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Mostrando postagens com o rótulo Fé e ciências

O Amor segundo Platão, Freud e Bento XVI

O amor é um dos temas centrais da filosofia, da psicanálise e da teologia, sendo interpretado de formas distintas ao longo da história. Vamos explorar como Platão, Freud e Bento XVI entendem o amor, destacando suas semelhanças e diferenças. 1. O Amor Segundo Platão: O Desejo pela Beleza e pelo Bem Supremo Platão aborda o amor principalmente no Banquete (Simposion) e no Fedro, onde ele o concebe como um movimento da alma em direção ao Bem e à Beleza. 1.1. Eros como Desejo de Ascensão Para Platão, o amor (eros) é uma força dinâmica que move a alma em direção ao divino. Ele não é apenas desejo físico, mas um caminho de elevação espiritual. Esse processo é descrito na famosa Escada do Amor, apresentada por Diotima no Banquete : 1. Amor pelo corpo individual → A primeira forma de amor nasce da atração pelo belo físico. 2. Amor por todos os corpos belos → A mente percebe que a beleza não é exclusiva de um só corpo. 3. Amor pelas almas → O amante percebe que a beleza interior (vir...

A Bíblia, a ciência e a espiritualidade

O criacionismo que postula que o mundo tenha sido criado há cerca de 6 mil anos e num período de 6 dias é burro. Toma a Bíblia ao pé da letra, sem mediação hermenêutica alguma. Ora, tomar a Bíblia ao pé da letra é uma afronta à própria Bíblia. Os textos sagrados foram escritos numa cultura diversa, com propósitos bem específicos para seu tempo e para seus leitores, em geral usando gêneros literários bem diversos dos gêneros com os quais estamos acostumados. A doutrina da criação é uma verdade de fé e de razão, mas ela não precisa assumir os traços fundamentalistas que excluem as evidências de que o planeta Terra existe já há 4,5 bilhões de anos e a vida nele, há cerca de 3,5 bilhões de anos. A criação é uma realidade metafísica de dependência radical do ser dos entes criados para com o Ser puro ( Ipsum Esse subsistens ), que chamamos de Deus.  Outra coisa: querer refutar a teoria da evolução com base na Bíblia é também burrice, pois a Bíblia não pretende ensinar nem desautorizar te...

Física, filosofia e teologia

Hoje até físicos estão apontando para uma Realidade irredutível à matéria (partículas e energia). Heinrich Päs, catedrático de física na Alemanha, por exemplo, fala do Uno, uma idea da filosofia antiga que, segundo ele, contém o futuro da física (cf. o seu livro The One: How an Ancient Idea Holds the Future of Physics , 2023). Federico Faggin, cientista italiano de renome internacional em virtude de sua contribuição para a realização dos microprocessadores, defende com vigor a irredutibilidade da consciência ao cérebro (cf. o seu livro Irreducible: Consciousness, Life, Computers, and Human Nature, 2024). Tanto Päs quanto Faggin assumem estas posições em nome das implicações que veem no seu objeto de estudo: a física. Faggin era decididamente materialista, e depois se sentiu forçado a mudar de posição.  Pensava-se até bem pouco tempo atrás que o materialismo impor-se-ia, destronando qualquer tipo de metafísica e religião, qualquer aceno a um “além da matéria”. Mas hoje é o material...

Pingos de filosofia - Big bang e humildade humana

O universo, tal qual nós o conhecemos, surgiu há 13,7 bilhões de anos. Dado que hoje sabemos que o universo se expande, podemos retroceder no tempo e alcançar o seu nascimento no longínquo passado. Big bang é o nome que se reservou para a explosão inicial que colocou em marcha a expansão atual. A explosão surgiu a partir de uma realidade em que as leis atuais da física não existam. Aliás, o espaço e o tempo só começaram a existir com a explosão; antes não existiam. A essa realidade – inconcebível para os parâmetros atuais da física – os físicos dão o nome de singularidade inicial . Era, com efeito, uma singularidade, porque não possuía nem espaço nem tempo, mas se tratava de um pequeno ponto em que toda a energia e matéria do universo atual estavam concentrados. Algumas questões se colocam se aceitamos essa teoria, que ficou conhecida como Teoria do Big Bang . O que havia antes do big bang ? O que deu origem ao big bang ? Pode-se dizer que foi Deus quem criou a singularidade in...

Lucy: 3,2 milhões de anos

Lucy é o nome dado ao fóssil de um Australopithecus (literalmente "macaco do sul", mas que designa um hominídeo de marcha bípede) afarensis . Viveu há 3,2 milhões de anos aproximadamente. O esqueleto (na verdade 40% do inteiro esqueleto) foi achado em 1974 e indica um hominídeo do sexo feminino, de baixa estatura, de longos braços e pernas curtas. O cérebro era pequeno, comparado com o dos homens atuais. A descoberta de Lucy mostra quanto é antiga a força que colocou em evolução aquele processo que viria a gerar o homem atual. Há 3,2 milhões de anos Lucy tinha marcha bípede! Faltava ainda muito para chegar a nós, principalmente no que toca ao tamanho cérebro, mas grande coisa era já a condição bípede. Quando terá aparecido o espírito e, com ele, o homem propriamente dito? Não sabemos precisar o quando, mas é fato que o espírito apareceu e deu ao ser vivente que chamamos homem capacidades incríveis, como a da autoconsciência e a de ultrapassar a si mesmo. O homem, dizia Bla...

Fé e evolução

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior A fé cristã é compatível com a compreensão do mundo em evolução? Sim, eu diria. A fé substancialmente não diz 'como' o mundo foi criado, mas que foi (é) criado. A evolução pode muito bem ser o modo pelo qual Deus cria o mundo. O que é incompatível com a fé é a afirmação de que o espírito seria um mero produto casual da matéria ou um "bolor casual na superfície da matéria", como diria Ratzinger. A evolução não exige que se afirme isso. Num quadro de compreensão evolutivo, a fé nos mandaria crer que, longe de ser um produto casual da matéria, o espírito, que se verifica no homem, é a meta da evolução e a matéria, a sua pré-história. Nesse sentido, o espírito é a grande obra criada por Deus, não algo simplesmente derivado da matéria.

A questão sobre o Jesus histórico II

Padre Elílio de Faria Matos Júnior 2) Período pós-bultmanniano. A primeira fase da pesquisa sobre o Jesus histórico havia terminado com o reconhecimento da impossibilidade de se ter um acesso fidedigno à verdadeira fisionomia história de Jesus. Por isso, o teólogo protestante Rodolf Bultmann (1884-1976) ensinava que a história, na verdade, não tinha importância para a vida de fé (o que se conhece com o termo "fuga da história"). Bastava crer em Cristo tal como era anunciado no querigma e deixar-se transformar existencialmente por esse anúncio. Nesse sentido Bultmann se mostrava fiel ao fundador do protestantismo, Martinho Lutero, para o qual a fé era a única via de acesso ao conhecimento e à salvação ( sola fides ), e também deixava ver a sua opção pelo existencialismo, que, acima da verdade enquanto tal, coloca a decisão do sujeito, que no caso se traduzia assim: crê, muda de vida! Os discípulos de Bultmann, porém, não se acontentaram com a impostação do mestre, pois...

A questão sobre o Jesus histórico

Padre Elílio de Faria Matos Júnior As pesquisas sobre o Jesus histórico conta com três períodos: 1) Período racionalista: surge no séc. XVIII e procura tirar a veste dogmática com a qual a Igreja haveria revestido Jesus. O Jesus verdadeiro seria um revolucionário (Reimarus) ou um moralista de corte iluminista (Renan), mas não o Messias ou o Filho de Deus (Wrede). O Cristo da fé seria apenas uma invenção da Igreja e era hora de combater o mito para fazer transparecer a realidade. Todavia, Albert Schweitzer (1875-1965) mostrou em um minucioso estudo que a pretensão de reconstruir o Jesus histórico não era legítima, pois o que resultava era uma criação artificial conforme a ideia preconcebida dos diversos autores. Em síntese, o dito "Jesus histórico" outra coisa não era senão uma figura criada à imagem e semelhança das ideias iluministas. A crítica de Schweitzer levou Rudolf Bultmann (1884-1976) a reconhecer que era impossível o acesso à história real do homem Jesus de...

Homenagem a Santo Tomás

Santo Tomás de Aquino! Como esquecer esse santo e sábio italiano? Desde minha adolescência, quando tive meus primeiros contatos com sua obra, não pude deixar de admirá-lo. Cresceu entre nós uma verdadeira simpatia, um sentimento de conaturalidade. Lia seus escritos sobre as relações entre fé e razão e não podia não ficar estupefato. Sim, a estupefação é o motor da pesquisa e do estudo. Suas palavras, de algum modo, diziam claramente o que para mim era uma certeza, mas ainda envolta nas nuvens de uma intuição vivida, à procura de inteligência e clareza. Homenagem a Santo Tomás no seu dia - 28 d janeiro!

Fé e razão andam juntas

Quando o então Cardeal Ratzinger teve um colóquio acadêmico com o filósofo J. Habermas em 2004, ele sustentou que o conúbio entre fé e razão é sempre necessário. O Cristianismo se entende como uma religião que fez opção pela razão, e isso desde as suas origens. A razão é importante para impedir que a fé avance pelas vias do fundamentalismo e do exclusivismo, como se não houvesse nada de positivo fora de seu âmbito de irradiação. A fé, por sua vez, é importante para não deixar a razão se instrumentalizar por interesses ideológicos ou pessoais, proporcionando-lhe o direcionamento do olhar para o Bem infinito. Um exemplo de uma razão desviada é aquele vivido no século XX, com as duas Grandes Guerras. É também aquele do "capitalismo selvagem" e dos totalitarismos. Adorno e Horkheimer bem viram que o progresso alcançado pela razão foi também um progresso para o pior, da funda à bomba atômica. Fé e razão, mantendo-se na distinção, devem abrir-se uma à outra para que cada qual sej...

A fé na criação e a Teoria Evolucionista

Joseph Ratzinger em “Dogma e Anúncio” Quando, em meados do século XIX, Charles Darwin desenvolveu a idéia da evolução de todos os seres vivos, questionando assim radicalmente a concepção tradicional da constância das espécies criadas por Deus, desfechou uma revolução da imagem do mundo que em alcance não fica atrás daquela que para nós está ligada ao nome de Copérnico. Apesar da revolução copernicana que destronou a Terra, alargando sempre mais para o infinito as dimensões do Universo, no conjunto, tinha ficado de pé o arcabouço firme da antiga imagem do mundo, o qual continuava a ser afirmado sem mudança, principalmente em relação ao limite temporal de seis mil anos calculado segundo as cronologias bíblicas. Algumas observações podem ilustrar a naturalidade hoje quase inimaginável com que então se retinha o quadro temporal estreito da imagem bíblica do mundo. Quando Jacó Grimm publicou em 1848 sua “História da língua alemã”, para ele a idade de seis mil anos da humanidade era uma ...

Ratzinger e Flores d'Arcais

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Sobre o livro: RATZINGER, Joseph; D'ARCAIS, Paolo Flores. Deus existe? São Paulo: Planeta, 2009. De um lado, temos Joseph Ratzinger; de outro, Paolo Flores d’Arcais. São duas posições distintas sobre a natureza e o papel do Cristianismo e também sobre a natureza e o papel da razão humana. Os dois até chegam a admitir que possa e mesmo deva existir uma colaboração, no que diz respeito aos valores humanos mais básicos, entre cristão e não-cristão, entre crente e não crente. Admitem, assim, um campo de valores comuns a todos os homens. O simples fato de sermos homens coloca-nos a todos no âmbito comum de uma ampla gama de valores humanos, como a justiça, a honestidade, a solidariedade, a sinceridade, etc. Entretanto, esse acordo entre Ratzinger e Flores d’Arcais, embora importantíssimo para a convivência e a construção de uma sociedade digna do homem, é, a meu ver, em termos teóricos, muito frágil. A fundamentação que Ratzinger dá aos valores...

Mente e corpo, espírito e matéria (parte I)

. Padre Elílio de Faria Matos Júnior Com o atual desenvolvimento da neurociência, a grande tentação que se apresenta aos estudiosos é a de diluir a alma humana (expressão clássica da filosofia e da teologia) no corpo ou a mente no cérebro ou ainda o espírito na matéria. As atos reconhecidos tradicionalmente como atividades espirituais da alma, como o raciocinar, o querer e o refletir, não seriam outra coisa senão o cérebro em funcionamento. Tal posição é reconhecida como fisicalismo , porque sustenta que todas as atividades da alma são, em última análise, a matéria em determinada configuração e atividade. O fisicalismo , na verdade, desdobra-se em várias correntes, a saber: a) o behaviorismo analítico , o eliminacionismo , a teoria da identidade , os funcionalismos . Todas essas correntes, com variações de perspectiva às vezes consideráveis, são unânimes em defender que não existe nada para além da matéria ou do cérebro. Algo como natureza espiritual da alma , irredutível à matéri...

Criação "ex nihilo"

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Em Deus, e somente em Deus, essência e existência identificam-se. Deus é o puro ato de existir ( Ipsum Esse ), sem sombra alguma de potencialidade. Ele é a plenitude do ser. Nele, todas as perfeições que convém ao ser, como a unidade, a verdade, a bondade, a beleza, a inteligência, a vontade, identificam-se com sua essência, de tal modo que podemos dizer: Deus é a Unidade mesma, a Verdade mesma, a Bondade mesma, a Beleza mesma... Tudo isso leva-nos a dizer que, fora de Deus, não há existência necessária. Não podemos dizer que fora de Deus exista um ser tal que sua essência coincida com sua existência, pois, assim, estaríamos afirmando um outro absoluto, o que é logicamente impossível. Pela reflexão, pois, podemos afirmar que em tudo que não é Deus há composição real de essência (o que alguma coisa é) e existência (aquilo pelo qual alguma coisa é). A essência do universo criado não implica sua existência, já que, se assim fosse, o universo, contingen...