Quando o então Cardeal Ratzinger teve um colóquio acadêmico com o filósofo J. Habermas em 2004, ele sustentou que o conúbio entre fé e razão é sempre necessário. O Cristianismo se entende como uma religião que fez opção pela razão, e isso desde as suas origens. A razão é importante para impedir que a fé avance pelas vias do fundamentalismo e do exclusivismo, como se não houvesse nada de positivo fora de seu âmbito de irradiação. A fé, por sua vez, é importante para não deixar a razão se instrumentalizar por interesses ideológicos ou pessoais, proporcionando-lhe o direcionamento do olhar para o Bem infinito. Um exemplo de uma razão desviada é aquele vivido no século XX, com as duas Grandes Guerras. É também aquele do "capitalismo selvagem" e dos totalitarismos. Adorno e Horkheimer bem viram que o progresso alcançado pela razão foi também um progresso para o pior, da funda à bomba atômica. Fé e razão, mantendo-se na distinção, devem abrir-se uma à outra para que cada qual seja cada vez mais o que deve ser, sem desvios. Por vezes, ambas precisam de purificação.
A fé cristã afirma, desde os seus primórdios, que a morte não é o termo último da existência humana. No entanto, essa afirmação não implica que a ressurreição se dê imediatamente após a morte, nem que ela consista numa simples revivificação do cadáver, como se o destino final do homem fosse uma repetição ampliada da vida biológica. Pelo contrário, uma compreensão mais profunda da escatologia cristã exige distinguir claramente entre o estado intermediário após a morte, em que o eu subsiste e pode aceder à gloria da visão de Deus, e a ressurreição plena no fim dos tempos, bem como entre ressurreição e mera volta à vida como se dá neste mundo. 1. A escatologia intermediária: sair do tempo cronológico Quando o ser humano morre, ele deixa o tempo cronológico, sucessivo, mensurável como o conhecemos — o tempo da história tal como a vivemos neste mundo. A morte marca a passagem para uma outra modalidade de temporalidade, que pode ser chamada de tempo psíquico ou tempo do espírito. Seguindo a...

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