quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Reencarnação ou ressurreição?

Padre Elílio de Faria Matos Júnior


Muitos são levados a crer na reencarnação porque acham que ela pode explicar, com lógica férrea, o fato de uns viverem neste mundo em melhores condições do que outros.

Assim, uns vêm de boas famílias, que lhes dão todas as condições para uma vida digna e feliz, enquanto outros ficam privados da educação mínima e da formação do caráter por não terem tido a sorte de nascerem no seio de uma família estruturada.

Outros, muitos dos quais inocentes e gente que só faz o bem, são atormentados com terríveis sofrimentos corporais e psíquicos, morais e espirituais, sem que entendamos o porquê de uma situação aparentemente tão injusta.

Os exemplos poderiam multiplicar-se, dando-nos a ver que a vida parece ser muito injusta com não poucos homens e mulheres.

O relativo sucesso da doutrina reencarnacionista estaria em oferecer uma resposta a esse impasse, ensinando que as diversas sortes das pessoas neste mundo devem-se ao teor do comportamento moral que levaram em vidas passadas.

Dizem que Deus, sendo perfeitíssimo e justíssimo por definição, não poderia dar boas condições de vida a uns, privando outros de condições semelhantes.

A única explicação lógica – dizem eles – está em admitir que o mundo seja uma escola onde os espíritos devem aprender a exercitar a liberdade, ser provados e evoluir.

Nessa escola, cada um chegaria para aprender, de modo que, aos poucos, iria adquirindo sabedoria; entre avanços e retrocessos pontuais, iria-se realizando a evolução espiritual.

As provações e sofrimentos não faltariam, segundo as necessidades de cada qual. Se mais preciso de purificação, mais tenho de enfrentar o sofrimento.

A doutrina da reencarnação sustenta como princípio básico de seu sistema explicativo a chamada lei da ação e da reação.

Se alguém, vivendo neste mundo, praticar o mal, deverá também sofrer o mal em proporção semelhante. Tratar-se-ia de uma lei irrevogável, que nem Deus poderia mudar.

Enquanto o espírito não se purificar das faltas cometidas e não aprender bem a lição, não poderá sair da escola, que é este mundo, devendo-se reencarnar quantas vezes lhe forem necessárias, e isso nas mais diversas situações de vida, segundo o seu procedimento anterior.

Assim, entenderíamos a diversidade de sorte das pessoas; o sofrimento aparentemente injusto e desmedido de muitos se explicaria como purificação das faltas cometidas em vidas pregressas.

O objetivo seria alcançar o estágio evolutivo que dispensaria o espírito de ter de se submeter a nova reencarnação.

Que dizer sobre a doutrina da reencarnação?

Antes do mais, é preciso dizer que a doutrina da reencarnação não é nem dotada de lógica férrea nem muito menos compatível com o Cristianismo.

Ora, não devemos acreditar em coisa alguma a não ser que haja motivos razoáveis para crer.

Mas a doutrina reencarnacionista não oferece tais motivos.

Em primeiro lugar, não temos provas empíricas da reencarnação. Ninguém sabe dizer quando e onde teria vivido sua pretensa vida passada.

Uma vez que ninguém sabe dizer quando e onde teria vivido a vida pregressa, não sabe também dizer quais são as faltas cometidas de que se deve purificar na vida presente.

Ora, todo bom educador indica onde está a falha para que o aluno se corrija. Será que o grande Educador que é Deus permitiria que viéssemos a este mundo pagar por aquilo de que não temos conhecimento?

De que adiantaria sofrer para purificar-se de uma falta que não conheço? Uma falta de que não me recordo? Como poderia eu evoluir assim?

A memória das faltas passadas ajuda-nos a não cair nelas novamente. Insensato é o homem que tropeça duas vezes na mesma pedra. Como poderia prevenir-me de um erro se não guardo na memória a lição do passado?

As pretensas recordações de vidas passadas quando alguém está em estado de transe explicam-se como fenômenos do inconsciente.

Outra incoerência da doutrina da reencarnação: ela supõe que podemos nos salvar por nós mesmos.

Quem é que disse que o ser humano é capaz de superar, por si mesmo, todas as suas imperfeições?

Quem é que disse que o ser humano pode sair, por si mesmo, de todas as imundícies nas quais ele frequentemente cai?

A doutrina da transmigração das almas (outro nome da doutrina reencarnacionista) supõe que, através de sucessivas reencarnações, o espírito possa livrar-se por si mesmo das teias do pecado e alcançar a santidade.

Entretanto, a experiência não mostra isso. Nós nos sentimos frágeis e presos pelo mal que praticamos. O pecado pode ser algo parecido com uma bola de neve.

O pecado é semelhante a uma doença da qual não podemos nos livrar a não ser com a ajuda externa de um Divino Médico.

Não seria mais digno de um Deus de bondade perdoar-nos e cancelar o mal que praticamos?

Não seria mais digno de um Deus de misericórdia renovar a nossa vida, livrando-nos das teias do mal?

Não seria mais digno de um Deus verdadeiramente Deus tomar a iniciativa, vindo ao nosso encontro para nos salvar?

Ora, é este Deus que Jesus Cristo nos ensinou a adorar: o único e verdadeiro Deus, que perdoa, cura, renova, salva.

O Deus de nosso Senhor Jesus Cristo é o Deus que não deixa o ser humano entregue a si mesmo. É o Deus que toma a iniciativa. É o Deus que vem ao encontro do homem.

Ademais, a doutrina da reencarnação quebra a identidade do “eu”. Como posso saber quem sou “eu” se assumi tantas e tantas personalidades?

Como saber quem sou eu verdadeiramente se ontem fui Maria e hoje sou João?

Como minha identidade genuína seria recomposta após tantas reencarnações? Isso parece não ter resposta clara na doutrina da metempsicose.

O Cristianismo, ao contrário, ensina algo mais razoável: Os homens devem morrer uma só vez (cf. Hb 9,27).

Além dessas falhas que o simples raciocínio pode detectar, a doutrina da reencarnação nega um fato ocorrido na história da humanidade: a ressurreição de Jesus.

Se Jesus ressuscitou, não podemos crer na reencarnação.

Podemos crer na ressurreição de Jesus porque temos motivos razoáveis para dar-lhe fé.

Os apóstolos mudaram de repente seu ânimo e sua compreensão das coisas de Deus: eram homens lentos para entender as coisas; custava-lhes aceitar a ideia de um Messias sofredor; estavam desanimados por causa da morte do Mestre...

Eis que, de uma hora para outra, tudo mudou: tornaram-se mestres do plano salvífico de Deus.

Passaram a anunciar o Cristo crucificado; adquiriram tamanho vigor que nada era obstáculo para a sua atuação; nem a ameaça da morte os paralisava...

Como explicar a radical reorientação de vida de um São Paulo, cuja vida, desde tenra idade, fora totalmente dedicada ao zelo pelas tradições do judaísmo?

Como explicar que, de repente, tenha abraçado a mensagem cristã, mesmo a custa de separar-se de seu farisaísmo antes tão amado?

Todas essas mudanças são o efeito de um encontro... Um encontro capaz de transformar a vida.

Trata-se do encontro com Aquele que estivera morto, mas que agora vive: “Estive morto, mas agora estou vivo para todo o sempre. Eu tenho a chave da Morte e da Morada dos mortos” (Ap 1,18).

Jesus ressuscitou, eis a mensagem que moveu os apóstolos, os primeiros discípulos e ainda move hoje a Igreja inteira.

A ressurreição do Senhor nega por si mesma a doutrina da reencarnação. Jesus ressuscitou, não se reencarnou!

Pela vida, paixão, morte e ressurreição do Senhor Jesus, o próprio Deus nos deu um grande recado: tendo cumprido o único percurso de nossa vida sobre a terra, somos chamados a viver uma vida plena em Deus.

Não somos nós que nos salvamos. É Deus que nos estende a mão através de seu Filho na força do Espírito.

A resposta que Deus deu para o sofrimento e a morte não foi simplesmente teórica.

Deus mesmo assumiu concretamente o sofrimento e a morte em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Deus transfigurou o sofrimento e a morte. Jesus passou por eles, e eles se tornaram caminho para a plenitude da vida.

Devemos combater o sofrimento tanto quanto pudermos. Mas os sofrimentos de que não nos podemos livrar, devem ser aceitos pela fé no Filho de Deus que sofreu, morreu e a tudo venceu.

A desigualdade das sortes neste mundo deve-se a vários fatores: biológicos, históricos, culturais, estruturais...

A nossa missão é combater todo tipo de desigualdade injusta. Não podemos justificar as desigualdades pelo recurso a pecados de vidas anteriores. Isso não é lógico nem humano.

Acima de tudo, confiamos em Deus, que deu a grande resposta ao sofrimento e à morte: a ressurreição do Filho ao terceiro dia.

Com Jesus, somos destinados à glória da ressurreição e à participação na vida divina.

A doutrina da ressurreição é mais coerente porque:

a) Não apaga nossa memória, mas nos permite aprender com os erros, receber o perdão de Deus e ser renovados e transformados;

b) Por isso mesmo, não retalha nosso “eu”; não divide a nossa personalidade;

c) Ensina que Deus é suficientemente misericordioso e poderoso para nos perdoar e renovar sem que precisemos passar por reencarnações;

d) Dá uma grande resposta ao sofrimento e à morte, sem precisar de recorrer a faltas de vidas passadas;

e) Ensina que não podemos nos salvar a nós mesmos, pagando centavo por centavo pelo mau que praticamos, mas que precisamos de um Salvador que nos perdoe e renove;

f) Dá-nos a oportunidade de sermos salvos por Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou.

g) Faz-nos viver de Cristo e por Cristo, não de nós e por nós mesmos: “Vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).

h) Ensina que o mundo material, incluído o nosso corpo, como criatura de Deus que é, participará também da salvação: “Creio na ressurreição da carne”.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Liturgia não rima com simpatia (simpatia barata ou as invenções "cativantes")

"A liturgia não vive de surpresas 'simpáticas', de invenções 'cativantes', mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério do Sagrado" (J. Ratzinger).

Está aí uma citação que expressa muito bem a minha compreensão da liturgia da Igreja. Se não recebermos a liturgia como um dom, ela se tornará simplesmente disponível e já não nos poderá educar para o Mistério. Salvemos a liturgia!

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Metafísica: Que é? Qual o seu objeto?

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

O termo metafísica (tá metá tá fisiká) designa o que está além ou o que vem depois da física, isto é, dos entes naturais, materiais ou sensíveis. O objeto da metafísica, segundo a filosofia clássica, é o ser como tal e em seu todo, o ser separado de determinações que o limitem.

Com efeito, podemos estudar o ser sob determinações diversas: o ser enquanto sensível móvel (objeto da física), o ser enquanto sensível vivente (objeto da biologia), o ser enquanto quantitativo (objeto da matemática), etc. A única ciência, entretanto, que se propõe a estudar o ser como tal e em seu todo é a metafísica. Por isso, a metafísica procura oferecer uma cosmovisão ou uma visão omniabrangente do real.

O domínio da metafísica está para além das coisas físicas ou sensíveis porque o ser como tal não é nem pode ser objeto de nossos sentidos. Pode ser reconhecido pelo intelecto, mas nunca tocado pelos sentidos. A metafísica vem depois da física porque só podemos chegar ao ser como tal após entrarmos em contado com os entes físicos, uma vez que nosso conhecimento se desperta pelo contato com as coisas do mundo material.

O estudo do ser implica: procurar esclarecer, na medida do possível, o sentido do ser; procurar descobrir a causa ou as causas do ser, se é que existem. Cremos, como quer que seja, que a melhor introdução à metafísica seja o estudo dos autores que se aprofundaram na investigação do ser, a começar de Parmênides, na Grécia antiga (séc. VI a.C.). Alguns grandes nomes - Platão, Aristóteles, Plotino, Tomás de Aquino – devem guiar-nos no caminho. Este último chega a uma concepção inovadora do ser, algo verdadeiramente revolucionário no campo da metafísica: o ser como ato de existir.

Com a filosofia moderna, o interesse da metafísica deixa de se concentrar no ser, deslocando-se para o sujeito do conhecimento. As condições de possibilidade do conhecimento do ser (identificadas na subjetividade do sujeito pensante) adquirem uma importância capital, e isso desde Descartes (séc. XVII), a ponto de o ser mesmo ficar em segundo plano, às vezes concebido até como pura criação do Eu (Idealismo Alemão). A metafísica tende a se transformar em teoria do conhecimento. Ou o problema do conhecimento tende a absorver o problema do ser.

Na contemporaneidade, o antigo lugar ocupado pelo ser, depois pelo sujeito, passa para a linguagem. A linguagem, para muitos, parece ser a fonte originária de toda inteligibilidade das coisas. A linguagem criaria o ser; a linguagem seria a “morada do ser” (Heidegger). Os grandes autores do atual momento do pensamento filosófico (Wittgenstein, Heidegger, Gadamer, Habermas, Apel), cada qual a seu modo, dão uma importância fundamental à linguagem. Com a prevalência da linguagem no establishment filosófico atual, a velha metafísica caiu em certo descrédito, sendo que muitos falam de “morte da metafísica” e mesmo de "morte do sujeito", já que o sujeito nada mais seria que um fruto de nosso hábito linguageiro.

Sustentamos, como quer que seja, que o ser humano tem uma inegável dimensão metafísica, e questões autenticamente metafísicas sobre o ser em seu todo serão sempre colocadas pelo animal metaphysicum que é o homem. O nosso espírito é constitutivamente aberto à universalidade do ser, e, por assim dizer, ao infinito. A própria negação da universalidade ou infinitude do ser supõe que o espírito pense no ser, e, assim, mostre sua relação estrutural com ele e com sua transcendência infinita.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Tocar o Absoluto


O Pensador, de Rodin
Padre Elílio de Faria Matos Júnior

É possível ao homem tocar, ainda que de esguio, o Absoluto? Toda a tradição filosófico-teológica cristã o afirma. Aliás, no campo da filosofia, os gregos iniciaram essa empresa.

De Deus, embora não possamos conhecer-lhe a essência (quid est), podemos, contudo, conhecer-lhe a existência e alguns atributos que lhe convêm em virtude de ser ele o Ser Absoluto e a Causa de todas as causas. Evidentemente, pela fé na revelação divina realizada por Jesus e transmitida pela Igreja, podemos ter um acesso especial aos “aposentos” da Divindade que jamais nos seria possível de outro modo.

 É certo, entretanto, que, pela reflexão raciocinante, isto é, pela razão natural, podemos reconhecer que em nosso espírito existe a presença de uma poderosa luz, sinal do Absoluto em nós. Todas as vezes em que eu emito um juízo - ita est (é assim) -, na verdade, eu submeto o conteúdo da afirmação (qualquer que seja, não importa) ao absoluto formal do princípio de não-contradição (o que é, é, e não pode não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto), cuja negação representa a própria ruína da vida intelectual.

Para que a inteligência tenha vida e possa se exercer (o juízo é o ato pelo qual a inteligência completa o conhecimento), é preciso valer-se do princípio de não-contradição, ao qual se submete o conteúdo de qualquer afirmação. É preciso, ainda, reconhecer que esse princípio goza de um caráter absoluto (uma necessidade absoluta). Do contrário, toda e qualquer afirmação minha poderia ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto,  e estaria, assim, submetida às flutuações da instabilidade da consciência, do tempo... O que arruinaria a própria inteligência e a linguagem. Sem o absoluto ao qual o juízo conduz a afirmação, não há vida para a inteligência, nem a linguagem se pode fazer inteligível. Tal absoluto está tacitamente pressuposto em cada ato judicativo nosso. A filosofia não faz outra coisa senão reconhecê-lo e mostrá-lo.

Uma vez reconhecido o caráter absoluto do princípio (absoluto formal), deve-se reconhecer também que ele só pode ser entendido se se fizer referência a um Absoluto realmente existente que o explique e o fundamente (Absoluto real).

A luz do Absoluto real, desse modo, reflete-se na inteligência humana e, pelo absoluto formal do princípio de não contradição, tocamos, de alguma maneira, o Absoluto real.

Essa breve reflexão, que poderia ser bem mais desenvolvida, baseia-se nas minhas leituras da obra o grande filósofo jesuíta brasileiro, o Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz.