domingo, 17 de fevereiro de 2013

Relato do nosso encontro de padres com o Papa Bento XVI (14/02/2013) - Parte VII

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

O Papa nos falou ainda da Constituição Dei Verbum sobre a Palavra de Deus. Discutia-se na aula conciliar se a Sagrada Escritura pudesse conter todos os mistérios da fé necessários para a salvação. Trata-se da questão da “suficiência da Escritura”.

O importante, recordou-nos Bento XVI, é que o Papa Paulo VI mandou compor 14 fórmulas para que os Padres escolhessem uma, em que se dizia que a Igreja não tira somente da Escritura a certeza do conjunto de sua fé. Assim foi feito, e a constituição, estabelecendo um liame estreitíssimo entre Escritura e Tradição, ensina que uma não pode ser considerada sem a outra nem paralelamente à outra. A Escritura, como livro reconhecido pela Igreja e livro para a Igreja, deve ser lida no seio da Tradição, que a berçou e que a acompanha. A Tradição, por sua vez, tem como regra fundamental do seu desenvolvimento a Escritura.

Desse modo, a fé da Igreja não se reduz simplesmente a um livro ou a letras mortas de um passado longínquo. A Tradição permite à Escritura ser compreendida e ser vivida de forma concreta, e a Escritura, por sua vez, é a referência fundamental para a vida da Igreja, que está submetida à Palavra de Deus. Ademais, disse-nos o Papa, sem a Tradição da Igreja, não poderíamos chegar a um consenso nas coisas fundamentais da fé, uma vez que a Escritura, sem a referência da Tradição, abre-se a interpretações contraditórias.

Bento XVI disse ainda que a Constituição Dei Verbum nos ensina a ler a Escritura numa perspectiva teológica. Se o método histórico-crítico é importante e mesmo imprescindível, ele por si só não basta, já que não nos permite ver a Bíblia como verdadeira Palavra de Deus. Para além desse método, é preciso fazer uma leitura que nos permita ver a Escritura, não só como um "dado arqueológico" a ser decifrado, mas como Palavra viva de Deus. Este é um ponto, disse, em que o Concílio não foi ainda plenamente aplicado.

Relato do nosso encontro de padres com o Papa Bento XVI (14/02/2013) - Parte VI

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

O primeiro documento aprovado pelos Padres conciliares, recordou-nos Bento XVI, foi a constituição sobre a liturgia, a Sacrosanctum Concilium. Aos que dizem que o concílio não falou de Deus, Bento XVI mostrou que a liturgia é a grande obra de Deus e, portanto, tendo começado pela liturgia, o Vaticano II começava sob o primado de Deus, segundo a Regra de São Bento: “Nihil operi Dei praeponatur”.

O Papa disse-nos que a liturgia, entendida como fonte de espiritualidade, estava um pouco distante da vida dos fiéis em geral. Os estudos histórico-teológicos, de recente, haviam mostrado as riquezas da liturgia, e havia, por assim dizer, um grande desejo, por parte de muitos, de que essas riquezas fossem comunicadas ao povo. Os missais que traziam para os fiéis uma tradução em língua vernácula dos textos latinos não eram suficientes para introduzir uma maior participação no ato litúrgico, que não podia reduzir-se à forma em que, muitas vezes, apenas o acólito respondia por toda a assembleia.

O concílio introduziu, disse-nos o Santo Padre, o conceito de participação. No entanto, o real objetivo dos Padres foi obnubilado pelo que Bento XVI chamou de “concílio da mídia”. O Concílio Vaticano II real e verdadeiro, em não poucos casos, chegou às bases pela mediação de uma mídia sensacionalista e, portanto, a sua real imagem em muitos aspectos foi distorcida. Daí compreendemos porque se tenha chegado, nos anos pós-conciliares, a banalizações por vezes graves do ato litúrgico, com introduções de elementos que lhe são estranhos. Para o Papa, a verdadeira participação não combina com a banalização da liturgia.

Bento XVI mostrou-se convicto de que o senso do sacro pertence à natureza mais íntima da liturgia e, por isso, ela não pode reduzir-se a uma obra meramente humana, saída da nossa criatividade. Não pode ser banalizada e despoliada do mistério da salvação. Diante da tese segundo a qual o “sacrum” seria uma noção pagã, Bento XVI reafirmou que tal noção, ao invés, pertence à nossa relação com o mistério insondável de Deus.

Assim, ele esclareceu que, ainda que os textos litúrgicos hoje, depois da reforma pedida pelo concílio, possam ser rezados em língua materna, isso, de modo algum, tira o véu do mistério contido na liturgia. Ninguém pode dizer, por exemplo, que “compreende” a missa só porque ele vem rezada em vernáculo. Nesse sentido, será sempre necessária uma catequese mistagógica que nos faça penetrar cada vez mais no mistério de Deus, ensinou.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Relato do nosso encontro de padres com o Papa Bento XVI (14/02/2013) - Parte V

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Bento XVI falou das suas impressões pessoais acerca do evento conciliar, ele que o viveu em primeira pessoa, e deu indicações precisas sobre o seu significado. É impressionante como o Papa seja tão lúcido e penetrante na análise. Sem olhar em sequer um esquema, falou por mais de 40 minutos ininterruptos sobre o Vaticano II, citando datas, acontecimentos, teses, teólogos...

Ele disse que a rejeição inicial dos esquemas (textos) que deviam ser aprovados e que tinham sido preparados pela Cúria Romana não foi um ato revolucionário. Aconteceu que alguns Padres simplesmente não queriam ser passivos, aprovando textos já prontos, mas tinham a percepção de que eram responsáveis pelo concílio. Sentiam-se na obrigação de ser sujeito do evento conciliar. Foi assim que se estabeleceu a “aliança renana”, se assim se pode dizer, uma confluência de Padres, cujos países eram banhados pelo Reno, e que fizeram com que o concílio fosse uma obra verdadeira dos Padres conciliares, sob a autoridade, é claro, do Sumo Pontífice.

Assim, muito espaço se abriu, com o consentimento do Papa, para a discussão e o debate de ideias. A mídia tendeu a ver tudo isso como um jogo de forças políticas e de oposições em sentido meramente humano, mas o seu verdadeiro significado estava além. Só com os olhos da fé podemos avaliar corretamente o que sucedeu no concílio. Pois ali estava à procura de maior claridade o significado do mistério da fé cristã, que devia dizer algo de importante para o mundo.

Relato do nosso encontro de padres com o Papa Bento XVI (14/02/2013) - Parte IV

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Finda a calorosa acolhida com uma saudação do Cardeal Vigário Agostino Vallini e com o canto “Tu es Petrus”, o Papa ancião pôs-se a falar. Em primeiro lugar, agradeceu a todos os sacerdotes pela oração em seu favor. Ele nos confessou, repetindo o que dissera Quarta-feira de Cinzas, que sentiu quase fisicamente a força das preces de todos. Disse ainda que ficaremos unidos, ele a nós e nós a ele, pela força da oração, ainda que, para o mundo, ele permaneça oculto.

Bento XVI confessou também não haver preparado um grande e elaborado discurso para a ocasião, por causa da idade. Ele disse que teria lugar, em vez, uma “piccola chiaccherata”, isto é, uma conversa amigável sobre o Concilio Vaticano II e sobre como ele o viu. Sabe-se que Joseph Ratzinger participou da grande assembleia de Padres na qualidade de perito quando era ainda um muito jovem teólogo. Tinha apenas 35 anos de idade. A conversa sobre o concílio veio a propósito, uma vez que celebramos os 50 anos da abertura desse evento que marcou irreversivelmente a vida da Igreja.

Bento XVI falou brevemente sobre o sentido da convocação do concílio. O Concílio Vaticano I, que havia proclamado a infalibilidade papal em matéria de fé e moral quando fala “ex cathedra”, teve de ser interrompido abruptamente por causa da guerra franco-prussiana. Com isso, ficou faltando o desenvolvimento da eclesiologia tratada pelos Padres. O Vaticano I falou da função do Papa na Igreja e de seu papel insubstituível, mas não pôde desenvolver-se no que tange ao papel dos bispos. Sempre se ficou na expectativa de que o Vaticano I pudesse ser reaberto para levar a termo a matéria eclesiológica, que tinha sido focada de modo não completo.

João XXIII, entretanto, não quis simplesmente reabrir o Vaticano I, mas, sim, convocar um novo concílio, cuja meta principal seria o “aggiornamento” (atualização) da Igreja. Bento XVI disse que a Igreja gozava, à época da convocação do grande evento, de certa estabilidade e tranquilidade. A frequência aos sacramentos, de modo especial à Missa dominical, era boa. Havia bom número de vocações. As missões aconteciam. Entretanto, ressaltou o Papa, a Igreja parece que era vista mais como uma coisa do passado que do presente. E muito menos do futuro. Sentia-se a necessidade de que a Igreja pudesse ser vista, não só como aquela que traz a sabedoria do passado, mas também como aquela que abre caminhos para o futuro.

De qualquer modo, pairava no ar a sensibilidade de que a Igreja, que sempre apoiara o estudo, a ciência e o desenvolvimento da civilização, precisasse colocar-se diante do mundo moderno para cancelar aquela sensação, que tivera seu início emblemático com o caso Galileu, de desajuste entre a sua mensagem e as novas e legítimas conquistas.

Bento XVI disse que o momento do concílio foi vivido por ele com grande esperança e entusiasmo.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Relato do nosso encontro de padres com o Papa Bento XVI (14/02/2013) - Parte III

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Depois de termos assistido ao vídeo da fala do Papa aos seminaristas, aproximava-se o esperado momento em que o Bento XVI chegaria ao grande salão. Enquanto não chegava, ensaiamos o “Tu es Petrus” para cantá-lo em sua presença.

De repente, a grande tela que estava diante de nós sacerdotes e diáconos começou a mostrar o Papa ao vivo que caminhava, nos bastidores, rumo à “Aula Paolo VI”, onde nos encontrávamos. Estava acompanhado de seu secretário particular, o Mons. Gerog Gänswein, e usava uma bengala.

Foi, passo a passo, aproximando-se da porta de entrada do palco do salão. De repente, ei-lo! Com seu jeito tímido que sempre o caracterizou, acenava para nós enquanto os aplausos prorromperam-se numa efusiva manifestação de carinho e não se interromperam sequer por um instante num prazo de dez minutos ou mais. Não queríamos para de aplaudir o Vigário de Cristo na terra! O homem que, por amor à Igreja e por desapego ao poder, retirar-se-ia para um mosteiro dentro de poucos dias, e, como um bispo sem nenhum cargo na Igreja, empenhar-se-ia ainda a seu modo para servi-la, na oração e no estudo.

Tive a impressão de que o Papa não poderia nos falar, pois as manifestações de acolhida dos sacerdotes não paravam. Gritamos muitas vezes: “Viva o Papa!”. A emoção sem dúvida era grande. Vi lágrimas molharem a face de alguns sacerdotes e eu mesmo não pude contê-las. Ainda bem que tinha um lenço no bolso.

Indescritível é a serenidade e a humildade da postura de Bento XVI. Vi-o tranquilo, calmo e, pelo que pude perceber, em grande paz. O seu jeito nos transmitia a paz! Bento XVI é de temperamento introvertido, e, por isso, eu reparava as suas reações à calorosa acolhida, tão tímidas quanto verdadeiras e sinceras.

Relato do nosso encontro de padres com o Papa Bento XVI (14/02/2013) - Parte II

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Depois de termos rezado junto do túmulo de São Pedro, seguimos para a “Aula Paolo VI”, onde o Papa, de costume, realiza suas catequeses de quarta-feira. Eu consegui ficar relativamente próximo do lugar onde Bento XVI deveria parar para falar ao clero. Estávamos todos na Aula às 10h45m e o Papa só devia chegar às 11h30m.

Foi, então, que o Cardeal Vigário anunciou que, enquanto não desse a hora, assistiríamos ao vídeo da visita que Bento XVI fizera recentemente ao Seminário Romano, quando os seminaristas tiveram a oportunidade de ouvi-lo. Aos seminaristas o Papa falou coisas belíssimas. Cheguei a emocionar-me fortemente algumas vezes. Entre outras coisas, disse que devemos sentir a grande alegria de sermos católicos. Deus pensou em nós e nos quis católicos. Quis, em muitos casos, que nascêssemos em uma família católica, onde se respira o ar da fé. Assim, tivemos o dom de conhecer o rosto humano de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, que não é um entre outros dos grandes fundadores de religião, mas é Deus mesmo que entra no nosso tempo para fazer história conosco!

Essa alegria de ser católico, disse o Papa, não é triunfalismo. Triunfalismo seria se atribuíssemos tamanha graça a nossos méritos. Mas não. Não temos mérito nenhum diante da soberania e da grandeza de Deus. É pura graça. Ele pensou em cada um de nós e quis que conhecêssemos o seu Unigênito.

Bento XVI disse ainda que Deus, por pura graça, o quis como sucessor do Apóstolo Pedro. Quis que ele, neste tempo em que o ministério lhe é confiado, cuidasse dos irmãos, confirmando-os na fé da Igreja. Quis os sacerdotes como sacerdotes, ministros do Cristo.

O discurso do Papa foi profundamente espiritual, tocando as raízes mais recônditas do mistério da nossa eleição em Cristo. O Papa estimulou os seminaristas a ver a sua vocação do ponto de vista do amor eterno de Deus, que elege e chama.

Citando Santo Agostinho, o seu autor preferido, disse também que nós cristãos temos raízes. Mas elas não estão para baixo, como as das árvores. Estão para cima, no coração de Deus. Bento XVI soube transmitir com simplicidade e profundidade, o sentido da nossa existência cristã e convidou os seminaristas a confiar no futuro de Deus. Porque o futuro é de Deus. O futuro é nosso, filhos de Deus!

Recordou que a Igreja é uma árvore que sempre se renova. Não precisamos temer. Com realismo, disse que se deve evitar dois perigos: o pessimismo, para o qual nada vai bem e só o pior se pode esperar; e o otimismo ingênuo, que não faz caso dos reais problemas e não enxerga o perigo da defecção da fé num mundo que, por vezes, toma distância do Cristo.

Relato do nosso encontro de padres com o Papa Bento XVI (14/02/2013) - Parte I

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Às 9 horas da manhã, já estava eu na Praça São Pedro, aguardando o encontro do Papa Bento XVI com o clero de Roma. Embora eu seja do clero de Juiz de Fora, atualmente tenho a função de colaborador paroquial na Parrochia Gesù Bambino a Sacco Pastore, em Roma, e, portanto, estava me sentindo membro do clero romano (rsrsrs)! Ainda mais que o pároco me havia concedido o seu bilhete amarelo (exclusivo dos párocos) para que eu ficasse mais próximo de Sua Santidade.

Pelas 10 horas, o Cardeal Vigário, Agostino Vallini, chegou ao Obelisco Vaticano, onde mais de 500 padres estavam reunidos, e começamos uma breve peregrinação rumo ao túmulo de São Pedro. Enquanto caminhávamos, cantávamos a Ladainha de Todos os Santos. Atravessamos a praça e entramos pela nave central da Basílica Vaticana.

Chegados ao túmulo do Pescador, rezamos em uníssono pelas necessidades da Igreja e entoamos o “Tu es Petrus”, e me veio à mente o mistério dos planos de Deus, que, confiando os supremos cuidados da sua Igreja a um homem simples da Galileia, fez com que o coração visível do Cristianismo chegasse a Roma, a capital do então muito extenso Império Romano. A comunidade cristã de Roma, desde seus inícios, foi marcada pela diversidade, o que exprime bem a catolicidade ou a universalidade da Igreja. Em Roma havia cristãos de toda parte. Roma era o centro do mundo (caput mundi). Judeus e pagãos convertidos constituíam essa diversidade unida pelos laços da fé proclamada pelo Primeiro dos Apóstolos, que, justamente ali onde estávamos, fora sepultado depois de ter derramado o sangue por amor a Cristo. Éramos bispos, padres e diáconos e, sem dúvida, todos vivíamos com intensidade o momento atual, de grande importância para a história da Igreja de Jesus.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Cardeal Newman: sem autoridade não há revelação

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

John Henry Newman, feito Cardeal por Leão XIII, tinha uma visão dinâmica da Tradição da Igreja, que é muito justa. Antes de ser recebido na Igreja católica, ele, estudando os Santos Padres, procurava ver no princípio de São Vicente de Lerins o critério objetivo para discernir a fé legada pelos apóstolos. Esse princípio diz assim: a reta fé da Igreja é aquela que é professada por toda parte, sempre e por todos (quod ubique, quod semper et quod ab omnibus). Aos poucos, porém, Newman se deu conta de que esse princípio por si só não bastaria, pois seus estudos patrísticos lhe mostravam a complexidade das disputas teológicas dos primeiros séculos, e foi então que se deu conta de que deve existir na verdadeira Igreja de Jesus uma autoridade viva (que é serviço), assistida pelo Espírito, para discernir e propor, em meio às disputas, o vínculo da reta fé.

Assim, Newman chegou à Igreja católica, onde tal autoridade existe e está presente sobretudo no ministério do Bispo de Roma. Ele reconheceu que a Igreja católica de seu tempo era a herdeira legítima da Igreja dos apóstolos e dos padres, em que uma tal autoridade jamais faltou. A Igreja de Jesus, ao longo de sua história, compreende cada vez mais as riquezas da mensagem cristã e suas implicações para as diversas épocas da história sem jamais perder a ligação fundamental com as origens. A doutrina cristã se desenvolve sem deixar de ser ela mesma, e isso sob o discernimento do magistério vivo da Igreja, a quem Cristo prometeu assistência. Em suma, Newman nos ensina que, se há uma revelação divina, deve haver também um órgão devidamente credenciado para propô-la autenticamente, e esse órgão é o magistério da Igreja. Newman no-lo ensina, não somente com palavras, mas com a própria vida, que ele colocou sob o desconforto ao deixar a Comunhão Anglicana e pedir acolhida na Igreja católica. Sair da própria tradição não é coisa fácil e é fonte de incompreensões mil, mas Newman o fez unicamente atraído pelo fulgor da verdade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Agressividade de alguns evangélicos contra a S. Igreja

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Sabemos que o Concílio Vaticano II nos pede um espírito ecumênico e o cultivo de boas relações com os cristãos separados de Roma, a fim de que a atuação da graça possa encontrar em nossas boas disposições o terreno em que trabalhar para a união efetiva de todos aqueles que creem no Senhor Jesus como Deus e homem e Salvador do gênero humano, ele que nos revelou o rosto de Deus e o dinamismo que caracteriza a essência divina, o circuito de amor entre o Pai e o Filho, cuja expressão é o Espírito Santo. Santo Agostinho falava do Amante, do Amado e do Amor.

O ecumenismo é de todo justificado, desde que não caia num falso irenismo. Devemos procurar corrigir muitos preconceitos e fazer um esforço para entender as razões da outra parte, sem que isso implique renunciar ao que deve ser mantido como fundamental. No plano das ações concretas, o ecumenismo encontra uma via bem mais larga e promissora, se bem que não possa faltar o diálogo em nível doutrinal, uma vez que reconhecemos a importância, não só da ortopraxis, mas também da ortodoxia.

Incomoda-me, no entanto, a agressividade, principalmente na América Latina, de modo especial no Brasil, com que certos evangélicos se investem contra a Igreja católica. O plano de atuação de que partem é muitas vezes o fundamentalismo. Tomam o texto bíblico, sem nenhuma preocupação de mediação exegética ou hermenêutica, e, com raciocínios delirantes, acusam a Santa Igreja de estar contra a Bíblia! Logo a Igreja católica, que desde o século IV reconheceu o cânon bíblico e conservou o Livro Sagrado ao longo dos séculos, sobretudo através dos copistas (em geral monges)! A Igreja católica, que tem teólogos de nomeada e tantas instituições de ensino que se dedicam à Bíblia! É verdade, que, no período que vai do Concílio de Trento ao Vaticano II, por razões prudenciais, a Igreja houve por bem limitar a leitura da Bíblia entre os fiéis não devidamente preparados por receio de más interpretações. Talvez tenha sido um excesso de zelo. Entretanto, nunca faltou ao povo o essencial da doutrina bíblica, traduzida na viva Tradição da Igreja, nos catecismos e nas pregações. Hoje, depois de décadas da renovação dos estudos bíblicos, a Igreja, como nunca, incentiva o estudo das Escrituras em todos os níveis: catequético, popular, médio, universitário...

Noto que a agressividade descabida de alguns evangélicos contra a Mãe Igreja se deve ao fato de que confundem duas coisas: 1) Aquilo que não está explicitamente na Bíblia; 2) Aquilo que é contra a Bíblia. Essas duas coisas não podem ser identificadas. É certo que a Igreja católica ensina algumas verdades fé que não se encontram explicitamente na Bíblia, até porque a Bíblia, tomada em seu aspecto material, não é o único locus donde a Igreja tira a suas certezas. A Igreja nunca se entendeu como a “religião do livro”. A fonte da fé é a Palavra de Deus, que é bem mais ampla do que a Bíblia - é o evento Jesus -  e se explicita sempre na vida eclesial através da íntima conexão entre Bíblia, Tradição e Magistério eclesial, a quem Cristo confiou, especialmente, a tarefa de interpretar e propor a Palavra. Agora, dizer que verdades que não estão explicitamente na Bíblia são contra a Bíblia é, no mínimo, um erro lógico. A verdade é que todo o ensinamento da Igreja tem um fundamento, ainda que indireto, na Sagrada Escritura.

A mentalidade estreita desses nossos irmãos não reconhece que a Bíblia não pode ser tomada sem a mediação exegética e hermenêutica. Não reconhece que na Bíblia não há resposta pra tudo, pois a Bíblia não é um receituário ou um vade-mecum, mas o registro inspirado de experiências, de testemunhos e de revelações, em que Palavra de Deus e palavra do homem se entrecruzam. Não reconhece que a Bíblia sem a Tradição e o Magistério vivo da Igreja é um livro sujeito a interpretações pessoais, às vezes muito aberrantes. Não reconhece, por fim, o que a própria Bíblia diz: “Existem ainda muitas outras coisas realizadas por Jesus, que, se fossem escritas uma a uma, penso que o mundo não bastaria para conter os livros que se deveriam escrever” (Jo 21,25).

Apesar de tudo, acredito, com a Igreja católica, no diálogo ecumênico. Mas, convenhamos, este requer um mínimo de honestidade, de estudo e de abertura ao outro.