terça-feira, 17 de maio de 2016

Sobre o livro do Gênesis

O livro do Gênesis não foi escrito de uma só vez nem por um único autor. Nele confluem tradições diversas, de diversos períodos da história do povo de Deus. O redator final costurou essas tradições, procurando dar-lhes uma certa ordem, que é a que podemos encontrar lendo o livro tal como se encontra atualmente nas nossas traduções da Bíblia. A redação final aconteceu no séc. V a.C., período em que a experiência do exílio da Babilônia (587-530 a.C.) era muito marcante na consciência do povo.

Os primeiros dois capítulos, por exemplo, recolhem duas tradições distintas e contam, de maneira diversa, a obra da criação de Deus. Quando lemos esses dois capítulos, temos de ter presente que os autores não queriam nem podiam oferecer uma descrição histórica ou fotográfica de como as coisas realmente aconteceram. Ninguém viu a criação sair das mãos de Deus e, por isso, ninguém podia nem pode retratar esse evento transcendente. A Bíblia, portanto, não oferece nenhum relato que seja fruto de uma testemunha ocular dos inícios do mundo e da humanidade. Ela, no entanto, com a convicção de que tudo saiu das mãos de Deus e por sua livre vontade, procura, de algum modo, descrever o indescritível. E o faz recorrendo a imagens.

O primeiro relato da criação (Gn 1-2,4a) foi escrito por sacerdotes quando estavam exilados na Babilônia. Apresenta a obra da criação no quadro de uma semana – por seis dias Deus trabalha e, no sétimo, descansa. Trata-se de um texto bem estruturado e dotado de repetições solenes (“Deus disse”, “houve uma tarde e uma manhã”, “primeiro, segundo, terceiro... dia”, etc). Nesse relato, Deus não aparece de modo algum sob forma que o assemelhe ao homem, mas é totalmente transcendente, e executa a sua obra pelo poder de sua palavra. Elohim é como Deus vem chamado.

Já o segundo relato (Gn 2,4b-25) chama a Deus de Iahweh e tem como centro a criação da humanidade. Deus aí aparece mais próximo do mundo humano, quase como um homem – é retratado como um oleiro que toma a argila para criar o homem e os animais, um jardineiro que planta um jardim para fazer aí habitar o homem, uma espécie de anatomista que toma a costela do homem para, com ela, fazer a mulher. Esse segundo relato é mais antigo do que o primeiro. No seu início, a terra aparece árida e sem vegetação, ao contrário do primeiro relato, que fala de águas que cobriam o abismo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Porque filosofar é fundamental...

O que dizer da filosofia na hora atual da história da humanidade? Para muitos, ela já não tem nenhuma razão de ser, uma vez que as ciências particulares haveriam tomado o seu lugar. Para outros, ela não oferece nenhuma resposta às questões fundamentais da vida humana, mas está sempre às voltas com os problemas que rechearam a sua longa trajetória e que ela, a filosofia, nunca pôde resolver de maneira definitiva.

Como quer que seja, para mim não se pode fugir da filosofia, ainda que se a considere um saber reformável e sem muitas respostas definitivas para as grandes questões humanas. A filosofia ocupa um lugar teórico que jamais pode ser ocupado pelas ciências particulares e que encontra seu fundamento na constituição do espírito humano, que tende a ir às últimas consequências do pensamento enquanto tal. Na verdade, a filosofia é aquela instância do saber crítico e reflexivo que mantém o olhar dirigido para o todo, sem os limites que o estatuto de cada ciência particular impõe. Só a filosofia pode encarar o ser como tal e no seu todo, ainda que não possa desvendar-lhe o mistério último. Sem a filosofia, o pensar humano se reduz a uma pobre coisa, sem a perspectiva de liberdade infinita que só o olhar filosófico pode trazer.

Alguém talvez dirá que não é preciso nem é possível filosofar, aduzindo uma série de argumentos para justificar a sua posição. Mas, como já reconhecia Aristóteles, até mesmo para dizer que não se deve filosofar, deve-se filosofar, isto é, devem-se colocar questões que assumem o caráter da radicalidade que ultrapassa o âmbito metodológico das ciências. A filosofia não pode ser negada sem que se filosofe. Até para concluir que certas perguntas permanecem sem resposta definitiva, deve-se refletir em nível filosófico. Se não queremos plainar sorrateiramente apenas buscando teorias que expliquem o comportamento dos entes do mundo, devemos abraçar a reflexão que oferece as asas da crítica radical, do pensamento abissal e das perguntas mais derradeiras e que faz o homem voar segundo as suas genuínas possibilidades; tal reflexão se chama filosofia.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Pingos de filosofia - Quem é niilista?

Niilismo é um termo que vem do latim nihil (= nada). A ideia que traz tem a ver com o nada, o vazio, a ausência. Segundo Nietzsche, o niilismo acontece quando falta a finalidade, quando é ausente o porquê e quando os valores supremos se desvalorizam.

Nossa cultura atual tem sido vista como niilista porque já não acredita que a realidade tenha sentido dado. Quem acredita em Deus afirma necessariamente que a realidade foi pensada por Deus e que o mundo tem um sentido, um porquê e um valor. Para o niilismo, não existe nenhum sentido pré-dado. Por isso o niilista não aceita um Deus que tenha pensado o mundo. Nietzsche, o grande proclamador do niilismo, foi também o proclamador da “morte de Deus”. Para o niilista não há outro mundo - Deus, ideias eternas ou valores supremos - que dê sentido ao nosso mundo.

João Paulo II lamentava a condição da presente hora quando via em correntes da pós-modernidade os traços do niilismo: "Uma coisa, todavia, é certa: as correntes de pensamento que fazem referência à pós-modernidade merecem adequada atenção. Segundo algumas delas, de fato, o tempo das certezas teria irremediavelmente passado, o homem deveria finalmente aprender a viver num horizonte de ausência total de sentido, sob o signo do provisório e do efêmero. Muitos autores, na sua crítica demolidora de toda a certeza e ignorando as devidas distinções, contestam inclusivamente as certezas da fé" (Encíclica Fides et Ratio, n. 91).

Nietzsche pensava que o substrato do nosso mundo é caótico e sem sentido. Os valores que existem são todos inventados pelo homem, já que as coisas não trazem nenhuma racionalidade consigo. Para Nietzsche, quem acredita em valores supremos, como o cristão ou o comunista, acredita, na verdade, em nada.  Nesse sentido, é niilista. Na realidade, segundo Nietzsche, pode ser chamado niilista quem acredita que valores eternos existam como pensava Platão. O que existe é o sem sentido das forças caóticas que regem o mundo e ao qual o homem quer sempre atribuir um significado. O grande erro para Nietzsche é negar este mundo, trágico e sem sentido como é, em nome de outros mundos que estão somente na cabeça de quem os concebe. Platão é o niilista por excelência porque inventou um outro mundo, o mundo das ideias eternas, que nada é.

Vê-se, então, que niilismo assume significados contrapostos. Nietzsche usa o termo em diversos sentidos. Niilista pode ser quem nega os valores supremos e diz que o outro mundo nada é, ou, por outro lado, pode ser quem nega este mundo em nome de valores supremos que, na realidade, nada seriam segundo Nietzsche. Quem é niilista? A resposta depende do ponto de vista. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O terror da morte e a fé

A morte é um terror para o homem. Uma antiga epopeia mesopotâmica apresenta Gilgamesh, rei da Suméria, atormentado pela sua condição mortal. Em busca incansável pela imortalidade, foi avisado de que sob o mar existia uma planta que vencia a força da morte. Gilgamesh não mede esforços, mergulha no profundo azul e consegue apanhar a planta da vida imortal. Entretanto, em um momento de descuido, antes mesmo de ganhar a superfície das águas profundas, uma serpente lhe rouba a desejada planta e o rei fica privado, como antes, da imortalidade pela qual tantos esforços despendera.

A epopeia de Gilgamesh mostra que o homem deseja ver-se livre de sua natural condição mortal. A morte o assusta sobremaneira. Ele procura intensamente a imortalidade, mas seus esforços acabam sendo todos vãos. As religiões, a filosofia e a ciência são formas pelas quais o ser humano tenta apanhar a planta da imortalidade. Entretanto parece prevalecer, ao fim e ao cabo, a consciência da mortalidade e o terror que ela traz consigo. O homem acaba chorando seus entes queridos defuntos como se nunca mais os fosse encontrar.

O cristianismo, de sua parte, propõe uma solução através da fé numa revelação especial da divindade. A vida, os feitos e a morte na cruz de Jesus de Nazaré são, segundo a fé cristã, epifania (revelação) de Deus no mundo. A fé cristã ensina que o destino de Jesus não terminou na morte, mas teve um fim glorioso porque Deus mesmo o ressuscitou. A promessa da ressurreição e da vida imortal é feita a cada qual que se dispuser a acreditar no mistério de Jesus, aceitando-o na existência concreta de sua vida.

Desse modo, a planta da imortalidade não deve ser mais buscada pelo homem, mas lhe é oferecida pela divindade que se revela na vida, morte e ressurreição de Jesus. Do homem, requer-se apenas a fé que acolhe o mistério. Eis a grande característica do cristianismo: não é o homem que tem a iniciativa de buscar a imortalidade, mas é o Imortal que se revela ao homem e lhe oferece a sua vida eterna através da mortalidade de um homem que foi ressuscitado e vive para sempre. Aqui o único instrumento exigido para fazer parte do mistério de morte e ressurreição, mistério que promete a imortalidade através da morte, é a fé.

Se autêntica, a fé pode ser aquela força que vence a morte... Vence a morte porque assegura a ressurreição... Há pessoas que estão tão mergulhadas na fé que não choram como os demais os que partiram. A questão, pois, é a fé...

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Nas mãos do imprevisível

O vir a ser foi sempre um problema para a filosofia. Já em seu aparecimento na Grécia antiga, os filósofos se perguntavam como as coisas se transformam naquilo que são e como deixam de ser o que são para se tornar outra coisa. Com efeito, o mundo da nossa experiência é o mundo do movimento incessante e insaciável. Tudo parece escorrer como um rio vívido e vigoroso.

A constante mudança, porém, causa medo no homem. Se tudo o que é deixa de ser para adquirir outra identidade, como deve o homem comportar-se diante das coisas? Se reina a instabilidade, como fundar a vida? Se reina a imprevisibilidade, como controlá-la?

Aterrorizado por causa do vir a ser, o homem procurou na filosofia uma saída para o impasse que deriva da natureza mutável de todas as coisas. Com a filosofia, o homem quis alcançar uma certa estabilidade e, assim, vencer o medo incutido pelo movimento. O nome do remédio dado pela filosofia à doença que aterrorizava o homem foi o saber (epistéme = saber que permanece).

Através do saber, o homem, de alguma maneira, tenta afrontar o que lhe mete tanto medo: a mudança constante de tudo, a instabilidade, a imprevisibilidade. O saber passou a ser uma forma de poder nas mãos do homem. Da mãe filosofia nasceram tantas filhas, isto é, as diversas ciências que preenchem o cenário do mundo atual, todas elas procurando dar ao homem o poder para reger a vida.

Como quer que seja, hoje o que continua nos assustando é a instabilidade e a imprevisibilidade das coisas, e, assim como os gregos, nos valemos do saber para remediar o caso. Entretanto, uma pergunta se levanta: pode-se remediar tudo com o saber? Não resta sempre uma potente zona de instabilidade e imprevisibilidade na nossa vida? O incontrolável não é maior que o controlável?

Apesar de tentar remediar tudo com o potente saber científico e tecnológico acumulado pela modernidade, o homem não pode dominar o todo da vida, vida que se mostra como um constante vir a ser. A morte é a grande testemunha de que o saber não consegue remediar tudo. Pela morte o homem cai no absoluto vir a ser; ele deixa de levar e passa a ser levado. Deixa de ser no mundo, isto é, vem a não ser mais no mundo. E ela, a morte, vem sem avisar e, quando chega, não pede o consenso do homem para atuar. Então: a força do mistério e do não controlável continua a atuar e a rir das nossas tentativas de dominação. O homem esteve e está nas mãos do imprevisível. 

sábado, 22 de agosto de 2015

Homo sapiens

A espécie "homo sapiens" não é a única do gênero "homo". O "homo neanderthalensis", por exemplo, é uma outra espécie do gênero "homo" e surgiu por volta de 500 mil anos antes de Cristo na Europa e na Ásia ocidental, mas foi extinta há cerca de 30 mil anos. Já o "homo sapiens" apareceu há 200 mil anos atrás na África oriental e dura até hoje. Nós mesmos o somos na sua subespécie "homo sapiens sapiens", a única que, do gênero "homo", sobrevive. Há 12 mil anos aprendemos a gerir a agricultura, o que foi uma grande revolução no nosso percurso sobre a face da terra. A partir da agricultura é que foram possíveis os primeiros povoamentos e, mais tarde, as grandes civilizações da Antiguidade. A cidade mais antiga do mundo é, provavelmente, Jericó (Oriente Próximo), cujos sinais de existência datam de 9 mil anos antes de Cristo.