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Mostrando postagens com o rótulo Espiritualidade

Escatologia intermediária: visão de Deus e espera da ressurreição final

A fé cristã afirma, desde os seus primórdios, que a morte não é o termo último da existência humana. No entanto, essa afirmação não implica que a ressurreição se dê imediatamente após a morte, nem que ela consista numa simples revivificação do cadáver, como se o destino final do homem fosse uma repetição ampliada da vida biológica. Pelo contrário, uma compreensão mais profunda da escatologia cristã exige distinguir claramente entre o estado intermediário após a morte, em que o eu subsiste e pode aceder à gloria da visão de Deus, e a ressurreição plena no fim dos tempos, bem como entre ressurreição e mera volta à vida como se dá neste mundo. 1. A escatologia intermediária: sair do tempo cronológico Quando o ser humano morre, ele deixa o tempo cronológico, sucessivo, mensurável como o conhecemos — o tempo da história tal como a vivemos neste mundo. A morte marca a passagem para uma outra modalidade de temporalidade, que pode ser chamada de tempo psíquico ou tempo do espírito. Seguindo a...

Oração de petição segundo Rahner

Abaixo segue um texto estruturado com base na obra Acudir a Dios en la angustia. El sentido de la oración de petición , de Karl Rahner, sobre o sentido de rezar, de fazer uma oração de petição.  ⸻ O Sentido da Oração de Petição segundo Karl Rahner 1. Introdução: A Oração de Petição em Crise Na experiência moderna, muitos crentes e não crentes questionam a utilidade da oração de petição. “Rezei e não fui ouvido” — esse lamento ressoa através dos séculos, especialmente em contextos de sofrimento, guerra ou abandono. A oração de petição parece ineficaz, silenciosa, ignorada por Deus. Por isso, torna-se objeto de crítica, de escárnio ou de desilusão religiosa. Karl Rahner, a partir do contexto dramático do pós-guerra, enfrenta essa acusação não com respostas fáceis, mas com uma honestidade radical, que reconhece tanto a profundidade da dor humana quanto o mistério do silêncio de Deus. ⸻ 2. O Acusado: Deus ou a Oração? Segundo Rahner, a crítica à oração de petição é, em última instância...

A Igreja é abrigo para os seguidores de Cristo

  O abrigo contra os extremismos? A Igreja, que sabe que a virtude é uma mediania entre extremos viciosos. O abrigo contra o relativismo? A Igreja, que ensina que há um Lógos  eterno do qual o lógos humano participa e no qual encontra fundamento. O abrigo contra o absolutismo? A Igreja, que ensina que só Deus é o Absoluto , e toda palavra nossa não tem fim em si mesma nem faz o Absoluto presente como tal, mas aponta para Ele, a única e inesgotável Verdade.  O abrigo contra o fundamentalismo? A Igreja, que ensina que a Bíblia é Palavra de Deus na palavra humana , e, como tal, sujeita a limitações históricas.  O abrigo contra a tristeza? A Igreja, que anuncia a grande alegria do Evangelho, do perdão, da reconciliação e da vida sem fim.   O abrigo contra a falta de motivação e o desespero? A Igreja, que anuncia a esperança que não decepciona.  O abrigo contra a confusão de doutrinas? A Igreja, que interpreta autenticamente a Palavra de Deus.  O abrigo con...

A Bíblia defende a submissão da mulher ao homem?

  O livro The Sexual Person: Toward a Renewed Catholic Anthropology , de Todd A. Salzman e Michael G. Lawler, aborda a questão da dominação do homem sobre a mulher na Bíblia de forma crítica e contextualizada. Os autores exploram como as Escrituras refletem as normas culturais de suas épocas e argumentam que a tradição cristã deve discernir entre elementos históricos condicionados e princípios universais de moralidade e dignidade humana (8,6). ⸻ 1. A Bíblia defende a dominação do homem sobre a mulher? A resposta, segundo os autores, depende de como se interpreta a Bíblia. Existem textos que podem ser usados para sustentar uma visão hierárquica entre os sexos, mas também há passagens que sugerem uma relação de igualdade e dignidade mútua. O livro analisa essas duas perspectivas dentro do desenvolvimento da teologia cristã. 1.1. A visão subordinacionista Essa perspectiva entende que a Bíblia estabelece uma ordem natural em que o homem lidera e a mulher lhe deve submissão. Os principa...

Meister Eckhart

Meister Eckhart (c. 1260–1328) foi um teólogo, filósofo e místico alemão da Ordem dos Pregadores (dominicanos). Sua doutrina se concentra na relação entre Deus e a alma humana, enfatizando um caminho de desapego e união direta com o divino. Suas ideias foram influentes, mas também controversas, levando-o a ser julgado por heresia no final da vida. 1. Princípios Fundamentais da Doutrina de Eckart 1.1. Deus como Ser Puro e Além do Ser Eckhart descreve Deus como uma realidade suprema, sem forma ou limitação. Ele distingue entre: • Deus como Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), a manifestação de Deus no mundo. Note-se que a fé da Igreja sustenta que Deus é um si mesmo Trindade.  • O Deus Absoluto ( Gottheit ), uma realidade suprema além da compreensão humana, sem distinções. Essa visão lembra a teologia negativa (via negativa), pois Eckhart afirma que Deus não pode ser descrito por conceitos humanos. 1.2. O Nascimento de Deus na Alma Para Eckhart, a alma humana contém uma “c...

O Amor segundo Platão, Freud e Bento XVI

O amor é um dos temas centrais da filosofia, da psicanálise e da teologia, sendo interpretado de formas distintas ao longo da história. Vamos explorar como Platão, Freud e Bento XVI entendem o amor, destacando suas semelhanças e diferenças. 1. O Amor Segundo Platão: O Desejo pela Beleza e pelo Bem Supremo Platão aborda o amor principalmente no Banquete (Simposion) e no Fedro, onde ele o concebe como um movimento da alma em direção ao Bem e à Beleza. 1.1. Eros como Desejo de Ascensão Para Platão, o amor (eros) é uma força dinâmica que move a alma em direção ao divino. Ele não é apenas desejo físico, mas um caminho de elevação espiritual. Esse processo é descrito na famosa Escada do Amor, apresentada por Diotima no Banquete : 1. Amor pelo corpo individual → A primeira forma de amor nasce da atração pelo belo físico. 2. Amor por todos os corpos belos → A mente percebe que a beleza não é exclusiva de um só corpo. 3. Amor pelas almas → O amante percebe que a beleza interior (vir...

Ano Santo ou Jubileu 2025

Nas raízes do Ano Santo ou Jubileu celebrado pela Igreja, está o Antigo Testamento, isto é, a antiga sociedade judaica. Os judeus celebravam, de 50 em 50 anos, o ano do yobel  (carneiro, cabra), pois tinha início com o anúncio feito por chifres de carneiro ou de cabra. Era um ano santo e de graça, em que as propriedades da terra deveriam voltar para seus antigos donos e os escravos deveriam ser liberados. A Septuaginta traduz yobel (jubileu) por áphesis (remissão, libertação), sugerindo a ideia central do evento: uma dispensação especial de graça.  A ideia de base era a de que Deus originariamente tinha dividido a terra por famílias, de modo que, se alguém a tivesse vendido por alguma necessidade, ela deveria voltar ao proprietário original estabelecido por Deus ou aos seus descendentes no ano do jubileu ( yobel ). Servia para evitar o acúmulo de terras nas mãos de poucos e mostrava a soberania de Deus sobre a sociedade. Se essa regra ou ideal, presente na Bíblia no livro do...

A Missa é o maior poema

Celebrando a Missa, ocorreram-me alguns pensamentos. Vi e senti que a essência da Missa não está, de maneira alguma, na utilidade que ela possa ter.  A Missa pode ensinar, mas ela não existe primeiramente para ensinar. Se quiséssemos ensinar, poderíamos marcar uma reunião ou promover um curso. Seria mais eficaz. A Missa também não existe, em primeiro lugar, para promover a comunidade. Ela pode e deve fazê-lo, mas isso não é ainda a essência mesma da Missa. Se quiséssemos simplesmente promover a comunidade, poderíamos nos valer de outros expedientes.  Poderíamos multiplicar as razões de caráter utilitário que pensamos atribuir à Missa. Missa “para” isto ou aquilo. Mas, assim fazendo, não encontraríamos a Missa. A sua essência está em algo grande, que não pode ser simplesmente útil, simplesmente “para”.  A Missa é fim em si mesma. Nela contemplamos o mistério da autoentrega de Jesus. Ali vemos a caridade perfeita. Somos arrebatados pela presença mesma do “Amor que move o So...

O ego e a alma

Viver para o ego é experimentar o vazio. Viver para a alma é tocar a Plenitude.  Ser conduzido pelo ego é fazer-se prisioneiro da vaidade, ambição e inveja. Ser conduzido pela alma é estar livre para amar e doar-se.  Na superfície do ego encontramos as feridas e os traumas. Na profundidade da alma tocamos o remédio e a cura.  Os caminhos do ego são cheios de trevas. As vias da alma são feitas de luz.  O rancor é obra do ego ferido e lacunoso. O perdão é fruto da abundância e da saúde que há na alma.  O ego nos afasta de Deus. A alma é abertura para Deus.  O ego nos isola e nos faz indiferentes. A alma nos une a toda a criação.  O ego nos faz viver para depois morrer. A alma nos ensina a morrer para viver.  A vida do ego é morte da alma. A morte do ego é vida da alma.  É preciso viver para além do ego. É preciso viver no nível da alma. Não se trata de uma necessidade material, mas da nostalgia da Vida. 

O Ser fala. Falou em Jesus!

O que se manifestou em Jesus de Nazaré foi a luz puríssima da realidade incriada do Ser. Essa luz, chamamo-la Verbo divino.  As ideias mais puras que um homem pode conceber, os sentimentos mais nobres e as atitudes mais justas e misericordiosas apareceram na consciência e na ação de um jovem pobre, camponês da Galiléia, que, como seu pai putativo, começou a dedicar sua vida à profissão de artesão/carpinteiro/pedreiro, mas, analogamente a grandes profetas antigos, deixou tudo para proclamar o que via com os olhos da alma e sentia com o coração: é que fora tomado pelo fascínio da pureza e da grandeza da Última Realidade, que é também a Primeira.  A bem da verdade, foi a Primeira e Última Realidade, em sua luz e amor eternos, que assumiu o ser criado de Jesus como órgão da manifestação da Sabedoria imperecível neste mundo temporal.  O Ser fala. O Ser é luz. O Ser não é opaco nem é irracionalidade. O Ser faz surgir ordem, organismos, consciência e liberdade no mundo material....

Mito, narrativas históricas e mística

Marco Vannini, grande estudioso italiano de mística, sustenta que o cristianismo ainda teria algo a dizer a um mundo que já perdeu a inocência do mito se deixasse suas narrativas históricas (que para Vannini seriam mitológicas e não sustentáveis racionalmente) e se concentrasse no seu conteúdo místico baseado na metafísica neoplatônica, tal como o Agostinho dos textos filosóficos delineou. Ou seja, o cristianismo dever-se-ia reduzir à essência mais consistente do seu conteúdo: a essência filosófica de corte neoplatônico.  Um outro grande teólogo italiano, Vito Mancuso, segue linha semelhante ao reconhecer filosoficamente que Deus é o Bem, realidade realíssima a sustentar todo o universo dos entes, percebida pelo profundo do espírito humano como único sustentáculo da atitude religiosa.  Mancuso, como Vannini, relativiza o conteúdo histórico do cristianismo como mito, necessário talvez para um público menos afeito à reflexão filosófica, mas que deveria ser visto sempre e apenas ...

Os graus do amor

São Bernardo de Claraval, Doutor da Igreja Sobre os graus do amor ( De gradibus amoris ) Texto inspirado em S. Bernardo  1. O amor de si. O homem ama a si mesmo, quer conservar e engrandecer a própria existência.  2. O homem vê que não se basta. Então começa a amar a Deus como fonte de benefícios. O homem ama a Deus por causa do que Deus pode proporcionar-lhe. Aqui estão todos os que usam Deus ou se servem de Deus. O centro ainda é o ego.  3. O homem começa a ver que Deus é digno de ser amado por si mesmo. A grandeza de Deus é fascinante. Sua beleza é arrebatadora. Ele é a Fonte de todo ser. Mas  aqui a Fonte começa a ser vista em sua própria grandeza. Deus é amável por aquilo que ele é, não por aquilo que faz. No segundo grau, o homem amava a Deus com a medida humana. Não podia receber Deus como Deus. Aqui no terceiro grau, a medida se alarga, e o homem se torna capaz de receber Deus como Deus, e de se transformar nele. Quem recebe Deus à medida divina é inevitavelm...

A Bíblia, a ciência e a espiritualidade

O criacionismo que postula que o mundo tenha sido criado há cerca de 6 mil anos e num período de 6 dias é burro. Toma a Bíblia ao pé da letra, sem mediação hermenêutica alguma. Ora, tomar a Bíblia ao pé da letra é uma afronta à própria Bíblia. Os textos sagrados foram escritos numa cultura diversa, com propósitos bem específicos para seu tempo e para seus leitores, em geral usando gêneros literários bem diversos dos gêneros com os quais estamos acostumados. A doutrina da criação é uma verdade de fé e de razão, mas ela não precisa assumir os traços fundamentalistas que excluem as evidências de que o planeta Terra existe já há 4,5 bilhões de anos e a vida nele, há cerca de 3,5 bilhões de anos. A criação é uma realidade metafísica de dependência radical do ser dos entes criados para com o Ser puro ( Ipsum Esse subsistens ), que chamamos de Deus.  Outra coisa: querer refutar a teoria da evolução com base na Bíblia é também burrice, pois a Bíblia não pretende ensinar nem desautorizar te...

E o mal que nos fere?

O sofrimento é o grande escândalo, principalmente quando atinge o frágil e o inocente. Muitos veem no mal o grande empecilho para acreditar num Deus criador bondoso. Santo Agostinho (354-430) iluminou o enigma do mal do ponto de vista metafísico. Valendo-se do pensamento neoplatônico, viu que o mal não pode ser algo substancial, mas é a carência do bem ( privatio boni ). Do ponto de vista metafísico, tudo o que existe é bom, até mesmo o mais ínfimo dos entes, pois existir, ainda que na última escala do ser, é infinitamente superior ao nada. Existência e bondade são inseparáveis. A existência de um princípio do mal seria contraditória. O que chamamos de mal é uma privação no ser. Assim, em Deus, sumo Ser, não pode haver nenhuma carência; ele é o sumo Bem, sem nenhuma sombra de maldade. O mal é metafisicamente possível nos entes finitos justamente por causa da finitude, pela qual são ameaçados pelo nada. Não no sentido de que o nada possa ameaçar, já que o nada não existe, mas porque, nã...

O Ser é Luz e Amor

O ser humano traz uma luz dentro de si, que lhe permite conhecer, discernir e orientar-se. É o reflexo da Luz incriada no seu interior. Ela brilha e aquece, e quer dissipar as trevas da mente e a frieza do coração. O principal obstáculo a ser vencido pela Luz é o egoísmo. Por ele, nós nos fechamos em nosso pequeno mundo, fantasioso e inconsistente; deixamos de olhar para a Fonte, que é Deus. Fechamo-nos em nossas trevas e em nossa frieza. Sofremos porque nos afastamos da Luz e ocultamos a sua luz em nós. Deus é o Ser originário e incriado. É o Infinito do qual sentimos saudades. Ele nos criou para que o busquemos livremente, cada vez mais, com a ajuda indispensável da sua graça e do seu amparo, a fim de participarmos de sua Vida luminosa e amorosa – Vida feliz! Todo o universo criado é pequeno demais para preencher o espaço infinito que constitui o nosso espírito. Desejamos, consciente ou inconscientemente, a Realidade verdadeira, a plenitude do Ser. Só Deus e nossa transformação em De...

Ultrapassar o ego

Se há algo que acomuna todas as grandes religiões, parece ser a necessidade de ultrapassar o ego. O ego, com seus interesses mesquinhos, sua visão míope e sua mentalidade estreita, deve ceder espaço ao divino. São Paulo o experienciou muito bem quando disse já não ser ele que vivia, mas Cristo nele. A consciência pequena deve deixar-se ultrapassar pela consciência grande. O homem deve reconhecer os valores que o ultrapassam como mero indivíduo e o introduzem conscientemente no horizonte do Ser e na comunhão do Todo .   No entanto, para que o homem se desapegue do seu ego, é inevitável a crise . Esta tem por função sacudir o ego e feri-lo, de modo que seja reconhecido impotente e frágil, incapaz de salvação. É então que o homem perderá sua identificação com as estreitezas do ego para alojar-se num mais amplo espaço do espírito. Perdido o ego, o homem ganhará o que está para além do ego.   O ego é o eterno insatisfeito. É carente, quer atenção, busca destacar-se… Tudo isso porqu...

A mística: deixar-se perder na divindade

A mística, que é o fim supremo da vida cristã, não tem nada a ver com aparições, visões, êxtases ou fenômenos extraordinários. Se acontecem essas coisas, trata-se de algo secundário, que não constitui a essência mesma da mística. Esta é um perder-se na divindade, um deixar- se absorver no oceano sem limites do Ser ( pelagus essendi ), que é também Amor ( ignis ardens caritatis ). A mística pode adquirir feições mais intelectuais, mais afetivas ou mais práticas, mas em uma forma ou outra sempre terá a dimensão da visão: é preciso estar consciente da quase fusão com a divindade, vendo com os olhos da alma a sua Beleza; a dimensão do coração: a união com o Absoluto é tão transformante que reordena os afetos da alma, que se concentra tanto na fonte do Amor ( ignis originarius ) que acaba quase não mais sentindo aquela necessidade própria do homem de receber dos outros algum afeto para que possa transmitir afeto; a alma se sente plena e transbordante do afeto divino; e a dimensão do agir: a...

Vocacionados à União

  «Foi bom para mim ser humilhado, para aprender teus estatutos» (Sl 119,71). Como o homem, nascido nas baixezas da imperfeição e da ignorância, poderá alçar-se às alturas da sabedoria e da beatitude divina? Não são somente as espiritualidades orientais, (como o hinduísmo ou o budismo) que falam da iluminação ou da mudança de consciência que não só nos liberta, mas nos introduz na plenitude divina ou na Vida da nossa vida. Para o cristianismo, a divinização é a grande vocação do homem. Divinizar-se é participar do que Deus é em si mesmo. É como que identificar-se com Deus. São João da Cruz usa expressões muito fortes; fala da transformação da alma em Deus e recorre à metáfora do fogo (Deus) que toca a madeira (homem) até que ela, não sem os ruídos que atestam sua transformação, expele toda a sua humidade e adquire cor enegrecida, para depois tornar-se quente e incandescente como o próprio fogo. A madeira como que se faz uma só coisa com o fogo. Como receber a graça da divinização?...

O Tudo e o nada. A mensagem mística de São João da Cruz

Quando diz que quem quiser possuir Tudo não deve querer possuir nada, o místico São João da Cruz não ensina a anulação do ego, como se isso fosse possível. Antes, ensina que a alma pode superar o ego, vivendo em outro nível de existência — a existência unida ao absoluto de Deus.   O ego não é eliminado, mas a pessoa deixa de identificar-se com o seu reduzido horizonte. Tudo o que o ego pensa, projeta, sente ou deseja no seu horizonte próprio, que é o horizonte espácio-temporal, é finito e caduco. O espaço não pode apresentar-nos um bem infinito nem o tempo um bem eterno. Finitude e caducidade são próprias do horizonte espácio-temporal. Quando o ego se move nesse horizonte sente-se à vontade, mas, ao fim e ao cabo, fica sempre desiludido e cheio de apreensões e tristezas. Ele não pode ter firme em suas mãos os bens que procura, porque são bens fugazes que o tempo destrói, nem encontra bem algum que o satisfaça, porque são bens finitos delimitados pelo espaço.   O ego deve deixa...

São João da Cruz, místico e doutor da Igreja

Memória: 14 de dezembro Viveu no século XVI. Com Santa Teresa de Jesus, empenhou-se pela reforma do Carmelo. Por isso foi incompreendido, perseguido e até encarcerado.  O que nele se destaca é a busca inquieta por Deus. Mas não se trata de uma busca qualquer. Muitos querem Deus, mas querem um Deus que transforme suas vidas em existências mais fáceis, com mais sucesso e mais reconhecimento. João da Cruz, não. Ele queria Deus mesmo, não os favores temporais de Deus. E estava consciente de que, ganhar a Deus, num mundo de pecado e com a natureza humana caída, não era coisa para preguiçosos. Desse modo, teria revelado a Jesus, numa aparição, o seu desejo: Patiar pro te - "Que eu saiba sofrer por ti!" Baseado na tradição da Igreja (soube assimilar também elementos vindos de fora) e na própria experiência, elaborou sua versão da ascensão mística:  Há duas noites na escalada da montanha da união com Deus: a noite ativa e a noite passiva. Noite é a metáfora escolhida para falar da a...