sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Porque filosofar é fundamental...

O que dizer da filosofia na hora atual da história da humanidade? Para muitos, ela já não tem nenhuma razão de ser, uma vez que as ciências particulares haveriam tomado o seu lugar. Para outros, ela não oferece nenhuma resposta às questões fundamentais da vida humana, mas está sempre às voltas com os problemas que rechearam a sua longa trajetória e que ela, a filosofia, nunca pôde resolver de maneira definitiva.

Como quer que seja, para mim não se pode fugir da filosofia, ainda que se a considere um saber reformável e sem muitas respostas definitivas para as grandes questões humanas. A filosofia ocupa um lugar teórico que jamais pode ser ocupado pelas ciências particulares e que encontra seu fundamento na constituição do espírito humano, que tende a ir às últimas consequências do pensamento enquanto tal. Na verdade, a filosofia é aquela instância do saber crítico e reflexivo que mantém o olhar dirigido para o todo, sem os limites que o estatuto de cada ciência particular impõe. Só a filosofia pode encarar o ser como tal e no seu todo, ainda que não possa desvendar-lhe o mistério último. Sem a filosofia, o pensar humano se reduz a uma pobre coisa, sem a perspectiva de liberdade infinita que só o olhar filosófico pode trazer.

Alguém talvez dirá que não é preciso nem é possível filosofar, aduzindo uma série de argumentos para justificar a sua posição. Mas, como já reconhecia Aristóteles, até mesmo para dizer que não se deve filosofar, deve-se filosofar, isto é, devem-se colocar questões que assumem o caráter da radicalidade que ultrapassa o âmbito metodológico das ciências. A filosofia não pode ser negada sem que se filosofe. Até para concluir que certas perguntas permanecem sem resposta definitiva, deve-se refletir em nível filosófico. Se não queremos plainar sorrateiramente apenas buscando teorias que expliquem o comportamento dos entes do mundo, devemos abraçar a reflexão que oferece as asas da crítica radical, do pensamento abissal e das perguntas mais derradeiras e que faz o homem voar segundo as suas genuínas possibilidades; tal reflexão se chama filosofia.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Pingos de filosofia - Quem é niilista?

Niilismo é um termo que vem do latim nihil (= nada). A ideia que traz tem a ver com o nada, o vazio, a ausência. Segundo Nietzsche, o niilismo acontece quando falta a finalidade, quando é ausente o porquê e quando os valores supremos se desvalorizam.

Nossa cultura atual tem sido vista como niilista porque já não acredita que a realidade tenha sentido dado. Quem acredita em Deus afirma necessariamente que a realidade foi pensada por Deus e que o mundo tem um sentido, um porquê e um valor. Para o niilismo, não existe nenhum sentido pré-dado. Por isso o niilista não aceita um Deus que tenha pensado o mundo. Nietzsche, o grande proclamador do niilismo, foi também o proclamador da “morte de Deus”. Para o niilista não há outro mundo - Deus, ideias eternas ou valores supremos - que dê sentido ao nosso mundo.

João Paulo II lamentava a condição da presente hora quando via em correntes da pós-modernidade os traços do niilismo: "Uma coisa, todavia, é certa: as correntes de pensamento que fazem referência à pós-modernidade merecem adequada atenção. Segundo algumas delas, de fato, o tempo das certezas teria irremediavelmente passado, o homem deveria finalmente aprender a viver num horizonte de ausência total de sentido, sob o signo do provisório e do efêmero. Muitos autores, na sua crítica demolidora de toda a certeza e ignorando as devidas distinções, contestam inclusivamente as certezas da fé" (Encíclica Fides et Ratio, n. 91).

Nietzsche pensava que o substrato do nosso mundo é caótico e sem sentido. Os valores que existem são todos inventados pelo homem, já que as coisas não trazem nenhuma racionalidade consigo. Para Nietzsche, quem acredita em valores supremos, como o cristão ou o comunista, acredita, na verdade, em nada.  Nesse sentido, é niilista. Na realidade, segundo Nietzsche, pode ser chamado niilista quem acredita que valores eternos existam como pensava Platão. O que existe é o sem sentido das forças caóticas que regem o mundo e ao qual o homem quer sempre atribuir um significado. O grande erro para Nietzsche é negar este mundo, trágico e sem sentido como é, em nome de outros mundos que estão somente na cabeça de quem os concebe. Platão é o niilista por excelência porque inventou um outro mundo, o mundo das ideias eternas, que nada é.

Vê-se, então, que niilismo assume significados contrapostos. Nietzsche usa o termo em diversos sentidos. Niilista pode ser quem nega os valores supremos e diz que o outro mundo nada é, ou, por outro lado, pode ser quem nega este mundo em nome de valores supremos que, na realidade, nada seriam segundo Nietzsche. Quem é niilista? A resposta depende do ponto de vista. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O terror da morte e a fé

A morte é um terror para o homem. Uma antiga epopeia mesopotâmica apresenta Gilgamesh, rei da Suméria, atormentado pela sua condição mortal. Em busca incansável pela imortalidade, foi avisado de que sob o mar existia uma planta que vencia a força da morte. Gilgamesh não mede esforços, mergulha no profundo azul e consegue apanhar a planta da vida imortal. Entretanto, em um momento de descuido, antes mesmo de ganhar a superfície das águas profundas, uma serpente lhe rouba a desejada planta e o rei fica privado, como antes, da imortalidade pela qual tantos esforços despendera.

A epopeia de Gilgamesh mostra que o homem deseja ver-se livre de sua natural condição mortal. A morte o assusta sobremaneira. Ele procura intensamente a imortalidade, mas seus esforços acabam sendo todos vãos. As religiões, a filosofia e a ciência são formas pelas quais o ser humano tenta apanhar a planta da imortalidade. Entretanto parece prevalecer, ao fim e ao cabo, a consciência da mortalidade e o terror que ela traz consigo. O homem acaba chorando seus entes queridos defuntos como se nunca mais os fosse encontrar.

O cristianismo, de sua parte, propõe uma solução através da fé numa revelação especial da divindade. A vida, os feitos e a morte na cruz de Jesus de Nazaré são, segundo a fé cristã, epifania (revelação) de Deus no mundo. A fé cristã ensina que o destino de Jesus não terminou na morte, mas teve um fim glorioso porque Deus mesmo o ressuscitou. A promessa da ressurreição e da vida imortal é feita a cada qual que se dispuser a acreditar no mistério de Jesus, aceitando-o na existência concreta de sua vida.

Desse modo, a planta da imortalidade não deve ser mais buscada pelo homem, mas lhe é oferecida pela divindade que se revela na vida, morte e ressurreição de Jesus. Do homem, requer-se apenas a fé que acolhe o mistério. Eis a grande característica do cristianismo: não é o homem que tem a iniciativa de buscar a imortalidade, mas é o Imortal que se revela ao homem e lhe oferece a sua vida eterna através da mortalidade de um homem que foi ressuscitado e vive para sempre. Aqui o único instrumento exigido para fazer parte do mistério de morte e ressurreição, mistério que promete a imortalidade através da morte, é a fé.

Se autêntica, a fé pode ser aquela força que vence a morte... Vence a morte porque assegura a ressurreição... Há pessoas que estão tão mergulhadas na fé que não choram como os demais os que partiram. A questão, pois, é a fé...

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Nas mãos do imprevisível

O vir a ser foi sempre um problema para a filosofia. Já em seu aparecimento na Grécia antiga, os filósofos se perguntavam como as coisas se transformam naquilo que são e como deixam de ser o que são para se tornar outra coisa. Com efeito, o mundo da nossa experiência é o mundo do movimento incessante e insaciável. Tudo parece escorrer como um rio vívido e vigoroso.

A constante mudança, porém, causa medo no homem. Se tudo o que é deixa de ser para adquirir outra identidade, como deve o homem comportar-se diante das coisas? Se reina a instabilidade, como fundar a vida? Se reina a imprevisibilidade, como controlá-la?

Aterrorizado por causa do vir a ser, o homem procurou na filosofia uma saída para o impasse que deriva da natureza mutável de todas as coisas. Com a filosofia, o homem quis alcançar uma certa estabilidade e, assim, vencer o medo incutido pelo movimento. O nome do remédio dado pela filosofia à doença que aterrorizava o homem foi o saber (epistéme = saber que permanece).

Através do saber, o homem, de alguma maneira, tenta afrontar o que lhe mete tanto medo: a mudança constante de tudo, a instabilidade, a imprevisibilidade. O saber passou a ser uma forma de poder nas mãos do homem. Da mãe filosofia nasceram tantas filhas, isto é, as diversas ciências que preenchem o cenário do mundo atual, todas elas procurando dar ao homem o poder para reger a vida.

Como quer que seja, hoje o que continua nos assustando é a instabilidade e a imprevisibilidade das coisas, e, assim como os gregos, nos valemos do saber para remediar o caso. Entretanto, uma pergunta se levanta: pode-se remediar tudo com o saber? Não resta sempre uma potente zona de instabilidade e imprevisibilidade na nossa vida? O incontrolável não é maior que o controlável?

Apesar de tentar remediar tudo com o potente saber científico e tecnológico acumulado pela modernidade, o homem não pode dominar o todo da vida, vida que se mostra como um constante vir a ser. A morte é a grande testemunha de que o saber não consegue remediar tudo. Pela morte o homem cai no absoluto vir a ser; ele deixa de levar e passa a ser levado. Deixa de ser no mundo, isto é, vem a não ser mais no mundo. E ela, a morte, vem sem avisar e, quando chega, não pede o consenso do homem para atuar. Então: a força do mistério e do não controlável continua a atuar e a rir das nossas tentativas de dominação. O homem esteve e está nas mãos do imprevisível. 

sábado, 22 de agosto de 2015

Homo sapiens

A espécie "homo sapiens" não é a única do gênero "homo". O "homo neanderthalensis", por exemplo, é uma outra espécie do gênero "homo" e surgiu por volta de 500 mil anos antes de Cristo na Europa e na Ásia ocidental, mas foi extinta há cerca de 30 mil anos. Já o "homo sapiens" apareceu há 200 mil anos atrás na África oriental e dura até hoje. Nós mesmos o somos na sua subespécie "homo sapiens sapiens", a única que, do gênero "homo", sobrevive. Há 12 mil anos aprendemos a gerir a agricultura, o que foi uma grande revolução no nosso percurso sobre a face da terra. A partir da agricultura é que foram possíveis os primeiros povoamentos e, mais tarde, as grandes civilizações da Antiguidade. A cidade mais antiga do mundo é, provavelmente, Jericó (Oriente Próximo), cujos sinais de existência datam de 9 mil anos antes de Cristo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Pingos de filosofia - O simples existir e o irracionalismo

Santo Tomás de Aquino (séc. XIII) descobriu que o ato de existir (esse, em latim), é o que há de mais originário na realidade. Não é a essência, como diziam os gregos, mas o ato de existir que é a fonte da realidade, pois sem tal ato nenhuma essência existiria.

Mas, pode-se perguntar, qual é o sentido do ato de existir? A essência tem o seu sentido evidente, pois essência quer dizer ‘o que é’. Ora, o ‘que’ é luz para a inteligência. Só conhecemos as coisas na medida em que vemos o ‘que’ no qual elas consistem. Assim, para uma filosofia das essências, como aquela grega, o sentido não era difícil de encontrar, pois cada coisa tinha o seu 'que' (quid, em latim).

Depois de Tomás de Aquino, no entanto, aprendemos que a essência é secundária em relação ao ato de existir. Como encontrar, então, o sentido derradeiro da realidade? Devemos ir ao ato de existir. Mas o ato de existir como tal não tem uma essência. Como descobrir a sua inteligibilidade, que não é aquela da essência? Qual é a luz do ato de existir?

Santo Tomás conseguiu iluminar o ato de existir dos entes mundanos porque reconheceu a existência do Ato de Existir absoluto. À luz do Absoluto Existir (Ipse Esse Subsistens), o ato de ser dos entes assumiu o seu sentido básico, que é o de ter sido posto por Outro. O Outro, o Existir Absoluto não deixou sem luz o existir dos entes. Para além da essência, Tomás ensinou a pensar o existir como tal e a ver a luz que o ilumina. A filosofia, depois de Tomás, não voltaria à essência grega para colocá-la como o sentido último do real.

Entretanto, a partir do século XIX a filosofia não tem reconhecido mais o Ato de Existir Absoluto como causa do ato de ser dos entes mundanos. A Transcendência tem sido sistematicamente negada. O que acontece, então? Acontece que sem a essência dos gregos e sem o Ato de Existir de Tomás de Aquino, o que resta é o simples existir dos entes sem sentido e sem inteligibilidade alguma. Do fundo do mar do simples existir surgem os maremotos e as grandes ondas do relativismo e do niilismo. Se já não existe nenhuma luz, mas somente o mero existir dos entes mundanos, então não se pode deter a vaga irracionalista a que temos assistido no mundo atual. No século XX, o existencialismo ateu foi o protótipo do pensamento que considera o mero existir sem a luz da essência dos gregos e sem a luz do Ato de Existir Absoluto de Tomás de Aquino.