quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Tempo de conversão e de salvação

Iniciamos hoje, com a missa de imposição das cinzas, na Sé Catedral Metropolitana de Santo Antônio, em nossa querida Arquidiocese de Juiz de Fora, a Santa Quaresma. A Quaresma é o tempo propício de mudança radical de vida, de penitência, de oração sincera e de esmola.

Ouvimos hoje o apelo de Joel, um doce convite à conversão: "Voltai para mim de todo o coração"(cf. Jl 2,12-18). Diante dos bens efêmeros deste mundo somos chamados a virtude do desapego. Assim, somos chamados a pedir a Deus Pai: "Voltai para mim com todo o coração!" Deus, benigno e misericordioso, está sempre aberto para acolher e perdoar a todos os pecadores. Não há pecado, pessoal ou coletivo, que não é perdoado, bastando para isso a necessidade ingente de arrependimento, de emenda de vida e propósito de não mais pecar. Assim, esse tempo penitencial da Quaresma, é o tempo oportuno de voltar o olhar para Deus, restabelecer a fidelidade à Palavra da Vida, deixando-nos conduzir pela Palavra Viva, na busca do bem, da virtude e do que é sublime.

Num segundo momento, a liturgia deste início da Quaresma, somos convidados à Reconciliação. "Deixai-vos reconciliar com Deus"(cf. 2 Cor 5,20-6,2). O que é o pecado? São Paulo responde para nós que o pecado é um desacordo, um estado de inimizade, entre o homem e Deus. Por isso este afastamento de Deus deve ser superado, urgindo restabelecer a harmonia. Nesse sentido o tempo quaresmal é o momento propício para rever hoje a nossa relação pessoal, coletiva, comunitária, eclesial, familiar com Deus, porque esse é o tempo favorável, agora é o dia da Salvação.
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Mateus enumera três graças que nos são oferecidos neste tempo da Quaresma: a esmola, a oração e o jejum. A Esmola, agradável a Deus, é aquela feita de maneira discreta, permanente, singela, entrando na dinâmica daquele que bate em nossa porta pedindo ajuda para as suas mais variadas necessidades. Por isso somos chamados a partilhar os dons e os bens que não somos donos, mas apenas administradores. A Oração é o encontro pessoal com o Senhor Deus. Um encontro que não se resume na repetição de orações, de fórmulas, ou na récita sem compromisso do Rosário. A Oração viva é aquela que se transforma em diálogo com Deus para entender e aceitar o seu projeto de salvação. Oração que é abertura do coração para dispor e acolher os planos de Deus em nós, sempre procurando o lugar exato da singeleza desse encontro generoso e santificador. Por fim vem o Jejum, como expressão da doce alegria da presença do Reino de Deus no mundo. O profeta Isaías no seu capítulo 58,1-12, expressa o modo correto de se fazer o jejum que agrada a Deus: "Acaso o jejum que prefiro não é outro: quebrar as cadeias injustas, desligar as amarras do jugo, tornar livres os que estão detidos, enfim, romper todo o tipo de sujeição"(cf. Is 58,8).

Assim neste tempo penitencial ouçamos o apelo de São Clemente I, papa: "Obedeçamos, portanto, à sua excelsa e gloriosa vontade. Imploremos humildemente sua misericórdia e benignidade. Convertamo-nos sinceramente ao seu amor. Abandonemos as obras más, a discórdia e a inveja que conduzem à morte. Sejamos humildes de coração, irmão, evitando toda espécie de vaidade, soberba, insensatez e cólera, para cumprirmos o que está escrito. Pois diz o Espírito Santo: Não se orgulhe o sabido em sua sabedoria, nem o forte com sua força, nem o rico em sua riqueza; mas quem se gloria, glorie-se no Senhor, procurando-o e praticando o direito e a justiça"(cf. Jr 9,22-23; 1Cor 1,31).

Que este tempo da Quaresma, iniciado com o jejum e a abstinência de carne, nos fortaleça na prática da penitência para combater o espírito do mal e estabelecer entre nós a Fraternidade na Segurança Pública, porque somente haverá tranqüilidade social, "Quando a Paz é o Fruto da Justiça". Boa Quaresma! Que nossos fiéis procurem a confissão auricular para um boa confissão, espírito de arrependimento e de mudança de vida, nas busca da graça santificante para sermos discípulos-missionários de Jesus para que o mundo creia que Ele é o Senhor!

+ Eurico dos Santos Veloso
Administrador Apostólico de Juiz de Fora (MG).

domingo, 22 de fevereiro de 2009

22 de fevereiro: "Cathedra Petri"

A 22 de fevereiro, a Santa Igreja celebra a Festa da Cátedra de São Pedro. Essa festa recorda-nos que o Cristo Senhor confiou a sua Igreja ao Apóstolo São Pedro, para que este a apascentasse. São Pedro, de sua Cátedra, é o Pastor que orienta as ovelhas que Nosso Senhor conquistou pelo seu sangue. Os católicos cremos firmemente que este ofício de São Pedro deve durar até quando durar a presença da Igreja neste mundo, isto é, até a consumação dos séculos. Por isso, São Pedro vive ao longo dos séculos, de algum modo, na pessoa de seus sucessores, os Papas. Num mundo marcado por densas trevas sobre o verdadeiro significado da existência humana, o Papado é o grande farol a iluminar-nos o caminho que conduz ao porto seguro da vida feliz. Rezemos pelo Papa Bento XVI, que hoje se assenta na Cátedra de Pedro, para que, como Pastor colocado por Cristo, tenha coragem de enfrentar os lobos dos nossos dias e, assim, proteja o rebanho que lhe foi confiado.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Rezemos pelo Santo Padre

"O Vigário de meu Filho terá muito que sofrer, porque durante algum tempo a Igreja será entregue a grandes perseguições. Será o tempo das trevas; a Igreja terá uma crise medonha." Nossa Senhora de La Salette

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

"Vivo eu, não eu, é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20)

A Quaresma nos põe mais uma vez ante os olhos as tristes cenas da Paixão de Cristo. Conhecemo-las bem, mas fica-nos talvez a pergunta: por que tanto sofrimento? Em resposta diremos que a Paixão do Senhor Jesus foi não apenas um testemunho de coragem heróica, mas sim uma fonte de vida para nós, frágeis criaturas. Com efeito; Jesus não teria sofrido se não o fizesse por nós ou para santificar e transfigurar a nossa própria vida com seus sofrimentos de cada dia. O elo entre a Paixão de Cristo e nós são os sacramentos do Batismo e da Eucaristia. Aquele nos faz morrer e ressuscitar com Cristo (cf. Rm 6,2-11) e este alimenta a vida nova recebida no Batismo a tal ponto que São Paulo podia dizer: "Todos vós que fostes batizados, revestistes o Cristo" (cf. Gl 3,27) e "Vivo eu, não eu, mas é o Cristo que vive em mim" (Gl 2,20). A comunhão de vida com Cristo é bem expressa pelas imagens da Cabeça, Corpo e da Videira-ramos (1Cor 12,14-27 e Jo 15,1-5). Tenha a palavra o Abade P. Bendikt Baur para explicitar o que isto significa:

A vida da Videira, Cristo e a vida dos ramos, os cristãos, são uma só vida. São uma só vida, um só sofrimento, um só esforço e luta, um amor idêntico ao que Cristo tem pelo Pai; a oração, o sofrimento e o amor do Senhor assume a nossa paupérrima oração, o nosso sofrimento e o nosso amor. É isto que nos dá coragem e é nisto que nos confiamos. Na pobreza e no nada da nossa vida, nas nossas orações e sacrifícios, ele, o Senhor transfigurado, oferece-nos o valor e a força de suas orações, o seu amor pelo Pai. É tudo isto que queremos significar quando dizemos: ‘Ele está em nós e nós nele.Vivo eu, oro, mas na verdade não eu, é Ele que vive e ora em mim. Ele vive a minha vida, Ele carrega a minha vida, Ele toma e invade a minha vida com o valor e a força da sua própria vida’ (A Vida Espiritual, p. 161)..

Verdade é que estas proposições são sustentadas tão somente pela fé. A fé, porém, desembocará na visão face-a-face. Entrementes, "nossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, nossa vida, aparecer, também nós apareceremos com Ele na glória" (Cl 3,3s).

Eis algumas reflexões que se enquadram bem no conceito de Quaresma - Páscoa. Preparemo-nos para a grande solenidade da Ressurreição do Senhor!

Pe. Estêvão Bettencourt, OSB

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Excomunhão e tolerância


Um bispo britânico, a quem o Vaticano levantou a excomunhão a 21 de Janeiro, negou publicamente a existência do Holocausto nazi. Isso gerou um coro de protestos contra não o prelado Richard Williamson mas contra o Papa Bento XVI. Até responsáveis como Angela Merkel (3 Fev. ) e Mário Soares (DN, 3 Fev.) quiseram censurar. Podemos fazer um exercício curioso analisando esses ataques à luz dos próprios princípios dos críticos.

A primeira coisa que salta à vista é a ligeireza. Os que contestam a decisão papal não sabem nada sobre ela. Ignoram o problema, desconhecem o bispo em causa, nem sequer ouviram o que ele disse. Limitam-se a reagir a títulos sensacionalistas e provocadores, que só pretendem agitar as religiões. Assemelham o caso ao genial discurso de Bento XVI na universidade de Ratisbona a 12 de Setembro de 2006, que por acaso também não leram. Se tivessem procurado compreender a circunstância, veriam que ela confirma precisamente os valores que dizem defender e contraria as críticas que se habituaram a dirigir à Igreja.

O castigo agora levantado fora imposto automaticamente quando o arcebispo (que Soares graduou em cardeal) tradicionalista Marcel Lefebvre (1905- -1991) ordenou sem autorização quatro bispos a 30 de Junho de 1988. Este foi o cisma que feriu o nosso tempo, e que a Igreja Católica procura sarar há 20 anos. Os papas, como o pai do filho pródigo, têm feito sempre assim em todos os cismas. Agora, após longas e delicadas negociações, respondendo aos pedidos dos mesmos quatro bispos, a excomunhão latae sententiae foi-lhes levantada. Os prelados continuam sem funções canónicas e a sua Fraternidade S. Pio X não tem reconhecimento oficial. Mas foi um avanço importante na via do diálogo.
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Os políticos, que enchem a boca com tolerância, deviam admirar este difícil e complexo processo. Tanto mais delicado quanto o levantamento do castigo está a ser fortemente contestado pelos integristas radicais, que consideram Roma apóstata, modernista e cismática. Todos os valores da reconciliação, moderação e diálogo estão do lado do Papa, que acaba atacado por isto mesmo pelos autodenominados campeões da liberdade.

O segundo aspecto curioso é o tabu. Num mundo que gosta de se anunciar sem preconceitos e repudia a censura, existe um bloqueio drástico sobre o Holocausto. Comentar o horror nazi não pode ser feito fora da versão oficial. São admitidas todas as opiniões, menos essa. O pior é a forma inquisitorial, fanática e abespinhada com que o assunto é enfrentado. Quem nega as câmaras de gás deveria ser tratado com um sorriso pela ignorância e uma gargalhada pela tolice. Hoje o disparate é tanto que não merece mais. Em vez disso todos estes democratas e republicanos, supostamente tolerantes, condenam da forma mais persecutória o Papa por ele terminado o castigo canónico. Parece que Williamson devia ser excomungado de novo, agora não por insubordinação mas por opinião histórica. E Bento XVI também, mesmo não concordando com ele.

Os judeus, para quem a questão da shoah não é retórica mas pungente, têm razões legítimas para ficar ofendidos com as declarações do negacionista. Mas eles sabem bem qual a posição do Vaticano sobre esse horror, sucessivamente afirmada e de novo repetida desta vez. Podem criticar Williamson. Não o Papa.

A Igreja promove há décadas um intenso e proveitoso diálogo com as outras religiões, como procura reconciliar-se com todos os que ao longo dos séculos foram abandonando a comunhão católica. Os avanços no ecumenismo e relações inter-religiosas constituem aliás um dos maiores e decisivos êxitos da diplomacia e cooperação dos últimos cem anos. Se os políticos, de qualquer região ou orientação, compararem os seus esforços de negociação com os do Vaticano bem podem ficar espantados.

Acima de tudo, este caso mostra que neste tempo mediático e superficial ainda há quem olhe ao fundo das coisas, quem considere o valor das pessoas, não dos boatos, quem defenda princípios elevados, não preconceitos apressados. Esse é Bento XVI.

*Professor Catedrático, é o Presidente do Conselho Científico da FCEE-Católica, onde se Doutorou e Licenciou em Economia e leciona nas áreas de Economia e Ética Empresarial no MBA, na Licenciatura e no International Master of Science in Business Administration. Coordenador do Programa de Ética nos Negócios e Responsabilidade Social das Empresas. Mestre em Investigação Operacional e Engenharia de Sistemas (ISTUTL), Mestre em Economia (UNL ).
http://bmail.uol.com.br/compose?to=naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Bispos da Espanha estão com o Papa

La Conferencia Episcopal Española envía una carta de apoyo al Papa Benedicto XVI
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En ella expresa sus sentimientos de comunión y afecto ante las voces que han puesto en duda su amor por el pueblo judío
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Madrid 12 de febrero de 2009
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La Conferencia Episcopal Española (CEE), por medio de su Comité Ejecutivo reunido hoy jueves en Madrid, ha enviado al Papa Benedicto XVI una carta de apoyo en la que le expresa “sus sentimientos de estrecha comunión y de sincero afecto” en unos momentos en los que se han levantado voces poniendo en duda su amor por el pueblo judío y, más en concreto, su firme rechazo de toda forma de antisemitismo.“Conocemos bien el interés –señala la carta- con el que Vuestra Santidad, desde hace muchos años y, en particular, en el ejercicio del ministerio petrino, ha procurado el diálogo con los hermanos del Pueblo de la Primera Alianza y se ha esforzado por que su historia y su presente sean justamente conocidos y valorados en la Iglesia. Pocos, como Vuestra Santidad, han comprendido que, como enseña el Concilio Vaticano II, se trata de un pueblo amadísimo para Dios”.
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Los obispos españoles lamentan que precisamente la benevolencia y la generosidad manifestada por el Papa, tratando de hacer todo lo posible para preservar y fomentar la unidad de la Iglesia, “hayan sido malinterpretadas e incluso tomadas como excusa para levantar testimonios falsos y predisponer negativamente a la opinión pública”.
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Los prelados concluyen la carta asegurándole al Santo Padre la oración de los obispos españoles y del pueblo católico por sus intenciones, y rogando al Señor que le conforte e ilumine en el gobierno de su Iglesia, “que necesita y agradece vuestro ministerio al servicio de la verdad del Evangelio y de la unidad en la caridad”.
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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Ciências, ateísmo e Richard Dawkins

Richard Dawkins, biólogo inglês, é hoje um dos grandes nomes do ateísmo militante. Sua defesa do ateísmo pretende ter por fundamento sobretudo as ciências naturais, notadamente a biologia. Sustenta, em linhas gerais, que o mundo, tal como as ciências naturais o consideram, basta-se a si mesmo, e tudo o que nele há de diversificado e maravilhoso é resultado do dinamismo do próprio mundo posto em movimento. Entretanto, cabe uma pergunta: será possível abraçar a doutrina atéia a partir das ciências naturais?

Para ser direto, devo dizer: as ciências naturais, de si, não nos permitem nem afirmar nem negar a existência de Deus. Sim, essas ciências têm uma metodologia e estatuto próprios que lhes dão competência em uma área determinada da realidade, mas que também lhe tiram a competência para outras dimensões do saber. Elas podem alcançar certa dimensão da realidade, mas não a realidade toda.

As ciências que têm por objeto a realidade como um todo são a filosofia e a teologia; esta baseada na fé na Revelação divina, e aquela na aplicação dos princípios racionais. Ora, a questão da existência de Deus diz respeito ao todo da realidade. O que é o real? É só a matéria? O que é a matéria? Para além da matéria existe algo? Só quem tem uma visão do todo pode dizer se Deus existe ou não. Essa tarefa, portanto, se é possível executá-la, cabe à filosofia ou à teologia, únicas ciências que pretendem encarar a realidade como um todo.

As diversas ciências naturais, inclusive a biologia, ciência na qual Dawkins é versado, estão restritas ao mundo material, que é o seu pressuposto inquestionável, sem perguntar se para além desse mundo existe um outro, de natureza diversa. Essas ciências, uma vez admitido como pressuposto óbvio o mundo material, querem saber como esse mundo se comporta, como os diversos fenômenos naturais podem ser explicados, quais as relações entre causa e efeito, etc. Mas tudo restrito ao âmbito desse mesmo mundo.

Sendo assim, todas as vezes que um cientista natural – físico, biólogo, etc – levanta uma questão sobre Deus, sobre o princípio radical do mundo (se é eterno ou não), ou sobre se este mundo visível é o único existente, ou ainda sobre se há ou não um sentido para as coisas e a vida humana; quando, pois, levanta questões assim, o cientista, na verdade, extrapola o âmbito da sua ciência natural e passa a colocar questões filosóficas ou teológicas. Ele, então, já não fala em nome da sua ciência natural. Passa a falar como filósofo ou teólogo sem, às vezes, ter adquirido competência para tal.

Ao descrever os fenômenos da natureza, suas causas e relações mútuas, as ciências naturais não pretendem tirar o véu do sentido radical do mundo. A descrição que fazem pode ser compatível com diversas cosmovisões. No âmbito dessas ciências, se se quer respeitar seu estatuto epistemológico próprio, não se pode decidir pelo teísmo, deísmo, agnosticismo ou ateísmo. É preciso lançar mão de um outro nível de conhecimento, uma visão filosófica ou teológica, para alcançar a decisão sobre o sentido da realidade como um todo.

As ciências naturais podem até apresentar indícios de que o mundo é fruto de uma Inteligência ordenadora e um Poder criador e conservador superior, mas, por si mesmas, nunca poderão dar o veredicto final sobre a existência ou não dessa Inteligência ou Poder. Ou podem insinuar que o mundo se baste a si mesmo e que, malgrado a ordem e as maravilhas que podem ser percebidas na natureza, a origem das diversas coisas e das diversas espécies vivas tenham sua razão de ser no próprio interior do mundo, cujo dinamismo, através do acaso e da necessidade, é o “relojoeiro cego” (Dawkins) que fabrica “relógios” maravilhosos. Mas, repito, não podem decidir, por si mesmas, se o mundo realmente se basta a si mesmo ou se a origem mundana das coisas requer ou não uma origem anterior, não mundana. Em síntese, as ciências podem explicar o como e os porquês mais imediatos dos fenômenos do mundo, mas não têm competência para responder à questão do porquê radical. Veja-se o que diz o ex-ateu Alister MacGrath, com doutorado em biofísica molecular:
“As teorias científicas não podem ser tomadas para ‘explicar o mundo’, mas apenas para explicar os fenômenos observados no mundo. Além disso, argumentam os autores, as teorias científicas não descrevem e explicam tudo sobre o mundo, e nem pretendem fazê-lo – conforme suas propostas” (McGRATH, Alister; McGRATH, Joanna. O delírio de Dawkins. Uma resposta ao fundamentalismo ateísta de Richard Dawkins. Mundo Cristão: São Paulo, 2007, p. 53).
O que Dawkins não entendeu é exatamente isso. Não compreendeu os limites próprios do discurso científico, e quis fundamentar na biologia sua tese metafísica (filosófica) ateísta. A tese metafísica de Dawkins sobre a não existência de Deus deve ser debatida no âmbito da filosofia (não digo da teologia porque Dawkins não tem fé, e a teologia a exige como pressuposto), não das ciências naturais.

Ora, Dawkins, até hoje, não apresentou nenhum discurso propriamente filosófico para demonstrar que Deus não existe ou para demonstrar que a realidade visível é a única realidade. As pseudo-refutações que faz das “vias” tomistas (argumentos que pretendem demonstrar a existência do Absoluto distinto do mundo), em seu livro Deus: um delírio, mostram, a meu ver, que não compreendeu a natureza dos argumentos. Mas isso já é um outro assunto, do qual pretendo tratar depois neste blog.

Aguardamos ainda de Dawkins, se é que isso é possível, um discurso verdadeiramente filosófico que ateste seu ateísmo. Seu discurso simplesmente não convence.
Padre Elílio de Faria Matos Júnior

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Encíclica "Fides et Ratio"

Oferecemos ao leitor um breve apanhado da Encíclica "Fides et Ratio", de Sua Santidade o Papa João Paulo II. Trata-se de um dos documentos mais importantes de seu pontificado.
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Referência: João Paulo II. Encíclica Fides et Ratio (14-9-98)
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A Encíclica divide-se em nove partes: a Introdução, sete capítulos e a conclusão.

Introdução. Entre o homem e os brutos há uma grande distinção, pois que ele - o homem -, à diferença dos brutos, é um buscador de si mesmo, da verdade sobre si mesmo e, por isso, da verdade enquanto tal. Conhece-te a ti mesmo! - é a grande máxima. A filosofia tem um papel fundamental nesse campo: "A filosofia tem a grande responsabilidade de formar o pensamento e a cultura por meio do apelo perene à busca da verdade". A Igreja, tendo a consciência de ser a depositária da relevação do próprio Deus para a salvação do homem, não é alheia a essa busca.

A Revelação da Sabedoria de Deus. A fé cristã sustenta que Deus, soberanamente bom e misericordioso, que não pode enganar-se nem enganar ninguém, revelou o seu plano de Salvação por meio do Verbo feito carne, que veio a nós na força do Espírito. De modo que a "Revelação coloca dentro da história um ponto de referência de que o homem não pode prescindir, se quiser chegar a compreender o mistério de sua existência" (n.14). Mergulho no mistério. Deus nos chama ao mergulho em sua própria vida. O homem é resposta pequena demais para o homem (contra o imanentismo e os diversos reducionismos);

Credo ut inttellegam (Creio para entender). A sabedoria de Deus é infinitamente grande. Ela manifesta-se pela revelação natural (ordem e maravilha das criaturas) e pela revelação especial na história (patriarcas, profetas e, sobretudo, Jesus). O homem está aberto à sabedoria, e a ela se chega não apenas pela observação atenta da natureza ou pela especulação científica e filosófica, mas também, e de modo mais sublime, pelo acolhimento na fé da Revelação de Deus na história, Ele que é a Sabedoria, anterior, superior e mais profunda do que a sabedoria meramente humana. Quem não reconhece que há um mistério que nos envolve engana-se a si mesmo. O homem é finito, e seu valor está em reconhecer o mistério que o envolve por todos os lados (aliás, pela simples razão natural, o homem pode reconhecer a existência de Deus, no qual reside toda a Sabedoria, que infinitamente ultrapassa o próprio homem.) Israel é exemplo: ao mesmo tempo que observava o mundo, a história e o próprio homem, soube abrir-se para a luz superior que lhe vinha de Deus. Na Nova Aliança, a Sabedoria de Deus manifesta-se, de modo singular, na Cruz de Cristo, o pode parecer loucura para uma razão fechada em si mesma; no entanto, para a razão aberta à luz superior, a Cruz é a resposta mais adequada aos seus anseios mais profundos, anseios de amor autêntico: pelo mistério de Cristo crucificado, posso dizer: “o Amor me amou”.

Intellego ut credam (Entendo para crer). O homem é um buscador da verdade. Qual o sentido da vida? De onde vim? Para onde vou? Questões fundamentais! Há quatro níveis de verdade: a) da vida cotidiana; b) científica; c) filosófica; d) teológica. "O homem, por sua natureza, procura a verdade. Essa busca não se destina apenas à conquista de verdades parciais, físicas ou científicas; não busca só o verdadeiro bem em cada uma das suas decisões. Mas a sua própria pesquisa aponta para uma verdade superior, que seja capaz de explicar o sentido da vida; trata-se, por conseguinte, de algo que não pode desembocar senão no absoluto" (n.33). Na busca do entendimento, o homem depara-se diante do mistério de Deus, que lhe propõe a fé.
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A relação entre fé e razão. A fé cristã, desde seus primórdios, encontrou-se com a filosofia e os filósofos. Do séc. II, com os apologistas, ao séc. XIII, com Santo Tomás, os pensadores alcançaram uma bela harmonia entre fé e razão. Em Santo Tomás essa harmonia atinge o seu auge e o seu máximo esplendor. Deus, sendo ao mesmo tempo o criador da razão humana e o autor da fé, é o garante da harmonia entre ambas. No entanto, já a partir da escolástica decadente, foi-se dando a dramática separação entre fé e razão. A filosofia moderna, por ser imanentista em sua base, afastou-se do auxílio de Deus. Hoje, até mesmo a filosofia se vê ameaçada. Fala-se do fim da filosofia. Com efeito, se não há um absoluto, em vão o homem procura afirmar-se.

Intervenções do Magistério em matéria filosófica. O Magistério, em virtude de seu ofício defender a verdade, sempre mostrou-se solícito pela filosofia, incentivando o cultivo de uma reflexão autêntica, reconhecedora da Transcendência e da dignidade do homem. A Igreja não poderá conformar-se com uma filosofia que negue a capacidade metafísica do homem, fechando-lhe as portas para o Transcendente. Por isso, cabe ao Magistério da Igreja, em sua diaconia da verdade, intervir quando as grandes verdades sobre Deus, o mundo e o homem forem postas em causa. O Magistério não quer regular a filosofia a partir de dentro, pois assim a destruiria, mas tem consciência de que não pode concordar com teses que neguem as grandes verdades, já conquistadas pelo labor de tantos pensadores, sobre Deus, o mundo e o homem, e que constituem a philosophia perennis, patrimônio intelectual da humanidade.

Interação da filosofia com a teologia. A filosofia pode e deve demonstrar os preambula fidei (a existência de Deus, o fato da Revelação, a imortalidade pessoal...), preparando, assim, o homem para acatar as verdades sobrenaturais (Trindade, encarnação do Verbo...). Há, para o pensador cristão, a necessidade de um conhecimento natural: o conhecimento das coisas criadas (naturais) pode contribuir enormemente para o conhecimento de Deus e para o diálogo entre fé e cultura. A teologia, por sua vez, contribui com a filosofia no sentido de purificá-la, pois a razão não está livre de equívocos, e de lhe abrir perspectivas inauditas, como o conceito de criação, que, embora sendo uma verdade filosófica e não somente teológica, a filosofia só a atingiu por influência da teologia.
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Exigências e tarefas atuais. Que a filosofia volte a encontrar sua dimensão sapiencial (busca da sabedoria), vencendo doutrinas que lhe apequenam a visão e são inconciliáveis com a fé: imanentismo, relativismo, historicismo, positivismo, existecialismo ateu, pragmatismo... Passar dos fenômenos para o fundamento é a grande tarefa. A verdade existe objetivamente e pode ser buscada pelo homem, e ela não se restringe ao conhecimento empírico, próprio das ciências naturais.

Conclusão. Pensadores, filósofos e teólogos católicos devem ter a coragem de desenvolver e aprofundar as justas relações entre fé e razão, para mostrar ao mundo que uma não exclui a outra; ao contrário, ambas são como que asas de um pássaro que nos levam à contemplação da verdade, de Deus.
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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Em defesa do Papa Bento XVI

Quero aqui expressar meu descontentamento com certa imprensa, que, ao invés de promover a verdade, fica à cata de notícias espalhafatosas e inverídicas para se promover a si mesma. Não deixo de reconhecer, contudo, que existem grandes e honrados nomes que são a glória do jornalismo sério e competente.

Vou direto ao assunto. Trata-se da vinculação do nome do Santo Padre Bento XVI com as teses negacionistas ou reducionistas do bispo inglês Dom Williamson. Dom Williamson, juntamente com outros três sacerdotes, foi sagrado bispo em 1988 por Dom Marcel Lefebvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). Como Dom Lefebvre realizou a sagração sem mandato pontifício, ele, o brasileiro Dom Antônio de Castro Mayer, consagrante, e os bispos sagrados, entre os quais Dom Williamson, incorreram em excomunhão latae sententiae. Dois dias após as sagrações, o Papa João Paulo II fez conhecer publicamente a excomunhão pela Carta Apostólica Ecclesia Dei afflicta. O motivo do ato cismático de Dom Lefebvre foi a não-aceitação das mudanças ocorridas na Igreja a partir do Concílio Vaticano II e da reforma litúrgica realizada sob a inspiração do mesmo concílio. Dom Lefevbre acreditava que haviam sido introduzidas novidades na vida da Igreja que não se coadunavam com a legítima tradição católica.

Pois bem. Em janeiro de 2009, o Papa Bento XVI houve por bem retirar a excomunhão declarada outrora por João Paulo II. O levantamento da excomunhão atingiu, evidentemente, os bispos vivos, isto é, os quatro bispos que haviam sido sagrados em 1988, entre eles Dom Williamson, já que para os mortos, como é o caso de Dom Lefebvre e Dom Mayer, cessa a jurisdição canônica da Igreja.

Aconteceu que Dom Williamson havia dado uma entrevista a uma rede de TV sueca em que chegou a negar que tivesse havido câmaras de gás para exterminar os judeus na 2ª Guerra Mundial, e ainda afirmou que o número de judeus mortos na ocasião não passava de 200 ou 300 mil. Isso equivale a negar ou reduzir muito o Holocausto. Dom Williamson cometeu um erro muito grande ao dar tais declarações, provocando uma justa indignação não só de judeus, mas também de vozes do mundo inteiro, inclusive de católicos e de membros da FSSPX. Dom Fellay, Superior da FSSPX, chegou mesmo a proibi-lo de dar entrevistas sobre fatos históricos ou políticos. E o próprio Dom Williamson reconheceu sua imprudência ao pedir perdão ao Papa pelas suas afirmações.

O que me provocou a indignação foi o fato de ter circulado na imprensa a idéia de uma possível condescendência de Sua Santidade o Papa Bento XVI para com as teses negacionistas ou reducionistas de Dom Williamson. Isso pelo fato de Bento XVI ter retirado a excomunhão dos bispos lefebvrianos. O Papa, a bem da verdade, ignorava por completo a entrevista de Dom Williamson, que havia, erradamente, manifestado uma opinião particular sobre uma questão que não lhe dizia respeito como bispo. Não falou em nome da FSSPX e muito menos em nome da Igreja católica, com a qual ainda não está em plena comunhão, mesmo tendo sido retirada a excomunhão que lhe pesava.

O que deseja o Papa com a retirada da excomunhão é coisa bem outra. É uma questão que diz respeito exclusivamente à vida interna da Igreja. Bento XVI quer a plena reintegração dos membros e seguidores da FSSPX à Igreja. O levantamento da excomunhão não significa ainda que haja já essa reintegração, mas é um passo em direção a ela, como o fora, em julho de 2007, a liberação da Missa tradicional, tão prezada pelos lefebvrianos e que jamais fora ab-rogada.

Ainda deve ser percorrido um caminho – pequeno ou grande, o futuro o dirá – até a plena comunhão dos lefebvrianos com a Igreja católica. A grande questão a ser tratada é o reconhecimento, por parte da FSSPX, do Concílio Vaticano II e da legitimidade da reforma litúrgica empreendida por Paulo VI. Como e quando esse caminho será percorrido, Deus o sabe, Ele que guia a Igreja.

Pelo que noto, Bento XVI deseja ardentemente a plena reabilitação por ver no movimento suscitado por Dom Lefebvre, apesar das controvérsias sobre o que se deu na vida eclesial a partir do Concílio Vaticano II, uma espiritualidade de muito amor à Igreja. E o coração do Papa sabe ver onde esse amor autêntico existe, ainda que tenha que ser reformulado sob alguns aspectos. E não se pode negar também que certos setores da Igreja, em nome do Concílio Vaticano II, têm defendido idéias absurdamente anticatólicas, o que pode dar a impressão de que o concílio seja a grande causa dessas idéias. O próprio Bento XVI tratou da reta hermenêutica do concílio em um discurso dirigido à Cúria Romana em 2005 por ocasião das felicitações natalinas. O Vaticano II, dizia o Papa, não pode ser visto como algo desvinculado da bimilenar Tradição da Igreja, e deve ser corretamente interpretado como uma renovação na continuidade da Grande Tradição, nunca como ruptura.

De qualquer modo, Bento XVI, injustiçado por essa confusão de idéias, deixou claro de público o que já estava tão claro, tão óbvio, tão ululante: o Papa não apóia teses negacionistas ou reducionistas; o Papa preza o povo judeu e não se compactua com nenhum tipo de anti-semitismo. Aliás, essa confusão de idéias pareceu-me até ter sido orquestrada para desmoralizar o Papa justamente quando ele, com o seu coração de Pastor, queria trabalhar para o bem da Igreja de Cristo.

Nesta hora em que o "doce Cristo na Terra" padece no "Jardim das Oliveiras" da incompreensão e da calúnia, cumpre a mim, como sacerdote da Igreja católica, estar a seu lado como filho amantíssimo.

Deus recompense o Papa Bento XVI pelo seu esforço de trabalhar pela Igreja, que é para todos o sacramento universal da salvação.


Padre Elílio de Faria Matos Júnior
Obs.: A Secretaria de Estado do Vaticano publicou, aos 4 de fevereiro de 2009, uma nota em que se diz expressamente que, para exercer o múnus episcopal na Igreja, o bispo Dom Williamson deverá afastar-se, de modo inequívoco e público, das suas posições a respeito da Shoah, não conhecidas pelo Santo Padre quando do levantamento da excomunhão.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Mistério da Trindade Eterna

Desde cedo apareceram, como naturalmente era de se esperar, tentativas de sistematizar o Mistério do Deus revelado no Novo Testamento. Procurou-se refletir sobre o Mistério de Deus em si mesmo, ou seja, pretendeu-se passar da consideração histórica de Deus que se revelou atuante como Pai, Filho e Espírito à consideração de como Deus é em si mesmo desde toda a eternidade. As primeiras tentativas de enquadrar num sistema lógico o evento inesperado do Cristianismo falharam. São as heresias trinitárias. Procurou-se reduzir a esquemas mais facilmente aceitáveis para a lógica humana o estonteante Mistério da unidade e da trindade em Deus. Ou defendeu-se a unidade de maneira a negar a trindade (subordinacionismo, modalismo) ou chegou-se ao triteísmo, negando-se a unidade que convém ao Absoluto[1].

A fé da Igreja, porém, consciente de que à Trindade econômica deve corresponder a Trindade imanente, pois Deus não se revelaria de forma distinta do que ele é em si mesmo, preservou a novidade cristã da triunidade de Deus. Novidade essa que a reflexão filosófica por si mesma jamais poderia atingir. Isso é significativo, porque mostra que o Deus cristão não foi inventado de qualquer modo pela Igreja, que, por sua vez, mesmo lançando mão de categorias da cultura grega para expressar, tanto quanto possível, o Mistério trinitário, modificou-as significativamente para que se adequassem ao dogma da Trindade Eterna, que é um só Deus.

Os Concílios Ecumênicos de Nicéia (325) e Constantinopla (381), frente às heresias trinitárias, afirmaram a consubstancialidade do Verbo, que se encarnou em Jesus, e do Espírito Santo com o Pai. O dogma da Trindade, professado no Símbolo resultante dos dois referidos concílios (daí Símbolo niceno-costantinopolitano) foi exposto de forma rigorosa no Símbolo pseudo-atanasiano ou Quicumque (séc. V/VI):
"E é esta a Fé católica: que adoremos a um só Deus na Trindade e a Trindade na Unidade, não confundindo as Pessoas, nem separando a substância, porque uma é a substância, porque uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; mas a divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é uma só, a glória igual, a majestade coeterna".[2]
A fórmula uma substância e três pessoas (ou uma essência e três hipóstases como se diz no Oriente) tornou-se uso comum entre os teólogos, para, de algum modo, dizer o tremendo Mistério do Deus Triúno que se disse a si mesmo na história da salvação. A unicidade da substância garante que se trata de um só Deus, e a trindade das Pessoas afirma que na única substância divina há três subsistências, que se distinguem realmente, mas não retalham ou multiplicam a substância divina, que é numericamente uma.

Este movimento que desloca a atenção dos cristãos da consideração da Trindade econômica para a Trindade imanente é, em si, muito legítimo e natural, e pretende, de alguma forma, concretizar o desejo de conhecer o Deus amado e dar conta da razoabilidade da fé cristã, que, embora distinguindo três subsistências em Deus, não cai no ilógico triteísmo.

Dentre as várias analogias de que os teólogos lançaram mão para ilustrar o Mistério da Trindade Eterna, julgamos ser a que mais se aproxima da vida de Deus a célebre analogia psicológica, amplamente exposta por Santo Agostinho[3] e rigorosamente sistematizada por Santo Tomás de Aquino[4].

Em síntese, a analogia psicológica, seguindo a Sagrada Escritura, afirma que há em Deus duas processões[5]: a do Filho (ou Verbo, conforme o prólogo joanino) e a do Espírito. O Pai é o Princípio sem princípio do qual procedem o Verbo e o Espírito. Ora, as processões em Deus, que é espírito e ato puro, não podem terminar fora de Deus, mas são necessariamente processões imanentes, como imanentes são as ações da vida do espírito: o conhecer e o amar.
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Em nós o conhecer e o amar são imperfeitos, porque conhecemos verdades parciais e amamos na medida em que conhecemos. Assim, em nós, a intelecção em ato e o amor em ato, decorrente da intelecção, não se identificam conosco; são acidentes. Mas em Deus tudo se identifica com a essência divina, pois Deus é simplicíssimo.
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Portanto, o ato pelo qual Deus conhece e o ato pelo qual Deus ama não são outra coisa senão o próprio Deus. E o que Deus conhece e ama? Conhece-se e ama-se a si mesmo, já que é não depende de algo que lhe seja externo para isso. Deus, desde toda a eternidade, se conhece a si mesmo como plenitude do ser e se ama a si mesmo como plenitude da bondade de forma perfeita e cabal. A intelecção em Deus (chamada Verbo ou Filho) e o amor em Deus (o Espírito Santo) não são acidentais, mas subsistentes, e identificam-se com o próprio Deus. Assim, dizemos que em Deus há duas processões e três subsistências (= Pessoas ou relações subsistentes).
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Com efeito, o Pai, o Princípio sem princípio (primeira subsistência), conhece-se a si mesmo gerando o Verbo, a perfeita Imagem de si mesmo, também chamado Filho (segunda subsistência); este conhecimento suscita o amor[6]. O Pai, então, ama o seu Verbo e o Verbo ama seu Pai. O amor com o qual o Pai ama o Verbo e o Verbo ama o Pai faz proceder o Espírito Santo ou o Amor subsistente (terceira subsistência).
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As três subsistências ou Pessoas são, na verdade, relações (esse ad aliud) subsistentes: o Pai é para o Filho, o Filho para o Pai e ambos são para o Espírito Santo, que, por sua vez, é para o Pai e o Filho. Cada Pessoa possui a plenitude da divindade, pois se identifica com a essência divina, e, mesmo sendo três as Pessoas, a natureza divina permanece numericamente uma.
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Deve-se dizer, portanto, que as três Pessoas não se distinguem da natureza divina, mas se distinguem entre si por sua relação de origem: o Pai é ingênito; o Filho procede do Pai e o Espírito Santo, por sua vez, procede do Pai e do Filho. Os três possuem a plenitude da divindade, de modo que tudo lhes é comum, exceto o que implica oposição relativa[7]. Note-se que as processões em Deus não são temporais, pois existem desde toda a eternidade, identificando-se com o ser eterno de Deus; nesse sentido as três Pessoas são sem princípio.


Padre Elílio de Faria Matos Júnior

[1] O triteísmo teve menos êxito, pois, cindindo o Absoluto, sua solução apresenta-se rudimentar. Recordemos aqui apenas o caso do alexandrino João Filopono do século VI.
[2] Justo Collantes. A Fé Católica. Rio de Janeiro, n.0.510.
[3] Cf. Santo Agostinho. A Trindade. São Paulo: Paulus, 1995.
[4] Cf. Summa Theologiae, I, q. XXVII-XLII.
[5] A Sagrada Escritura, ao falar do Pai e do Filho, supõe procedência do Filho em relação ao Pai. No tocante ao Espírito Santo, diz Jesus: "O Espírito da Verdade, que procede do Pai ..." (Jo 15,26).
[6] A filosofia ensina que o ser enquanto é conhecido pelo intelecto é verdadeiro, enquanto é querido é bom. O bem é objeto de amor.
[7] Justo Collantes. A Fé Católica. Rio de Janeiro, n. 6.072.