sábado, 25 de setembro de 2010

Padre Vaz e a "rememoração" da metafísica tomásica

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Um dos grandes temas presentes na obra do Padre Vaz é, indiscutivelmente, a metafísica. Ao lado de temas de primeira grandeza que figuram em seus escritos, tais como a história, a cultura, a ética e a antropologia, aparece a metafísica, e a ela Padre Vaz sempre se refere como uma questão decisiva para o pensar filosófico, de modo a deixar claro que seu pensamento constitui-se a partir de uma decidida opção pela metafísica.[1]

Sabemos que não é fácil dar uma definição de metafísica, uma vez que o termo assume diversos significados segundo os diversos autores e épocas diversas. No entanto, podemos ver que, para o Padre Vaz, existe uma unidade fundamental na compreensão da metafísica a partir da visão do itinerário por ela percorrido, desde suas origens na Grécia antiga, em via ascendente, até o alto cimo que atingiu com o pensamento de Santo Tomás de Aquino e sua metafísica do esse (metafísica do ato de existir). Depois de ter atingido o seu ponto mais alto, contudo, a metafísica começa a percorrer um caminho inverso, a via descendente, com Duns Scot e sua impugnação da distinção real entre essência e existência no ser finito, com Kant e sua negação da possibilidade da metafísica como ciência, até atingir o pensamento pós-hegeliano, que proclama a idade pós-metafísica da razão e mesmo o fim da filosofia.

Ao percorrermos, pois, esse itinerário, tendo como ponto de referência fundamental a metafísica do esse, vértice a que chegou a inteligência humana em sua busca e inquisição, poderemos captar o sentido profundo da opção de Padre Vaz pela metafísica e o tipo de metafísica cultivada por ele. Podemos mesmo dizer que a metafísica do esse pulsa, de algum modo, em toda sua obra, e sem sua compreensão não podemos atingir a inteligibilidade profunda do pensamento vaziano.

Padre Vaz, com efeito, refere-se à metafísica do esse de Tomás de Aquino em tons elogiosos. A descoberta da inteligibilidade irradiante do ato de existir seria “muito mais importante do que qualquer ‘revolução copernicana’”.[2] Esse passo – a descoberta da inteligibilidade do ato de existir – teria levado a inteligência ao núcleo mais profundo e à fonte primeira de inteligibilidade do real e seria “o último e o mais audaz passo da inteligência metafísica (noûs) na sua inquisição do ser”.[3]

Desse modo, reconhece-se a importância do pensamento de Tomás de Aquino e sua metafísica do esse para o pensamento do filósofo brasileiro Henrique Cláudio de Lima Vaz. Paulo Meneses chega a usar o termo connaturalitas (conaturalidade) para caracterizar a relação entre Padre Vaz e Santo Tomás,[4] e esclarece:

Num périplo impressionante, Vaz percorre os grandes pensadores da história da filosofia (e compraz em demorar-se [verweilen] em cada um deles, parecendo tratá-los de igual para igual), Platão e Aristóteles, Plotino e Agostinho, e finalmente Hegel [...] Mas não creio que Vaz (excetuando Santo Agostinho) desse a algum deles o nome de Mestre. Eram pensadores geniais, sobre cujo sistema refletia e, em sintonia ou contraponto com eles, elaborava seu próprio pensamento. Mestre mesmo de Vaz era Tomás de Aquino.[5]

Com efeito, Padre Vaz freqüentou as obras dos grandes nomes da filosofia e conheceu com profundidade ímpar a filosofia de um Platão ou Aristóteles, de um Agostinho ou Plotino, e é conhecida também a dedicação que dispensou ao estudo de Hegel. Entretanto, somos levados a concordar com o juízo de Paulo Meneses de que Tomás de Aquino ocupou em suas reflexões e na elaboração de seu pensamento um lugar especial. Santo Tomás e sua metafísica do esse, metafísica essa que, como dissemos, pulsa em toda a sua obra.

Já em seu ilustre artigo Itinerário da ontologia clássica,[6] aparece com clareza a importância da metafísica tomásica do ato de existir como superação dialética do momento “objetivo” de Platão e do momento “reflexivo” de Aristóteles. Também em sua Antropologia filosófica e em sua Introdução à ética filosófica, as duas obras sistemáticas do Padre Vaz, a metafísica do esse constitui o fundamento de suas profundas reflexões sobre o espírito humano, que, em sua abertura dinâmica ao absoluto do ser e do bem como inteligência e vontade, está orientado para a posição do Ipsum Esse Subsistens como o donde e o aonde do dinamismo mesmo do espírito. Mas a importância da metafísica do esse em sua obra esclareceu-se sobretudo com a potente luz de seu artigo Tomás de Aquino: pensar a metafísica na aurora de um novo século[7] e de seu último livro Escritos de filosofia VII – Raízes da modernidade.[8]

Cumpre observar que o Tomás de Aquino que Padre Vaz traz para dentro de sua obra não é, de modo algum, o Tomás mumificado dos manuais. No capítulo II do livro Escritos de filosofia IProblemas de fronteira figura o artigo Tomás de Aquino e o nosso tempo: o problema do fim do homem, artigo que tinha sido publicado originariamente na Revista Portuguesa de Filosofia em 1974 sob o título Teocentrismo e beatitude: sobre a atualidade do pensamento de Santo Tomás de Aquino. Nesse profundo texto, é ressaltada a atualidade de Tomás de Aquino e o caráter “epocal”[9] de sua obra. Entretanto, aí mesmo, Padre Vaz procura deixar claro que “não podemos repetir santo Tomás. Podemos – e devemos interpretá-lo”.[10] Isso porque, sendo a obra do Aquinate uma obra do passado, é impossível fazê-la comensurável sem mais aos nossos problemas. Faz-se necessário lançar mão de uma adequada hermenêutica que leve em consideração o tempo de Tomás, a reconstituição crítica de seus textos e o nosso presente histórico, que, de algum modo, possa conter “a obra interpretada como uma das linhas de seu relevo”,[11] de modo que “interpretar o passado implique necessariamente interpelar o presente”.[12]

Sim; para o Padre Vaz, a atualidade de Santo Tomás se verifica porque o nosso presente com suas questões pode ser interpelado por sua obra verdadeiramente “epocal”. A releitura do Aquinate pode projetar luz para o pensar filosófico sobre o nosso tempo. Esse é um exercício de pensar filosoficamente a história da filosofia. É o que Padre Vaz, na esteira de Hegel, chama de Erinnerung ou “rememoração”.


[1] “É verdade que as tentativas de migração para uma nova terra humana, sob o signo das novas constelações teóricas, multiplicam-se no clima espiritual da chamada ‘modernidade’, mas nada parece indicar que, tendo uma vez ouvido a interpelação da Verdade e do Bem desde o horizonte do Ser, o homem disponha de estratégias teóricas válidas capazes de fechar esse horizonte e silenciar essa interpelação. Em outras palavras, nada indica que, não obstante a vigorosa vegetação de antiplatonismos contemporâneos, estejamos em condições de desmentir, por meio de procedimentos teóricos aceitáveis, o veredicto de Péguy: on ne dépasse pas Platon” (AF II, 157).
[2] LIMA VAZ, Henrique C. de. Escritos de filosofia III. Filosofia e cultura. São Paulo: Loyola, 1997, p. 320.
[3] Id. Escritos de filosofia VII. Raízes da modernidade. São Paulo: Loyola, 2002, p. 88.
[4] Cf. MENESES, Paulo. Vaz e Tomás de Aquino. In: MAC DOWELL, João A. (org). Saber filosófico, história e transcendência. São Paulo: Loyola, 2002, p. 65.
[5] Ibidem.
[6] In LIMA VAZ, Henrique C. de. Escritos de filosofia VI: Ontologia e história.
[7]LIMA VAZ, Henrique C. de. Tomás de Aquino: pensar a metafísica na aurora de um novo século. Síntese Nova Fase, v. 23, n. 73 (1995) 159-208.
[8] Escritos de filosofia VII. Raízes da modernidade. São Paulo: Loyola, 2002.
[9] “Epocal” aqui assume o sentido de “relevante”, isto é, uma obra que marcou profundamente o desenvolvimento do pensamento humano.
[10] EFI, 38
[11] EF I, 39.
[12] EF I, 39.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A Palavra de Deus é uma só

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

A Palavra de Deus, meu irmão e irmã, é uma só, e foi gerada pelo Pai antes da fundação do mundo, isto é, desde toda eternidade. Esta Palavra é, portanto, eterna e incriada. Ela é a sabedoria de Deus. São João chega a dizer: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus” (Jo 1,1). Vejamos, pois, a importância e a dignidade da Palavra: “A Palavra era Deus”. Nós, seres humanos, dizemos muitas palavras, porque somos limitados e não conseguimos dizer tudo por meio de uma só palavra. Mas Deus é diferente. Ele diz tudo por meio de uma só Palavra, gerada desde toda a eternidade. A Palavra é seu Filho amado.

E essa Palavra é pronunciada pelo Pai no silêncio de sua riquíssima vida interior, de modo que, para ouvi-la, devemos silenciar as muitas palavras que agitam e inquietam o nosso coração. São João da Cruz, grande místico da Igreja, nos ensina que “o Pai  diz  uma  Palavra  que  é  seu  Verbo  e  é  seu  Filho.  Ele  a  pronunciou  num  eterno  silêncio  e  é  nesse  silêncio  que  a  alma  o  ouve”

Nada mais recomendável para quem quer ouvir a Palavra de Deus e saborear as suas doçuras infinitas do que o silêncio do coração. Não se trata de um silêncio vazio. Trata-se, antes, de afungentar da alma as muitas palavras que dizem pouco ou nada dizem de proveito para o nosso crescimento e ouvir a única Palavra que preenche o nosso ser. Silenciar é ouvir o que só Deus, e ninguém mais, pode nos dizer.
Desse modo, é indispensável para a vida cristã a oração que faz a alma mergulhar no silêncio de Deus. A Bíblia, cujo mês celebramos, não pode ser entendida e saboreada sem a oração que nos dispõe para ouvir a Palavra divina.

A Palavra de Deus é, em primeiro lugar, o Filho eterno do Pai. E São João nos garante que “a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). Eis, pois, que a Palavra se fez gente como a gente. Por amor, veio ensinar-nos as coisas escondidas no seio do Pai antes de todos os séculos. Veio dar-nos a vida verdadeira: “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna” (Jo 3,36). 

Quem quer que queira aproximar-se de Deus e viver a vida divina, não procure senão ouvir a voz de seu Filho, que é a sua única Palavra: “Porque em dar-nos, como nos deu, seu Filho, que é sua Palavra única (e outra não há), tudo nos falou de uma só vez nessa única Palavra, e nada mais tem a falar, (...) pois o que antes falava por partes aos profetas agora nos revelou inteiramente, dando-nos o Tudo que é seu Filho. Se atualmente, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente para Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma” (São João da Cruz).

Nós cristãos devemos, desse modo, ouvir a única Palavra de Deus. Não nos satifazem outras palavras, por mais interessantes que sejam. E é preciso, repito, silenciar para ouvir. Deus se manifesta, como ao profeta Elias, na brisa suave (cf. 1Rs 19,11-13). E ouvir não é só escutar. Ouvir é fazer da Palavra de Deus a “lâmpada para meus pés e a luz para meus caminhos” (Sl 119,105). 

É claro que a Palavra única do Pai faz-se presente, de modo especial, na Bíblia, razão pela qual nós tanto veneramos o Livro Sagrado. A Bíblia tem como centro a Palavra eterna ou o Filho de Deus, que veio visitar-nos da parte do Pai. O Antigo Testamento prepara essa visita, e o Novo Testamento dá testemunho qualificado do enviado de Deus. Nesse sentido, a Bíblia é fonte de espiritualidade e de comunhão com Deus. Através das muitas palavras da Bíblia, devemos encontrar a única Palavra do Pai. Daí a necessidade de “rezar a Bíblia”. Não podemos apenas estudá-la, mas devemos fazer o que se chama de “leitura orante da Bíblia”.

Uma última consideração: Assim como a única Palavra do Pai, que é seu Filho unigênito, está presente de uma maneira muito especial nas palavras da Bíblia, essa mesma Palavra faz-se presente na Tradição viva da Igreja. Aliás, entre a Bíblia e a Tradição da Igreja existem laços tão estreitos e fortes que uma não pode ser entendida sem a outra. A Tradição berçou a Bíblia e a fez nascer, e a Bíblia é autenticamente interpretada no seio da grande Tradição, que, em última análise, é assistida pelo Espírito de Deus. Assim, a única Palavra de Deus, saindo do seio do Pai, vem até nós no Filho encarnado, cuja voz continua ressoando nas palavras da Bíblia lida à luz da Tradição que começa com os apóstolos e deve prolongar-se pelos séculos dos séculos.