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A respeito da encíclica “Magnifica Humanitas”

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S. Gregório de Nissa e a escravidão

Gregório de Nissa foi um dos autores cristãos antigos mais radicais na crítica à escravidão. Em um contexto no qual a escravidão era considerada algo normal no mundo greco-romano — inclusive por muitos filósofos — ele formulou uma crítica profundamente teológica e antropológica à ideia de que um ser humano pudesse possuir outro. O texto mais famoso sobre isso aparece em suas Homilias sobre o Eclesiastes, especialmente comentando a frase bíblica: “Comprei servos e servas” (Ecl 2,7). Gregório reage com indignação. Ele pergunta: como alguém pode “comprar” um ser humano, se o homem foi criado à imagem de Deus? Quem poderia atribuir um preço àquilo que reflete o próprio Deus? A argumentação dele é impressionante para o século IV. Ele diz, em essência: Deus fez o homem livre; nenhum homem é senhor da natureza humana; vender ou comprar uma pessoa é usurpar um direito que pertence somente a Deus; reduzir alguém à condição de propriedade é uma violência contra a imagem divina. Gregório chega a ...

Transformação em Deus: fonte de vida e renovação

Há momentos em que se tem a impressão de que a vida cristã contemporânea se tornou excessivamente ocupada consigo mesma. Multiplicam-se reuniões, planejamentos, projetos, estratégias pastorais, metodologias de gestão, técnicas de comunicação, iniciativas de visibilidade e eficiência. Em muitos ambientes eclesiais, parece haver uma preocupação constante com organização, desempenho e resultados. Em outros, observa-se uma forte centralidade da emoção religiosa: experiências afetivas intensas, entusiasmo devocional, busca de consolações espirituais e de sentimentos de pertença. Tudo isso possui seu lugar e sua legitimidade relativa. A Igreja, enquanto realidade histórica, necessariamente se organiza; e a experiência religiosa toca também a dimensão afetiva do ser humano. Contudo, permanece a pergunta: onde está o caminho da transformação interior? Onde está a busca silenciosa da união com Deus?  Os grandes místicos cristãos recordam que o centro da vida espiritual não consiste nem na e...

Doutrina mística de S. João da Cruz

A doutrina mística de São João da Cruz pode ser resumida como o caminho da alma para a união de amor com Deus. Essa união não é apenas conhecimento intelectual nem emoção religiosa, mas transformação profunda da pessoa pela graça. O ponto central é a purificação. Para unir-se a Deus, a alma precisa ser libertada de apegos desordenados: aos bens, às consolações, às imagens, às ideias, até mesmo aos gostos espirituais. Por isso ele fala da “noite escura”: uma passagem dolorosa, mas purificadora, em que Deus retira apoios sensíveis e interiores para conduzir a alma a uma fé mais pura. Há duas grandes noites: a noite dos sentidos, que purifica desejos, afetos e consolações sensíveis; e a noite do espírito, mais profunda, que purifica inteligência, memória e vontade. Nessa segunda noite, a alma experimenta aridez, obscuridade e aparente abandono, mas Deus está agindo mais profundamente. As três virtudes teologais são o eixo do caminho: pela fé, a inteligência entra na obscuridade luminosa d...

Saber técnico, saber ético e saber metafísico

A vida humana se articula em ao menos três grandes formas de saber: o saber técnico, o saber ético e o saber metafísico. Cada uma dessas dimensões corresponde a um modo fundamental de nossa presença no real e exprime uma potência própria do espírito. O saber técnico está ligado ao fazer; o saber ético, ao agir; e o saber metafísico, ao contemplar. Nessa tríplice estrutura, o homem se mostra não apenas como ser que opera, mas como ser que escolhe e como ser que admira. Pelo fazer, entramos em relação com os objetos do mundo. Manipulamos a matéria, organizamos meios, produzimos instrumentos, transformamos a natureza e damos forma à cultura. O saber técnico é indispensável à vida humana, pois por ele construímos casas, desenvolvemos a ciência, curamos doenças, organizamos cidades e multiplicamos as possibilidades de ação. Trata-se do domínio da eficácia, da produção e da intervenção sobre o real. Entretanto, o homem não vive apenas de meios. O simples saber fazer algo não responde, por si...

A lógica da eficiência, o domínio da técnica e o esquecimento da contemplação

A lógica que parece dominar o mundo contemporâneo é, antes de tudo, a lógica da eficiência . Trata-se de uma racionalidade que valoriza, acima de qualquer outro critério, a capacidade de produzir resultados, otimizar processos e alcançar objetivos com o máximo de rendimento possível. Essa lógica manifesta-se de modo particularmente visível no sistema econômico moderno, cuja dinâmica se estrutura em torno da produtividade , da utilidade e da maximização de resultados . No entanto, seria um equívoco pensar que essa lógica pertence exclusivamente ao capitalismo. Na realidade, ela expressa algo mais amplo: uma verdadeira ideologia da eficiência . Segundo essa ideologia, o valor das coisas tende a ser medido pela sua utilidade, pela sua funcionalidade ou pelo seu desempenho. Tudo passa a ser avaliado segundo critérios operacionais: o que serve, o que funciona, o que produz efeitos mensuráveis. Nesse horizonte, prevalece aquilo que muitos pensadores chamaram de razão instrumental , isto é, ...

A afirmação de Deus como pressuposto absoluto da razão

Claude Bruaire, filósofo BRUAIRE, Claude. Pour la métaphysique . Fayard, 1980, 45-65.  C. Bruaire examina a existência de Deus e propõe um argumento ontológico renovado, baseado da exigência mais profunda da razão. Se a razão não tiver um fundamento absoluto, não colocado pelo sujeito finito, então seu discurso cairá inevitavelmente no subjetivismo e no ceticismo. Mas o fundamento da razão, sendo absoluto, só pode ser Liberdade absoluta, que comunica a zona trascendental de sentido à razão. Subjetividade absoluta que funda a subjetividade finita. Uma Liberdade absoluta é sinônimo de autodeterminação e, por, conseguinte, só pode ser pensada como existente.  1. Introdução: O problema radical como fundamento da filosofia      A filosofia, em sua tradição ocidental, encontra na questão da existência de Deus um ponto de tensão irredutível que define sua própria possibilidade como discurso racional. C. Bruaire articula uma defesa profunda da certeza filosófica como ac...

Escatologia intermediária: visão de Deus e espera da ressurreição final

A fé cristã afirma, desde os seus primórdios, que a morte não é o termo último da existência humana. No entanto, essa afirmação não implica que a ressurreição se dê imediatamente após a morte, nem que ela consista numa simples revivificação do cadáver, como se o destino final do homem fosse uma repetição ampliada da vida biológica. Pelo contrário, uma compreensão mais profunda da escatologia cristã exige distinguir claramente entre o estado intermediário após a morte, em que o eu subsiste e pode aceder à gloria da visão de Deus, e a ressurreição plena no fim dos tempos, bem como entre ressurreição e mera volta à vida como se dá neste mundo. 1. A escatologia intermediária: sair do tempo cronológico Quando o ser humano morre, ele deixa o tempo cronológico, sucessivo, mensurável como o conhecemos — o tempo da história tal como a vivemos neste mundo. A morte marca a passagem para uma outra modalidade de temporalidade, que pode ser chamada de tempo psíquico ou tempo do espírito. Seguindo a...