sábado, 14 de junho de 2014

Sobre a metafísica

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

A metafísica tem como subjectum ou tema de estudo o ser enquanto ser. Mas o que significa a expressão ser enquanto ser? Ser significa aquilo que é. Ser enquanto ser significa exatamente aquilo que é, numa perspectiva de totalidade. Só a metafísica estuda o ser em perspectiva de totalidade, isto é, o ser sem restrição alguma.

Senão vejamos: todas as ciências, afora a metafísica, sempre estudam o ser segundo alguma restrição, nunca o ser sem restrição alguma. Um grande exemplo que se pode tomar é a física moderna: ela estuda o ser, mas se restringe ao aspecto móvel, experimentável e mensurável do ser, isto é, o ser natural. E se existir um âmbito do ser que não pertença àquilo que é móvel, experimentável e mensurável? Um âmbito do ser que não entre na categoria de ser natural? A física como tal jamais poderá responder se existe este âmbito de ser ou se tudo o que existe se restringe ao natural, que é móvel, experimentável e mensurável. O principio metodológico da física é este: explicar o natural pelo natural, sem se perguntar se para além do ser natural exista qualquer outra realidade.

Compete à metafisica colocar a questão da totalidade do ser: é somente o móvel, o experimentável e o mensurável que existe? Ou o ser na sua totalidade implica uma realidade diversa, que talvez não se mova, não seja experimentável pelos sentidos nem possa ser medida? O princípio metodológico da metafísica não a restringe a explicar o natural somente pelo natural, como é o caso da física, mas é um princípio que a libera de toda restrição. A única restrição da metafísica é a incongruência do pensamento na sua relação com aquilo que é. Onde o pensamento lógico e bem fundado na realidade pode chegar, esse é o campo da metafísica. Isso quer dizer que a metafísica trata da totalidade do que pode ser pensado e expresso. Ela tem como única fronteira o nada, que não existe. O seu campo de pesquisa não é precisamente um campo, mas é o todo do real. No âmbito do todo, não há muito sentido falar de campo, pois um campo é delimitado, mas o todo é a condição suprema de tudo o que é, que pode ser pensado e dito. É a condição incondicionada, e por isso mesmo, a condição de toda e qualquer condição ou de todo e qualquer campo de investigação.

A metafísica é a única ciência que se depara de frente com a condição suprema do real. O pensamento também é real. Por isso, só a metafísica encara frente a frente a condição incondicionada do pensamento, aquele fogo originário e primeiríssimo com o qual se acende qualquer raciocínio humano, seja que este se faça no plano do senso comum, seja no plano das ciências. Só à metafísica cabe, se é possível, justificar diante da razão raciocinante, a realidade e a pensabilidade. Sem a metafísica somos como cegos, ainda que sejamos capazes de ver muitas coisas. 

domingo, 11 de maio de 2014

A questão sobre o Jesus histórico II

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

2) Período pós-bultmanniano. A primeira fase da pesquisa sobre o Jesus histórico havia terminado com o reconhecimento da impossibilidade de se ter um acesso fidedigno à verdadeira fisionomia história de Jesus. Por isso, o teólogo protestante Rodolf Bultmann (1884-1976) ensinava que a história, na verdade, não tinha importância para a vida de fé (o que se conhece com o termo "fuga da história"). Bastava crer em Cristo tal como era anunciado no querigma e deixar-se transformar existencialmente por esse anúncio. Nesse sentido Bultmann se mostrava fiel ao fundador do protestantismo, Martinho Lutero, para o qual a fé era a única via de acesso ao conhecimento e à salvação (sola fides), e também deixava ver a sua opção pelo existencialismo, que, acima da verdade enquanto tal, coloca a decisão do sujeito, que no caso se traduzia assim: crê, muda de vida!

Os discípulos de Bultmann, porém, não se acontentaram com a impostação do mestre, pois lhes parecia que uma fé sem fundamento nenhum na história (Bultmann dizia que o que sabemos do Jesus histórico é apenas que nasceu, viveu e morreu crucificado) não podia ser sustentada. Entre estes se destacou Ernst Käsemann (1906-1998), que, juntamente com seus colegas, procurou estabelecer critérios confiáveis que permitissem um real acesso a Jesus de Nazaré.

O critério mais notável é o chamado critério da descontinuidade, que estabelece que tudo o que, nos Evangelhos, revela uma grave descontinuidade com a cultura judaica do tempo de Jesus e com as tendências da Igreja primitiva, certamente pode ser julgado como historicamente confiável, porque não teria sido simplesmente "inventado" pelos evangelistas ou pelas primeiras comunidades. A condenação do divórcio e a rejeição das segundas núpcias por parte de Jesus se encaixam nesse critério, já que os doutores em seu tempo ensinavam, conforme a Lei mosaica, a possibilidade de desfazer o matrimônio, divergindo somente sobre os motivos que tornavam justa a decisão, e de contrair novas núpcias. Um outro critério é o critério da consternação, segundo o qual o que causava desconforto à Igreja primitiva não poderia ter sido criado por ela, mas seria um fato histórico que remonta a Jesus. Um exemplo da aplicação do critério da consternação diz respeito ao batismo de Jesus por João Batista. A Igreja primitiva, que proclamava a sua fé no Cristo como o Santo de Deus, não iria "criar" o episódio de Jesus recebendo um batismo que era destinado aos pecadores que faziam penitência.

Essa postura, mais confiante na possibilidade de atingir verdades históricas certas sobre Jesus, ficou conhecida como new quest ou second quest. Mas ainda teremos de falar de um novo período sobre a pesquisa histórica sobre Jesus, a third quest.