação de Deus são bem conhecidas: falta de sentido para a vida; relativismo gnosiológico e também moral; disponibilidade da vida humana, pois que o homem passa a ser visto apenas como um ser mundano, considerado fruto do acaso ou das leis cegas da natureza; deficiência metafísica, pois que não se chega à explicação última do ser, contentando-se com as explicações científicas, que apenas dizem “como” as coisas se comportam, não podendo jamais ensaiar uma resposta para a questão das questões, segundo a formulação de Leibniz, vulgarizada por Heidegger: “Por que existe o ente ao invés do nada?”; enfim, sem Deus, o homem e a civilização perdem luz e alimento.

A missão precípua da Igreja nos tempos atuais - e porque não dizer: em todos os tempos? – é, como recentemente recordou Sua Santidade o Papa Bento XVI, abrir aos homens acesso a Deus. Não a qualquer Deus, mas ao Deus que fala por seu Unigênito, Jesus Cristo, de cuja mensagem a Igreja é, por disposição divina, depositária e pregoeira. Devemos encaminhar-nos ao Deus que se deixa encontrar, de maneira singular, nas ações litúrgicas da Igreja. Na belíssima homilia da noite de Natal de 2009, Bento XVI disse: “A liturgia é a primeira prioridade. Todo o resto vem depois”. E convidou a “colocar em segundo plano outras ocupações, por mais importantes que sejam, para nos encaminhar para Deus, para deixar que Ele entre em nossa vida e em nosso tempo”. Aliás, creio que a grande chave interpretativa do pontificado de Bento XVI seja a “primazia de Deus”, primazia que se deve manifestar na ações sagradas da liturgia e também em nossa vida pelo testemunho da fé, da esperança e da caridade.

Deixemos que o Doutor Angélico, neste dia em que celebramos sua memória, inspire-nos atitudes e palavras a fim de que Deus seja de fato a prioridade da nossa vida. Os escritos de Santo Tomás, sua experiência pessoal e, de modo especial, sua intercessão alcancem-nos a graça de sermos, neste mundo secularizado de hoje, testemunhas de que o homem é de Deus e para Deus, o Princípio e o Fim de todas as coisas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Confissão do Papa Paulo VI

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Ao Papa Paulo VI coube dirigir a Barca de Pedro nos difíceis tempos pós-conciliares. Em 1977, numa confissão marcada pela angústia e, ao mesmo tempo, pela confiança em Deus, que jamais abandona a Igreja, disse:

"Há uma grande perturbação, neste momento, no mundo e na Igreja, e está relacionada com a fé. Vem-me agora repetidamente à memória a frase obscura de Jesus no Evangelho de S. Lucas: ´Quando o Filho do homem retornar, encontrará ainda fé sobre a Terra?´ Vem-me à memória que se publicam livros nos quais a fé está em retirada, em alguns pontos importantes, e que o episcopado se cale, não achando estranhos estes livros; isto, segundo minha opinião, é estranho. Releio às vezes o Evangelho do fim dos tempos e constato que, neste momento, emergem alguns sinais deste fim. Estamos próximos do fim? Isto jamais saberemos. É necessário estarmos sempre prontos, mas tudo pode durar ainda muito tempo. O que me impressiona, quando considero o mundo católico, é que, no interior do catolicismo, parece às vezes dominar um pensamento do tipo não católico e pode acontecer que este pensamento não católico, no interior do catolicismo, torne-se amanhã o mais forte. Mas jamais representará o pensamento da Igreja. É necessário que subsista um pequeno rebanho, por menor que seja" (In.: Jean Guitton. Paulo VI Segredo, p. 152-153).

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Papado, princípio e fundamento da unidade da Igreja

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

O Papado é a grande referência visível da Igreja de Cristo. Sua origem é divina e decorre da vontade de Jesus, tal como se expressou no testemunho da Escritura (cf. Mt 16,16-19; Lc 22, 31s.; Jo 21,15-17) e da Tradição, desde os primórdios da existência cristã. Ao longo da história da Igreja, o primado efetivo do Bispo de Roma, Sucessor do Apóstolo Pedro, foi conhecendo ocasiões para se manifestar como o "perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade quer dos Bispos quer da multidão dos fiéis" (Concílio Vaticano II, Lumen gentium, 23).

Como princípio e fundamento da unidade da Igreja, o Papado é, em última análise, o antídoto, deixado por Jesus, contra a divisão dos fiéis, divisão que, por causa do pecado, sempre está a ameaçar a Igreja, sem, contudo, jamais conseguir destruir a unidade com que Cristo dotou a sua Esposa. O protestantismo, por carecer de um ponto de referência visível, tem como destino dividir-se e subdividir-se ao infinito. O "livre exame" da Escritura, um dos pilares do protestantismo, permite que cada grupo de crentes ou cada crente em particular tire suas próprias conclusões do texto sagrado, conclusões nem sempre em harmonia com a interpretação de outros grupos ou outros crentes. Vê-se, assim, como se faz necessária uma autoridade divinamente assistida para, em caso de controvérsias na interpretação das fontes da fé, propor a legítima doutrina de Cristo. A comunhão com o Papa é, pois, em última análise, a garantia de que a mensagem de Jesus mantém ainda hoje todo o seu frescor e originalidade para nós. Jesus não deixou ao vento a sua doutrina, mas a confiou à sua Igreja, que tem a Pedro como chefe visível e referência fundamental.

Abaixo, elencamos alguns testemunhos da Tradição a respeito do primado da Igreja de Roma sobre toda a Igreja:

a) Diante da controvérsia sobre a data da Páscoa entre ocidentais e orientais, o Bispo São Policarpo foi a Roma defender a causa dos orientais junto ao Papa Aniceto em 154. Foi o Papa São Vítor (189-198) quem, finalmente, depois de sérias controvérsias, exigiu que os fiéis da Ásia Menor observassem o calendário pascal da Igreja romana, cuja tradição remontava aos Apóstolos Pedro e Paulo.

b) Santo Ireneu (+202) afirmou a proeminência da Igreja de Roma nestes termos: "Com tal Igreja, por causa de sua peculiar preeminência, deve estar de acordo toda a Igreja, porque nela foi conservado o que a partir dos Apóstolos é tradição" (Adv. Haer. III,2).

c) Significativa é a fé dos Bispos Máximo e Urbano, professada por ocasião do seu retorno à comunhão com o Papa São Cornélio em 251, depois de renunciarem ao cisma de Novaciano: "Sabemos que Cornélio é Bispo da Santíssima Igreja Católica, escolhido por Deus todo-poderoso e por Cristo Nosso Senhor. Confessamos o nosso erro... Todavia nosso coração sempre esteve na Igreja; não ignoramos que há um só Deus e Senhor todo-poderoso, também sabemos que Cristo é o Senhor...; há um só Espírito Santo; por isso deve haver um só Bispo à frente da Igreja Católica (Denzinger-Schönmetzer Enquiridion 108 [44]).

d) O Papa Santo Estêvão I (254-257) recorreu  a Mt 16,16-19 para manifestar a autoridade do Sucessor de Pedro contra o ensinamento dos teólogos do norte da África, que afirmavam a necessidade de batizar de novo aqueles que haviam recebido o Batismo dos hereges. O Papa explicou-lhes que não se deve repetir o Batismo uma vez ministrado por hereges, porque não são os homens que batizam, mas é Cristo quem batiza.

e) O recurso a Mt 16,16-19 tornou-se frequente no século IV. No início do século V, o Papa Inocêncio I interveio na controvérsia pelagiana, após o que Santo Agostinho assim se expressou num de seus sermões: "Agora que vieram as disposições da Sé Apostólica, o litígio está terminado (causa finita est)" (serm. 130,107).

f) No Concílio de Calcedônia (451), lida a carta do Papa São Leão Magno, os Padres exclamaram: "Esta é a fé dos Pais, esta é a fé dos Apóstolos; Pedro falou pela boca de Leão".

g) O Papa Gelásio I, em 493 e 495, declarou que a Sé de Pedro tinha o direito de julgar as demais sedes episcopais, ao passo que ela mesma não podia ser julgada por nenhuma. Esse princípio entrou para o Direito através de sua formulação no Sínodo de Palmar (501): Prima Sedes a nemine judicatur - "A Sé Apostólica não pode ser julgada por ninguém".

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Papa à Congregação para a Doutrina da Fé

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Papa espera a união com a FSSPX e agradece a congregação pelo trabalho com os anglicanos 
(Tradução do inglês: Padre Elílio)

Cidade do Vaticano, 15 jan. 2010 / 11h41 (CNA). Em um discurso aos membros da Assembleia Plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, nesta tarde de sexta-feira, o Papa Bento XVI falou da unidade que deseja ver na Igreja católica. Ele expressou a esperança de uma “plena comunhão” com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) e da adesão de anglicanos “à verdade recebida de Cristo”.

“A unidade é primeira e principalmente a unidade da fé, transmitida pela sagrada tradição, cujo primeiro guardião e defensor é o sucessor de Pedro”, disse o Papa ao presidente do dicastério, O cardeal Willian Levada, e aos demais membros presentes.

“O Bispo de Roma, com a participação da Congregação, deve sempre proclamar 'Dominus Iesus' – Jesus é o Senhor”, disse o Papa Bento, que explicou que isso deve ser feito para que a Verdade que é Cristo continue a brilhar com toda a sua grandeza e ressoar, íntegra e puramente, para todos os homens, de modo que possa haver um só rebanho ao redor de um só Pastor”.

Assim, ele acrescentou, o objetivo de um “testemunho comum de fé de todos os cristãos constitui a prioridade da Igreja em todos os períodos da história, a fim de guiar todos os homens para Deus”.

“Nesse espírito, eu confio particularmente no desempenho de vosso dicastério para superar os problemas doutrinais que ainda persistem, em vista de alcançar a plena comunhão da FSSPX com a Igreja”.

O Papa também dirigiu palavras de agradecimento aos membros do dicastério pelo seu incansável trabalho em prol da “plena integração de grupos e de fieis individuais dantes anglicanos na vida da Igreja católica”.

O Papa ajuntou que “a adesão fiel desses grupos à verdade recebida de Cristo e apresentada pelo Magistério da Igreja não é, de maneira alguma, contrária ao movimento ecumênico; revela antes seu último escopo, que consiste em alcançar a plena e visível comunhão dos discípulos do Senhor” (grifos do tradutor).

Confiar e trabalhar. Sobre a tragédia no Haiti

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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Diante do terremoto que sacudiu o Haiti, provocando milhares de mortes e prejuízos incalculáveis, a nossa reação de cristãos deve ser pautada pela solidariedade efetiva para com os sofredores e pela confiança em Deus. "Não é hora para desânimo", disse o Cardeal Arns referindo-se à morte de sua irmã, a benemérita Dra. Zilda Arns, provocada pelo desastre.

O mundo da natureza é regido por leis próprias. Deus, na verdade, deu autonomia à natureza e a seu funcionamento. A causa do terrível terremoto pode, assim, ser explicada pelo recurso às leis naturais. Aliás, por se falar em natureza, é necessário aprender a cuidar melhor do meio ambiente, o nosso lar comum neste mundo. Ainda que, no caso do Haiti, não haja ligação entre a interferência humana no mundo natural e o terremoto, em muitos casos a natureza pode se mostrar "irritada" em virtude abusos do homem.

Entretanto, mesmo gozando da autonomia que lhes é própria, as leis da natureza, bem como nossa história coletiva e particular, estão, em última análise, nas mãos de Deus. E Deus, conforme ensinava sabiamente Santo Agostinho, jamais permitiria o mal se não pudesse dele tirar um bem maior. Confiemos!

Em termos bem concretos, nossa atitude, num momento dramático como este, não deve ser a de querer decifrar os insondáveis desígnios reservados à história, mas, sim, a atitude de ajudar efetivamente os que sofrem, confiando sempre em Deus. Confiar como se tudo dependesse de Deus e trabalhar como se tudo dependesse de nós - eis o grande princípio norteador da vida cristã.

Obs.: Dom Gil, Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora, determinou que seja feita, em todas as paróquias da arquidiocese, nas Missas dos dias 23 e 24 de janeiro, uma coleta especial em favor do povo do Haiti. Colaboremos! Dom Gil celebrou, no dia 14 de janeiro, na Catedral, uma Missa pelas vítimas do terremoto, de modo particular pelo descanso eterno da Dra. Zilda Arns, a quem expressamos nosso reconhecimento pela fé que demonstrava e pela obra social que desenvolvia.

O "Plano Nacional de Direitos Humanos" e o aborto

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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

O III Plano Nacional de Direitos Humanos, anunciado pelo presidente Lula no final do ano passado, tem gerado polêmicas, entre outras coisas, porque favorece a prática do aborto. Em sua versão original, o texto do plano fala de "autonomia" da mulher em relação ao próprio corpo e recomenda que o Congresso altere o Código Penal a fim de descriminalizar a prática do aborto. Um verdadeiro absurdo!

Posicionar-se contra o aborto provocado é, antes do mais, uma questão de humanidade, Como um plano de direitos humanos pode querer favorecer uma das maiores desumanidades, o aborto? Que contradição! Coisa digna de um mundo que nega Deus e também a lei moral natural que Ele inscreveu no profundo das consciências. Seguisse apenas a voz da consciência moral, o homem não chegaria a barbaridade tão grande!

Não há nada que possa justificar o aborto, porque nada pode justificar o assassinato, frio e calculado, de uma vida humana inocente. A Igreja protestou contra a disposição do plano, como protestará sempre quando estiver em causa uma vida humana inocente.  E o fez em nome da razão e da dignidade nativa do homem, não só da fé.

A gestante talvez possa reivindicar para si "autonomia" - e devemos lembrar que liberdade para o mal é uma falsa liberdade ou falsa autonomia - em relação ao próprio corpo, mas nunca em relação ao corpo e à vida que está no seu ventre. Trata-se de uma outra pessoa com direito inviolável à vida.

Mesmo que o governo reveja o texto sobre o aborto, promovendo-o apenas genericamente e por questões de saúde pública, devemos protestar. O aborto provocado não é lícito nunca! E a saúde pública de modo algum será beneficiada pela aprovação de um crime, que, ademais, deixa marcas negativas profundas na saúde psíquica da mãe que o pratica.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Papa volta a celebrar "ad orientem"




Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Bento XVI voltou a celebrar a Santa Missa, na forma ordinária do Rito Romano, posicionado ad orientem (em direção ao Senhor, simbolizado pelo sol nascente). Aconteceu no último dia 11 de janeiro. Assim, ao celebrar versus Deum, Bento XVI reforça a tese de que a reforma litúrgica pedida pelo Concílio Vaticano II não implica, de maneira alguma, uma ruptura com a tradição, de modo que ficasse proibida a orientação do sacerdote ad orientem na oração litúrgica. Celebrar ad orientem, como a Igreja fez por séculos e séculos, não está proibido, e pode expressar, com muita clareza, a centralidade de Deus no culto litúrgico. Foi com este mesmo espírito, contrário a qualquer ruptura, que Bento XVI, pelo Motu proprio Summorum Pontificum, liberou para toda a Igreja a celebração da Santa Missa na forma antiga, jamais ab-rogada, segundo a edição do Missal de 1962. Veja aqui um artigo que já publicamos neste blog sobre a questão da orientação do sacerdote na oração liturgica.

A "progressista" Escola de Bologna, liderada por Alberigo, juntamente com uma grande leva de teólogos, entende o Concílio Vaticano II sobretudo como um evento de ruptura e de descontinuidade na história da Igreja e tende a considerá-lo como o "super-concílio", que teria relativizado tudo o que lhe é anterior. Alguns chegam a dizer algo gravíssimo: que o concílio teria mudado substancialmente o que a Igreja ensinava antes. Mas os Papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI sempre negaram que o concílio fosse um evento de ruptura. Alíás, nenhum concílio tem autoridade para mudar a fé da Igreja: "Os Padres não tinham tal mandato e ninguém lhos tinha dado; ninguém, afinal, podia dá-lo porque a constituição essencial da Igreja vem do Senhor e nos foi dada para que pudéssemos chegar à vida eterna e, partindo desta perspectiva, conseguimos iluminar também a vida no tempo e o próprio tempo" (Bento XVI à Cúria Romana, 22/12/2005).

Vejamos o que Ratzinger escreveu sobre a orientação da oração na liturgia:
"Sobre a orientação do altar para o povo, não há sequer uma palavra no texto conciliar. Ela é mencionada em instruções pós-conciliares. A mais importante delas é a Institutio Generalis Missalis Romani (Introdução Geral ao Missal Romano), de 1969, onde, no número 262, se lê: “O altar maior deve ser construído separado da parede, de modo a que se possa facilmente andar ao seu redor e celebrar, nele, olhando na direção do povo [versus populum]”. A introdução à nova edição do Missal Romano, de 2002, retomou esse texto à letra, mas, no final, acrescentou o seguinte: “Isso é desejável sempre que possível”. Esse acréscimo foi lido por muitos como um enrijecimento do texto de 1969, no sentido de que agora haveria uma obrigação geral de construir - “sempre que possível” - os altares voltados para o povo. Essa interpretação, porém, já havia sido repelida pela Congregação para o Culto Divino, que tem competência sobre a questão, em 25 de setembro de 2000, quando explicou que a palavra “expedit” [é desejável] não exprime uma obrigação, mas uma recomendação. A orientação física deveria - assim diz a Congregação - ser distinta da espiritual. Quando o sacerdote celebra versus populum, sua orientação espiritual deveria ser sempre versus Deum per Iesum Christum [para Deus, por meio de Jesus Cristo]. Sendo que ritos, sinais, símbolos e palavras nunca podem esgotar a realidade última do mistério da salvação, devem-se evitar posições unilaterais e absolutizantes a respeito dessa questão. Esse esclarecimento é importante, pois deixa transparecer o caráter relativo das formas simbólicas externas, opondo-se, assim, aos fanatismos que infelizmente nos últimos quarenta anos não tiveram pequena freqüência nos debates em torno da liturgia. Mas, ao mesmo tempo, ilumina também a direção última da ação litúrgica, nunca totalmente expressa nas formas exteriores, e que é a mesma para o sacerdote e para o povo (voltados para o Senhor: para o Pai, por meio de Cristo no Espírito Santo)". (Joseph Ratzinger, do Prefácio ao livro de Uwe Michael Lang, “Conversi ad Dominum”).

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ideologia laicista no Brasil?


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Padre Elílio de Faria Matos Júnior
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O anunciado "Plano Nacional de Direitos Humanos" tem como objetivo, entre outras coisas que merecem revisão, “desenvolver mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União”. Trata-se de um gesto de afronta às raízes históricas e culturais do Brasil, que nasceu e cresceu sob o signo da fé cristã e católica. É uma negação das raízes da nossa identidade brasileira.

Esse princípio intolerante do tal plano do governo abre precedentes perigosos, que poderão levar, no futuro, à proibição de símbolos religiosos em qualquer estabelecimento público, como nas casas comerciais, bem como proibir as pessoas que tratam com o público de usar símbolos que expressam sua fé. Será que os monumentos e praças públicas também um dia terão de ser destruídos por trazerem símbolos da fé que forjou a identidade brasileira?

O Estado, mesmo sendo laico, não pode se submeter a uma ideologia laicista. Não nos esqueçamos de que o laicismo é também uma religião, a religião do antropocentrismo moderno. É ingenuidade pensar que o laicismo seja neutro. Confira aqui um artigo esclarecedor sobre a ideologia laicista.

No vídeo acima, o Papa Bento XVI condena a visão distorcida da laicidade do Estado. Não podemos nos calar, pois que, se uma minoria impuser, ainda que aos poucos, sua ideologia laicista sobre a maioria religiosa, graves serão as consequências para todos nós brasileiros, que temos uma história e acreditamos em Deus.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Um novo movimento litúrgico

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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

O Cardeal Antônio Cañizares, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, concedeu uma entrevista muito interessante ao vaticanista Paolo Rodari. Confira aqui. O Cardeal, entre outras coisas, fala da necessidade de fazer nascer na Igreja um novo movimento litúrgico. Aliás, Bento XVI, quando ainda era o Cardeal Ratzinger, publicou um livro – Introdução ao espírito da liturgia – no qual expressa o seu desejo de que na Igreja aconteça um novo movimento litúrgico. Assim, vê-se bem a comunhão de ideias e propósitos que une o Cardeal Cañizares a Bento XVI.

A necessidade de um novo movimento litúrgico se impõe aos tempos atuais porque, hoje talvez mais do que nunca, a autêntica sensibilidade litúrgica corre o sério perigo de esvair-se da consciência dos fiéis em geral. Ratzinger, no seu Introdução ao espírito da liturgia, diz que o tesouro litúrgico da Igreja assemelha-se, nos tempos atuais, a um afresco que corre o risco de desaparecer em virtude da afluência agressiva daqueles que frequentemente o tocam com mãos insensíveis. O afresco, para ser protegido, não pode, evidentemente, ser escondido ou distanciado do Povo de Deus, mas é urgente criar meios para protegê-lo de uma agressividade descabida. E o grande meio de protegê-lo consiste em impulsionar, em toda a Igreja, na hora presente, um verdadeiro movimento litúrgico que nos torne mais conscientes do riquíssimo tesouro da liturgia e, assim, mais aptos a celebrar o culto divino como convém e a acolher a “vida” que Deus nos comunica por meio das ações litúrgicas da Igreja, Esposa de Cristo.

Bento XVI tem provocado, como pode, o tão almejado novo movimento litúrgico, sobretudo com seu exemplo. O modo de o Papa celebrar, a sua piedade e reverência para com os sagrados mistérios, a reivindicação por palavras e gestos da centralidade de Deus no culto, o resgate de signos litúrgicos pertencentes à rica tradição da Igreja, a colocação do crucifixo no centro do altar etc, tudo isso tem já causado uma boa impressão em bispos e padres que, interiormente robustecidos, procuram seguir os passos do Vigário de Cristo na terra em sua luta contra a secularização da liturgia.

Na belíssima homilia da noite de Natal, Bento XVI disse: “A liturgia é a primeira prioridade. Todo o resto vem depois”. E convidou a “colocar em segundo plano outras ocupações, por mais importantes que sejam, para nos encaminhar para Deus, para deixar que Ele entre em nossa vida e em nosso tempo”. Creio que a grande chave interpretativa do pontificado de Bento XVI seja a “primazia de Deus”, primazia que se deve manifestar, antes de tudo, na ações sagradas da liturgia.

Vejam-se alguns trechos da entrevista do Prefeito da Congregação para o Culto Divino:

“Só uma Igreja que viva da verdade da liturgia será capaz de dar o único que pode renovar, transformar e recriar o mundo. Deus; só Deus e sua graça. O mais próprio da liturgia é a presença de Deus. A liturgia é obra salvífica e regeneradora de Deus, comunicação e participação de seu amor misericordioso, adoração, reconhecimento de Deus. É o que simplesmente nos pode salvar”.

“Não podemos esquecer-nos de que a reforma litúrgica e o pós-concílio coincidiram com um clima cultural marcado ou dominado intensamente por uma concepção do homem como “criador”, o que dificilmente está em sintonia com uma liturgia que é, sobretudo, ação de Deus e prioridade de Deus, direito de Deus e adoração de Deus, e também tradição que recebemos, aquilo que nos foi dado para sempre”.

“A liturgia, nós não a fazemos; não é nossa obra, mas de Deus. A concepção do homem “criador” conduz a uma visão secularizada de tudo, em que Deus, com freqüência, não tem lugar. A paixão pela mudança e a perda da tradição ainda não foram superadas”.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Os cristãos sejam testemunhas da fé sem medo e sem respeito humano: Bento XVI à Esquadra de Segurança Pública junto do Vaticano

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Bento XVI convida à fortaleza e coerência na fé e a não ter receio ou respeito humano em manifestá-la. Fonte: Rádio Vaticano
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(8/1/2009) Depois do encontro desta quinta feira com os carabineiros, hoje Bento XVI recebeu na Sala Clementina do Palácio Apostólico os dirigentes e agentes da Esquadra de Segurança Publica que actuam na Praça de S. Pedro e zonas adjacentes á Cidade do Vaticano. Presente no tradicional encontro de inicio de ano com o Papa também o Chefe da Policia António Manganelli.

No seu discurso Bento XVI agradeceu –lhes antes de mais pelo serviço prestado pela segurança dos peregrinos e a tutela da missão do Papa. Um serviço escondido e cheio de sacrifícios, mas particularmente importante, para o desempenho do ministério do Pontífice.

De facto, ele permite o clima de tranquila serenidade que possibilita a todos aqueles que vêem visitar o centro da Cristandade a possibilidade de uma autentica experiencia religiosa em contacto com testemunhos fundamentais da fé cristã, como o tumulo o apostolo Pedro,as relíquias de tantos Santos e os túmulos de numerosos Pontífices, amados e venerados pelo povo cristão.

Trata-se de uma maneira particular de servir o Senhor- afirmou o Papa – quase uma maneira de lhe preparar o caminho para que a experiencia vivida junto do centro da Cristandade represente para cada peregrino uma ocasião de encontro com o Senhor, que muda a vida.

Daqui o convite conclusivo a ser testemunhas autenticas de Cristo.

O trabalho que sois chamados a desempenhar possa tornar-vos cada vez mais fortes e coerentes na fé e a não ter receio ou respeito humano em manifestá-la no âmbito das vossas respectivas famílias, do vosso trabalho e onde quer que vos encontreis.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Jesus de Nazaré: manifestação da Beleza entre nós


Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Jesus de Nazaré, afirma a fé católica, é o Verbo de Deus encarnado[1]. A segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumiu a natureza humana do seio virginal de Maria Santíssima sob a ação do Espírito Santo, de modo que a humanidade do Filho de Deus tornou-se o sacramento por excelência do Deus vivo e da Beleza infinita entre nós. Jesus é a manifestação definitiva de Deus na história. Os primeiros concílios da Igreja definiram, diante de interpretações errôneas do mistério de Jesus, o realismo da encarnação do Verbo divino: Jesus possui duas naturezas distintas, a divina e a humana, unidas sem confusão e sem divisão na única pessoa do Verbo eterno[2].

Ele, e somente ele, revela Deus ao homem e o homem a Deus. "Por isso, nele o cristianismo e a Igreja têm não só sua origem, mas também seu centro e fundamento permanentes: 'ninguém pode colocar outro fundamento' (1Cor 3,11; cf. Mc 12,10s)."[3] O evento Jesus Cristo, com efeito, situa-se no horizonte das promessas de salvação do Antigo Testamento. De acordo com as afirmações do Novo Testamento, Jesus é o cumprimento das antigas profecias. Desse modo, Jesus, plenitude da revelação, é o centro mesmo da Sagrada Escritura e a chave de sua interpretação.

Vê-se, pois, que o fundamento da fé cristã não é uma idéia abstrata, mas uma Pessoa, a Pessoa do Verbo encarnado. O sábio plano salvífico de Deus respeitou a historicidade do homem e sua natureza noo-psico-somática, porquanto Deus mesmo apresentou-se na história e de forma visível e bem adaptada às condições humanas.

A sede de beleza que nos habita encontra no evento Jesus Cristo a sua explicação. Nossa sede de beleza não é vã, e Jesus Cristo é a "água viva"[5] a jorrar para a vida eterna, água que nos sacia para além de nossas expectativas. Ele nos revela a Beleza infinita e nos convida à comunhão com a felicidade completa e eterna do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

A encarnação do Verbo de Deus é a manifestação por excelência da glória e beleza divina no mundo criado; manifestação essa, deve-se dizer, não necessária, isto é, livre. Na vida íntima de Deus, o Verbo já é desde toda a eternidade o esplendor da glória do Pai. A encarnação é a expressão amorosa e livre ad extra do esplendor, que, desde todo o sempre, constitui a vida de Deus em sua intimidade. Essa manifestação histórica de Deus em Jesus está em consonância com o que se sabe do Deus bom, "o único bom"[6]. Além de criar e de falar aos homens pela obra da criação e pelos profetas, Deus quis falar-nos "por seu Filho"[7].

Jesus Cristo manifesta e comunica o conhecimento de Deus, que é alegria e felicidade eternas. O evangelho de João enfatiza o júbilo/deleite de Jesus Cristo. É a plenitude da alegria (3,29) que Jesus deseja compartilhar com seus discípulos (15,11); ela vai transformar a tristeza deles em alegria (16,21). Jesus faz alusão à alegria do parto, de uma nova vida (16,22). Ele promete a alegria plena que ninguém pode nos tirar (16,22).[8]

Deus, certamente, poderia valer-se de outros modos para dirigir-se ao homem e elevá-lo à comunhão consigo, salvando-o da lama do pecado. No entanto, quis comunicar-se de modo inefável, sublime e expressivo por excelência do amor; quis comunicar-se em Cristo, no qual "habita corporalmente a plenitude da divindade"[9].


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1] Diz o Símbolo de Nicéia: "... Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado não criado, consubstancial ao Pai, por quem foram feitas todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra; que por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou e se fez homem ..." (COLLANTES, Justo. A Fé Católica. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 2002, n. 4.001). [2] Cf. o que definiu o Concílio de Calcedônia (COLLANTES, Justo. A Fé Católica. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 2002, n. 4.017). [3] Klessler, Hans. D. Cristologia. In: Schneider, Theodor (org.). Manual de dogmática. Petrópolis: Vozes., p. 220. [5] Cf. Jo 4,14. [6] Mt 19,17 [7] Hb 1,1. [8] Navone, John. Por uma teologia da beleza: São Paulo: Paulus, p. 45-46; [9] Cl 2,9.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Convite ao eclesiocentrismo

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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

O Cardeal Giacomo Biffi, arcebispo emérito de Bologna, faz um convite insuportável aos ouvidos que se consideram avançados e atualizados em matéria teológica: trata-se de um convite ao eclesiocentrismo. O quê? Isso mesmo. Um convite ao eclesiocentrismo. É o que podemos ler, estudar e meditar em seu livro sobre eclesiologia - La Sposa chiacchierata: invito all’ecclesiocentrismo -, que ganhou uma tradução portuguesa sob o título Para amar a Igreja. Belo Horizonte: Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém do Pará / Editora O Lutador, 2009.
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O motivo que leva o competente teólogo e zeloso cardeal e bispo da Igreja Giacomo Biffi a fazer um convite assim tão «desatual» é o seu amor pela verdade revelada em Cristo. A teologia para Biffi não se deve ocupar com discursos divagantes sobre hipóteses humanas, não deve fazer o jogo do «politicamente correto», mas deve, isto sim, contemplar a «res», isto é, a realidade que corresponde ao desígnio do Pai, a sua verdade. E com relação à verdade, tão impugnada por nossa cultura relativista e niilista, Biffi, com a visão e profundidade de um homem que sabe cultivar a interioridade da alma humana, assegura: «A verdade não é um luxo: de algum modo, cada um precisa chegar a ela agora, nestes poucos anos que nos são dados».[1] A caridade, que deve ser o princípio do agir cristão, não é de modo algum alheia à verdade, de modo que podemos dizer que «o grau mínimo do amor é justamente a homenagem incondicional à verdade».[2]

Ora, na perspectiva da teologia que busca compreender e contemplar a verdade sobre o desígnio do Pai, deve-se dizer que «não é exagero considerar que a eclesiologia é a pedra angular mais evidente e mais imediata da ortodoxia cristã e da qualidade de uma teologia: na concepção que se tem da Igreja vem a refletir-se a concepção que se tem de Jesus Cristo, do seu desígnio salvífico, da imagem do homem e, portanto, do próprio método teológico».[3] Poderíamos mesmo afirmar: «Dize-me qual é a tua concepção de Igreja, e eu te direi que tipo de cristão és».

Giacomo Biffi, logo de início, esclarece que rejeita a «eclesiolatria», isto é, a concepção segundo a qual a Igreja seria pensada e «adorada» como sede independente e autônoma da verdade ou como causa primeira de nossa salvação. Tal concepção é manifestamente errônea e, como tal, nunca foi ensinada pelo magistério eclesiástico. A Igreja, na verdade, deve ser comparada à lua, que recebe do Sol, que é Cristo, toda sua luminosidade. «A Igreja – ensina Santo Ambrósio - refulge não pela própria luz, mas pela luz de Cristo, e toma o seu esplendor do Sol da justiça».[4] Se «eclesiocentrismo» significa «eclesiolatria», não há espaço para ele numa autêntica teologia cristã, pois que «não existe na Igreja nada de santo, nada de positivo, nada de qualquer forma apreciável que seja autonomamente seu: tudo nela derivou do Senhor Jesus, tudo é reflexo da beleza e da plenitude do único Salvador».[5]

Não haveria, porém, um correto entendimento da palavra «eclesiocentrismo»? O Cardeal Biffi diz que sim, e mostra o porquê. Cristo, na verdade, é quem deve estar no centro, pois que é o único Salvador e Mediador entre Deus e os homens. É o centro da criação, pelo qual e no qual «foram criadas todas as coisas nos céus e na terra» (Cl 1,16) e «reconciliadas» (Cl 1,20) Deve-se, pois, afirmar sem titubeios o «cristocentrismo», no sentido de reconhecer «na humanidade do Filho de Deus encarnado o princípio objetivo (ou melhor, ontológico) da criação inteira, em todos os seus níveis e dimensões».[6] Mas o «Christus totus» é o Cristo acompanhado de seu corpo místico, que é a Igreja. Cristo sem sua Igreja, que é a parcela do mundo atingida pela renovação da graça, é um truncamento pernicioso. Ele é «a cabeça do corpo da Igreja» (Cl 1, 18). Desse modo, se se compreende bem o cristocentrismo, compreende-se também como a Igreja possa e deva ocupar uma «relativa centralidade».[7]

Os que rejeitam o eclesiocentrismo ou a relativa centralidade da Igreja, explica Biffi, rejeitam-no não para afirmar a centralidade de Cristo, que é sempre inseparável de sua Igreja, mas para sustentar que o «mundo» é que deve ocupar a centralidade e ser posto como realidade primordial em relação à Igreja. A rejeição do eclesiocentrismo baseia-se, no fundo, numa «cosmolatria», numa concepção que exalta o mundo e diminui a Igreja. O princípio teológico clássico, nem sempre bem entendido, segundo o qual «fora da Igreja não há salvação» (Concílio do Latrão IV), é facilmente substituído por um outro, julgado mais moderno e atual, que assim reza: «fora do mundo não há salvação» (E. Schillebeeckx).

Com efeito, o eclesiocentrismo bem entendido é a alternativa ortodoxa a toda e qualquer «cosmolatria», pois que é incompatível com toda «exaltação» do mundo. O eclesiocentrismo é hoje rejeitado porque parece que só se pode falar bem do mundo e mal da Igreja; de outro modo, somos tachados de «pré-conciliares». «E, na realidade, é preciso reconhecer que São João, São Paulo, São Tiago – que fazem do “mundo” destinatário de repetidas condenações – escreveram antes do Concílio Vaticano II».[8] Vigora atualmente na mente de muitos teólogos e pastoralistas, ainda que sem fundamento na Escritura e na Tradição, «a idéia de que pelo “mundo” a Igreja possa ser iluminada, e os discípulos de Jesus possam pelo “mundo” ser guiados à salvação ou ao menos espiritualmente enriquecidos».[9] Ora, o «mundo» pelo qual o Senhor não rezou (cf. Jo 17,9) e que nós somos chamados a não amar (cf. 1Jo 2,15) condensa uma existência afastada de Deus e contrária a seus desígnios. Não podemos ser ingenuamente otimistas com relação ao «mundo», a ponto de não reconhecer que nele atuam real e eficazmente forças obscuras e contrárias a Deus. O livro do Apocalipse fala sobejamente da luta travada na história entre as forças do bem e as do mal. Santo Agostinho diz a mesma coisa com os conceitos de «cidade de Deus» e «cidade terrestre» em constante litígio entre si. A «adoração» do mundo é fruto do otimismo ingênuo que tem vigorado na mentalidade dos católicos nas últimas décadas. Fruto desse mesmo movimento é a relativização ou marginalização da Igreja.

É verdade que a Escritura toma a palavra «mundo» em um sentido positivo. Assim, está dito que «de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16). O «mundo» aqui é a humanidade à espera de salvação e amada por Deus. Ora, mesmo tomando o vocábulo «mundo» nesse sentido positivo, como a humanidade a quem está endereçada a salvação, e desde que não se esqueça de que a Igreja é já a humanidade alcançada pela efusão pentecostal, «não se vê como negar à Igreja a importância e a centralidade no desígnio de Deus».[10] O mundo dever tornar-se Igreja, já que na Igreja o mundo alcança o fim para o qual foi criado. A Igreja, por sua vez, como atuação sacramental do Reino de Deus neste mundo, irá consumar-se nesse mesmo Reino por ocasião da manifestação plena e definitiva dos desígnios de Deus.

Destarte, podemos entender estas sábias palavras do Cardeal Biffi: «A Igreja não é chamada a “mundanizar-se”, é o mundo que deve mudar-se no Reino. E uma vez que, como nos ensina o Concílio Vaticano II, a Igreja é já a atuação sacramental do Reino (Lumen Gentium, 3: “Ecclesia seu Regnum Dei iam praesens in mysterio”), ela não pode ser pensada a não ser como a meta última da ação divina e a “forma” definitiva da criação».[11] Já o Pastor de Hermas, que foi escrito em Roma no séc. II, reconhecia que «Deus, que habita nos céus, do nada criou os seres, os multiplicou e os fez crescer em vista da sua santa Igreja».[12]

O melhor serviço, pois, que como cristãos e católicos podemos prestar ao mundo não consiste certamente em sempre lhe dar aquilo que lhe agrada, mas em proporcionar-lhe com humildade e caridade o conhecimento de Jesus Cristo, até que as fronteiras da Igreja, corpo místico de Cristo, e as do mundo possam coincidir, atingindo, assim, o mundo a finalidade para a qual foi criado. Não sem razão, Sua Santidade o Papa Bento XVI exortou os bispos brasileiros a promover «uma evangelização em que Cristo e a sua Igreja estejam no centro de toda explanação».[13]


[1] “La Scuola Cattolica”, 101 (1973), p.208. [2] Giacomo Biffi. Para amar a Igreja. Belo Horizonte: Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém do Pará / Editora O Lutador, 2009, p. 29. [3] Inos Biffi. Atualidade de uma eclesiologia “desatual”. Apresentação de Para amar a Igreja, op. cit., p. 17. [4] Hexameron IV, 32. [5] Giacomo Biffi, Para amar a Igreja, op. cit., p. 33. [6]  Giacomo Biffi, Para amar a Igreja, op. cit., p. 38. [7] Giacomo Biffi, Para amar a Igreja, op. cit., p. 37. [8] Giacomo Biffi, Para amar a Igreja, op. cit., p. 34. [9] Giacomo Biffi, Para amar a Igreja, op. cit., p. 35. [10] Giacomo Biffi, Para amar a Igreja, op. cit., p. 35. [11] Giacomo Biffi, Para amar a Igreja, op. cit., p. 35. [12] Primeira Visão, cap. I (grifos nossos)[13] Encontro e celebração das Vésperas com os bispos do Brasil, Catedral da Sé, São Paulo, maio de 2007 (grifos nossos).

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Colocar tudo nas mãos providentes de Deus

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Palavras de Bento XVI durante da recitação do Angelus, 1 de janeiro de 2010

"No início do ano, convido-vos a todos a colocar com total confiança todos os vossos projetos e intenções nas mãos providentes de Deus, para que seja Ele quem guie nossos passos a cada dia e faça crescer em nós a fé, a esperança e a caridade. Feliz Ano Novo!"
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