quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Algumas questões sobre o homem e a fé

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

1. Todos os homens querem ser felizes?

Sim, todos os homens, sem exceção, querem ser felizes. Eu, você e todos nós. O desejo da felicidade foi colocado em nós por Deus para que O encontrássemos, Ele que é a Felicidade completa. Infelizmente, muitos procuram a felicidade onde ela não existe: no egoísmo, no comodismo, na vingança, no crime, nos prazeres desregrados, como a droga, o sexo fora do matrimônio, as bebedeiras, etc. Por isso, precisamos ser como que faróis a apontar para Deus e para o seu Amor que perdoa, cura, liberta e salva. Assim, ajudaremos o mundo a encontrar a felicidade que tanto procura.


2. Como conhecemos a Deus?

Nós conhecemos a Deus pelas obras que Ele criou. Assim como uma bela pintura fala do artista que a executou, as maravilhas da criação falam de Deus, o grande Artista do Universo: “Os céus narram a glória de Deus, o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 19,2). A Deus também podemos ouvir pela voz de nossa consciência, voz esta que nos manda fazer o bem e evitar o mal. Mas conhecemos a Deus de modo mais profundo por meio de seu Filho Jesus Cristo, que disse: “Quem me vê, vê Aquele que me enviou” (Jo 12,45). O que Jesus nos ensinou sobre Deus e as coisas de Deus foi confiado à Igreja católica, que, há 2.000 anos, está espalhada pelo mundo. Amparada por Deus, a Igreja anuncia a mensagem de Jesus a todas as pessoas. Se eu quero, então, conhecer a Deus mais profundamente, devo ouvir a Igreja. Ela é portadora e intérprete legítima da Bíblia e da Tradição que vem dos Apóstolos. A ela Jesus confiou a tarefa de evangelizar. Para melhor conhecer a Deus, então, é preciso conhecer a fé católica.


3. Em que nos manda crer a fé católica?

R.: A fé católica nos manda crer em Deus Pai, em seu Filho Jesus Cristo, homem-Deus que veio ao mundo para nos salvar, e no Espírito Santo, que também é Deus e assiste a Igreja e santifica o cristão. Deus é Uno e Trino, ou seja, é um só em três pessoas realmente distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Fomos criados por Deus e para Deus. Deus Filho assumiu a natureza humana e veio ensinar-nos, como homem no meio dos homens, o caminho para o Céu e dar-nos a força para entrarmos nele e nele perseverarmos até a morte.

4. Deus foi quem criou todas as coisas?

R.: Sim. É por Deus que tudo existe. Deus é o Ser que existe desde sempre e para sempre. Tudo o mais foi criado por ele do nada. Mas do nada, nada pode vir – replicará alguém. É verdade. Do nada, nada pode sair. O Universo, porém, não veio do nada, mas veio após um nada; veio do poder infinito de Deus, que não precisa de nenhuma matéria prima ou instrumento para fazer existir tudo o que existe. Foi por amor, para comunicar o seu Ser e difundir a sua Bondade, que Deus tudo criou. Criar é dar a existência àquilo que não existia.


5. Como Jesus Cristo conquistou nossa Redenção?

R.: Redimir quer dizer resgatar. Jesus nos resgatou do mal do pecado e da morte. Como homem ungido pelo Espírito Santo, foi em tudo fiel à vontade do Pai, e isso até a morte de Cruz, que foi o supremo testemunho de sua fidelidade. O amor e a obediência de Cristo são capazes de dissolver todos os pecados dos homens. Por isso, devemos crer n´Ele, receber o batismo e viver junto dele, na Igreja, fazendo frutificar a graça que d´Ele recebemos, para sermos, de fato, homens novos e podermos ver a Deus face-a-face um dia. A ressurreição de Cristo é o penhor da nossa ressurreição futura. “Ó morte, onde está a tua vitória?”.


6. O Espírito Santo nos santifica? Como?

R.: Sim. O Espírito Santo nos santifica. Santificar é separar para Deus, para viver a vida de Deus. Jesus nos prometeu o Espírito como um outro Parákletos, isto é, um outro Advogado ou Consolador. O próprio Jesus é o primeiro Parákletos. A missão do Espírito é a de fazer a vida divina, vivida por Cristo como homem, chegar até nossos corações e, assim, animar e fortalecer a Igreja. O Espírito Santo, docilmente, na medida de nossa abertura, faz a nossa vontade tornar-se uma só coisa com a vontade divina. Ele nos torna amigos de Deus, já que a amizade acontece quando um e outro querem as mesmas coisas e rejeitam as mesmas coisas - “Idem velle, idem nolle” (Salústio). O Espírito faz com que o cristão, decididamente, abrace o que é da vontade de Deus e rejeite tudo o que lhe é contrário. Ele nos renova em Cristo e nos dá a graça de nos tornarmos filhos de Deus, capacitando-nos para receber o prêmio da vida eterna.


7. Viver na Igreja e como Igreja é necessário ao cristão católico?

R.: Sim. Viver na Igreja é indispensável ao católico. Faz parte da fé viver na Igreja e como Igreja. A palavra “Igreja” quer dizer “convocação” ou “assembleia reunida”. Só Deus, não os homens, pode convocar o seu Povo e estabelecer a sua Igreja. Jesus Cristo foi quem fundou a Igreja ao convocar os apóstolos, ao escolher Pedro para estar à sua frente, ao ordenar aos Apóstolos que batizassem e celebrassem a Eucaristia, ao enviá-los em missão e ao derramar o Espírito Santo sobre os discípulos reunidos. Cristo inaugurou novos tempos e, assim, fundou o Novo Povo de Deus. A Igreja é a casa e a família de Deus no mundo. Se o católico não participa da vida da Igreja, a sua fé ainda não está completa.


8. Qual a importância da Missa dominical?

R.: A Missa dominical é o centro de toda a atividade da Igreja. Tudo o que a Igreja faz ordena-se, em última análise, a que todos participem ativa e piedosamente da Missa; toda a ação da Igreja em favor do Reino de Deus tira sua vitalidade da celebração da Eucaristia. Na Missa, acontece a atualização da obra redentora de Jesus Cristo. É na Missa que, além de ouvirmos atentamente a Palavra de Deus, o Corpo de Cristo entregue por nós e o Sangue que ele derramou na Cruz tornam-se realmente presentes. O único sacrifício de Cristo torna-se atual, fazendo-se presente no hoje de nossa história. Pela Eucaristia, entramos em comunhão com a vida de Cristo e recebemos a caridade que o levou a doar a sua vida. O mistério da sua ressurreição e ascensão do Senhor também se faz presente, uma vez que Cristo não poderia atualizar sua entrega ao Pai se não estivesse vivo nos céus. Foi Jesus mesmo que ordenou aos apóstolos a celebração da Missa, quando disse, na última ceia, depois de ter convertido o pão e o vinho em seu Corpo e Sangue: “Fazei isto em memória de mim”. Os primeiros cristãos, cumprindo o mandato do Senhor, reuniam-se no Domingo, Dia da Ressurreição, para celebrar a Eucaristia. Até hoje a Igreja exige dos seus fiéis a participação na Missa dominical, consciente de que a Eucaristia é o grande dom deixado à Igreja por Cristo. Se é a Igreja que faz a Eucaristia, por outro lado é a Eucaristia que faz a Igreja.


9. Na Missa posso comungar sempre o Corpo de Cristo no sacramento?

Em princípio, todo fiel deveria receber o sacramento da Eucaristia na Missa de que participa. Pode-se comungar até duas vezes ao mesmo dia, se a segunda vez for dentro da Missa. A única coisa que impede a comunhão sacramental é o pecado grave ou a situação gravemente irregular. Quem está em pecado grave, deve procurar o quanto antes o sacramento da Penitência, confessar-se com arrependimento e voltar a comungar sacramentalmente. Quem vive numa situação gravemente irregular, como são os que vivem amasiados ou os casais em segunda união, embora não possam comungar sacramentalmente, podem e devem participar da vida da Igreja, especialmente da Missa, educar os filhos na fé, praticar boas obras... Os amasiados, se não há nenhum impedimento, se convivem bem, procurem o sacramento do matrimônio. Por que não? Os casais em segunda união procurem pedir a Deus que lhes aponte o caminho certo e, ao mesmo tempo, estejam abertos para receber as luzes que Deus lhes enviar e agir em conformidade. A Igreja os acolhe como mãe e deseja que sejam guiados por Deus.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O ato do conhecimento

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

O ato do conhecimento consiste, segundo Santo Tomás, em que o cognoscente receba em si o conhecido. Mas tal recepção não pode consistir, evidentemente, em receber o ser mesmo do objeto conhecido, uma vez que o objeto conhecido deve permanecer na sua alteridade, no seu ser outro, e não pode ser simplesmente "assimilado" pelo sujeito cognoscente ou transformado nele.

Assim, o que o sujeito recebe do objeto é a sua forma imaterial, que é o meio pelo qual (id quo) o objeto se dá a conhecer ao sujeito. Conhecer, pois, não significa assimilar, transformar ou dobrar o ser do objeto ao sujeito do conhecimento. Ao contrário, é um ato de sumo respeito, em que o objeto permanece no seu ser ser outro, embora seja recebido imaterialmente pelo sujeito.

Sem a relação de alteridade não há conhecimento real. Se o objeto não permanecesse em sua transcendência ontológica em relação ao sujeito, não haveria senão uma criação do sujeito, não o conhecimento do objeto. Grande parte da filosofia moderna sustenta que o sujeito destrói a alteridade do objeto, recriando-o no seu interior. Mas tal posição não corresponda à fenomenologia do conhecimento nem ao impacto que o real provoca no sujeito cognoscente, provocando sempre mais o desenvolvimento do conhecimento. Com efeito, a fenomenologia do conhecimento diz que, sem a dualidade sujeito-objeto, rui-se a essência do ato do conhecimento. Se o sujeito ficasse sempre fechado em si mesmo, não poderíamos dizer que ele realiza um verdadeiro ato de conhecimento. Tal dualidade é confirmada pela experiência e pelo cabedal de conhecimento que a humanidade vai alcançando e desenvolvendo ao longo da história, já que o real a constringe sempre mais a conformar-se à sua forma, que se impõe ao sujeito, não podendo, por isso mesmo, ser uma mera criação sua. 

O conhecimento é também, de outro ponto de vista, uma identificação do sujeito com o objeto conhecido. Aristóteles dizia que a alma, potencialmente capaz de conhecer todas as coisas, é, de certo modo, todas as coisas: anima quodammodum omnia - é uma frase repetida por Santo Tomás. Quando conhece, o sujeito se identifica com o conhecido, isto é, o sujeito prende em si mesmo a forma do objeto e se torna, enquanto sujeito do conhecimento, o próprio objeto. Evidentemente, devemos dizer, não se trata de identificação ontológica, pois um ser não pode se transformar noutro sem deixar de ser o que é. E, no conhecimento, o sujeito identifica-se com o objeto sem deixar de ser, ontologicamente, sujeito, um alter em relação ao objeto. Tal identificação, pois, só pode ser intencional, e se explica pela imaterialidade, que é própria de todo conhecimento. Todo ato de conhecimento requer imaterialidade, em maior ou menor grau, de acordo com a natureza do conhecimento. Tal imaterialidade já desponta nos sentidos e alcança sua mais alta pureza no intelecto. 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Heresias cristológicas e trinitárias


D. ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB

As Heresias Cristológicas I

Após verificar que o Filho de Deus é verdadeiro Deus com o Pai e o Espírito Santo, a atenção dos teólogos devia voltar-se mais detidamente para a questão: como Jesus pode ser autêntico Deus e autêntico homem? Como se relacionam entre si a Divindade e a humanidade de Jesus? A resposta a estas perguntas exigiu grande esforço por parte dos estudiosos, que a formularam em quatro etapas:
1) a fase apolinarista;
2) a fase nestoriana;
3) a fase monofisita;
4) a fase monotelita.

A seguir, estudaremos as três primeiras destas etapas.
1) O Apolinarismo
Em plena controvérsia ariana, o Bispo Apolinário de Laodicéia (Síria), 310-390, mostrava-se fervoroso defensor do Credo niceno contra os arianos, mas afirmava que em Cristo a natureza humana carecia de alma humana; tomava ao pé da letra as palavras de S. João 1,14: “O Lógos se fez carne”, entendendo carne no sentido estrito, com exclusão de alma. O Lógos de Deus faria as vezes de alma humana em Jesus, isto é, seria responsável pelas funções vitais da natureza humana assumida pelo Lógos.
Os argumentos em favor desta tese eram os seguintes: duas naturezas completas (Divindade e humanidade) não podem tornar-se um ser único; se Jesus as tivesse, Ele teria duas pessoas ou dois eu - o que seria monstruoso. Além disto, dizia, onde há um homem completo, há também o pecado; ora o pecado tem origem na vontade; por conseguinte, Jesus não podia ter vontade humana nem a alma espiritual, que é a sede da vontade.
Apolinário expôs suas idéias no livro “Encarnação do Verbo de Deus”, que ele apresentou ao Imperador Joviano e que os seus discípulos difundiram. - Foram condenadas num sínodo de Alexandria em 362; depois, pelo Papa S. Dâmaso em 377 e 382 e, especialmente, pelo Concílio de Constantinopla I (381). Verificando a oposição que lhe faziam bons teólogos, Apolinário limitou-se a negar a presença de mente (nous) humana em Jesus. S. Gregório de Nissa († 394) e outros autores lhe responderam mediante belo princípio: “O que não foi assumido pelo Verbo, não foi redimido” - o que quer dizer: Deus quer santificar e salvar a natureza humana pelo próprio mistério da Encarnação ou pela união da Divindade com a humanidade; se pois, a humanidade estava mutilada em Jesus, ela não foi inteiramente salva.
Em Antioquia, fundou-se uma comunidade apolinarista, tendo à frente o Bispo Vital. Por volta de 420 esta foi reabsorvida pela Igreja ortodoxa, mas nem todos os seus membros abandonaram o erro, que reviveu, de certo modo, na heresia monofisita.

2) O Nestorianismo.
Afirmada a existência da natureza humana completa em Jesus, os teólogos puderam estudar mais detidamente o modo como humanidade e Divindade se relacionaram em Cristo. Antes, porém, de entrar em particulares, devemos mencionar as duas principais escolas teológicas da antigüidade: a alexandrina e a antioquena, que muito influíram na elaboração da Cristologia.
A escola alexandrina era herdeira de forte tendência mística; procurava exaltar o divino e o transcendental nos artigos da fé. Interpretava a S. Escritura em sentido alegórico, tentando desvendar os mistérios divinos contidos nas Sagradas Letras. Em assuntos cristológicos, portanto, era inclinada a realçar o divino, com detrimento do humano. Ao contrário, a escola antioquena era mais dada à filosofia e à razão: voltava-se mais para o humano, sem negar o divino. Interpretava a S. Escritura em sentido literal e tendia a salientar em Jesus os predicados humanos mais do que os atributos divinos. Era mais racional, ao passo que a de Alexandria era mais mística.
Dito isto, voltemos à história do dogma cristológico. A primeira tentativa de solução foi encabeçada por Nestório, elevado à cátedra episcopal de Constantinopla em 428. Afirmava que o Lógos habitava na humanidade de Jesus como um homem se acha num templo ou numa veste; haveria duas pessoas, em Jesus - uma divina e outra humana - unidas entre si por um vinculo afetivo ou moral. Por conseguinte, Maria não seria a Mãe de Deus (Theotókos), como diziam os antigos, mas apenas Mãe de Cristo (Christokós); ela teria gerado o homem Jesus, ao qual se uniu a segunda pessoa da SS. Trindade com a sua Divindade.
Nestório propunha suas idéias em pregações ao povo, nas quais substituía o título “Mãe de Deus” por “Mãe de Cristo”. As suas concepções suscitaram reação não só em Constantinopla, mas em outras regiões também, especialmente em Alexandria, onde S. Cirilo era Bispo ardoroso. Este escreveu em 429 aos bispos e aos monges do Egito, condenando a doutrina de Nestório. As duas correntes se dirigiram ao Papa Celestino I, que rejeitou a doutrina de Nestório num sínodo de 430. Deu ordem a S. Cirilo para que intimasse Nestório a retirar suas teorias no prazo de dez dias, sob pena de exílio; Cirilo enviou ao Patriarca de Constantinopla uma lista de doze anatematismos que condenavam o nestorianismo. Nestório não se quis dobrar, de mais a mais que podia contar com o apoio do Imperador; além do mais, tinha muitos seguidores na escola antioquena, entre os quais o próprio Bispo João de Antioquia.
Em 431, o Imperador Teodósio II, instado por Nestório, convocou para Éfeso o terceiro Concílio Ecumênico a fim de solucionar a questão discutida. S. Cirilo, como representante do Papa Celestino I, abriu a assembléia diante de 153 Bispos. Logo na primeira sessão, foram apresentados os argumentos da literatura antiga favoráveis ao título Theotókos, que acabou sendo solenemente proclamado; daí se seguia que em Jesus havia uma só pessoa (a Divina); Maria se tornara Mãe de Deus pelo fato de que Deus quisera assumir a natureza humana no seu seio. Quatro dias após esta sessão, isto é, a 26/06/431 chegou a Éfeso o Patriarca Jogo de Antioquia, com 43 Bispos seus seguidores, todos favoráveis a Nestório; não quiseram unir-se ao Concílio presidido por S. Cirilo, representante do Papa; por isto formaram um conciliábulo, qual depôs Cirilo.
O Imperador acompanhava tudo de perto e sentia-se indeciso. S. Cirilo então mobilizou todos os seus recursos, para mover Teodósio II em favor da reta doutrina; nisto foi ajudado por Pulquéria, piedosa e influente irmã mais velha do Imperador. Este finalmente apoiou a sentença de Cirilo e exilou Nestório. Todavia os antioquenos não se renderam de imediato; acusavam Cirilo de arianismo a apolinarismo. Após dois anos de litígio, em 433 puseram-se de acordo sobre uma fórmula de fé que professava um só Cristo e Maria como Theotókos. O Nestorianismo, porém, não se extinguiu. Os seus adeptos, expulsos do Império Bizantino, foram procurar refúgio na Pérsia, onde fundaram a Igreja Nestoriana.
Esta teve notável expansão até a China e a Índia Meridional; mas do século XIV em diante foi definhando por causa das incursões dos mongóis; em grande parte, os nestorianos voltaram à comunhão da Igreja universal (são hoje os cristãos caldeus e os cristãos de São Tomé). Em nossos dias muitos estudiosos têm procurado reabilitar a pessoa e a obra de Nestório, que parece ser autor de uma apologia intitulada “Tratado de Heraclides de Damasco”: pode-se crer que tenha tido reta intenção; mas certamente sustentou posições errôneas por se ter apegado demasiadamente à Escola Antioquena.

3) O Monofisismo
A luta contra o Nestorianismo, que admitia em Jesus duas naturezas e duas pessoas, deu ocasião ao surto do extremo oposto, que é o monofisismo ou monofisitismo (“em Jesus há uma só natureza e uma só pessoa: a divina”). O primeiro arauto desta tese foi Eutiques, arquimandrita de Constantinopla: reconhecia que Jesus constava originariamente da natureza divina e da humana, mas afirmava que a natureza divina absorveu a humana, divinizando-a; após a Encarnação, só se poderia falar de uma natureza em Jesus: a divina.
Esta doutrina tornou-se a heresia mais popular e mais poderosa da antigüidade, pois, para os orientais, a divinização da humanidade em Cristo era o modelo do que deve acontecer com cada cristão. Eutiques foi condenado como herege no Sínodo de Constantinopla em 448, sob o Patriarca Flaviano. Todavia não cedeu e reclamou contra uma pretensa injustiça, pois tencionava combater o Nestorianismo. Conseguiu assim ganhar os favores da corte. Solicitado pelo Patriarca Dióscoro de Alexandria, Teodósio II Imperador convocou em 449 novo Concílio Ecumênico para Éfeso, confiando a presidência do mesmo a Dióscoro, que era partidário de Estiques. Dióscoro, tendo aberto o Concílio negou a presidência aos legados papais; não permitiu que fosse lida a Carta do Papa S. Leão Magno, que propunha a reta doutrina: as duas naturezas em Cristo não se misturam nem confundem, mas cada qual exerce a sua atividade própria em comunhão com a outra; assim Cristo teve realmente fome, sede e cansaço, como homem, e pôde ressuscitar mortos como Deus. - Esse Concílio de Éfeso proclamou a ortodoxia de Eutiques; depôs Flaviano, Patriarca de Constantinopla, e outros Bispos contrários à tese monofisita... Todavia os seus decretos foram de curta duração. Os Bispos de diversas regiões o repudiaram como ilegítimo ou, segundo a expressão do Papa São Leão Magno, como “latrocínio de Éfeso”; pediam novo Concílio que de fato foi convocado após a morte de Teodósio II pela Imperatriz Pulquéria (irmã de Teodósio) e pelo general Marcião, que em 450 foi feito Imperador e se casou com Pulquéria.
O novo Concílio, desta vez legítimo, reuniu-se em Caledônia, diante de Constantinopla, em 451; foi o mais concorrido da antigüidade, pois dele participaram mais de 600 membros, entre os quais três legados papais. A assembléia rejeitou o “latrocínio de Éfeso”; depôs Dióscoro e aclamou solenemente a Epístola Dogmática do Papa São Leão a Flaviano; esta serviu de base a uma confissão de fé, que rejeitava os extremos do Nestorianismo e do Monofisismo, propondo em Cristo uma só pessoa e duas naturezas: “Ensinamos e professamos um Único e idêntico Cristo... em duas naturezas, não confusas e não transformadas, não divididas, não separadas, pois a união das naturezas não suprimiu as diferenças; antes, cada uma das naturezas conservou as suas propriedades e se uniu com a outra numa Única pessoa e numa Única hipóstase”.
Assim terminou a fase principal das disputas cristológicas: em Cristo não há duas naturezas e duas pessoas, pois isto destruiria a realidade da Encarnação e da obra redentora de Cristo; mas também não há uma só natureza e uma só pessoa, pois Cristo agiu como verdadeiro homem, sujeito à dor e à morte para transfigurar estas nossas realidades. Havia, pois, uma só pessoa (um só eu) divina, que, além de dispor da natureza divina desde toda a eternidade, assumiu a natureza humana no seio de Maria Virgem e viveu na terra agindo ora como Deus, ora como homem, mas sempre e somente com o seu eu divino.
O encerramento do Concílio de Calcedônia não significou a extinção do monofisismo. Além da atração que esta doutrina exercia sobre os fiéis (especialmente os monges), propondo-lhes a humanidade divinizada de Cristo como modelo, motivos políticos explicam essa persistência da heresia; com efeito, na Síria e no Egito certos cristãos viam no Monofisismo a expressão de suas tendências nacionalistas, opostas ao helenismo e à dominação bizantina. Por isto os monofisitas continuaram a lutar contra o Imperador, que havia exilado Dióscoro e Eutiques e ameaçado de punição os adeptos destes: ocuparam sedes episcopais; inclusive a de Jerusalém (ao menos temporariamente).
No século VII a situação se agravou, pois os muçulmanos ocuparam a Palestina, a Síria e o Egito, impedindo a ação de Bizâncio em prol da ortodoxia nesses países. Em conseqüência, os monofisitas foram constituindo Igrejas nacionais: a armena, a síria, a mesopotâmica, a egípcia e a etíope, que subsistem até hoje com cerca de 10 milhões de fiéis. No Egito, os monofisitas tomaram o nome de coptas, nome que guarda as três consoantes da palavra grega Aigyptos (g ou k, p, t ); são os antigos egípcios. Os ortodoxos se chamam melquitas (de melek, Imperador), pois guardam a doutrina ortodoxa patrocinada pelo Imperador em Calcedônia. Há coptas que se uniram a Roma em 1742, enquanto os outros permanecem monofisitas, mas professam quase o mesmo Credo que os católicos.
Na Abissínia os monofisitas também são chamados coptas pois receberam forte influência do Egito. "Dentre os melquitas, grande parte aderiu ao cisma bizantino, separando-se de Roma em 1054; certos grupos, porém, estão hoje unidos à Igreja universal. Na Síria e nos países vizinhos, os monofisitas foram chamados jacobitas, nome derivado de um dos seus primeiros chefes: Jacó Baradai (=o homem da coberta de cavalo, alusão às suas vestes maltrapilhas). Jacó, bispo de Edessa (541-578), trabalhou com zelo e êxito para consolidar as Comunidades monofisitas, as quais deu por cabeça o Patriarca Sérgio de Antioquia (544). A história das disputas cristológicas prosseguirá no capítulo seguinte.


As Heresias Cristológicas II


D. ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB


Continuemos a estudar as heresias cristológicas no intuito de compreender melhor a sutileza da disputa e a ação do Espírito de Deus através das vicissitudes humanas.

4) O Henotikón e o Teopasquismo
Vinte e cinco anos após o Concílio de Calcedônia, em 476, deu-se nova investida dos monofisitas contra a ortodoxia. Com efeito; os Patriarcas Pedro Mongo, de Alexandria, e Acácio de Constantinopla, adeptos do monofisismo, redigiram um Símbolo de fé que condenava tanto Nestório quanto Eutiques; rejeitava o Concílio de Calcedônia e afirmava que as normas de fé deveriam ser o símbolo niceno-constantinopolitano e as definições do Concílio de Éfeso (431). Tal fórmula de 476 podia ser interpretada de diversas maneiras. O Imperador Zenão promulgou esse símbolo de fé, dito Henotikón (Edito de União), com o vigor de lei do Estado. Assim esperava atingir a unidade religiosa dentro do Império.
Infelizmente, porém, causou mais acesas divisões. Muitos católicos e os monofisitas mais extremados recusaram obedecer ao Imperador por causa da ambigüidade do Henotikón. Ao saber das manobras do Imperador, o Papa Félix III enviou legados a Constantinopla para pedir a Zenão, e ao Patriarca Acácio fidelidade ao Concílio de Calcedônia. Como fossem vãs essas solicitações, o Papa resolveu depor Acácio, Patriarca de Constantinopla. Tal medida era muito grave, pois significava ruptura com os cristãos orientais em geral e com o Imperador, que os queria dirigir no sentido do monofisismo. O Papa, porém, foi corajoso no cumprimento do dever de preservar a reta fé.
A ruptura durou 35 anos (484-519). Foi chamada “cisma acaciano”, durante o qual o monofisismo se propagou amplamente entre os orientais. Zenão morreu em 491, tendo por sucessor o Imperador Anastásio (491-518), também simpático aos monofisitas. Por isto, as conversações que o Papa encaminhou com o monarca, foram infrutíferas. A situação se tornou ainda mais sombria por causa da questão teopasquita. Com efeito; a liturgia grega cantava a Triságion (três vezes santo) nos seguintes termos: “Santo (hágios) Deus, Santo Forte, Santo imortal, tem piedade de nós”. Ora o bispo monofisita Pedro Fulão de Antioquia acrescentou-lhe as palavras “que foste pregado na cruz por cause de nós”.
O Imperador Anastásio mandou recitar a fórmula ampliada em Constantinopla; donde resultou grande agitação. Diziam alguns monges e fiéis: “Um da Santíssima Trindade padeceu na carne”; foram chamados teopasquitas. A fórmula em foco podia ser entendida segundo a ortodoxia: a segunda Pessoa da SS. Trindade, tendo-se feito homem, padeceu na carne de Jesus. Mas, como a origem desses dizeres era monofisita, os ortodoxos desconfiaram dos mesmos, de mais a mais que os monofisitas lhes favoreciam calorosamente. Morto o Imperador Anastásio, sucedeu-lhe Justino (518-527), que se empenhou por restabelecer a comunhão com a Sé de Roma. O Papa Hormisdas (514-523) acolheu o propósito de Bizâncio e mandou legados a esta cidade com uma fórmula de união dita “Livro da Fé do Papa Hormisdas”: esta proclamava o símbolo de fé calcedonense e as cartas dogmáticas de Leão Magno; renovava o anátema sobre Nestório, Eutiques, Dióscoro e outros chefes monofisitas; além disto, declarava que, conforme a promessa de Cristo a Pedro em Mt 16,16-19, a fé católica se conservava intacta na Sé de Roma; por isto os fiéis deviam obediência às decisões tomadas por esta.
Era assim professado o primado do Papa em 515. O Patriarca João II, de Constantinopla, os bispos e os monges presentes nesta cidade assinaram tal fórmula. Estava terminado o cisma. O monofisismo perdeu muito da sua voga, mas as controvérsias continuaram.
5) Os Três Capítulos
O Imperador Justiniano (527-565) foi homem de grande ideal, que tencionou dar ao Império um período de fausto como não o tivera até então. Era, ao mesmo tempo, prepotente, de modo que exerceu forte cesaropapismo. Compreende-se então que as controvérsias teológicas tenham merecido sua zelosa atenção. O Imperador, querendo conciliar os ânimos, só fez provocar maiores tumultos. O bispo Teodoro Asquida de Cesaréia, muito influente na corte, sugeriu ao Imperador que condenasse três nomes de autores antioquenos tidos como inspiradores do nestorianismo; dizia que bastaria essa medida para obter a volta dos monofisitas: A comunhão da Igreja Universal.
Esses três nomes constituíram Três Capítulos, a saber: 1) Teodoro de Mopsuéstia († 428), sua pessoa e seus escritos; 2) os escritos de Teodoreto de Ciro († 458) contra Cirilo e o Concílio de Éfeso; 3) a carta do bispo Ibas de Edessa († 435) ao bispo Mário de Ardashir em defesa de Teodoro de Mopsuéstia e contra os anatematismos de Cirilo. O Imperador acolheu a proposta e publicou um edito que anatematizava os Três Capítulos em 543. Este decreto dividiu os ânimos, pois não se viam claramente os erros pretensamente cometidos pelos três autores. Justiniano, porém, obrigou o Patriarca Menas e os bispos orientais a assinar o anitema.
Os ocidentais deviam seguir-lhes o exemplo, tendo o Papa Vigilio à frente. Este relutou; por isto o Imperador mandou buscá-lo de Roma para Constantinopla. Um ano após sua chegada, Vigílio em 548 escreveu o ludicatum, em que condenava os Três Capítulos, ressalvando, porém, a autoridade do Concílio de Calcedônia. O gesto do Papa causou indignação entre os ocidentais, principalmente no Norte da África, pois era uma estrondosa vitória do cesaropapismo. Em conseqüência, o Papa e o Imperador em 550 decidiram convocar um Concílio Ecumênico para resolver o caso; entrementes nenhuma inovação seria praticada. Todavia em julho de 551 Justiniano repetiu o anátema sobre os Três Capítulos - o que provocou ruptura com o Papa Vigílio, que teve de procurar asilo em igrejas de Constantinopla e Calcedônia.
A respeito do Concílio, o Papa e o Imperador já não concordavam entre si. Por isto Justiniano convocou o Concílio por sua exclusiva iniciativa. Reunido sob a presidência de Eutíquio, novo Patriarca de Bizâncio, renovou a condenação dos Três Capítulos (maio e junho de 553). Vigílio então em 13/05/553, no decurso do próprio Concílio, publicou o Constitutum que se opunha à condenação dos Três Capítulos. Justiniano não aceitou a nova posição do Papa e mandou cancelar o nome de Vigílio nas orações da Liturgia. Finalmente, sob o peso das pressões e da doença, o Papa em dezembro de 553 retirou o seu Constitutum e aderiu às decisões do Concílio de Constantinopla de 553. Num segundo Constitutum de 23/02/554, expôs as razões da sua atitude. Em conseqüência, o Imperador permitiu-lhe voltar para Roma; todavia morreu em viagem (555). Era vítima da sua inconstância de caráter.
Os Papas que lhe sucederam, a começar por Pelágio I (556-561), reconheceram o Concílio de 553 como ecumênico; é o de Constantinopla II. As dioceses do Ocidente aos poucos também o foram reconhecendo, embora tivessem consciência de que significava uma humilhação para o Papado. Notemos que as hesitações do Papa Vigílio não versavam sobre assuntos de fé propriamente dita, mas sobre a oportunidade ou não de se condenarem três nomes de escritores antigos. "O episódio também é interessante por evidenciar quanto era prestigiada a Sé Romana; o Imperador quis absolutamente ganhar o consenso do Papa Vigílio; por isto mandou buscá-lo em Roma e pressionou-o repetidamente para que subscrevesse ao decreto imperial, como se este precisasse da assinatura do Papa para ser válido.

6) Monergetismo e monotelitismo
Os monofisitas insistiam em se auto-afirmar. Por isto a heresia reapareceu no século VII sob nova forma. O Patriarca Sérgio de Constantinopla desde 619 ensinava que em Jesus havia uma só enérgeia ou uma só capacidade de agir (monergetismo); a capacidade humana estaria absorvida na divina e não teria suas expressões naturais. O Imperador Heráclio (610-641) aceitou a nova fórmula e conseguiu assim reconciliar grupos monofisitas com o Império.
Todavia o monge palestinense Sofrônio resolveu resistir à nova doutrina, denunciando-a como monofisismo velado. O Patriarca Sérgio de Constantinopla deixou então de falar de uma só faculdade operativa, para afirmar uma só vontade (a Divina tendo absorvido a humana) em Jesus (monotelitismo). Muito habilmente Sérgio tentou ganhar os favores do Papa Honório I (625-638); este, tendo recebido informações unilaterais, escreveu duas cartas ao Patriarca de Constantinopla, em que aderia genericamente à sua posição, embora não compartilhasse propriamente nem o monergismo nem o monofisismo; para evitar escândalos ordenava que não se falasse de uma ou duas energias.
Levando adiante a causa de Sérgio, o Imperador Heráclio em 638 promulgou a profissão de fé dita “Ectese”, redigida pelo Patriarca, que reafirmava o monotelitismo. Os bispos orientais a aceitaram quase unanimemente, ao passo que os sucessores do Papa Honório (morto em 638) a condenaram.
O Imperador Constante II (641-648), sobrinho de Heráclio, retirou a “Ectese”, mas, aconselhado pelo Patriarca Paulo de Constantinopla, publicou novo edito dogmático, chamado Typos, em 648, que proibia falar de uma ou duas vontades em Cristo. O monarca tencionava assim pôr fim à contenda. Ora no Ocidente o Papa Martinho I (649-653), percebendo a sutileza dos bizantinos, reuniu um Concílio no Latrão (Roma) em 649, o qual declarou que em Cristo havia dois modos de operar e duas vontades naturais, e puniu com a excomunhão os fautores das novas idéias. O Imperador, indignado, mandou prender o Papa e leva-lo para Constantinopla (653); aí foi humilhado como traidor e, por fim, exilado para a Criméia, onde morreu de maus tratos. Vários cristãos orientais foram tratados de modo semelhante por resistirem ao Imperador, merecendo especial destaque o abade São Máximo o Confessor, que foi cruelmente martirizado.
Constantino IV Pogonato (668-685), filho de Constante II, procurou a paz e, para tanto, decidiu convocar um Concílio Ecumênico, idéia que o Papa Agatão (678-681) aprovou com solicitude. Tal foi o sexto Concílio Ecumênico, o de Constantinopla III, celebrado de novembro de 680 a setembro de 681, com a presença de 170 participantes. Os conciliares elaboraram uma profissão de fé, que completava a de Calcedônia:
“Nós professamos, segundo a doutrina dos Santos Padres, duas vontades naturais e dois modos naturais de operar, indivisos e inalterados, inseparados e não misturados, duas vontades diversas, não, porém, no sentido de que uma esteja em oposição à outra, mas no sentido de que a vontade humana seque e se subordina à divina"
Isto quer dizer que em Jesus havia duas faculdades de querer - a divina e a humana - de tal modo, porém, que a vontade humana se sujeitava à divina, como atesta a oração no horto das Oliveiras, conforme Mc 14,36.
O Concílio condenou os defensores do monotelitismo e o próprio Papa Honório, tido como fautor de tal doutrina. A condenação de Honório suscitou longos debates entre historiadores e teólogos modernos. Na verdade, pode-se tranqüilamente dizer o seguinte:
O Papa Honório, intervindo na controvérsia, não quis proferir definições ex cathedra, nem quis discutir como teólogo. Unilateralmente informado por Sérgio, julgou que a discussão a respeito de uma ou duas vontades em Cristo era mero litígio de palavras, como estava nos hábitos dos bizantinos; por isto julgou que podia aprovar a posição de Sérgio sem afetar a reta fé. A expressão “uma vontade”, aliás, foi explicada pelo próprio Honório em sua carta a Sérgio, no sentido de conformidade do querer humano com o divino. Quanto às faculdades de operar (energeias), Honório esclareceu, seu ponto de vista referindo-se à epístola dogmática de São Leão a Flaviano, que diz: ambas as naturezas operam na única pessoa de Cristo, não misturadas, não separadas e não confusas, aquilo que é próprio de cada uma delas. Donde se vê que o juízo proferido sobre Honório pelo Concílio de 681 foi severo demais; a Sé de Roma nunca o aprovou integralmente.

As Heresias Trinitárias


D. ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB


Tendo estudado a expansão do Cristianismo até o século VI, passamos a considerar a história das doutrinas da fé na antigüidade. Um dos mais sérios problemas doutrinários que se puseram na Igreja antiga, foi o da conciliação da unidade de Deus (firmemente professada pelo Antigo Testamento) com a Trindade de Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo, tais como nos foram revelados pelo Novo Testamento). A inteligência dos cristãos se pôs à procura de uma fórmula satisfatória, que, após duras controvérsias, foi definida pelos Concílios de Nicéia I (325) e Constantinopla I (381). É a história dessa longa reflexão que vamos estudar.

7) O monarquianismo
Nos séculos II/III alguns escritores cristãos julgavam que o Verbo (Lógos) ou o Filho de Deus só se tornara pessoa no tempo; em vista da criação do mundo, o Pai teria gerado ou emitido o Lógos, de modo a constituir a segunda Pessoa da SS. Trindade - Esta concepção negava a eternidade do Filho de Deus e o subordinava ao Pai. Todavia os defensores dessa teoria afirmavam a Divindade do Filho, de modo que não suscitavam grave polêmica na sua época.
Podemos dizer que a primeira tentativa sistemática de conciliar unidade e pluralidade em Deus professava a unidade com detrimento da pluralidade. Chamou-se, por isto, monarquianismo, expressão derivada da exclamação: “Monarchiam tenemus. - Conservamos a monarquia” ( Tertuliano, Adversus Praxeam 3). Apresentava duas fórmulas:

8) O monarquianismo dinamista
O monarquianismo dinamista professou que Jesus era mero homem, o qual no momento do Batismo terá sido revestido de poder (dynamis) divino; foi, portanto, um homem adotado por Deus como Filho, com intensidade especial. O fundador desta corrente foi Teódoto de Bizâncio, cristão de notável cultura grega, que o Papa São Vítor excomungou (190). Os seus discípulos, Asclepiódoto e Teódoto o jovem, quiseram organizar uma comunidade própria, para qual nomearam um Bispo chamado Natal; este foi o primeiro antipapa, o qual, arrependido, tornou-se ao seio da Igreja. Tal corrente teve novo representante na pessoa de Paulo de Samosata, homem ambicioso. Este via em Jesus um mero homem no qual terá habitado “como num templo” o Logos ou a Sabedoria de Deus, que em escala menor habitava em Moisés e nos profetas. Um concílio regional reunido em Antioquia excomungou Paulo (268); mas os numerosos adeptos deste continuaram a professar a sua doutrina, de modo que o Concílio ecumênico de Nicéia teve que se ocupar com a escola dos paulanos (325).
É de notar que o mencionado Concílio de Antioquia em 268 rejeitou a afirmação de que o Filho ou Logos é da mesma substância ou natureza (homoousios) que o Pai. Ora precisamente esta expressão foi consagrada pelo Concílio de Nicéia I (325) como fórmula de fé. Para entender os fatos, devemos observar que Paulo de Samosata usava a palavra homoousios para significar que o Logos ou o Filho era uma só pessoa com o Pai.

9) Monarquianismo modalista
Esta corrente ensinava que o Filho era o próprio Pai ou uma modalidade pela qual o Pai se manifestava; por conseguinte, o Pai terá padecido na cruz (donde o nome patri, de pater, pai; passianismo, de passus, padecido).Tal doutrina, devida a Noeto de Esmirna, foi levada para Roma e Cartago (África), dando origem ao partido patripassiano, que muito agitou a comunidade de Roma. O Papa Zeferino (198-217), numa declaração oficial, afirmou a Divindade de Cristo e a unidade de essência em Deus, sem, porém, negar, como faziam os patripassianos, a diversidade de pessoas do Pai e do Filho.
O modalismo foi estendido por Sabélio, em Roma, ao Espírito Santo. Este pregador professava três revelações de Deus: uma, como Pai, na criação e na legislação do Antigo Testamento; outra, como Filho, na Redenção; e a terceira, como Espírito Santo, na obra de santificação dos homens. Designava cada uma dessas manifestações como prósopon, palavra grega que significava originariamente “máscara ou papel de ator de teatro“, visto que posteriormente prósopon significou também pessoa, a doutrina de Sabélio tornou-se ambígua e conquistou muitos adeptos, que de boa fé lhe aderiram sem querer negar a trindade de Pessoas em Deus. Como se vê, o grande problema consistia em afirmar a Trindade de Pessoas em Deus sem cair no triteísmo ou sem professar três deuses.
A controvérsia havia de arder por todo o século IV, envolvendo todas as camadas da população, desde o Imperador até os mais simples fiéis; a ingerência do poder imperial, que desde 313 era simpático ao Cristianismo, contribuiu para tornar difíceis e penosas essas discussões teológicas; elas assumiam, não raro, um caráter direta ou indiretamente político. A problemática suscitou na Igreja os esforços de numerosos santos e doutores, que, com seus talentos intelectuais e sua vida, colaboraram decisivamente para a reta formulação da fé cristã. O período áureo da literatura cristã está precisamente ligado às disputas teológicas.
Estudemos agora as controvérsias do século IV: Arianismo e semiarianismo. Rejeitando o monarquianismo dinamista e modalista, a lgreja afirmava sua fé em Cristo, Pessoa Divina e distinta do Pai. Todavia não estava explicada a maneira como se relacionam entre si o Filho e o Pai. No século IV muitos admitiram a Divindade do Filho, subordinando-o, porém, ao Pai; donde resultou a tese do subordinacionismo, que teve em Ário de Alexandria o seu principal arauto.

10) Arianismo
O presbítero Ário de Alexandria foi mais longe do que os pensadores anteriores: afirmava que o Filho é criatura do Pai, a primeira e a mais digna de todas, destinada a ser instrumentos para a criação de outros seres. Em virtude da sua perfeição, o Filho ou Logos poderia ser chamado “Filho de Deus”, como reza a tradição. O Bispo Alexandre de Alexandria reuniu um Sínodo local, contando cerca de cem Bispos, que condenaram a doutrina de Ário e dos seus seguidores em 318. A decisão foi comunicada a outros Bispos, inclusive ao Papa S. Silvestre. Ário, porém, conseguiu novos defensores para a sua causa o que tornou mais árdua a controvérsia. Diante dos fatos, o imperador Constantino, que em 324 vencera Licínio, tornando-se Onico senhor do Império, resolveu intervir: tinha como assessor teológico o santo Bispo Ósio de Córdoba (Espanha), que Constantino enviou a Alexandria para aproximar Ário do Bispo Alexandre; a missão, porém, fracassou.
Então Constantino resolveu convocar um Concílio ecumênico para Nicéia na Ásia Menor em 325, ao qual compareceram cerca de 300 Bispos, provenientes de todas as partes do mundo cristão; o Papa Silvestre, de idade avançada, mandou dois presbíteros seus representantes. As discussões foram longas e agitadas. Por fim, os padres conciliares redigiram o Símbolo de Fé de Nicéia, que afirmava ser o Filho “Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não feito, consubstancial (homoousios) ao Pai; por Ele foram feitas todas as coisas”. A palavra homoousios torna-se, de então por diante, a senha da reta doutrina. Significava que o Filho é da mesma natureza (= Divindade) que o Pai; não saiu do nada como as criaturas, mas desde toda a eternidade foi gerado sem dividir a natureza divina.
O Imperador Constantino tomou aos seus cuidados a defesa do Concílio ecumênico de Nicéia. Exilou Ário e quatro Bispos que não queriam aceitar, na íntegra, definição do Concílio. Condenou às chamas os escritos de Ário; seria punido quem os guardasse às ocultas.

11 ) As divisões do Arianismo
lnfelizmente, porém, as controvérsias não terminaram. O termo homoousios parecia a alguns suspeito de sabelianismo ou de modalismo. Por isto alguns Bispos e monges puseram-se a combater o Concílio, apoiados pelos Imperadores Constâncio (337) e Valente (364-78), sucessores de Constantino. Do lado da ortodoxia, destacam-se: S. Atanásio, Bispo de Alexandria desde 328, que sofreu vários exílios; e o Papa Libério, que em 355 foi deportado pelo Imperador Constâncio; alguns historiadores antigos dizem que Libério conseguiu voltar à sua sede de Roma, subscrevendo uma fórmula de fé antinicena e deixando de apoiar S. Atanásio; se isto é verdade, deve-se à fraqueza humana, mas não se tratava de definição solene e sim de um pronunciamento pessoal que o Papa fazia.
De resto, sabe-se que Libério, uma vez retornado a Roma, combateu eficazmente o arianismo. Os antinicenos, com o respaldo do Imperador, julgaram-se vencedores, depondo Bispos e reunindo Concílios regionais. Acontece, porém, que se dividiram: tendo negado a identidade de substância entre o Pai e o Filho ou afirmaram uns que o Filho era semelhante (homoiousios) ao Pai, enquanto outros o tinham como dissemelhante (anhomoios). A controvérsia era alimentada também pela sutileza do linguajar; palavras próximas umas das outras tinham significados diferentes: assim homoousios e homoiousios; genetós (feito) e gennetós (gerado), Nikainon (de Nikaia, sede do Concílio ortodoxo de 325) e Nikenon (de Nike, sede de um Concílio herético).
Finalmente, após mais de cinqüenta anos de disputas ardentes, a ortodoxia foi prevalecendo, especialmente por obra dos três doutores da Capadócia (Ásia Menor): S. Basílio de Cesaréia († 379), S. Gregório de Naziano († 390) e S. Gregório de Nissa († 394). Estes elaboraram a fórmula grega: mía ousía kaí treis hypostáseis, uma essência (ou substância) e três pessoas, fórmula que exprimia fielmente o pensamento dos padres nicenos e o conteúdo da reta fé: há uma só Divindade, que se afirma três vezes ou em três Pessoas. O grande protetor da ortodoxia, no fim do século IV, foi o Imperador Teodósio (379´395), que, pouco depois de subir ao trono, convidou todos os habitantes do Império a aderir “aquela fé que professam Dâmaso em Roma e Atanásio em Alexandria”; mandou também entregar as igrejas de Constantinopla aos católicos. O Concílio Ecumênico de Constantinopla I (381) havia de consolidar a proclamação da reta fé contra o arianismo. Isto, porém, não quer dizer qual tal heresia se tenha extinto logo; várias tribos germânicas, entrando dentro das fronteiras do Império, foram evangelizadas por arianos, de modo que abraçaram o Cristianismo ariano sob forma de religião nacional. Resta agora estudar a discussão relativa ao Espírito Santo.

12) O Macedonianismo
O Espírito Santo, embora atestado por numerosos textos bíblicos (como Jo 14-16), foi menos considerado no decorrer do século IV. É certo, porém, que quem julgava ser o Filho criatura do Pai tinha o Espírito Santo na conta de criatura do Filho; seria um dos espíritos servidores (cf. Hb 1,14), diferente dos anjos apenas por gradação. S. Atanásio, ao combater o arianismo, defendia também a divindade e a consubstancialidade do Espírito Santo. Por isto, um sínodo de Alexandria em 362 reconheceu a Divindade do Espírito Santo.
Isto, porém, não bastou para dissipar os erros: Macedôneo, Bispo ariano de Constantinopla deposto em 360, era ferrenho adversário da Divindade do Espírito, reunindo, em torno de si bom número de discípulos, que se chamavam macedonianos ou pneumatômacos (pneuma = espírito; máchomai = combater). Vários Sínodos rejeitaram a doutrina de Macedônio; o mesmo foi feito pelos padres capadócios. Mas o pronunciamento definitivo se deve ao Concílio de Constantinopla I realizado em 381: 150 padres ortodoxos, depois do afastamento de 36 macedonianos, condenaram o macedonianismo e, para explicitar claramente a fé ortodoxa, retomaram o artigo 32 do Símbolo de fé niceno, que rezava apenas: “Cremos no Espírito Santo”; foram-lhe acrescentadas as palavras: “Senhor e Fonte de Vida, que procede do Pai (cf. Jo 15,26), adorado e glorificado juntamente com o Pai e o Filho, e falou pelos Profetas”.
Assim teve origem o Símbolo de fé niceno-constantinopolitano, que refuta tanto a heresia ariana quanto a macedônia. Restava, porém, dirimir ainda uma dúvida: se o Espírito procede do Pai, como se relaciona com o Filho? A resposta foi diversa no Oriente e no Ocidente; todavia a diversidade consiste mais na formulação do que na própria doutrina. Os gregos, desde o século IV afirmam que o Espírito procede do Pai através do Filho, ao passo que os latinos ensinam que procede do Pai e do Filho (Filioque). Na Espanha o Filioque foi inserido no Credo niceno-constantinopolitano em 589 e oficialmente recitado, passando depois para outras regiões de língua latina. Os gregos se recusam a aceitar tal inserção, que se tornou pomo de discórdias nos séculos IX-XI.
Atualmente as dificuldades vão sendo superadas, pois em última instância se trata mais de palavras do que de conteúdo.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A liturgia no pensamento de Bento XVI (Parte II)

Giles D. Dimock

(Tradução: Pe. Elílio Júnior)

O Missal de Paulo VI

A reação de Ratzinger à introdução do Missal de Paulo VI foi, de certa maneira, negativa, mas não totalmente. A proibição do Missal de Pio V o entristeceu (na realidade, este Missal era apenas uma restauração do Missal do Rito Romano usado desde os tempos de São Gregório Magno). Ratzinger considerou tal evento como um ponto fraco na prática, e aqui já vemos uma antecipação do Motu Proprio que publicaria como Papa. Sustentava que muito de quanto devia ser preservado tivesse sido cancelado e que muitos tesouros tivessem desaparecido na nova liturgia criada por uma comissão, e frequentemente celebrada de modo descuidado e privo de qualidades artísticas. Por isso, quem critica a atual liturgia como banal em uma comunidade autocelebrativa não necessariamente é integralista. A crítica ratzingeriana diz respeito ao fato de que «a liturgia não é celebrada de modo que faça resplandecer o dado do grande mistério de Deus no meio de nós mediante a ação da Igreja». A Igreja nos dá o ritual, mas não pode gerar o poder ou a energia operante em tais ritos; é, na verdade, um Outro que age. Nós podemos participar real e pessoalmente do ato litúrgico, muitas vezes, em profundo silêncio. Participamos do mistério que permanece incompreensível.


No seu livro «La festa della fede», Joseph Ratzinger afirma que reconhece o mérito do novo Missal de Paulo VI pelas novas preces e prefácios, muitos dos quais provenientes de outros ritos ocidentais: o galicano, o mozarábico e o ambrosiano. Considera equivocadas as preces do ofertório da Missa antiga, na medida em que tendiam a identificar a oferta do Sacrifício de Cristo com esta parte da Missa, em vez da própria consagração. Ratzinger criticava sobretudo o modo não tradicional de interpretar a nova liturgia, com uma hermenêutica feita mais de descontinuidade do que de continuidade. Alegrou-se, por isso, com o indulto do Papa João Paulo II, que ele talvez tenha querido levar adiante com o seu Motu Proprio

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A liturgia no pensamento de Bento XVI (Parte I)

Giles D. Dimock

(Tradução: Pe. Elílio Júnior)

Bento XVI é apaixonado pela liturgia e a compreende  como aquela dimensão em que o nosso ser é assimilado ao Mistério divino da salvação; ele patrocinou tal visão durante o seu pontificado com escritos, com a pregação e com o seu magistério. A sua espiritualidade parece não só ter uma marca agostiniana, mas mostra também uma influência do originário movimento litúrgico alemão, favorecido em grande parte pelos beneditinos, em relação aos quais ele sempre teve uma especial veneração. Neste artigo, examinaremos o seu desenvolvimento litúrgico desde a sua juventude na Alemanha até o que ele realizou na cátedra de Pedro, pelo que somos todos agradecidos.

A juventude

O pensamento litúrgico de Bento XVI pode ser encontrado em grande parte na sua autobiografia «La mia vita», que lhe descreve a vida até a sua chegada em Roma. Ratzinger foi ainda mais introduzido aos santos mistérios quando os seus pais lhe deram de presente um missal para crianças, parecido com o missal de bolso deles.

Quando entrou para o seminário, descobriu o novo personalismo de Martin Buber juntamente com o ensino de Santo Tomás, cuja «lógica cristalina» era «fechada por demais em si mesma, pelo menos na rígida neoescolástica» pela qual era apresentada. Na universidade, foi influenciado por Michael Schmaus, que tinha abandonado a neoescolástica para abraçar o novo movimento litúrgico, que apresentava a fé como um retorno às Sacras Escrituras e aos Padres da Igreja. Apraz-me inserir aqui uma nota pessoal: sinto-me em plena sintonia com ele, uma vez que também eu deixei uma formação tomista extremamente rígida para estudar a liturgia, e mais tarde redescobri a grande sabedoria do nosso irmão mais velho, Santo Tomás. Raatzinger estava, a este ponto, sob o clima da «nova teologia». Um dos seus professores era influenciado pela «teologia do mistério» de Odo Casel, OSB, enquanto outro via na Missa o momento central de cada dia, e o estudo da Sagrada Escritura era considerado a alma da teóloga... todos esses, temas que seriam tratados pelo Vaticano II.

Todavia, o jovem Ratzinger tinha reservas: um certo «racionalismo e historicismo unilaterais» do movimento litúrgico, porque alguns viam como «válida somente uma forma de liturgia», a saber, aquela da Igreja primitiva. Não era assim, entretanto, para De Lubac, cujo ensinamento sobre a unidade da Igreja sustentada pela Eucaristia influenciou profundamente o seu pensamento.

O Vaticano II

O relato de Ratzinger sobre o tratamento da liturgia no Vaticano II – do qual participou como «peritus» - é interessante. Ele afirma que o esquema litúrgico não suscitou controvérsias no Concílio porque ninguém esperava grandes mudanças na área. Mas aconteceu que da França e da Alemanha houve pressão para reformar a Missa segundo a forma mais pura do Rito Romano, em conformidade com as reformas de Pio XI e Pio XII. Uma Missa segundo tais linhas foi rejeitada por um sínodo de Padres conciliares em 1967; não obstante, essa ideia se tornou o modelo operativo para a Nova Missa. A Sacrosanctum Concilium decretou a permanência do latim e auspicou que os fiéis pudessem cantar o Ordinário da Missa em latim, e que os clérigos pudessem rezar o Ofício da mesma maneira. Bem cedo, essa se tornou uma questão controvertida (Vittorio Messori, «Rapporto sulla fede”, entrevista com o Cardeal Ratzinger).

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A verdade existe?

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

A inteligência humana está de tal modo orientada para a verdade que basta a mínima vontade de negá-la para que o homem se coloque diante de uma contradição que só pode ser superada admitindo-se a existência da verdade.

Com efeito, quem nega que a verdade exista, pretende que a sua negação seja verdadeira, o que o coloca em uma contradição performativa, isto é, o que se diz é contraditado pelo ato de dizer. O conteúdo que se pretende expressar («não existe verdade») se coloca em contradição com o ato que o expressa, pois que tal ato pretende que o referido conteúdo seja verdadeiro.  

Tal contradição não se reduz simplesmente a uma mera formalidade que nada acrescentaria à seriedade do pensamento. Para muitos, essa contradição pertenceria somente ao campo da lógica pura e quase nada diria a uma opção filosófica ou a uma visão de mundo. Deveria mesmo ser deixada de lado, pois, afinal, o establishment filosófico atual, seja ele hermenêutico ou pragmático-linguístico, despediu-se da ideia de que a investigação deva ancorar-se a uma verdade fundamental. Tudo seria tão somente interpretação e um contínuo «remeter-se a», sem jamais chegar a estabelecer qualquer fundamento válido em si mesmo.

Mas, a meu ver, as coisas não são bem assim. A contradição acima revela-nos algo bem mais profundo do que, à primeira vista, seríamos capazes de ver. Na verdade, trata-se de algo que diz respeito à condição transcendental (condição de possibilidade) do pensar enquanto tal. A contradição está a mostrar que o pensamento é, transcendentalmente, orientado para a verdade em toda a sua universalidade. 

Evidentemente, não falo aqui desta ou daquela verdade, mas da verdade em quanto tal, que funciona como horizonte do pensamento enquanto tal. Pensar e tender à verdade são o mesmo. Se se nega a verdade, destrói-se o pensamento em suas raízes, isto é, em sua lógica ou em sua estrutura fundamental, sem a qual o pensamento seria puro ajustamento de palavras sem sentido algum. É o que nos mostra a contradição acima.

A contradição, com efeito, mostra que o horizonte da verdade se coloca sempre num nível mais global, mais íntimo e mais abrangente do que o nível de quem deseja negá-la. A força da verdade sempre chega antes do que a vontade de negá-la materializada em um jogo de palavras sem sentido (porque leva justamente à contradição performativa), e, para quem reflete, mostra precisamente como é impossível subtrair-se-lhe. Se a verdade é negada com palavras, o pensamento deixa de existir em sua lógica, isto é, naquilo que faz do pensamento, pensamento. A negação da verdade destrói o pensamento. Por isso, não é possível «pensar» (em sentido próprio) a negação da verdade. É possível, sim, articular termos, palavras ou sons que pretendam negá-la, mas na medida em que isso se faz, o pensamento mesmo se retira e se cai no nonsense, no absurdo da contradição. Assim, o pensamento enquanto tal não pode negar a verdade. Para o inimigo da verdade só resta a possibilidade de «querer» que ela não exista. No entanto, trata-se de um querer que, separado da inteligência, é, no fundo, uma vontade do nada ou do absurdo. 

domingo, 4 de agosto de 2013

O cristianismo e as religiões


Padre Elílio de Faria Matos Júnior

A relação do cristianismo com as outras religiões é um tema a ser aprofundado hoje em dia, já que, dada a facilidade de comunicação e o encontro facilitado das diversas culturas, o pluralismo religioso torna-se, para o teólogo, um "fato teológico" a ser interpretado com base nos princípios arquitetônicos da Revelação em Cristo. Não se pode ignorar simplesmente que a maioria da humanidade não é cristã.


Duas coisas devem ser evitadas, creio. Primeiro, o relativismo fácil, segundo o qual todas as religiões gozariam, em linha de princípio, de igual validade. No fundo, seriam todas modos diversos de falar do inefável (Deus). Tal postura admite como pressuposto que Deus é tão misterioso e afastado da linguagem humana que dele os homens podem falar somente por metáforas. Cada religião traduziria uma "figura" de Deus, e todas, em linha de princípio, teriam o mesmo valor. Outro pressuposto dessa postura, decorrente do primeiro, é que Deus não pode revelar-se e falar aos homens de maneira positiva, como a tradição cristã acredita que fez através de Jesus Cristo. Ao contrário, a revelação de Deus seria mais complexa e menos pontual. Radicar-se-ia nas profundidades da consciência humana como um sentimento religioso inefável e se expressaria, somente de forma figurativa, através das diversas culturas. Os dogmas, nesse sentido, seriam somente metáforas do divino. A Igreja católica, de sua parte, professa firmemente que Deus falou aos homens por meio de Jesus e que a sua fala ressoa viva através da fé eclesial expressa nos dogmas formulados por meio da linguagem humana. Para a Igreja, embora a distância entre Deus e a criatura seja imensa, existe, contudo, uma analogia que permite à linguagem humana falar com propriedade do mistério de Deus dentro de certos limites.

Outra coisa a ser evitada é a postura de alguns exclusivistas, para quem fora da Igreja só existiria o vazio. A Igreja sustenta que fora de seus quadros visíveis haja elementos de verdade. Ela sabe que a plenitude de tal verdade lhe foi confiada, mas sabe também que Deus pode valer-se dos elementos de verdade presentes nas diversas religiões para santificar os seus adeptos. A pergunta que fica é: qual o papel do fato do pluralismo religioso, permitido por Deus, no plano geral da salvação? Não podemos relativizar o Cristo nem a sua Igreja, dizendo que tanto faz uma fé como outra. Mas não podemos também deixar de reconhecer que o pluralismo religioso, do qual tomamos maior consciência nos últimos tempos, coloca questões que merecem aprofundamento.

sábado, 3 de agosto de 2013

Extra Ecclesia nulla salus?


Padre Elílio de Faria Matos Júnior

É possível que alguém se salve fora da Igreja católica?
Sim, é possível que alguém se salve fora das estruturas visíveis da Igreja católica. Pio XII o ensinava ao condenar, em seu tempo, o exclusivismo eclesiológico que julgava não haver tal possibilidade. Deus quer a salvação de todas as pessoas e dispõe de meios só dele conhecidos para chegar ao coração de cada um. Ademais, a prece universal da Igreja pede ao Senhor a salvação de todos os povos.

Mas então tanto faz pertencer ou não à Igreja católica? 
Não. A Igreja, através dos Santos Padres, dos Concílios, dos Papas e dos grandes teólogos, sempre ensinou que devemos procurar a verdade religiosa, e, uma vez conhecida, abraçá-la de coração. Tal verdade foi confiada à Igreja católica, para que a conservasse e difundisse. Assim, não é indiferente pertencer ou deixar de pertencer à Igreja católica. Se existe uma verdade religiosa, eu não posso pensar e agir como se ela não existisse. O Concílio Vaticano II ensina que a plenitude da verdade religiosa foi confiada somente à Igreja católica, não por mérito dos católicos, mas como dom de Deus ao mundo. Os católicos, muitas vezes, não estão à altura desse grande dom e o empalidecem aos olhos do mundo por causa de seus pecados. Mas o dom está sempre disponível, visível no seio da Igreja que Cristo convocou ao chamar os apóstolos e ordenar-lhes que pregassem o Evangelho e celebrassem os santos mistérios.

Como entender a relação da Igreja com Cristo?
A Igreja é inseparável de Cristo. Querer Cristo e rejeitar a Igreja, que é seu Corpo Místico, significa não querer o Cristo tal como ele se revelou ao mundo. Na festa de Santo Inácio de Loyola (31 de julho de 2013), o Papa Francisco disse aos jesuítas que "à centralidade de Cristo corresponde a centralidade da Igreja". A Igreja não é uma mera instituição organizada por homens. Na sua realidade mais profunda atua o mistério de Deus que fez uma aliança definitiva com os homens e se deu de modo irrevogável em Cristo, cujos sinais sacramentais existem na Igreja, nunca sem ela.

A Igreja ainda ensina o princípio Extra Ecclesia nulla salus (Fora da Igreja não há salvação)?
Esse é um princípio sempre válido, que o Vaticano II assumiu. Mas requer um entendimento adequado. Em linha de princípio, ele quer dizer que a Igreja é necessária para a salvação em virtude de seu nexo íntimo com o mistério da Redenção. A Igreja não é um simples acessório no Plano de Deus. Por isso, se eu tenho consciência de que Deus quis a Igreja como casa de salvação e, mesmo assim, não quero nela entrar ou nela perseverar, coloco em risco a minha salvação. De outro lado devemos saber que muitas pessoas, sem culpa, ignoram (por diversas razões) a centralidade da Igreja no Plano de Deus, e, por isso, não fazem (não podem fazer) parte dela. Essas pessoas, se cultivam a fidelidade à própria consciência, na abertura a Deus que lhes fala através de diversos meios só dele conhecidos, podem encaminhar-se à perfeição, viver na amizade de Deus e alcançar a salvação. Podemos dizer que pertencem ao coração ou à alma da Igreja.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Acerca da Encíclica "Lumen Fidei", do Papa Francisco

Pe. Elílio Júnior 

A primeira carta encíclica do Papa Francisco, publicada no último 5 de julho, traz como título Lumen Fidei (A Luz da Fé) e apresenta uma bela e profunda reflexão sobre a fé, uma das três virtudes teologais, ao lado da caridade e da esperança. Aliás, estas últimas duas virtudes já tinham sido objeto de reflexão por parte do Papa Emérito Bento XVI em suas encíclicas Deus caritas est (2005) e Spe salvi (2007).

O Papa Francisco reconhece a contribuição de Bento XVI na confecção do texto: «Ele já tinha quase completado uma primeira redação da carta encíclica sobre a fé. Sou-lhe por isso profundamente agradecido e, na fraternidade, assumo o seu precioso trabalho, acrescentando ao texto alguns contributos ulteriores» (n.7).

Trata-se de um texto profundo, que toca altas questões de teologia e se confronta com grandes autores do pensamento humano, mas, ao mesmo tempo, de linguagem clara e com incidências diretas para a vida espiritual. Ao longo da leitura da encíclica, o crente pode reviver a grandeza da fé, que lhe abre novos horizontes e o encaminha para uma meta de vida que seria inalcançável pelas meras forças humanas. A fé dá-nos, antes de tudo, uma confiança de fundo na vida, uma verdadeira segurança existencial, uma vez que nos faz ver que o nosso ser está fundado na «Realidade realíssima» que é Deus, que estabelece conosco uma relação pessoal: a fé faz Abraão ver que «a vida não procede do nada ou do acaso, mas de uma chamada e um amor pessoal» (n.11).

A fé é apresentada como luz, “em um tempo em que o homem é particularmente necessitado de luz” (n.4). E isso coloca de imediato a fé em relação com a questão da verdade. A metáfora da luz é antiga, e já Platão a usava para falar daquilo que possibilita que o espírito veja, isto é, reconheça o que realmente é – a verdade do ser. O ver que a luz da fé possibilita atinge o que há de mais fundamental no mistério da existência. A fé nos faz ver a «verdade grande» da nossa vida, e isso através da nossa inserção, tornada possível pelo próprio ato de fé, no modo de ver do próprio Jesus, o mestre da verdade religiosa, que nos ensina em profundidade sobre Deus e o homem na sua relação com Deus e com o seu fim último.

Uma grande tentação a ser debelada pela consciência que crê, segundo o Papa, é aquela de achar que a verdade é necessariamente intolerante e violenta, e que, por isso, a verdade da fé não poderia ser abraçada pelo homem que procura a paz e a convivência tranquila. Mas se deve dizer que a fé leva-nos, não a uma «verdade» ideológica, totalizante e fechada, mas àquela verdade fundamental que é inseparável do amor. Outra tentação é a de reduzir a verdade às pequenas verdades científico-tecnológicas, que não podem matar a sede do homem de alçar o olhar para o ser em sua infinitude. Ter fé é abrir-se para o infinito de Deus e para «uma visão luminosa da existência» (n.5).

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Carta Encíclica "Lumen fidei"

A Encíclica Lumen fidei, do Santo Padre Francisco, tem como um de seus principais objetivos mostrar que a fé é luz, cujos raios, ao atingir até mesmo as zonas obscuras da dor e da morte, são capazes de iluminar a existência humana de maneira nova e radical. Ter fé é participar do modo de ver de Jesus de Nazaré, ele que nos apresentou uma visão singular do mistério de Deus e do homem em relação com Deus. A encíclica, assim, ressalta a profunda ligação entre fé e verdade. Luz e verdade são correlativas, já que a luz - que permite ver - desvela a verdade diante dos nossos olhos. Se a fé é luz, ela desvela-nos a verdade. O Papa nos convida a deixarmo-nos tomar pela "verdade grande" trazida pela luz da fé, e isso num tempo em que o homem é tentado a não crer mais na verdade ou a crer apenas nas "verdades pequenas" da tecnologia.

domingo, 16 de junho de 2013

Livro de Jó

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Você sabe por que foi escrito o livro de Jó? Trata-se de um livro escrito entre o século V e III a.C., e tinha por principal objetivo questionar a teologia da sua época, segundo a qual o sofrimento é consequência direta do pecado pessoal de quem sofre. Em geral pensava-se que a fidelidade a Deus era recompensada nesta vida com bens materiais e familiares, com a boa saúde e a vida longa, e, ao contrário, a infidelidade, punida com o insucesso e as diversas desgraças da vida presente. Não se tinha ainda a fé na vida para além da morte.

O livro apresenta Jó, um homem verdadeiramente fiel a Deus, indicado até mesmo como modelo para os anjos, que, no entanto, misteriosamente, é duramente provado pela perda de seus bens, de seus filhos, de sua saúde e de sua dignidade. Como entender uma coisa dessas? O livro relaciona o sofrimento do justo Jó a um mistério sobrenatural, a Satanás - este ainda não é o Satanás do inferno como o conhecemos, mas uma espécie de inspetor celeste que tem como ofício observar o comportamento dos homens e acusá-los diante de Deus. Satanás, juntamente com os anjos ou filhos de Deus, tem acesso à presença do Altíssimo e, colocando em dúvida, não a fidelidade de Jó, que era patente, mas as suas reais motivações, pede permissão a Deus para o provar. Por duas vezes Deus concede a Satanás a permissão, e Jó é duramente provado. Sua vida, de uma hora para outra, é como que virada de ponta-cabeça.

O Jó paciente dos dois primeiros capítulos logo cede lugar ao Jó rebelde a partir do terceiro capítulo; ele chega mesmo a amaldiçoar o dia de seu nascimento. O livro não tem medo de mostrar que Jó era humano, demasiado humano, e não um herói que, impassível, tudo suporta, sem angustiar-se. O seu sofrimento o leva, não a ficar calado, mas a confrontar-se duramente com o sentido da própria existência e com o próprio Deus. Jó chamou Deus em causa. Embora mostrasse toda a sua angústia e o seu quase desespero, conservou, no fundo, a fé. Mas era uma fé angustiada e sofrida, que fazia força para encontrar um sentido onde não parecia haver sentido algum. Jó, no fundo, queria falar com Deus. Queria ouvir a Deus.

Os amigos tentavam convencê-lo de que havia uma relação entre os seus sofrimentos e os seus pecados. Chegavam a recomendar a Jó que se arrependesse e pedisse perdão, para que Deus lhe restituísse a felicidade. Mas Jó tinha consciência de que não havia pecado para merecer todo o infortúnio que se lhe abatera. A teologia da retribuição dos amigos estava errada: disso Jó tinha certeza. Jó sofria, mas o seu sofrimento não tinha nada a ver com seus pecados.

Só no final Deus se mostra e fala, e faz ver a Jó a grandeza da criação e o seu profundo mistério. Jó, maravilhado com a sabedoria do criador presente nas suas obras, encontra paz para o seu coração, entregando-se confiantemente nas mãos do Senhor: "Agora te conheci". A aparição de Deus não lhe tirou o sofrimento, mas o preencheu da presença divina, e isso bastou para trazer paz ao coração de Jó.

No final, Deus restitui a Jó o que ele havia perdido e muito mais.

Lição do livro de Jó: o sofrimento é, antes de tudo, um mistério. As tentativas de abarcá-lo com a nossa limitada razão e de explicá-lo com meridiana clareza sempre falham. O sofrimento nos desestrutura, nos faz chorar, nos angustia. Mas também pode ser uma chance, porque pode nos fazer crescer em profundidade diante da vida e diante de Deus. O sofrimento pode nos amadurecer ajudar-nos a perceber que Deus é sempre maior do que aquilo que pensamos a seu respeito: "Eu te conhecia só por ouvir falar, mas agora os meus olhos te viram" (Jó 42,5).

Sabemos que Deus é bom, e, no entanto, encontra-se o sofrimento em sua obra. Eis o grande mistério! O livro convida a uma entrega amorosa da nossa vida nas mãos de Deus, que, certamente, tem a sabedoria e o poder de superar o sofrimento ainda presente na criação: "Ele domina tudo aquilo que, soberbo, se levanta e é soberano sobre todas as bestas ferozes" (Jó 41,26). Saber que Deus é bom e que está presente no meio de nosso sofrimento para superá-lo juntamente conosco é o que podemos reter com certeza, e isso basta para continuarmos a acreditar na vida e para solidarizar-nos concretamente com os que sofrem, apesar de toda a inquietação a que possamos estar submetidos. Ter fé em Deus é abrir-se à possibilidade de superar o sofrimento todas as vezes que ele aparece em nossa vida.

No Novo Testamento o mistério do sofrimento é assumido por Cristo, que, a partir do seu interior, o supera e o vence definitivamente. A nossa esperança é a de que toda lágrima será enxugada um dia. Enquanto isso, vivemos a vida, que muitas vezes é dura, na confiança fundamental e na solidariedade com todo o sofrimento do mundo. Cristo nos ensinou a assumir o sofrimento, o nosso e o alheio, e a encaminharmo-nos, assim, para a plenitude das promessas de Deus.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sexo fora do casamento e preservativo: é moral?

Candente discussão:
AINDA OS PRESERVATIVOS
Em síntese: Há quem queira justificar o uso de preservativos contra a AIDS, apelando para o princípio de que, em certas circunstâncias, quando não se pode fazer o melhor, é lícito escolher o mal menor. Os preservativos seriam esse mal menor, preferível à contaminação da AIDS ou à própria gravidez indesejada.
A resposta ao sofisma é múltipla: 1) os preservativos são tidos como algo que possibilita "sexo seguro", o que é comprovadamente falso; 2) o princípio de que se pode escolher um mal menor só se aplica aos casos em que alguém esteja na obrigação de agir e se veja diante de duas opções que lhe parecem más; em tal situação, a pessoa tem o dever de esclarecer a sua consciência para ver se pode escapar à realização de um ato mau; caso não chegue à clareza, é-lhe lícito escolher o mal menor. Observe-se, porém, que se supõe estar a pessoa diante do dever de agir, não podendo fugir à ação; supõe-se também não haver terceira opção. Ora, tal não é o caso do sexo livre ou das relações extra-matrimoniais; não constituem um dever, ao qual o interessado não possa escapar. A onda de erotismo, hoje vigente, não impõe necessariamente a prática do sexo extraconjugal.
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A revista SEM FRONTEIRAS, abril 1994, pág. 4 (Espaço Livre), responde a uma leitora a respeito de preservativos contra a Al DS nos seguintes termos:
"Claro que não estamos autorizados a interpretar o pensamento dos bispos (que combatem os preservativos). Mas achamos que o que eles querem de verdade é chamar a atenção para o fato de que o sexo não deve ser banalizado. Dito isso, a gente pode supor que eles não vão querer renegar o ensinamento tradicional da Igreja, segundo o qual, em determinadas circunstâncias, não se podendo fazer o melhor, escolhe-se o mal menor
 Pode-se pegar o exemplo da prostituição. É evidente que o Evangelho não a aprova. Mas nem por isso a Igreja proíbe que sejam tomadas precauções para evitar males ainda maiores, como, por exemplo, a transmissão de doenças."

Esse texto merece considerações, que passamos a tecer.


1. ATOS INTRINSECAMENTE MAUS
O articulista da revista supõe que as relações extraconjugais possam ser toleradas como um mal menor e, por isso, se devem recomendar preservativos para quem as pratique.
Ora, a recente encíclica Veritatis Splendor precisamente, entre outras, aborda a questão dos atos maus. Lembra que existem atos intrinsecamente maus, que nunca podem ser tolerados. Tais seriam: matar um inocente, roubar a legítima propriedade alheia e também a prostituição. Eis o texto de João Paulo II:

"A Igreja ensina que existem atos que, por si e em si mesmos, independentemente das circunstâncias, são sempre gravemente ilícitos, por motivo do seu objeto. O Concílio do Vaticano II, no quadro do devido respeito à pessoa humana, oferece uma ampla exemplificação de tais atos: 'Tudo quanto se opõe à vida, como seja toda espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas de violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens. . . Todas estas coisas e outras semelhantes são infamantes; ao mesmo tempo que corrompem a civilização humana, desonram mais aqueles que assim procedem do que os que as padecem injustamente; e ofendem gravemente a honra devida ao Criador" (no 80).

Também as relações extraconjugais são atos intrinsecamente maus, pois derrogam à ordem da natureza e implicam desmando da parte dos parceiros. Com efeito: a doação sexual é a mais íntima que se possa conceber; ela supõe amor total, comprometido pelo matrimônio, dentro de um lar, onde o fruto do ato sexual (a prole) possa contar com a atividade educadora de pai e mãe.

Não se deve argumentar a partir da onda de erotismo hoje existente para legitimar o sexo livre. Essa onda seria incoercível e, de certo modo, obrigaria jovens e adultos à prática sexual extraconjugal. — Na verdade, não é a freqüência ou a pujança de um determinado comportamento que o torna lícito. Como os assaltos dos malfeitores e a corrupção dos homens públicos são freqüentes, mas nem por isso são legitimados, assim também o sexo livre, por mais freqüente que seja, fica sendo reprovável. É muito mais sadio e educativo incitar os jovens e a sociedade ao uso regrado do sexo (por que não dizer, à castidade?) do que se deixar dominar pelos modismos; aliás, a disciplina e o autodomínio, no caso, são a única solução cristã.

Notemos ainda que é falso dizer-se que os preservativos garantem "sexo seguro", pois são comprovadamente falhos. Ver PR 377/1993p466 e 381/1994, pp. 87s.


2. "DE DOIS MALES, O MENOR"

Argumenta o articulista de SEM FRONTEIRAS, apelando para "o ensinamento tradicional da Igreja segundo o qual, em determinadas circunstâncias, não se podendo fazer o melhor, escolhe-se o mal menor".
Essa fórmula é confusa e errônea. Sim, a Moral Católica considera os casos em que uma pessoa, de consciência hesitante ou duvidosa, se vê obrigada a agir e se acha tão somente diante de duas opções que lhe parecem ambas más. Em tal situação, a pessoa tem a obrigação de se esclarecer, dissipando suas dúvidas, para saber se de fato está diante de duas opções más. Caso não consiga clareza, escolha o que lhe parecer o mal menor. Note-se bem: supõe-se que a pessoa esteja obrigada a agir. . . Eis o que a propósito se lê na obra "Moral de Atitudes", vol. Ip. 322de Marciano Vidal:

"Em caso conflitante entre dois deveres, deve-se escolher o mal menor. Em tais casos, tem que existir autêntica alternativa, não basta uma alternativa aparente."
Observe-se: o texto fala de dois deveres, isto é, supõe a obrigação de agir. E frisa que não deve haver outra saída para o problema. Então sim, é lícito escolher o mal menor. Acontece, porém, que, ao se tratar de sexo livre, não há dever. Por conseguinte, não se aplica a norma "escolher o mal menor". A solução é abster-se do mal simplesmente. É esta uma solução radical, a única, porém, coerente com a honestidade e a dignidade da consciência humana.
Dom Estêvão Bettencourt, OSB