sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O sentido autêntico do celibato sacerdotal

O celibato livremente assumido por amor do Reino dos Céus sempre foi visto com grande estima pela Santa Igreja Católica já desde os seus primórdios. O próprio Jesus, o fundador da Igreja, preconizou-o como via possível ao discípulo, evidentemente não obrigatória para todos: “E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus. Quem tiver a capacidade de compreender, compreenda” (Mt 19,12). Jesus, assim, não fazia outra coisa senão apresentar o que havia escolhido para si mesmo: o celibato por amor do Reino. Também São Paulo, o grande apóstolo dos gentios, estimulava vivamente a vida celibatária como meio de se unir mais intimamente ao Senhor de se dedicar mais intensamente à sua causa: “Quem não tem esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar ao Senhor. Quem tem esposa cuida das coisas do mundo e do modo de agradar à esposa, e fica dividido” (1Cor 7,32-34).

Não se trata, nos casos acima, de condenação ou menosprezo do matrimônio. O matrimônio, aliás, é visto tanto por Jesus como por São Paulo como algo de positivo e abençoado por Deus. O que entra em questão, nesses casos, é o caráter único e sobremaneira excelente do Reino dos Céus. Em verdade, o Reino é a salvação que nos leva a participar da vida e bem-aventurança eternas do próprio Deus e, nessa qualidade, é o único absoluto, diante do qual tudo mais deve ser relativizado. O celibato, assim, explica-se por sua relação ao absoluto de Deus. Com efeito, a renúncia do matrimônio, o qual é positivo em si mesmo, encontra sua justificativa em função de algo mais excelente: o Reino de Deus. O celibato seria, então, a renúncia de um amor (o matrimônio) por causa de um amor maior, isto é, o Amor Máximo, que é o próprio Deus.

Tudo isso sugere a idéia de que, com a irrupção do Reino dos Céus inaugurado por Jesus, muitos sentir-se-ão de tal modo entusiasmados por ele que abrirão mão até mesmo de coisas boas e lícitas com o fito de se entregar mais plenamente à causa desse Reino.

Ressalte-se, ademais, que o celibato ou a vida una é, em primeiro lugar, dom de Deus, de seu infinito amor, pois “nem todos são capazes de compreender essa palavra, mas só aqueles a quem é concedido” (Mt 19,11). Quem foi agraciado com a vocação ao celibato por amor do Reino dos Céus, saiba que tudo deve à graça de Deus, não a méritos próprios, e, portanto, não se torne presunçoso, mas servidor da graça divina. Mas a vida celibatária é também fruto de uma opção de amor: quem é agraciado com tal vocação deve responder-lhe em liberdade (a graça de Deus não anula a liberdade do homem); se sua resposta for generosa, um “sim”,estará fazendo a grande opção pelo amor a Deus sem divisões ou distrações.

Como foi dito, a Igreja sempre teve em alta consideração o celibato por amor do Reino. Tal foi sua consideração que preferiu, já nos primeiros tempos, escolher seus ministros ordenados – padres e bispos – entre os que manifestassem o dom da vocação ao celibato. Num primeiro momento a Igreja preferiu os celibatários para o ministério ordenado, permitindo que também os casados fossem admitidos ao sacramento da Ordem. Aos poucos, porém, com o decorrer dos tempos, essa predileção foi, cada vez mais, tomando vulto até que, iluminada pelo Espírito Santo, a Igreja, no Ocidente, houve por bem estabelecer explicitamente a lei do celibato sacerdotal, que consiste em admitir ao ministério ordenado somente os candidatos que se manifestam vocacionados ao celibato.

A Igreja assim o fez motivada pelo fato de que o celibato, grande sinal do caráter único e absoluto do Reino dos Céus, ajusta-se de mil modos ao sacerdócio do Novo Testamento e, ao mesmo tempo, confiando em que a Providência haveria de suscitar numerosas vocações celibatárias, de modo que não faltassem sacerdotes.

O celibato, como dom de Deus à Igreja e sinal vivo do Reino que já irrompe entre nós e será consumado na vida futura, é testemunho profético do Absoluto e Definitivo e, assim, por graça de Deus, a glória do clero.

Que neste Ano Sacerdotal, São João Maria Vianney, que soube amar o celibato por causa do Reino dos Céus e ser-lhe fiel, interceda pelos sacerdotes do mundo inteiro a fim de que vivam o sentido pleno deste grande dom de Deus à sua Igreja sem traições nem titubeios!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Escatologia individual, intermediária e coletiva

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

De acordo com a fé da Igreja, podemos distinguir uma escatologia individual, uma escatologia coletiva e uma escatologia intermediária[1]. A escatologia individual trata do que se dá com o Homem quando termina sua vida neste mundo. Com a morte do Homem, dá-se o início da escatologia individual. "A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, do elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que subsista o 'eu humano', ainda que temporariamente privado do complemento do próprio corpo"[2]. Esse elemento, a Tradição da Igreja o designa por alma. Bento XII, com a Constituição Benedictus Deus de 1336[3], declarou que, imediatamente depois da morte, os justos, se não necessitarem da purificação do purgatório, gozam da visão face-a-face, mesmo carecendo do complemento do corpo ressuscitado. Mas, a fé da Igreja sustenta com vigor a ressurreição da carne: "...o estado de sobrevivência da alma depois da morte não é definitivo nem ontologicamente mais alto, mas 'intermédio' e transitório, e ordenado, em último termo, para a ressurreição"[4]. A ressurreição da carne é uma doutrina especificamente cristã e porta em si um selo contra todo dualismo que considera a matéria como algo mau em si. A matéria faz parte da nossa história e, como tal, será também glorificada. Ademais, a doutrina da ressurreição afirma muito claramente a seriedade das realidades terrestres, uma vez que o corpo com o qual caminhamos verá a glória e os atos deliberados desta vida ecoarão na eternidade. Isso nos leva a empenhar nossa liberdade, desde já, cooperando com a Graça, para que o Reino se manifeste o mais possível neste mundo, até que atinja sua plenitude no outro.

O purgatório, outra realidade afirmada pela fé da Igreja, é o estado provisório daqueles que, fundamentalmente, partiram desta vida orientados para Deus, mas com resquícios ainda do Homem velho. Neste estado, a alma se purifica no amor de Deus, para se conformar plenamente a Cristo e abrir-se sem empecilho algum à Beleza infinita de Deus.

Essas afirmações nos levam a dizer que há um estado intermediário entre a escatologia individual, que começa logo após a morte, e a coletiva, que se dará por ocasião da consumação final do plano de Deus, ocasião em que a matéria também participará, de modo novo e inusitado, da Glória e Beleza divinas, e cada alma será dotada do complemento de seu corpo transfigurado, à semelhança do corpo glorioso de Jesus ressuscitado.

A fé da Igreja afirma ainda a real possibilidade da frustração definitiva da liberdade humana. Se se quer levar a sério a liberdade humana, deve-se dizer que ela pode ser capaz de recusar a participação na vida divina oferecida por Deus. A liberdade que recusa Deus, perde-o, e tal perda, que é a perda do único Bem e Beleza que não deveríamos perder, constitui a essência daquilo que chamamos de inferno. O inferno, pois, deve-se à liberdade que se recusa participar da vida de Deus em Cristo. É a fealdade por excelência, pois consiste na negação do que o Homem, por graça de Deus, deveria ser; negação da sua perfeita e sobrenatural realização.

Enfim, a mensagem da escatologia cristã dá ao coração humano uma perspectiva fundamentalmente otimista, pois nos dá a conhecer que não estamos sozinhos em busca da beleza. A Beleza em si, Deus, existe e é, não só o termo para o qual caminhamos, mas o principal promotor e garante de nosso sucesso no percurso, pois que, com amor, firmeza e suavidade, nos conduz para a sua própria intimidade, em que o dinamismo eterno da Beleza perfaz o infinito gáudio da vida divina. A Beleza infinita chama-nos a, desse gáudio infinito, sermos partícipes.



[1] Cf. COLLANTES, Justo. A Fé Católica. Rio de Janeiro: Lumen Christi, c. X, p. 1166. Citado abaixo como FC.

[2] FC, n. 0.066.

[3] Cf. FC, n. 0.016ss.

[4] COMISSÃO INTERNACIONAL DE TEOLOGIA. Esperança cristã na ressurreição. Algumas questões atuais de escatologia. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 35.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Missa Tridentina: Santa Sé diz que bispos devem seguir indicações do Papa

Cidade do Vaticano, 07 ago (RV) - O novo secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, Dom Guido Pozzo – uma das peças-chave do Vaticano para o diálogo com os lèfebvrianos − escreveu uma carta a respeito das indicações dadas por Bento XVI sobre a celebração da Missa pré-conciliar (Rito de São Pio V), considerando que os bispos deve "estar em linha com as diretivas" do Motu Proprio Summorum Pontificum.

Bento XVI permitiu a celebração com o Missal de 1962, precedente à reforma litúrgica feita pelo Concílio Vaticano II. Esse rito contempla o uso do latim e a posição do sacerdote no altar (de costas para a assembleia). A decisão do pontífice é universal, o que significa que a Missa Tridentina pode ser celebrada pelo sacerdote que o desejar, sem necessidade de autorização hierárquica (licença ou indulto) de um prelado. Os textos litúrgicos redigidos e promulgados após o Concílio continuam, todavia, a constituir a forma ordinária e habitual do Rito Romano.

Dom Pozzo chegou à Ecclesia Dei em julho passado, após as profundas mudanças efetuadas por Bento XVI nesse organismo da Cúria Romana, agora diretamente ligado à Congregação para a Doutrina da Fé.

Mostrando-se compreensivo em relação às exigências dos fiéis que pretendem a celebração no Rito de Pio V, Dom Pozzo lembra também, que não é fácil para os bispos disporem de padres e igrejas para a celebração no Missal antigo, quando já estão sobrecarregados com encargos pastorais e afetados pela crise de vocações.

A Ecclesia Dei é uma comissão que tem por objetivo "facilitar a plena comunhão eclesial" dos fiéis ligados à Fraternidade São Pio X, fundada pelo bispo tradicionalista Dom Marcel Lèfebvre, "conservando as suas tradições espirituais e litúrgicas".

Criada por João Paulo II, em 1988, a comissão quer ser um sinal de comunhão para todos os fiéis católicos que se sentem vinculados a algumas precedentes formas litúrgicas e disciplinares da tradição latina, procurando adoptar "as medidas necessárias para garantir o respeito de suas justas aspirações".

O Motu Proprio de Bento XVI sobre a Liturgia Romana anterior à reforma do Concílio Vaticano II entrou em vigor em 14 de setembro de 2008. O documento aprova a utilização universal do Missal promulgado pelo bem-aventurado João XXIII, em 1962, com o Rito de São Pio V, utilizado na Igreja durante séculos.

O Rito de São Pio V, que a Igreja Católica usava até a reforma litúrgica de 1970 (com algumas modificações, a última das quais datada de 23 de Junho de 1962) foi substituído pela Liturgia do Novus Ordo (Novo Ordinário) aprovada como resultado da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. (AF)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Santidade e pecado na Igreja





Afinal, como a Igreja pode ser santa se a história está manchada pelos muitos pecados dos católicos? Ora, essa dúvida só aparece quando não se sabe exatamente o que Cristo quis dizer com as palavras As portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16, 18). Este artigo é uma adaptação de The Church Ask for Forgiveness, publicado por Alice von Hidelbrand em 2000.


Conta-se que Napoleão, o vencedor de tantas batalhas, após ter mantido o Papa Pio VII prisioneiro em Fontainebleau por longo tempo, queria tomar a Igreja Católica sob a sua tutela para assim alcançar a hegemonia total na Europa. Com isso em mente, redigiu uma Concordata que entregou ao Secretário de Estado, o cardeal Consalvi. O imperador disse ao cardeal que voltaria no dia seguinte e que queria o documento assinado.



Depois de ler a Concordata, Consalvi informou Sua Santidade de que assinar o documento equivaleria a vender a Igreja ao Imperador da França e, por conseguinte, implorou-lhe que não o assinasse. Quando Napoleão voltou, o cardeal informou-o de que o documento não havia sido assinado. O imperador começou então a usar um dos seus conhecidos estratagemas: a intimidação. Teve uma explosão de raiva e gritou: “Se este documento não for assinado, eu destruirei a Igreja Católica Romana”. Ao que Consalvi calmamente replicou: “Majestade, se os papas, cardeais, bispos e padres não conseguiram destruir a Igreja em dezenove séculos, como Vossa Alteza espera consegui-lo durante os anos da sua vida?”



Tenho um motivo concreto para relatar esse episódio. Consalvi deixa claro que embora existam inumeráveis pecadores no seu seio, também em posições de governo, a Igreja conseguiu subsistir por ser a Esposa Imaculada de Cristo, santa e protegida pelo Espírito Santo. Como disse certa vez Hilaire Belloc, se a Igreja fosse uma instituição puramente humana, não teria sobrevivido aos muitos prelados idiotas e incompetentes que já a lideraram. Por que a Igreja sobrevive e continuará a sobreviver? A resposta é simples. Cristo nunca disse que daria líderes perfeitos à Igreja. Nunca disse que todos os membros da Igreja seriam santos. Judas era um dos Apóstolos, e todos aqueles que traem o Magistério da Esposa de Cristo tornam-se Judas. O que Nosso Senhor disse foi: As portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16, 18).

A palavra “Igreja” tem dois sentidos: um sobrenatural e outro sociológico. Para todos os não-católicos e, infelizmente, também para muitos católicos de hoje, a Igreja é uma instituição meramente humana, constituída por pecadores, uma instituição cuja história está carregada de crimes. É preocupante o fato de que o significado sobrenatural da palavra “Igreja” – a saber, a santa e imaculada Esposa de Cristo – seja totalmente desconhecido da esmagadora maioria das pessoas, e até de um alto percentual de católicos cuja formação religiosa foi negligenciada desde o Vaticano II. Por isso, quando o Papa ou algum membro da hierarquia pede perdão pelos pecados dos cristãos no passado, muitas pessoas acabam pensando que a Igreja – a instituição religiosa mais poderosa da terra – está finalmente a admitir as suas culpas e que a sua própria existência foi prejudicial à humanidade.

Na realidade, a Esposa de Cristo é a maior vítima dos pecados dos seus filhos; no entanto, é ela que implora a Deus que perdoe os pecados daqueles que pertencem ao seu corpo. É a Santa Igreja que implora a Deus que cure as feridas que esses filhos pecadores infligiram a outros, muitas vezes em nome da mesma Igreja que traíram.

Somente Deus pode perdoar os pecados; é por isso que a liturgia católica é rica em orações que invocam o perdão de Deus. As vítimas dos pecados podem (e devem) perdoar o mal que sofreram, mas não podem de forma alguma perdoar o mal moral em si, e, caso se recusem a perdoar, movidas pelo rancor e pelo ódio, Deus, que é infinitamente misericordioso, nunca nega o seu perdão àqueles que o procuram de coração contrito.
A Santa Igreja Católica não pode pecar; mas muitas vezes é a mãe dolorosa de filhos díscolos e desobedientes. Ela dá-lhes os meios de salvação, dá-lhes o pão puro da Verdade. Mas não pode forçá-los a viver os seus santos ensinamentos. Isto aplica-se tanto a papas e bispos como aos demais membros da Igreja. Cristo foi traído por um dos seus Apóstolos e negado por outro. O primeiro enforcou-se; o segundo arrependeu-se e chorou amargamente.

A distinção entre os sentidos sobrenatural e sociológico da Igreja deve ser continuamente enfatizada, pois fatalmente causa confusão quando não é explicitada com clareza.

Assim como os judeus que aderem ao ateísmo traem tragicamente o seu título de honra – serem parte do povo escolhido de Deus –, assim os católicos romanos que pisoteiam o ponto central da moralidade – amar a Deus e, por Ele, o próximo –, traem um princípio sagrado da sua fé.

Por outro lado, em nome da justiça e da verdade, é imperioso mencionar que os católicos verdadeiros (aqueles que vivem a fé e enxergam a Santa Igreja com os olhos da fé) sempre ergueram a voz contra os pecados cometidos pelos membros da Igreja. São Bernardo de Claraval condenou em termos duríssimos as perseguições que os judeus sofreram na Alemanha do século XII (cf. Ratisbonne, Vida de São Bernardo). Os missionários católicos no México e no Peru protestavam constantemente contra a brutalidade dos conquistadores, geralmente movidos pela ganância. A Igreja deve ser julgada com base naqueles que vivem os seus ensinamentos, não naqueles que os traem. Recordo-me das palavras com que um amigo meu, judeu muito ortodoxo, lamentava o fato de muitos judeus se tornarem ateus: “Se somente um judeu permanecer fiel, esse judeu é Israel”. O mesmo pode ser dito com relação à Igreja Católica; apenas as pessoas fiéis ao ensinamento de Cristo podem falar em seu nome. Ela deve ser julgada de acordo com a santidade que alguns dos seus membros alcançam, não de acordo com os pecados e crimes de inúmeros cristãos que julgam os seus ensinamentos difíceis de praticar e que por isso traem a Deus na sua vida cotidiana.

Os pecadores, aliás, estão igualmente distribuídos pelo mundo e não são uma triste prerrogativa da religião católica. Se fosse assim, estaria justificada a afirmação de um dos meus alunos judeus em Hunter, feita diante de uma sala lotada: “Teria sido melhor para o mundo que o cristianismo nunca tivesse existido”. A história julgará se o conflito atual entre judeus e muçulmanos é moralmente justificável.


Este modesto comentário foi motivado pelo que disse um rabino à televisão, um dia após o pronunciamento histórico de João Paulo II na Basílica de São Pedro, a 12 de março de 2000, quando o Santo Padre pediu perdão pelos pecados dos cristãos no passado 1. O rabino não apenas achou o pedido de desculpas de Sua Santidade “incompleto” por não mencionar explicitamente o Holocausto (esquecendo-se de mencionar que os católicos eram e são minoria na Alemanha, país basicamente protestante), como também disse que os pecados cometidos pela Igreja foram freqüentemente endossados pelos seus líderes, dando a entender que o anti-semitismo faria parte da própria natureza da Igreja.

Tal afirmação deixa claro que o rabino não fazia a menor idéia daquilo que os católicos entendem por Esposa Imaculada de Cristo – uma realidade que não pode ser percebida ou compreendida por aqueles que usam os óculos do secularismo. Pergunto-me quando o “mundo” considerará que a Igreja já pediu desculpas suficientes. Por séculos a Igreja tem sido o bode expiatório ideal. O que os seus acusadores fariam se ela deixasse de existir?

Aqueles que a acusam de “silêncio” não estão apenas mal informados, mas pressupõem que eles próprios seriam heróicos se estivessem na mesma situação. Como o Papa Pio XII disse a meu marido numa entrevista privada, quando ainda era Secretário de Estado: “Não se obriga ninguém a ser mártir”. Quantas pessoas se julgam heróicas sem nunca terem sido realmente testadas! Quantos judeus arriscariam a vida para salvar católicos perseguidos? Por que esquecem que milhões de católicos também pereceram nos campos de concentração? Se a Gestapo tivesse apanhado o meu marido, considerado o inimigo número um de Hitler em Viena, tê-lo-ia feito em pedaços. Ele lutava contra o nazismo em nome da Igreja e perdeu tudo porque odiava a iniqüidade. Quantas pessoas fariam o mesmo – não na sua imaginação, mas na realidade?

Também não devemos esquecer que inúmeros católicos foram (e são) perseguidos por causa da sua fé. Mas um verdadeiro católico não espera desculpas dos seus perseguidores. Perdoa os seus perseguidores, quer eles lhe peçam desculpas, quer não. Reza por eles, ama-os em nome dAquele que padeceu e morreu pelos pecados de todos. É sempre lamentável ouvir um católico dizer: “Fulano e beltrano devem-me desculpas”.

Somente a pessoa que enxerga a Santa Igreja Católica (chamada santa cada vez que o Credo é recitado) com os olhos da fé, só essa pessoa compreende com imensa gratidão que a Igreja é a Santa Esposa de Cristo, sem ruga nem mácula, por causa da santidade do seu ensinamento, porque aponta o caminho para a Vida Eterna e porque dispensa os meios da graça, ou seja, os sacramentos.

O pecado é uma realidade medonha e que os pecados cometidos por aqueles que se dizem servos de Deus são especialmente repulsivos. Nunca serão excessivamente lamentados, mas devemos ter presente que, apesar de muitos membros da Igreja serem – infelizmente – cidadãos da Cidade dos Homens e não da Cidade de Deus, a Igreja permanece santa.

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É digno de nota que somente o Papa tenha pedido desculpas pelos pecados cometidos pelos membros da Igreja. Não deveriam fazer o mesmo os hindus, por terem praticamente erradicado o budismo da Índia e forçado os seus membros a fugir para o Tibet, a China e o Japão? Não deveriam os anglicanos pedir desculpas por terem assassinado São Thomas More, São John Fisher e São Edmund Campion, para mencionar apenas três nomes? E quanto ao extermínio de um milhão de armênios pelos turcos em 1914? Ninguém fala a respeito desse “holocausto”; ninguém parece saber dele. E o extermínio de cristãos que acontece agora no Sudão?
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Alice von Hildebrand Professora emérita de filosofia do Hunter College da City University de New York. É autora de diversos livros entre os quais os mais recentes são: “The Soul of a Lion” (Ignatius Press), sobre o seu falecido marido, o filósofo Dietrich von Hildebrand; “The Privilege of Being a Woman” (Sapientia Press); e “By Love Refined” (Sophia Institute Press).





Fonte: Homiletic and Pastoral Review Link: http://www.catholic.net/rcc/Periodicals/Homiletic/2000-06/vonhildebrand.html Tradução: Quadrante