segunda-feira, 27 de abril de 2009

Criação "ex nihilo"

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Em Deus, e somente em Deus, essência e existência identificam-se. Deus é o puro ato de existir (Ipsum Esse), sem sombra alguma de potencialidade. Ele é a plenitude do ser. Nele, todas as perfeições que convém ao ser, como a unidade, a verdade, a bondade, a beleza, a inteligência, a vontade, identificam-se com sua essência, de tal modo que podemos dizer: Deus é a Unidade mesma, a Verdade mesma, a Bondade mesma, a Beleza mesma...

Tudo isso leva-nos a dizer que, fora de Deus, não há existência necessária. Não podemos dizer que fora de Deus exista um ser tal que sua essência coincida com sua existência, pois, assim, estaríamos afirmando um outro absoluto, o que é logicamente impossível. Pela reflexão, pois, podemos afirmar que em tudo que não é Deus há composição real de essência (o que alguma coisa é) e existência (aquilo pelo qual alguma coisa é). A essência do universo criado não implica sua existência, já que, se assim fosse, o universo, contingente como é porque sujeito à potencialidade, seria o próprio ato de existir (ipsum esse subsistens), o que é falso.

O universo criado, desse modo, já que não pode possuir a existência por si mesmo, só pode estar fora do nada (ex-sistere) por uma Causa que existe por si mesma e possa conceder-lhe a existência. Isso significa dizer: só Deus existe por si mesmo (a se) e tudo que não é Deus só pode vir ao ser (existir em ato) por influência do próprio Deus. Em sentido estrito, só Deus pode criar. Criar, em sentido estrito, é produzir o ser em toda a sua substância, é tirar do nada (ex nihilo).

A Sagrada Escritura e a Tradição cristã ensinam claramente a doutrina da criação a partir do nada (creatio ex nihilo)[1]. É interessante notar que, embora não fosse de todo impossível à razão natural ascender à essa verdade, ela, de fato, sozinha, não o fez. O conceito de criação nós o recebemos da Revelação judaico-cristã. A Filosofia, depois, se apropriaria dela e desenvolveria reflexões metafísicas de altíssimo rigor intelectual, reflexões estas cuja expressão canônica encontramos em Santo Tomás de Aquino com seu conceito intensivo de esse como ato, que convém propriamente só ao Absoluto[2]. A Revelação, assim, prestou enormes auxílios à razão, tirando-a dos embaraços que a impediam de chegar com precisão ao conceito de criação[3]. Destarte, como afirma Santo Tomás, seguido pelos Concílios do Vaticano I e II, a Revelação divina foi moralmente necessária para atingirmos verdades que, de per si, poderiam ser alcançadas pela razão natural[4].  

A noção de criação, portanto, é a grande novidade à qual o mundo teve acesso graças à Revelação judaico-cristã. É uma noção que revolucionou a própria Filosofia. O conceito de criação, contudo, parece causar perplexidade a não poucos, mormente àqueles que integram o meio científico. Faz-se necessário, por isso, dialogar com as ciências para que se torne claro que o conceito de criação não é incompatível com o que as ciências experimentais podem dizer a respeito da realidade, uma vez que o método filosófico-teológico, que afirma a criação, é de ordem totalmente diversa do método científico. As ciências naturais enquanto permanecerem fiéis ao método que lhes é próprio, nada têm a opor ao conceito de criação entendido em seu sentido metafísico de produção de todo o ser da criatura a partir do nada.



[1] Pretendemos tratar dos dados da Sagrada Escritura e Tradição num próximo artigo.

[2] Cf. Gilson, Étiénne. Deus e a filosofia. Lisboa:  Edições 70, 2003, p. 41-60.

[3] "A noção de criação é uma das noções-chave entre as que constituem o núcleo teórico da filosofia cristã. Ela é teológica pela sua origem histórica na revelação bíblica e é filosófica pelo seu conteúdo inteligível que a razão humana pode apreender e exprimir em categorias metafísicas. A noção de criação oferece-nos, assim, uma instância exemplar da dialética fé-razão" (Lima Vaz, Henrique C. de. Raízes da modernidade. São Paulo: Loyola, 2002, p.133).

[4]  Santo Tomás afirma: "O gênero permaneceria nas maiores trevas de ignorância se apenas a via da razão lhe fosse aberta para o conhecimento de Deus, visto que, poucos homens, e somente após longo tempo, chegariam a este conhecimento, que os faz ao máximo perfeitos e bons. (...) foi conveniente que por via da fé se apresentassem aos homens a firme certeza e a pura verdade das coisas divinas" (Contra Gentes  I,4). Veja o que diz o Vaticano II, que, por sua vez, cita o Vaticano I: "(...) ensina [o Sagrado Sínodo] que se deve atribuir à Sua Revelação o fato de 'mesmo na presente condição do gênero humano poderem ser conhecidas por todos facilmente com sólida certeza e sem mistura de nenhum erro aquelas coisas que em matéria divina não são de per si inacessíveis à razão humana'" (Dei Verbum, n.6).

domingo, 19 de abril de 2009

Bento XVI: quatro anos de pontificado

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Há exatos quatro anos subia ao sólio pontifício Joseph Ratzinger com o nome de Bento XVI, depois de uma das eleições mais rápidas da história dos conclaves. Bento XVI tem feito do anúncio da primazia de Deus o eixo de seu pontificado. Não de um deus qualquer, mas do verdadeiro Deus, Aquele se mostrou a nós com um rosto humano em Jesus de Nazaré. Um mote que figura na Regra de São Bento de Núrsia, a quem muito o Papa Bento XVI admira, a ponto de trazer o seu nome – Benedictus - , diz:  Nihil Christo anteponere – Nada antepor a Cristo. A grande mensagem de Bento XVI não tem sido outra. Pois o Papa sabe que longe de Cristo o homem se desorienta e se perde. Nesse sentido, disse em recente carta aos bispos do mundo inteiro: “Conduzir os homens a Deus, ao Deus que fala na Bíblia: essa é a prioridade suprema da Igreja e do Sucessor de Pedro neste tempo”.

Os últimos meses têm sido os mais difíceis para o atual pontificado. As palavras e atitudes do Papa são grandemente instrumentalizadas. Dentro e fora da Igreja, fazem com que os pronunciamentos e decisões de Bento XVI, retirados de seu contexto e complexidade, se voltem contra ele. E isso de forma impiedosa e sem nenhum respeito pela figura do Sucessor de Pedro. Há muito tempo não se via tantas vociferações contra um Pontífice.

As instrumentalizações das palavras papais, em grande parte, se devem a um clima cultural que já não é capaz de compreender as exigências da fé católica. Mesmo dentro da Igreja esse clima ganhou terreno, pois que se instalou uma grande crise de fé a partir da consolidação, em muitos segmentos eclesiais, de uma interpretação do Concílio Vaticano II que o vê como um evento de ruptura na história da Igreja. Para muitos, ele teria provocado uma “revolução copernicana” na Igreja. Tal interpretação, Bento XVI a chamou de “hermenêutica da ruptura”, e todos seus esforços têm consistido em contrapor-se a essa tendência e, para o bem da fé, da Tradição, da Igreja e do homem de nosso tempo, dar ao Vaticano II seu legítimo lugar através de uma “hermenêutica da renovação na continuidade”. Sim, o legítimo Vaticano II não pôde ter constituído uma nova igreja, já que concílio algum tem a autoridade para fundar uma nova religião.

Bento XVI sabe, com certeza, que grande parte da oposição que vem sofrendo deve-se ao fato de que seu magistério, de um modo direto e claro, coloca em questão a “hermenêutica da ruptura”, que, hegemônica durante 40 anos, começa agora a sofrer grandes abalos.

Rezemos pelo Papa Bento XVI, em consonância com o que ele mesmo, como que prevendo os dias atuais, pediu na homilia da Santa Missa de início de seu pontificado: "Rezai por mim, para que eu não fuja, por medo, dos lobos".

domingo, 12 de abril de 2009

Feliz Páscoa!


Padre Elílio de Faria Matos Júnior

O grande desejo do ser humano é a imortalidade. Todos desejamos uma vida feliz que não conheça ocaso. Mas onde encontrá-la? Não em nós mesmos. Não temos em nós nada que nos assegure uma vida de tal modo plena e realizada que não possa desfazer-se. Os raros momentos que nos proporcionam alguma experiência de plenitude não trazem em si necessariamente a promessa de eternidade.

Quem sabe devamos procurar fora de nós o que almejamos desde o mais profundo da alma? É assim que muitos procuram imortalizar-se de algum modo nos filhos que são gerados, nas grandes ações que marcam a história, nas obras que influenciam gerações. É verdade que algo de nós sobrevive nos filhos que geramos e nas grandes e notáveis ações ou obras que realizamos. Nossos traços físicos e nossos ideais podem acompanhar nossos filhos, e nossa influência pode continuar a exercer-se pela herança histórica que deixamos.

Mas o nosso desejo profundo de viver uma vida feliz terá sido atendido? Não é difícil ver que nos filhos, nas ações ou obras que deixamos sobrevive apenas um eco ou uma sombra de nós mesmos. O nosso “eu” não pode continuar a existir neles.

E então? Como realizar nossa profunda aspiração? Devemos reconhecer que somente Alguém que tenha em si mesmo a vida em plenitude pode acolher o nosso “eu” e dar-lhe a autêntica realização. Para que não sobrevivam somente as sombras e os ecos de nossa pessoa, uma outra Pessoa, na qual se encontra a fonte de toda a vida e felicidade, deve acolher-nos em seu ser.

Eis o que celebramos neste grande dia da Ressurreição de Nosso Senhor. Aquele que é mais forte do que a morte, chama-nos a participar de sua vida mesma, vida eterna! Nele nossa precária existência não cai no abismo de trevas, mas é recebida na luz da eterna glória.

Que o amor, força que nos faz sair de nós mesmos, lance nosso ser no Ser do Ressuscitado. Saindo de nossa auto-suficiência, que não nos garante nada do que é verdadeiro, bom  e belo, devemos nos abrir para o dom maior manifestado no Senhor redivivo.  O amor e a abertura  para Deus mostra-se, assim,  como fonte de vida em plenitude, de modo que podemos afirmar com convicção: “O amor é mais forte do que a morte”(Ct 8,6). 

Feliz Páscoa a todos!

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A cruz de Cristo, nossa salvação


Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Hoje é Sexta-feira Santa, dia em que a Santa Igreja comemora (commemorat) a paixão e morte de Nosso Senhor. A meditação piedosa desse evento ao mesmo tempo doloroso e salvador é de grande proveito para o progresso da vida espiritual.

Santo Tomás ensina que na imagem do Crucificado está presente, como num compêndio, todo um programa de vida espiritual: “Quem quiser viver perfeitamente não deve fazer outra coisa senão desprezar o que Cristo desprezou na cruz, e desejar o que nela Ele desejou. Nenhum exemplo de virtude está ausente da cruz” (In Symbolum Apostolorum expositio, art. 4). De fato, na cruz de Cristo vemos a caridade suprema, a paciência confiante, a obediência resoluta... Virtudes essas pelas quais Cristo cancela o pecado do homem, que consiste exatamente no movimento inverso à caridade, à paciência, à obediência...

Sim; na cruz Cristo não apenas nos deu um grande exemplo de virtude, mas também cancelou o pecado do homem, de modo que este pudesse ver-se justificado pela graça que vem de Cristo mediante a fé. A obediência de Cristo desfez o nó da desobediência de Adão e “assim, o homem, pela justiça de Cristo, foi libertado” (Santo Tomás, Summa theologiae, III, q. 46, a. 1).

Embora Deus pudesse ter-se valido de outros meios para nos justificar, ou mesmo pudesse simplesmente ter-nos concedido o perdão sem mais, quis, no entanto, que fôssemos libertados do pecado mediante a cruz de Cristo. Não que Deus tenha organizado a paixão e a morte do Filho induzindo os homens a entregá-lo para ser crucificado, mas no sentido de que, tendo sido realizadas contra Deus as ações que levaram o Inocente ao patíbulo, por intermédio de sua “permissão”, tais ações foram subordinadas por Deus à salvação dos homens, contra todas as intenções de seus autores.

A nossa justificação pela cruz mostra-se conveniente de diversos modos. Além do exemplo que Cristo nos deu na cruz, incitando-nos a desprezar o pecado e a amar a virtude, o evento do Calvário soube unir de modo admirável a justiça e a misericórdia divinas no esplendor do amor. O Papa Bento XVI fala de um virar-se de Deus contra si mesmo, com o qual ele se entrega para levantar o homem e salvá-lo" (Encíclica Deus caritas est, 12). Esta curiosa expressão do Papa - virar-se de Deus contra si mesmo - quer significar que tanto a justiça quanto a misericórdia de Deus foram harmonizadas de modo admirável na cruz. Pela justiça, o homem devia satisfazer a Deus por causa do pecado. Mas pela misericórdia, convinha que Deus lhe perdoasse. Aconteceu, pois, que foi o próprio Deus que realizou essa satisfação pelo homem, para o homem e como homem, em Jesus Cristo, já que o homem sozinho não teria força para realizá-la. Deus como que se virou contra si mesmo

E, assim, a justiça de Deus não foi negligenciada, e sua misericórdia se mostrou de forma extraordinária. Desse modo, pela cruz, o amor de Deus pelo homem se manifestou com muito mais evidência e poder do que se teria manifestado se Deus simplesmente lhe tivesse perdoado sem mais (cf. Santo Tomás, Summa theologiae, III, q. 46, a. 1, ad tertium).