segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Rezar é preciso

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

O tema da oração é de inegável importância para a vida humana. Os animais irracionais não rezam, mas o ser humano sim. Isso porque o homem é fundamentalmente aberto à Transcendência. Não se contenta com nada que é finito. E a oração é a elevação da alma, é o suspiro pelo Eterno, é o encontro com Deus.

Uma das características das sociedades modernas é a secularização, que outra coisa não é senão um movimento de volta para o mundo. Voltar para o mundo, reconhecer-lhe a realidade e a beleza e valorizá-lo como convém não são em si mesmas atitudes más. O perigo está em se tornar prisioneiro do mundo, em agarrar-se em suas malhas finitas e perder a capacidade da ultrapassagem, da elevação, do olhar superior. Não devemos nunca esquecer o que disse São João da Cruz, grande místico e doutor da Igreja: “Um só pensamento do homem vale mais que todo o mundo; portanto, só Deus é digno dele”.

A vida moderna, com todo o desenvolvimento científico-técnico de que hoje dispomos, corre facilmente o perigo de fazer do homem um prisioneiro do finito, que jamais poderá preenchê-lo. A oração vem em nossa ajuda, fazendo-nos ver que há uma Realidade (Deus) que dá o verdadeiro sentido a todas as coisas, uma Realidade capaz de entender o homem em todas as suas questões, uma Realidade que é Inteligência e Amor eternos!

O homem que reza nunca está sozinho. Pela oração estamos bem acompanhados, estamos na presença d’Aquele que, sendo Inteligência infinita, pensou em cada um desde toda a eternidade, e, sendo Amor sem limites, deu-nos a existência e guia-nos os passos, por Cristo e no Espírito, para a felicidade completa em seu Reino.

Que a Bem-Aventurada Virgem Maria, mestra da vida de oração, ensine-nos a ser pessoas que rezam! É preciso rezar, pois que oração há de salvar o mundo!

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Fé e evolução

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

A fé cristã é compatível com a compreensão do mundo em evolução? Sim, eu diria. A fé substancialmente não diz 'como' o mundo foi criado, mas que foi (é) criado. A evolução pode muito bem ser o modo pelo qual Deus cria o mundo. O que é incompatível com a fé é a afirmação de que o espírito seria um mero produto casual da matéria ou um "bolor casual na superfície da matéria", como diria Ratzinger. A evolução não exige que se afirme isso. Num quadro de compreensão evolutivo, a fé nos mandaria crer que, longe de ser um produto casual da matéria, o espírito, que se verifica no homem, é a meta da evolução e a matéria, a sua pré-história. Nesse sentido, o espírito é a grande obra criada por Deus, não algo simplesmente derivado da matéria.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Santo Agostinho

Santo Agostinho viveu na tarda Antiguidade (séculos IV e V) e foi o primeiro grande pensador cristão. Conseguiu uma invejável síntese entre a fé da Igreja, transmitida pelos apóstolos, e as ideias fundamentais do platonismo ou neoplatonismo. Agostinho foi também o primeiro a pensar em primeira pessoa, isto é, soube envolver o seu «eu» concreto e suas inquietações na busca da verdade. Sua grande lição permanece válida: o mergulho na interioridade não é subjetivismo, mas comporta uma elevação à Transcendência – inferior infimo meo superior summo meo. No mais profundo da razão criada deixa seus sinais a Razão incriada, Fogo sempre vivo em que se acende constantemente o pensamento humano. Na atualidade, um grande estudioso e admirador de Agostinho é o papa emérito Bento XVI.

A confiança originária

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

A confiança é originária. É uma posição originária em virtude da qual a minha visão de mundo apresenta uma direção fundamental. Escutar o apelo originário que me chama à confiança é escolher acreditar que não existo por acaso e que há um lugar reservado para mim; é escolher acreditar que o meu estar no mundo é mais do que o simples estar. Tal atitude pode ser o primeiro grande passo rumo à maturação daquela fé em um Deus pessoal, que cria o mundo, intervém na história e faz promessas de futuro que ultrapassam toda imaginação e todo desejo. De outro ponto de vista, todo aquele que crê no Deus pessoal anunciado pelo cristianismo cultiva a confiança originária que o faz ver que o universo não é uma mera extensão infinita e silenciosa, indiferente às vicissitudes humanas, mas uma casa ou um lar que nos abriga, ainda que numa perspectiva provisória em relação à nossa atual condição.

Liberdade vazia?

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

A liberdade humana não é uma liberdade vazia nem deve ser entendida como tal. Ela se realiza no horizonte de sentido dado pela Razão criadora. Assim, o homem não é pura liberdade, não é liberdade indeterminada, mas é liberdade dotada de uma consistência ontológica, isto é, antes da liberdade ou concomitantemente a ela, existe um sentido ou uma orientação fundamental doado pelo Lógos divino. O horizonte de sentido não exclui a liberdade, mas a chama a realizar-se em conformidade com o que lhe é anterior e ganha expressão na natureza humana.