Pular para o conteúdo principal

Relato do nosso encontro de padres com o Papa Bento XVI (14/02/2013) - Parte II

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Depois de termos rezado junto do túmulo de São Pedro, seguimos para a “Aula Paolo VI”, onde o Papa, de costume, realiza suas catequeses de quarta-feira. Eu consegui ficar relativamente próximo do lugar onde Bento XVI deveria parar para falar ao clero. Estávamos todos na Aula às 10h45m e o Papa só devia chegar às 11h30m.

Foi, então, que o Cardeal Vigário anunciou que, enquanto não desse a hora, assistiríamos ao vídeo da visita que Bento XVI fizera recentemente ao Seminário Romano, quando os seminaristas tiveram a oportunidade de ouvi-lo. Aos seminaristas o Papa falou coisas belíssimas. Cheguei a emocionar-me fortemente algumas vezes. Entre outras coisas, disse que devemos sentir a grande alegria de sermos católicos. Deus pensou em nós e nos quis católicos. Quis, em muitos casos, que nascêssemos em uma família católica, onde se respira o ar da fé. Assim, tivemos o dom de conhecer o rosto humano de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, que não é um entre outros dos grandes fundadores de religião, mas é Deus mesmo que entra no nosso tempo para fazer história conosco!

Essa alegria de ser católico, disse o Papa, não é triunfalismo. Triunfalismo seria se atribuíssemos tamanha graça a nossos méritos. Mas não. Não temos mérito nenhum diante da soberania e da grandeza de Deus. É pura graça. Ele pensou em cada um de nós e quis que conhecêssemos o seu Unigênito.

Bento XVI disse ainda que Deus, por pura graça, o quis como sucessor do Apóstolo Pedro. Quis que ele, neste tempo em que o ministério lhe é confiado, cuidasse dos irmãos, confirmando-os na fé da Igreja. Quis os sacerdotes como sacerdotes, ministros do Cristo.

O discurso do Papa foi profundamente espiritual, tocando as raízes mais recônditas do mistério da nossa eleição em Cristo. O Papa estimulou os seminaristas a ver a sua vocação do ponto de vista do amor eterno de Deus, que elege e chama.

Citando Santo Agostinho, o seu autor preferido, disse também que nós cristãos temos raízes. Mas elas não estão para baixo, como as das árvores. Estão para cima, no coração de Deus. Bento XVI soube transmitir com simplicidade e profundidade, o sentido da nossa existência cristã e convidou os seminaristas a confiar no futuro de Deus. Porque o futuro é de Deus. O futuro é nosso, filhos de Deus!

Recordou que a Igreja é uma árvore que sempre se renova. Não precisamos temer. Com realismo, disse que se deve evitar dois perigos: o pessimismo, para o qual nada vai bem e só o pior se pode esperar; e o otimismo ingênuo, que não faz caso dos reais problemas e não enxerga o perigo da defecção da fé num mundo que, por vezes, toma distância do Cristo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Escatologia intermediária: visão de Deus e espera da ressurreição final

A fé cristã afirma, desde os seus primórdios, que a morte não é o termo último da existência humana. No entanto, essa afirmação não implica que a ressurreição se dê imediatamente após a morte, nem que ela consista numa simples revivificação do cadáver, como se o destino final do homem fosse uma repetição ampliada da vida biológica. Pelo contrário, uma compreensão mais profunda da escatologia cristã exige distinguir claramente entre o estado intermediário após a morte, em que o eu subsiste e pode aceder à gloria da visão de Deus, e a ressurreição plena no fim dos tempos, bem como entre ressurreição e mera volta à vida como se dá neste mundo. 1. A escatologia intermediária: sair do tempo cronológico Quando o ser humano morre, ele deixa o tempo cronológico, sucessivo, mensurável como o conhecemos — o tempo da história tal como a vivemos neste mundo. A morte marca a passagem para uma outra modalidade de temporalidade, que pode ser chamada de tempo psíquico ou tempo do espírito. Seguindo a...

Criação "ex nihilo"

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Em Deus, e somente em Deus, essência e existência identificam-se. Deus é o puro ato de existir ( Ipsum Esse ), sem sombra alguma de potencialidade. Ele é a plenitude do ser. Nele, todas as perfeições que convém ao ser, como a unidade, a verdade, a bondade, a beleza, a inteligência, a vontade, identificam-se com sua essência, de tal modo que podemos dizer: Deus é a Unidade mesma, a Verdade mesma, a Bondade mesma, a Beleza mesma... Tudo isso leva-nos a dizer que, fora de Deus, não há existência necessária. Não podemos dizer que fora de Deus exista um ser tal que sua essência coincida com sua existência, pois, assim, estaríamos afirmando um outro absoluto, o que é logicamente impossível. Pela reflexão, pois, podemos afirmar que em tudo que não é Deus há composição real de essência (o que alguma coisa é) e existência (aquilo pelo qual alguma coisa é). A essência do universo criado não implica sua existência, já que, se assim fosse, o universo, contingen...

Marín-Sola e o desenvolvimento da teologia da graça

  Francisco Marín-Sola, um teólogo dominicano do século XX, foi um dos principais responsáveis pela reformulação da tradição bañeziana dentro do tomismo. Ele buscou suavizar alguns aspectos da doutrina da graça e predestinação, especialmente no que diz respeito à relação entre a liberdade humana e a causalidade divina. Sua obra tentou conciliar a soberania absoluta de Deus com uma maior ênfase na cooperação humana, evitando o determinismo implícito no modelo de Bañez e Garrigou-Lagrange. ⸻ 1. Contexto da Reformulação de Marín-Sola • A escola tomista tradicional, especialmente na versão de Domingo Bañez e Reginald Garrigou-Lagrange, defendia a moción física previa, segundo a qual Deus pre-move infalivelmente a vontade humana para o bem ou permite o pecado através de um decreto permissivo infalível. • Essa visão levantava críticas, pois parecia tornar Deus indiretamente responsável pelo pecado, já que Ele escolhia não conceder graça eficaz a alguns. • Francisco Marín-Sola...