quinta-feira, 10 de abril de 2014

A questão sobre o Jesus histórico

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

As pesquisas sobre o Jesus histórico conta com três períodos:

1) Período racionalista: surge no séc. XVIII e procura tirar a veste dogmática com a qual a Igreja haveria revestido Jesus. O Jesus verdadeiro seria um revolucionário (Reimarus) ou um moralista de corte iluminista (Renan), mas não o Messias ou o Filho de Deus (Wrede). O Cristo da fé seria apenas uma invenção da Igreja e era hora de combater o mito para fazer transparecer a realidade.

Todavia, Albert Schweitzer (1875-1965) mostrou em um minucioso estudo que a pretensão de reconstruir o Jesus histórico não era legítima, pois o que resultava era uma criação artificial conforme a ideia preconcebida dos diversos autores. Em síntese, o dito "Jesus histórico" outra coisa não era senão uma figura criada à imagem e semelhança das ideias iluministas.

A crítica de Schweitzer levou Rudolf Bultmann (1884-1976) a reconhecer que era impossível o acesso à história real do homem Jesus de Nazaré. O crente, pois, não deveria preocupar-se com a história, mas se deixar transformar pela pregação do querigma, que o interpela e o chama a uma mudança de vida. O Jesus histórico não teria importância. Decisivo seria o Cristo proclamado pela Igreja.

Entretanto, uma pergunta se põe: uma fé sem base na história se sustenta? É essa questão que levará ao segundo período da pesquisa sobre Jesus, do qual falaremos em outro momento.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Algumas questões sobre o homem e a fé

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

1. Todos os homens querem ser felizes?

Sim, todos os homens, sem exceção, querem ser felizes. Eu, você e todos nós. O desejo da felicidade foi colocado em nós por Deus para que O encontrássemos, Ele que é a Felicidade completa. Infelizmente, muitos procuram a felicidade onde ela não existe: no egoísmo, no comodismo, na vingança, no crime, nos prazeres desregrados, como a droga, o sexo fora do matrimônio, as bebedeiras, etc. Por isso, precisamos ser como que faróis a apontar para Deus e para o seu Amor que perdoa, cura, liberta e salva. Assim, ajudaremos o mundo a encontrar a felicidade que tanto procura.


2. Como conhecemos a Deus?

Nós conhecemos a Deus pelas obras que Ele criou. Assim como uma bela pintura fala do artista que a executou, as maravilhas da criação falam de Deus, o grande Artista do Universo: “Os céus narram a glória de Deus, o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 19,2). A Deus também podemos ouvir pela voz de nossa consciência, voz esta que nos manda fazer o bem e evitar o mal. Mas conhecemos a Deus de modo mais profundo por meio de seu Filho Jesus Cristo, que disse: “Quem me vê, vê Aquele que me enviou” (Jo 12,45). O que Jesus nos ensinou sobre Deus e as coisas de Deus foi confiado à Igreja católica, que, há 2.000 anos, está espalhada pelo mundo. Amparada por Deus, a Igreja anuncia a mensagem de Jesus a todas as pessoas. Se eu quero, então, conhecer a Deus mais profundamente, devo ouvir a Igreja. Ela é portadora e intérprete legítima da Bíblia e da Tradição que vem dos Apóstolos. A ela Jesus confiou a tarefa de evangelizar. Para melhor conhecer a Deus, então, é preciso conhecer a fé católica.


3. Em que nos manda crer a fé católica?

R.: A fé católica nos manda crer em Deus Pai, em seu Filho Jesus Cristo, homem-Deus que veio ao mundo para nos salvar, e no Espírito Santo, que também é Deus e assiste a Igreja e santifica o cristão. Deus é Uno e Trino, ou seja, é um só em três pessoas realmente distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Fomos criados por Deus e para Deus. Deus Filho assumiu a natureza humana e veio ensinar-nos, como homem no meio dos homens, o caminho para o Céu e dar-nos a força para entrarmos nele e nele perseverarmos até a morte.

4. Deus foi quem criou todas as coisas?

R.: Sim. É por Deus que tudo existe. Deus é o Ser que existe desde sempre e para sempre. Tudo o mais foi criado por ele do nada. Mas do nada, nada pode vir – replicará alguém. É verdade. Do nada, nada pode sair. O Universo, porém, não veio do nada, mas veio após um nada; veio do poder infinito de Deus, que não precisa de nenhuma matéria prima ou instrumento para fazer existir tudo o que existe. Foi por amor, para comunicar o seu Ser e difundir a sua Bondade, que Deus tudo criou. Criar é dar a existência àquilo que não existia.


5. Como Jesus Cristo conquistou nossa Redenção?

R.: Redimir quer dizer resgatar. Jesus nos resgatou do mal do pecado e da morte. Como homem ungido pelo Espírito Santo, foi em tudo fiel à vontade do Pai, e isso até a morte de Cruz, que foi o supremo testemunho de sua fidelidade. O amor e a obediência de Cristo são capazes de dissolver todos os pecados dos homens. Por isso, devemos crer n´Ele, receber o batismo e viver junto dele, na Igreja, fazendo frutificar a graça que d´Ele recebemos, para sermos, de fato, homens novos e podermos ver a Deus face-a-face um dia. A ressurreição de Cristo é o penhor da nossa ressurreição futura. “Ó morte, onde está a tua vitória?”.


6. O Espírito Santo nos santifica? Como?

R.: Sim. O Espírito Santo nos santifica. Santificar é separar para Deus, para viver a vida de Deus. Jesus nos prometeu o Espírito como um outro Parákletos, isto é, um outro Advogado ou Consolador. O próprio Jesus é o primeiro Parákletos. A missão do Espírito é a de fazer a vida divina, vivida por Cristo como homem, chegar até nossos corações e, assim, animar e fortalecer a Igreja. O Espírito Santo, docilmente, na medida de nossa abertura, faz a nossa vontade tornar-se uma só coisa com a vontade divina. Ele nos torna amigos de Deus, já que a amizade acontece quando um e outro querem as mesmas coisas e rejeitam as mesmas coisas - “Idem velle, idem nolle” (Salústio). O Espírito faz com que o cristão, decididamente, abrace o que é da vontade de Deus e rejeite tudo o que lhe é contrário. Ele nos renova em Cristo e nos dá a graça de nos tornarmos filhos de Deus, capacitando-nos para receber o prêmio da vida eterna.


7. Viver na Igreja e como Igreja é necessário ao cristão católico?

R.: Sim. Viver na Igreja é indispensável ao católico. Faz parte da fé viver na Igreja e como Igreja. A palavra “Igreja” quer dizer “convocação” ou “assembleia reunida”. Só Deus, não os homens, pode convocar o seu Povo e estabelecer a sua Igreja. Jesus Cristo foi quem fundou a Igreja ao convocar os apóstolos, ao escolher Pedro para estar à sua frente, ao ordenar aos Apóstolos que batizassem e celebrassem a Eucaristia, ao enviá-los em missão e ao derramar o Espírito Santo sobre os discípulos reunidos. Cristo inaugurou novos tempos e, assim, fundou o Novo Povo de Deus. A Igreja é a casa e a família de Deus no mundo. Se o católico não participa da vida da Igreja, a sua fé ainda não está completa.


8. Qual a importância da Missa dominical?

R.: A Missa dominical é o centro de toda a atividade da Igreja. Tudo o que a Igreja faz ordena-se, em última análise, a que todos participem ativa e piedosamente da Missa; toda a ação da Igreja em favor do Reino de Deus tira sua vitalidade da celebração da Eucaristia. Na Missa, acontece a atualização da obra redentora de Jesus Cristo. É na Missa que, além de ouvirmos atentamente a Palavra de Deus, o Corpo de Cristo entregue por nós e o Sangue que ele derramou na Cruz tornam-se realmente presentes. O único sacrifício de Cristo torna-se atual, fazendo-se presente no hoje de nossa história. Pela Eucaristia, entramos em comunhão com a vida de Cristo e recebemos a caridade que o levou a doar a sua vida. O mistério da sua ressurreição e ascensão do Senhor também se faz presente, uma vez que Cristo não poderia atualizar sua entrega ao Pai se não estivesse vivo nos céus. Foi Jesus mesmo que ordenou aos apóstolos a celebração da Missa, quando disse, na última ceia, depois de ter convertido o pão e o vinho em seu Corpo e Sangue: “Fazei isto em memória de mim”. Os primeiros cristãos, cumprindo o mandato do Senhor, reuniam-se no Domingo, Dia da Ressurreição, para celebrar a Eucaristia. Até hoje a Igreja exige dos seus fiéis a participação na Missa dominical, consciente de que a Eucaristia é o grande dom deixado à Igreja por Cristo. Se é a Igreja que faz a Eucaristia, por outro lado é a Eucaristia que faz a Igreja.


9. Na Missa posso comungar sempre o Corpo de Cristo no sacramento?

Em princípio, todo fiel deveria receber o sacramento da Eucaristia na Missa de que participa. Pode-se comungar até duas vezes ao mesmo dia, se a segunda vez for dentro da Missa. A única coisa que impede a comunhão sacramental é o pecado grave ou a situação gravemente irregular. Quem está em pecado grave, deve procurar o quanto antes o sacramento da Penitência, confessar-se com arrependimento e voltar a comungar sacramentalmente. Quem vive numa situação gravemente irregular, como são os que vivem amasiados ou os casais em segunda união, embora não possam comungar sacramentalmente, podem e devem participar da vida da Igreja, especialmente da Missa, educar os filhos na fé, praticar boas obras... Os amasiados, se não há nenhum impedimento, se convivem bem, procurem o sacramento do matrimônio. Por que não? Os casais em segunda união procurem pedir a Deus que lhes aponte o caminho certo e, ao mesmo tempo, estejam abertos para receber as luzes que Deus lhes enviar e agir em conformidade. A Igreja os acolhe como mãe e deseja que sejam guiados por Deus.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O ato do conhecimento

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

O ato do conhecimento consiste, segundo Santo Tomás, em que o cognoscente receba em si o conhecido. Mas tal recepção não pode consistir, evidentemente, em receber o ser mesmo do objeto conhecido, uma vez que o objeto conhecido deve permanecer na sua alteridade, no seu ser outro, e não pode ser simplesmente "assimilado" pelo sujeito cognoscente ou transformado nele.

Assim, o que o sujeito recebe do objeto é a sua forma imaterial, que é o meio pelo qual (id quo) o objeto se dá a conhecer ao sujeito. Conhecer, pois, não significa assimilar, transformar ou dobrar o ser do objeto ao sujeito do conhecimento. Ao contrário, é um ato de sumo respeito, em que o objeto permanece no seu ser ser outro, embora seja recebido imaterialmente pelo sujeito.

Sem a relação de alteridade não há conhecimento real. Se o objeto não permanecesse em sua transcendência ontológica em relação ao sujeito, não haveria senão uma criação do sujeito, não o conhecimento do objeto. Grande parte da filosofia moderna sustenta que o sujeito destrói a alteridade do objeto, recriando-o no seu interior. Mas tal posição não corresponda à fenomenologia do conhecimento nem ao impacto que o real provoca no sujeito cognoscente, provocando sempre mais o desenvolvimento do conhecimento. Com efeito, a fenomenologia do conhecimento diz que, sem a dualidade sujeito-objeto, rui-se a essência do ato do conhecimento. Se o sujeito ficasse sempre fechado em si mesmo, não poderíamos dizer que ele realiza um verdadeiro ato de conhecimento. Tal dualidade é confirmada pela experiência e pelo cabedal de conhecimento que a humanidade vai alcançando e desenvolvendo ao longo da história, já que o real a constringe sempre mais a conformar-se à sua forma, que se impõe ao sujeito, não podendo, por isso mesmo, ser uma mera criação sua. 

O conhecimento é também, de outro ponto de vista, uma identificação do sujeito com o objeto conhecido. Aristóteles dizia que a alma, potencialmente capaz de conhecer todas as coisas, é, de certo modo, todas as coisas: anima quodammodum omnia - é uma frase repetida por Santo Tomás. Quando conhece, o sujeito se identifica com o conhecido, isto é, o sujeito prende em si mesmo a forma do objeto e se torna, enquanto sujeito do conhecimento, o próprio objeto. Evidentemente, devemos dizer, não se trata de identificação ontológica, pois um ser não pode se transformar noutro sem deixar de ser o que é. E, no conhecimento, o sujeito identifica-se com o objeto sem deixar de ser, ontologicamente, sujeito, um alter em relação ao objeto. Tal identificação, pois, só pode ser intencional, e se explica pela imaterialidade, que é própria de todo conhecimento. Todo ato de conhecimento requer imaterialidade, em maior ou menor grau, de acordo com a natureza do conhecimento. Tal imaterialidade já desponta nos sentidos e alcança sua mais alta pureza no intelecto. 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Heresias cristológicas e trinitárias


D. ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB

As Heresias Cristológicas I

Após verificar que o Filho de Deus é verdadeiro Deus com o Pai e o Espírito Santo, a atenção dos teólogos devia voltar-se mais detidamente para a questão: como Jesus pode ser autêntico Deus e autêntico homem? Como se relacionam entre si a Divindade e a humanidade de Jesus? A resposta a estas perguntas exigiu grande esforço por parte dos estudiosos, que a formularam em quatro etapas:
1) a fase apolinarista;
2) a fase nestoriana;
3) a fase monofisita;
4) a fase monotelita.

A seguir, estudaremos as três primeiras destas etapas.
1) O Apolinarismo
Em plena controvérsia ariana, o Bispo Apolinário de Laodicéia (Síria), 310-390, mostrava-se fervoroso defensor do Credo niceno contra os arianos, mas afirmava que em Cristo a natureza humana carecia de alma humana; tomava ao pé da letra as palavras de S. João 1,14: “O Lógos se fez carne”, entendendo carne no sentido estrito, com exclusão de alma. O Lógos de Deus faria as vezes de alma humana em Jesus, isto é, seria responsável pelas funções vitais da natureza humana assumida pelo Lógos.
Os argumentos em favor desta tese eram os seguintes: duas naturezas completas (Divindade e humanidade) não podem tornar-se um ser único; se Jesus as tivesse, Ele teria duas pessoas ou dois eu - o que seria monstruoso. Além disto, dizia, onde há um homem completo, há também o pecado; ora o pecado tem origem na vontade; por conseguinte, Jesus não podia ter vontade humana nem a alma espiritual, que é a sede da vontade.
Apolinário expôs suas idéias no livro “Encarnação do Verbo de Deus”, que ele apresentou ao Imperador Joviano e que os seus discípulos difundiram. - Foram condenadas num sínodo de Alexandria em 362; depois, pelo Papa S. Dâmaso em 377 e 382 e, especialmente, pelo Concílio de Constantinopla I (381). Verificando a oposição que lhe faziam bons teólogos, Apolinário limitou-se a negar a presença de mente (nous) humana em Jesus. S. Gregório de Nissa († 394) e outros autores lhe responderam mediante belo princípio: “O que não foi assumido pelo Verbo, não foi redimido” - o que quer dizer: Deus quer santificar e salvar a natureza humana pelo próprio mistério da Encarnação ou pela união da Divindade com a humanidade; se pois, a humanidade estava mutilada em Jesus, ela não foi inteiramente salva.
Em Antioquia, fundou-se uma comunidade apolinarista, tendo à frente o Bispo Vital. Por volta de 420 esta foi reabsorvida pela Igreja ortodoxa, mas nem todos os seus membros abandonaram o erro, que reviveu, de certo modo, na heresia monofisita.

2) O Nestorianismo.
Afirmada a existência da natureza humana completa em Jesus, os teólogos puderam estudar mais detidamente o modo como humanidade e Divindade se relacionaram em Cristo. Antes, porém, de entrar em particulares, devemos mencionar as duas principais escolas teológicas da antigüidade: a alexandrina e a antioquena, que muito influíram na elaboração da Cristologia.
A escola alexandrina era herdeira de forte tendência mística; procurava exaltar o divino e o transcendental nos artigos da fé. Interpretava a S. Escritura em sentido alegórico, tentando desvendar os mistérios divinos contidos nas Sagradas Letras. Em assuntos cristológicos, portanto, era inclinada a realçar o divino, com detrimento do humano. Ao contrário, a escola antioquena era mais dada à filosofia e à razão: voltava-se mais para o humano, sem negar o divino. Interpretava a S. Escritura em sentido literal e tendia a salientar em Jesus os predicados humanos mais do que os atributos divinos. Era mais racional, ao passo que a de Alexandria era mais mística.
Dito isto, voltemos à história do dogma cristológico. A primeira tentativa de solução foi encabeçada por Nestório, elevado à cátedra episcopal de Constantinopla em 428. Afirmava que o Lógos habitava na humanidade de Jesus como um homem se acha num templo ou numa veste; haveria duas pessoas, em Jesus - uma divina e outra humana - unidas entre si por um vinculo afetivo ou moral. Por conseguinte, Maria não seria a Mãe de Deus (Theotókos), como diziam os antigos, mas apenas Mãe de Cristo (Christokós); ela teria gerado o homem Jesus, ao qual se uniu a segunda pessoa da SS. Trindade com a sua Divindade.
Nestório propunha suas idéias em pregações ao povo, nas quais substituía o título “Mãe de Deus” por “Mãe de Cristo”. As suas concepções suscitaram reação não só em Constantinopla, mas em outras regiões também, especialmente em Alexandria, onde S. Cirilo era Bispo ardoroso. Este escreveu em 429 aos bispos e aos monges do Egito, condenando a doutrina de Nestório. As duas correntes se dirigiram ao Papa Celestino I, que rejeitou a doutrina de Nestório num sínodo de 430. Deu ordem a S. Cirilo para que intimasse Nestório a retirar suas teorias no prazo de dez dias, sob pena de exílio; Cirilo enviou ao Patriarca de Constantinopla uma lista de doze anatematismos que condenavam o nestorianismo. Nestório não se quis dobrar, de mais a mais que podia contar com o apoio do Imperador; além do mais, tinha muitos seguidores na escola antioquena, entre os quais o próprio Bispo João de Antioquia.
Em 431, o Imperador Teodósio II, instado por Nestório, convocou para Éfeso o terceiro Concílio Ecumênico a fim de solucionar a questão discutida. S. Cirilo, como representante do Papa Celestino I, abriu a assembléia diante de 153 Bispos. Logo na primeira sessão, foram apresentados os argumentos da literatura antiga favoráveis ao título Theotókos, que acabou sendo solenemente proclamado; daí se seguia que em Jesus havia uma só pessoa (a Divina); Maria se tornara Mãe de Deus pelo fato de que Deus quisera assumir a natureza humana no seu seio. Quatro dias após esta sessão, isto é, a 26/06/431 chegou a Éfeso o Patriarca Jogo de Antioquia, com 43 Bispos seus seguidores, todos favoráveis a Nestório; não quiseram unir-se ao Concílio presidido por S. Cirilo, representante do Papa; por isto formaram um conciliábulo, qual depôs Cirilo.
O Imperador acompanhava tudo de perto e sentia-se indeciso. S. Cirilo então mobilizou todos os seus recursos, para mover Teodósio II em favor da reta doutrina; nisto foi ajudado por Pulquéria, piedosa e influente irmã mais velha do Imperador. Este finalmente apoiou a sentença de Cirilo e exilou Nestório. Todavia os antioquenos não se renderam de imediato; acusavam Cirilo de arianismo a apolinarismo. Após dois anos de litígio, em 433 puseram-se de acordo sobre uma fórmula de fé que professava um só Cristo e Maria como Theotókos. O Nestorianismo, porém, não se extinguiu. Os seus adeptos, expulsos do Império Bizantino, foram procurar refúgio na Pérsia, onde fundaram a Igreja Nestoriana.
Esta teve notável expansão até a China e a Índia Meridional; mas do século XIV em diante foi definhando por causa das incursões dos mongóis; em grande parte, os nestorianos voltaram à comunhão da Igreja universal (são hoje os cristãos caldeus e os cristãos de São Tomé). Em nossos dias muitos estudiosos têm procurado reabilitar a pessoa e a obra de Nestório, que parece ser autor de uma apologia intitulada “Tratado de Heraclides de Damasco”: pode-se crer que tenha tido reta intenção; mas certamente sustentou posições errôneas por se ter apegado demasiadamente à Escola Antioquena.

3) O Monofisismo
A luta contra o Nestorianismo, que admitia em Jesus duas naturezas e duas pessoas, deu ocasião ao surto do extremo oposto, que é o monofisismo ou monofisitismo (“em Jesus há uma só natureza e uma só pessoa: a divina”). O primeiro arauto desta tese foi Eutiques, arquimandrita de Constantinopla: reconhecia que Jesus constava originariamente da natureza divina e da humana, mas afirmava que a natureza divina absorveu a humana, divinizando-a; após a Encarnação, só se poderia falar de uma natureza em Jesus: a divina.
Esta doutrina tornou-se a heresia mais popular e mais poderosa da antigüidade, pois, para os orientais, a divinização da humanidade em Cristo era o modelo do que deve acontecer com cada cristão. Eutiques foi condenado como herege no Sínodo de Constantinopla em 448, sob o Patriarca Flaviano. Todavia não cedeu e reclamou contra uma pretensa injustiça, pois tencionava combater o Nestorianismo. Conseguiu assim ganhar os favores da corte. Solicitado pelo Patriarca Dióscoro de Alexandria, Teodósio II Imperador convocou em 449 novo Concílio Ecumênico para Éfeso, confiando a presidência do mesmo a Dióscoro, que era partidário de Estiques. Dióscoro, tendo aberto o Concílio negou a presidência aos legados papais; não permitiu que fosse lida a Carta do Papa S. Leão Magno, que propunha a reta doutrina: as duas naturezas em Cristo não se misturam nem confundem, mas cada qual exerce a sua atividade própria em comunhão com a outra; assim Cristo teve realmente fome, sede e cansaço, como homem, e pôde ressuscitar mortos como Deus. - Esse Concílio de Éfeso proclamou a ortodoxia de Eutiques; depôs Flaviano, Patriarca de Constantinopla, e outros Bispos contrários à tese monofisita... Todavia os seus decretos foram de curta duração. Os Bispos de diversas regiões o repudiaram como ilegítimo ou, segundo a expressão do Papa São Leão Magno, como “latrocínio de Éfeso”; pediam novo Concílio que de fato foi convocado após a morte de Teodósio II pela Imperatriz Pulquéria (irmã de Teodósio) e pelo general Marcião, que em 450 foi feito Imperador e se casou com Pulquéria.
O novo Concílio, desta vez legítimo, reuniu-se em Caledônia, diante de Constantinopla, em 451; foi o mais concorrido da antigüidade, pois dele participaram mais de 600 membros, entre os quais três legados papais. A assembléia rejeitou o “latrocínio de Éfeso”; depôs Dióscoro e aclamou solenemente a Epístola Dogmática do Papa São Leão a Flaviano; esta serviu de base a uma confissão de fé, que rejeitava os extremos do Nestorianismo e do Monofisismo, propondo em Cristo uma só pessoa e duas naturezas: “Ensinamos e professamos um Único e idêntico Cristo... em duas naturezas, não confusas e não transformadas, não divididas, não separadas, pois a união das naturezas não suprimiu as diferenças; antes, cada uma das naturezas conservou as suas propriedades e se uniu com a outra numa Única pessoa e numa Única hipóstase”.
Assim terminou a fase principal das disputas cristológicas: em Cristo não há duas naturezas e duas pessoas, pois isto destruiria a realidade da Encarnação e da obra redentora de Cristo; mas também não há uma só natureza e uma só pessoa, pois Cristo agiu como verdadeiro homem, sujeito à dor e à morte para transfigurar estas nossas realidades. Havia, pois, uma só pessoa (um só eu) divina, que, além de dispor da natureza divina desde toda a eternidade, assumiu a natureza humana no seio de Maria Virgem e viveu na terra agindo ora como Deus, ora como homem, mas sempre e somente com o seu eu divino.
O encerramento do Concílio de Calcedônia não significou a extinção do monofisismo. Além da atração que esta doutrina exercia sobre os fiéis (especialmente os monges), propondo-lhes a humanidade divinizada de Cristo como modelo, motivos políticos explicam essa persistência da heresia; com efeito, na Síria e no Egito certos cristãos viam no Monofisismo a expressão de suas tendências nacionalistas, opostas ao helenismo e à dominação bizantina. Por isto os monofisitas continuaram a lutar contra o Imperador, que havia exilado Dióscoro e Eutiques e ameaçado de punição os adeptos destes: ocuparam sedes episcopais; inclusive a de Jerusalém (ao menos temporariamente).
No século VII a situação se agravou, pois os muçulmanos ocuparam a Palestina, a Síria e o Egito, impedindo a ação de Bizâncio em prol da ortodoxia nesses países. Em conseqüência, os monofisitas foram constituindo Igrejas nacionais: a armena, a síria, a mesopotâmica, a egípcia e a etíope, que subsistem até hoje com cerca de 10 milhões de fiéis. No Egito, os monofisitas tomaram o nome de coptas, nome que guarda as três consoantes da palavra grega Aigyptos (g ou k, p, t ); são os antigos egípcios. Os ortodoxos se chamam melquitas (de melek, Imperador), pois guardam a doutrina ortodoxa patrocinada pelo Imperador em Calcedônia. Há coptas que se uniram a Roma em 1742, enquanto os outros permanecem monofisitas, mas professam quase o mesmo Credo que os católicos.
Na Abissínia os monofisitas também são chamados coptas pois receberam forte influência do Egito. "Dentre os melquitas, grande parte aderiu ao cisma bizantino, separando-se de Roma em 1054; certos grupos, porém, estão hoje unidos à Igreja universal. Na Síria e nos países vizinhos, os monofisitas foram chamados jacobitas, nome derivado de um dos seus primeiros chefes: Jacó Baradai (=o homem da coberta de cavalo, alusão às suas vestes maltrapilhas). Jacó, bispo de Edessa (541-578), trabalhou com zelo e êxito para consolidar as Comunidades monofisitas, as quais deu por cabeça o Patriarca Sérgio de Antioquia (544). A história das disputas cristológicas prosseguirá no capítulo seguinte.


As Heresias Cristológicas II


D. ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB


Continuemos a estudar as heresias cristológicas no intuito de compreender melhor a sutileza da disputa e a ação do Espírito de Deus através das vicissitudes humanas.

4) O Henotikón e o Teopasquismo
Vinte e cinco anos após o Concílio de Calcedônia, em 476, deu-se nova investida dos monofisitas contra a ortodoxia. Com efeito; os Patriarcas Pedro Mongo, de Alexandria, e Acácio de Constantinopla, adeptos do monofisismo, redigiram um Símbolo de fé que condenava tanto Nestório quanto Eutiques; rejeitava o Concílio de Calcedônia e afirmava que as normas de fé deveriam ser o símbolo niceno-constantinopolitano e as definições do Concílio de Éfeso (431). Tal fórmula de 476 podia ser interpretada de diversas maneiras. O Imperador Zenão promulgou esse símbolo de fé, dito Henotikón (Edito de União), com o vigor de lei do Estado. Assim esperava atingir a unidade religiosa dentro do Império.
Infelizmente, porém, causou mais acesas divisões. Muitos católicos e os monofisitas mais extremados recusaram obedecer ao Imperador por causa da ambigüidade do Henotikón. Ao saber das manobras do Imperador, o Papa Félix III enviou legados a Constantinopla para pedir a Zenão, e ao Patriarca Acácio fidelidade ao Concílio de Calcedônia. Como fossem vãs essas solicitações, o Papa resolveu depor Acácio, Patriarca de Constantinopla. Tal medida era muito grave, pois significava ruptura com os cristãos orientais em geral e com o Imperador, que os queria dirigir no sentido do monofisismo. O Papa, porém, foi corajoso no cumprimento do dever de preservar a reta fé.
A ruptura durou 35 anos (484-519). Foi chamada “cisma acaciano”, durante o qual o monofisismo se propagou amplamente entre os orientais. Zenão morreu em 491, tendo por sucessor o Imperador Anastásio (491-518), também simpático aos monofisitas. Por isto, as conversações que o Papa encaminhou com o monarca, foram infrutíferas. A situação se tornou ainda mais sombria por causa da questão teopasquita. Com efeito; a liturgia grega cantava a Triságion (três vezes santo) nos seguintes termos: “Santo (hágios) Deus, Santo Forte, Santo imortal, tem piedade de nós”. Ora o bispo monofisita Pedro Fulão de Antioquia acrescentou-lhe as palavras “que foste pregado na cruz por cause de nós”.
O Imperador Anastásio mandou recitar a fórmula ampliada em Constantinopla; donde resultou grande agitação. Diziam alguns monges e fiéis: “Um da Santíssima Trindade padeceu na carne”; foram chamados teopasquitas. A fórmula em foco podia ser entendida segundo a ortodoxia: a segunda Pessoa da SS. Trindade, tendo-se feito homem, padeceu na carne de Jesus. Mas, como a origem desses dizeres era monofisita, os ortodoxos desconfiaram dos mesmos, de mais a mais que os monofisitas lhes favoreciam calorosamente. Morto o Imperador Anastásio, sucedeu-lhe Justino (518-527), que se empenhou por restabelecer a comunhão com a Sé de Roma. O Papa Hormisdas (514-523) acolheu o propósito de Bizâncio e mandou legados a esta cidade com uma fórmula de união dita “Livro da Fé do Papa Hormisdas”: esta proclamava o símbolo de fé calcedonense e as cartas dogmáticas de Leão Magno; renovava o anátema sobre Nestório, Eutiques, Dióscoro e outros chefes monofisitas; além disto, declarava que, conforme a promessa de Cristo a Pedro em Mt 16,16-19, a fé católica se conservava intacta na Sé de Roma; por isto os fiéis deviam obediência às decisões tomadas por esta.
Era assim professado o primado do Papa em 515. O Patriarca João II, de Constantinopla, os bispos e os monges presentes nesta cidade assinaram tal fórmula. Estava terminado o cisma. O monofisismo perdeu muito da sua voga, mas as controvérsias continuaram.
5) Os Três Capítulos
O Imperador Justiniano (527-565) foi homem de grande ideal, que tencionou dar ao Império um período de fausto como não o tivera até então. Era, ao mesmo tempo, prepotente, de modo que exerceu forte cesaropapismo. Compreende-se então que as controvérsias teológicas tenham merecido sua zelosa atenção. O Imperador, querendo conciliar os ânimos, só fez provocar maiores tumultos. O bispo Teodoro Asquida de Cesaréia, muito influente na corte, sugeriu ao Imperador que condenasse três nomes de autores antioquenos tidos como inspiradores do nestorianismo; dizia que bastaria essa medida para obter a volta dos monofisitas: A comunhão da Igreja Universal.
Esses três nomes constituíram Três Capítulos, a saber: 1) Teodoro de Mopsuéstia († 428), sua pessoa e seus escritos; 2) os escritos de Teodoreto de Ciro († 458) contra Cirilo e o Concílio de Éfeso; 3) a carta do bispo Ibas de Edessa († 435) ao bispo Mário de Ardashir em defesa de Teodoro de Mopsuéstia e contra os anatematismos de Cirilo. O Imperador acolheu a proposta e publicou um edito que anatematizava os Três Capítulos em 543. Este decreto dividiu os ânimos, pois não se viam claramente os erros pretensamente cometidos pelos três autores. Justiniano, porém, obrigou o Patriarca Menas e os bispos orientais a assinar o anitema.
Os ocidentais deviam seguir-lhes o exemplo, tendo o Papa Vigilio à frente. Este relutou; por isto o Imperador mandou buscá-lo de Roma para Constantinopla. Um ano após sua chegada, Vigílio em 548 escreveu o ludicatum, em que condenava os Três Capítulos, ressalvando, porém, a autoridade do Concílio de Calcedônia. O gesto do Papa causou indignação entre os ocidentais, principalmente no Norte da África, pois era uma estrondosa vitória do cesaropapismo. Em conseqüência, o Papa e o Imperador em 550 decidiram convocar um Concílio Ecumênico para resolver o caso; entrementes nenhuma inovação seria praticada. Todavia em julho de 551 Justiniano repetiu o anátema sobre os Três Capítulos - o que provocou ruptura com o Papa Vigílio, que teve de procurar asilo em igrejas de Constantinopla e Calcedônia.
A respeito do Concílio, o Papa e o Imperador já não concordavam entre si. Por isto Justiniano convocou o Concílio por sua exclusiva iniciativa. Reunido sob a presidência de Eutíquio, novo Patriarca de Bizâncio, renovou a condenação dos Três Capítulos (maio e junho de 553). Vigílio então em 13/05/553, no decurso do próprio Concílio, publicou o Constitutum que se opunha à condenação dos Três Capítulos. Justiniano não aceitou a nova posição do Papa e mandou cancelar o nome de Vigílio nas orações da Liturgia. Finalmente, sob o peso das pressões e da doença, o Papa em dezembro de 553 retirou o seu Constitutum e aderiu às decisões do Concílio de Constantinopla de 553. Num segundo Constitutum de 23/02/554, expôs as razões da sua atitude. Em conseqüência, o Imperador permitiu-lhe voltar para Roma; todavia morreu em viagem (555). Era vítima da sua inconstância de caráter.
Os Papas que lhe sucederam, a começar por Pelágio I (556-561), reconheceram o Concílio de 553 como ecumênico; é o de Constantinopla II. As dioceses do Ocidente aos poucos também o foram reconhecendo, embora tivessem consciência de que significava uma humilhação para o Papado. Notemos que as hesitações do Papa Vigílio não versavam sobre assuntos de fé propriamente dita, mas sobre a oportunidade ou não de se condenarem três nomes de escritores antigos. "O episódio também é interessante por evidenciar quanto era prestigiada a Sé Romana; o Imperador quis absolutamente ganhar o consenso do Papa Vigílio; por isto mandou buscá-lo em Roma e pressionou-o repetidamente para que subscrevesse ao decreto imperial, como se este precisasse da assinatura do Papa para ser válido.

6) Monergetismo e monotelitismo
Os monofisitas insistiam em se auto-afirmar. Por isto a heresia reapareceu no século VII sob nova forma. O Patriarca Sérgio de Constantinopla desde 619 ensinava que em Jesus havia uma só enérgeia ou uma só capacidade de agir (monergetismo); a capacidade humana estaria absorvida na divina e não teria suas expressões naturais. O Imperador Heráclio (610-641) aceitou a nova fórmula e conseguiu assim reconciliar grupos monofisitas com o Império.
Todavia o monge palestinense Sofrônio resolveu resistir à nova doutrina, denunciando-a como monofisismo velado. O Patriarca Sérgio de Constantinopla deixou então de falar de uma só faculdade operativa, para afirmar uma só vontade (a Divina tendo absorvido a humana) em Jesus (monotelitismo). Muito habilmente Sérgio tentou ganhar os favores do Papa Honório I (625-638); este, tendo recebido informações unilaterais, escreveu duas cartas ao Patriarca de Constantinopla, em que aderia genericamente à sua posição, embora não compartilhasse propriamente nem o monergismo nem o monofisismo; para evitar escândalos ordenava que não se falasse de uma ou duas energias.
Levando adiante a causa de Sérgio, o Imperador Heráclio em 638 promulgou a profissão de fé dita “Ectese”, redigida pelo Patriarca, que reafirmava o monotelitismo. Os bispos orientais a aceitaram quase unanimemente, ao passo que os sucessores do Papa Honório (morto em 638) a condenaram.
O Imperador Constante II (641-648), sobrinho de Heráclio, retirou a “Ectese”, mas, aconselhado pelo Patriarca Paulo de Constantinopla, publicou novo edito dogmático, chamado Typos, em 648, que proibia falar de uma ou duas vontades em Cristo. O monarca tencionava assim pôr fim à contenda. Ora no Ocidente o Papa Martinho I (649-653), percebendo a sutileza dos bizantinos, reuniu um Concílio no Latrão (Roma) em 649, o qual declarou que em Cristo havia dois modos de operar e duas vontades naturais, e puniu com a excomunhão os fautores das novas idéias. O Imperador, indignado, mandou prender o Papa e leva-lo para Constantinopla (653); aí foi humilhado como traidor e, por fim, exilado para a Criméia, onde morreu de maus tratos. Vários cristãos orientais foram tratados de modo semelhante por resistirem ao Imperador, merecendo especial destaque o abade São Máximo o Confessor, que foi cruelmente martirizado.
Constantino IV Pogonato (668-685), filho de Constante II, procurou a paz e, para tanto, decidiu convocar um Concílio Ecumênico, idéia que o Papa Agatão (678-681) aprovou com solicitude. Tal foi o sexto Concílio Ecumênico, o de Constantinopla III, celebrado de novembro de 680 a setembro de 681, com a presença de 170 participantes. Os conciliares elaboraram uma profissão de fé, que completava a de Calcedônia:
“Nós professamos, segundo a doutrina dos Santos Padres, duas vontades naturais e dois modos naturais de operar, indivisos e inalterados, inseparados e não misturados, duas vontades diversas, não, porém, no sentido de que uma esteja em oposição à outra, mas no sentido de que a vontade humana seque e se subordina à divina"
Isto quer dizer que em Jesus havia duas faculdades de querer - a divina e a humana - de tal modo, porém, que a vontade humana se sujeitava à divina, como atesta a oração no horto das Oliveiras, conforme Mc 14,36.
O Concílio condenou os defensores do monotelitismo e o próprio Papa Honório, tido como fautor de tal doutrina. A condenação de Honório suscitou longos debates entre historiadores e teólogos modernos. Na verdade, pode-se tranqüilamente dizer o seguinte:
O Papa Honório, intervindo na controvérsia, não quis proferir definições ex cathedra, nem quis discutir como teólogo. Unilateralmente informado por Sérgio, julgou que a discussão a respeito de uma ou duas vontades em Cristo era mero litígio de palavras, como estava nos hábitos dos bizantinos; por isto julgou que podia aprovar a posição de Sérgio sem afetar a reta fé. A expressão “uma vontade”, aliás, foi explicada pelo próprio Honório em sua carta a Sérgio, no sentido de conformidade do querer humano com o divino. Quanto às faculdades de operar (energeias), Honório esclareceu, seu ponto de vista referindo-se à epístola dogmática de São Leão a Flaviano, que diz: ambas as naturezas operam na única pessoa de Cristo, não misturadas, não separadas e não confusas, aquilo que é próprio de cada uma delas. Donde se vê que o juízo proferido sobre Honório pelo Concílio de 681 foi severo demais; a Sé de Roma nunca o aprovou integralmente.

As Heresias Trinitárias


D. ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB


Tendo estudado a expansão do Cristianismo até o século VI, passamos a considerar a história das doutrinas da fé na antigüidade. Um dos mais sérios problemas doutrinários que se puseram na Igreja antiga, foi o da conciliação da unidade de Deus (firmemente professada pelo Antigo Testamento) com a Trindade de Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo, tais como nos foram revelados pelo Novo Testamento). A inteligência dos cristãos se pôs à procura de uma fórmula satisfatória, que, após duras controvérsias, foi definida pelos Concílios de Nicéia I (325) e Constantinopla I (381). É a história dessa longa reflexão que vamos estudar.

7) O monarquianismo
Nos séculos II/III alguns escritores cristãos julgavam que o Verbo (Lógos) ou o Filho de Deus só se tornara pessoa no tempo; em vista da criação do mundo, o Pai teria gerado ou emitido o Lógos, de modo a constituir a segunda Pessoa da SS. Trindade - Esta concepção negava a eternidade do Filho de Deus e o subordinava ao Pai. Todavia os defensores dessa teoria afirmavam a Divindade do Filho, de modo que não suscitavam grave polêmica na sua época.
Podemos dizer que a primeira tentativa sistemática de conciliar unidade e pluralidade em Deus professava a unidade com detrimento da pluralidade. Chamou-se, por isto, monarquianismo, expressão derivada da exclamação: “Monarchiam tenemus. - Conservamos a monarquia” ( Tertuliano, Adversus Praxeam 3). Apresentava duas fórmulas:

8) O monarquianismo dinamista
O monarquianismo dinamista professou que Jesus era mero homem, o qual no momento do Batismo terá sido revestido de poder (dynamis) divino; foi, portanto, um homem adotado por Deus como Filho, com intensidade especial. O fundador desta corrente foi Teódoto de Bizâncio, cristão de notável cultura grega, que o Papa São Vítor excomungou (190). Os seus discípulos, Asclepiódoto e Teódoto o jovem, quiseram organizar uma comunidade própria, para qual nomearam um Bispo chamado Natal; este foi o primeiro antipapa, o qual, arrependido, tornou-se ao seio da Igreja. Tal corrente teve novo representante na pessoa de Paulo de Samosata, homem ambicioso. Este via em Jesus um mero homem no qual terá habitado “como num templo” o Logos ou a Sabedoria de Deus, que em escala menor habitava em Moisés e nos profetas. Um concílio regional reunido em Antioquia excomungou Paulo (268); mas os numerosos adeptos deste continuaram a professar a sua doutrina, de modo que o Concílio ecumênico de Nicéia teve que se ocupar com a escola dos paulanos (325).
É de notar que o mencionado Concílio de Antioquia em 268 rejeitou a afirmação de que o Filho ou Logos é da mesma substância ou natureza (homoousios) que o Pai. Ora precisamente esta expressão foi consagrada pelo Concílio de Nicéia I (325) como fórmula de fé. Para entender os fatos, devemos observar que Paulo de Samosata usava a palavra homoousios para significar que o Logos ou o Filho era uma só pessoa com o Pai.

9) Monarquianismo modalista
Esta corrente ensinava que o Filho era o próprio Pai ou uma modalidade pela qual o Pai se manifestava; por conseguinte, o Pai terá padecido na cruz (donde o nome patri, de pater, pai; passianismo, de passus, padecido).Tal doutrina, devida a Noeto de Esmirna, foi levada para Roma e Cartago (África), dando origem ao partido patripassiano, que muito agitou a comunidade de Roma. O Papa Zeferino (198-217), numa declaração oficial, afirmou a Divindade de Cristo e a unidade de essência em Deus, sem, porém, negar, como faziam os patripassianos, a diversidade de pessoas do Pai e do Filho.
O modalismo foi estendido por Sabélio, em Roma, ao Espírito Santo. Este pregador professava três revelações de Deus: uma, como Pai, na criação e na legislação do Antigo Testamento; outra, como Filho, na Redenção; e a terceira, como Espírito Santo, na obra de santificação dos homens. Designava cada uma dessas manifestações como prósopon, palavra grega que significava originariamente “máscara ou papel de ator de teatro“, visto que posteriormente prósopon significou também pessoa, a doutrina de Sabélio tornou-se ambígua e conquistou muitos adeptos, que de boa fé lhe aderiram sem querer negar a trindade de Pessoas em Deus. Como se vê, o grande problema consistia em afirmar a Trindade de Pessoas em Deus sem cair no triteísmo ou sem professar três deuses.
A controvérsia havia de arder por todo o século IV, envolvendo todas as camadas da população, desde o Imperador até os mais simples fiéis; a ingerência do poder imperial, que desde 313 era simpático ao Cristianismo, contribuiu para tornar difíceis e penosas essas discussões teológicas; elas assumiam, não raro, um caráter direta ou indiretamente político. A problemática suscitou na Igreja os esforços de numerosos santos e doutores, que, com seus talentos intelectuais e sua vida, colaboraram decisivamente para a reta formulação da fé cristã. O período áureo da literatura cristã está precisamente ligado às disputas teológicas.
Estudemos agora as controvérsias do século IV: Arianismo e semiarianismo. Rejeitando o monarquianismo dinamista e modalista, a lgreja afirmava sua fé em Cristo, Pessoa Divina e distinta do Pai. Todavia não estava explicada a maneira como se relacionam entre si o Filho e o Pai. No século IV muitos admitiram a Divindade do Filho, subordinando-o, porém, ao Pai; donde resultou a tese do subordinacionismo, que teve em Ário de Alexandria o seu principal arauto.

10) Arianismo
O presbítero Ário de Alexandria foi mais longe do que os pensadores anteriores: afirmava que o Filho é criatura do Pai, a primeira e a mais digna de todas, destinada a ser instrumentos para a criação de outros seres. Em virtude da sua perfeição, o Filho ou Logos poderia ser chamado “Filho de Deus”, como reza a tradição. O Bispo Alexandre de Alexandria reuniu um Sínodo local, contando cerca de cem Bispos, que condenaram a doutrina de Ário e dos seus seguidores em 318. A decisão foi comunicada a outros Bispos, inclusive ao Papa S. Silvestre. Ário, porém, conseguiu novos defensores para a sua causa o que tornou mais árdua a controvérsia. Diante dos fatos, o imperador Constantino, que em 324 vencera Licínio, tornando-se Onico senhor do Império, resolveu intervir: tinha como assessor teológico o santo Bispo Ósio de Córdoba (Espanha), que Constantino enviou a Alexandria para aproximar Ário do Bispo Alexandre; a missão, porém, fracassou.
Então Constantino resolveu convocar um Concílio ecumênico para Nicéia na Ásia Menor em 325, ao qual compareceram cerca de 300 Bispos, provenientes de todas as partes do mundo cristão; o Papa Silvestre, de idade avançada, mandou dois presbíteros seus representantes. As discussões foram longas e agitadas. Por fim, os padres conciliares redigiram o Símbolo de Fé de Nicéia, que afirmava ser o Filho “Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não feito, consubstancial (homoousios) ao Pai; por Ele foram feitas todas as coisas”. A palavra homoousios torna-se, de então por diante, a senha da reta doutrina. Significava que o Filho é da mesma natureza (= Divindade) que o Pai; não saiu do nada como as criaturas, mas desde toda a eternidade foi gerado sem dividir a natureza divina.
O Imperador Constantino tomou aos seus cuidados a defesa do Concílio ecumênico de Nicéia. Exilou Ário e quatro Bispos que não queriam aceitar, na íntegra, definição do Concílio. Condenou às chamas os escritos de Ário; seria punido quem os guardasse às ocultas.

11 ) As divisões do Arianismo
lnfelizmente, porém, as controvérsias não terminaram. O termo homoousios parecia a alguns suspeito de sabelianismo ou de modalismo. Por isto alguns Bispos e monges puseram-se a combater o Concílio, apoiados pelos Imperadores Constâncio (337) e Valente (364-78), sucessores de Constantino. Do lado da ortodoxia, destacam-se: S. Atanásio, Bispo de Alexandria desde 328, que sofreu vários exílios; e o Papa Libério, que em 355 foi deportado pelo Imperador Constâncio; alguns historiadores antigos dizem que Libério conseguiu voltar à sua sede de Roma, subscrevendo uma fórmula de fé antinicena e deixando de apoiar S. Atanásio; se isto é verdade, deve-se à fraqueza humana, mas não se tratava de definição solene e sim de um pronunciamento pessoal que o Papa fazia.
De resto, sabe-se que Libério, uma vez retornado a Roma, combateu eficazmente o arianismo. Os antinicenos, com o respaldo do Imperador, julgaram-se vencedores, depondo Bispos e reunindo Concílios regionais. Acontece, porém, que se dividiram: tendo negado a identidade de substância entre o Pai e o Filho ou afirmaram uns que o Filho era semelhante (homoiousios) ao Pai, enquanto outros o tinham como dissemelhante (anhomoios). A controvérsia era alimentada também pela sutileza do linguajar; palavras próximas umas das outras tinham significados diferentes: assim homoousios e homoiousios; genetós (feito) e gennetós (gerado), Nikainon (de Nikaia, sede do Concílio ortodoxo de 325) e Nikenon (de Nike, sede de um Concílio herético).
Finalmente, após mais de cinqüenta anos de disputas ardentes, a ortodoxia foi prevalecendo, especialmente por obra dos três doutores da Capadócia (Ásia Menor): S. Basílio de Cesaréia († 379), S. Gregório de Naziano († 390) e S. Gregório de Nissa († 394). Estes elaboraram a fórmula grega: mía ousía kaí treis hypostáseis, uma essência (ou substância) e três pessoas, fórmula que exprimia fielmente o pensamento dos padres nicenos e o conteúdo da reta fé: há uma só Divindade, que se afirma três vezes ou em três Pessoas. O grande protetor da ortodoxia, no fim do século IV, foi o Imperador Teodósio (379´395), que, pouco depois de subir ao trono, convidou todos os habitantes do Império a aderir “aquela fé que professam Dâmaso em Roma e Atanásio em Alexandria”; mandou também entregar as igrejas de Constantinopla aos católicos. O Concílio Ecumênico de Constantinopla I (381) havia de consolidar a proclamação da reta fé contra o arianismo. Isto, porém, não quer dizer qual tal heresia se tenha extinto logo; várias tribos germânicas, entrando dentro das fronteiras do Império, foram evangelizadas por arianos, de modo que abraçaram o Cristianismo ariano sob forma de religião nacional. Resta agora estudar a discussão relativa ao Espírito Santo.

12) O Macedonianismo
O Espírito Santo, embora atestado por numerosos textos bíblicos (como Jo 14-16), foi menos considerado no decorrer do século IV. É certo, porém, que quem julgava ser o Filho criatura do Pai tinha o Espírito Santo na conta de criatura do Filho; seria um dos espíritos servidores (cf. Hb 1,14), diferente dos anjos apenas por gradação. S. Atanásio, ao combater o arianismo, defendia também a divindade e a consubstancialidade do Espírito Santo. Por isto, um sínodo de Alexandria em 362 reconheceu a Divindade do Espírito Santo.
Isto, porém, não bastou para dissipar os erros: Macedôneo, Bispo ariano de Constantinopla deposto em 360, era ferrenho adversário da Divindade do Espírito, reunindo, em torno de si bom número de discípulos, que se chamavam macedonianos ou pneumatômacos (pneuma = espírito; máchomai = combater). Vários Sínodos rejeitaram a doutrina de Macedônio; o mesmo foi feito pelos padres capadócios. Mas o pronunciamento definitivo se deve ao Concílio de Constantinopla I realizado em 381: 150 padres ortodoxos, depois do afastamento de 36 macedonianos, condenaram o macedonianismo e, para explicitar claramente a fé ortodoxa, retomaram o artigo 32 do Símbolo de fé niceno, que rezava apenas: “Cremos no Espírito Santo”; foram-lhe acrescentadas as palavras: “Senhor e Fonte de Vida, que procede do Pai (cf. Jo 15,26), adorado e glorificado juntamente com o Pai e o Filho, e falou pelos Profetas”.
Assim teve origem o Símbolo de fé niceno-constantinopolitano, que refuta tanto a heresia ariana quanto a macedônia. Restava, porém, dirimir ainda uma dúvida: se o Espírito procede do Pai, como se relaciona com o Filho? A resposta foi diversa no Oriente e no Ocidente; todavia a diversidade consiste mais na formulação do que na própria doutrina. Os gregos, desde o século IV afirmam que o Espírito procede do Pai através do Filho, ao passo que os latinos ensinam que procede do Pai e do Filho (Filioque). Na Espanha o Filioque foi inserido no Credo niceno-constantinopolitano em 589 e oficialmente recitado, passando depois para outras regiões de língua latina. Os gregos se recusam a aceitar tal inserção, que se tornou pomo de discórdias nos séculos IX-XI.
Atualmente as dificuldades vão sendo superadas, pois em última instância se trata mais de palavras do que de conteúdo.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A liturgia no pensamento de Bento XVI (Parte II)

Giles D. Dimock

(Tradução: Pe. Elílio Júnior)

O Missal de Paulo VI

A reação de Ratzinger à introdução do Missal de Paulo VI foi, de certa maneira, negativa, mas não totalmente. A proibição do Missal de Pio V o entristeceu (na realidade, este Missal era apenas uma restauração do Missal do Rito Romano usado desde os tempos de São Gregório Magno). Ratzinger considerou tal evento como um ponto fraco na prática, e aqui já vemos uma antecipação do Motu Proprio que publicaria como Papa. Sustentava que muito de quanto devia ser preservado tivesse sido cancelado e que muitos tesouros tivessem desaparecido na nova liturgia criada por uma comissão, e frequentemente celebrada de modo descuidado e privo de qualidades artísticas. Por isso, quem critica a atual liturgia como banal em uma comunidade autocelebrativa não necessariamente é integralista. A crítica ratzingeriana diz respeito ao fato de que «a liturgia não é celebrada de modo que faça resplandecer o dado do grande mistério de Deus no meio de nós mediante a ação da Igreja». A Igreja nos dá o ritual, mas não pode gerar o poder ou a energia operante em tais ritos; é, na verdade, um Outro que age. Nós podemos participar real e pessoalmente do ato litúrgico, muitas vezes, em profundo silêncio. Participamos do mistério que permanece incompreensível.


No seu livro «La festa della fede», Joseph Ratzinger afirma que reconhece o mérito do novo Missal de Paulo VI pelas novas preces e prefácios, muitos dos quais provenientes de outros ritos ocidentais: o galicano, o mozarábico e o ambrosiano. Considera equivocadas as preces do ofertório da Missa antiga, na medida em que tendiam a identificar a oferta do Sacrifício de Cristo com esta parte da Missa, em vez da própria consagração. Ratzinger criticava sobretudo o modo não tradicional de interpretar a nova liturgia, com uma hermenêutica feita mais de descontinuidade do que de continuidade. Alegrou-se, por isso, com o indulto do Papa João Paulo II, que ele talvez tenha querido levar adiante com o seu Motu Proprio

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A liturgia no pensamento de Bento XVI (Parte I)

Giles D. Dimock

(Tradução: Pe. Elílio Júnior)

Bento XVI é apaixonado pela liturgia e a compreende  como aquela dimensão em que o nosso ser é assimilado ao Mistério divino da salvação; ele patrocinou tal visão durante o seu pontificado com escritos, com a pregação e com o seu magistério. A sua espiritualidade parece não só ter uma marca agostiniana, mas mostra também uma influência do originário movimento litúrgico alemão, favorecido em grande parte pelos beneditinos, em relação aos quais ele sempre teve uma especial veneração. Neste artigo, examinaremos o seu desenvolvimento litúrgico desde a sua juventude na Alemanha até o que ele realizou na cátedra de Pedro, pelo que somos todos agradecidos.

A juventude

O pensamento litúrgico de Bento XVI pode ser encontrado em grande parte na sua autobiografia «La mia vita», que lhe descreve a vida até a sua chegada em Roma. Ratzinger foi ainda mais introduzido aos santos mistérios quando os seus pais lhe deram de presente um missal para crianças, parecido com o missal de bolso deles.

Quando entrou para o seminário, descobriu o novo personalismo de Martin Buber juntamente com o ensino de Santo Tomás, cuja «lógica cristalina» era «fechada por demais em si mesma, pelo menos na rígida neoescolástica» pela qual era apresentada. Na universidade, foi influenciado por Michael Schmaus, que tinha abandonado a neoescolástica para abraçar o novo movimento litúrgico, que apresentava a fé como um retorno às Sacras Escrituras e aos Padres da Igreja. Apraz-me inserir aqui uma nota pessoal: sinto-me em plena sintonia com ele, uma vez que também eu deixei uma formação tomista extremamente rígida para estudar a liturgia, e mais tarde redescobri a grande sabedoria do nosso irmão mais velho, Santo Tomás. Raatzinger estava, a este ponto, sob o clima da «nova teologia». Um dos seus professores era influenciado pela «teologia do mistério» de Odo Casel, OSB, enquanto outro via na Missa o momento central de cada dia, e o estudo da Sagrada Escritura era considerado a alma da teóloga... todos esses, temas que seriam tratados pelo Vaticano II.

Todavia, o jovem Ratzinger tinha reservas: um certo «racionalismo e historicismo unilaterais» do movimento litúrgico, porque alguns viam como «válida somente uma forma de liturgia», a saber, aquela da Igreja primitiva. Não era assim, entretanto, para De Lubac, cujo ensinamento sobre a unidade da Igreja sustentada pela Eucaristia influenciou profundamente o seu pensamento.

O Vaticano II

O relato de Ratzinger sobre o tratamento da liturgia no Vaticano II – do qual participou como «peritus» - é interessante. Ele afirma que o esquema litúrgico não suscitou controvérsias no Concílio porque ninguém esperava grandes mudanças na área. Mas aconteceu que da França e da Alemanha houve pressão para reformar a Missa segundo a forma mais pura do Rito Romano, em conformidade com as reformas de Pio XI e Pio XII. Uma Missa segundo tais linhas foi rejeitada por um sínodo de Padres conciliares em 1967; não obstante, essa ideia se tornou o modelo operativo para a Nova Missa. A Sacrosanctum Concilium decretou a permanência do latim e auspicou que os fiéis pudessem cantar o Ordinário da Missa em latim, e que os clérigos pudessem rezar o Ofício da mesma maneira. Bem cedo, essa se tornou uma questão controvertida (Vittorio Messori, «Rapporto sulla fede”, entrevista com o Cardeal Ratzinger).