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Católico pode votar em partidos de esquerda?

A IGREJA PROÍBE VOTAR EM PARTIDOS DE ESQUERDA? O QUE DIZEM O MAGISTÉRIO E O DIREITO CANÔNICO Nos últimos tempos, muita gente tem afirmado que "católico não pode votar na esquerda" e que quem o faz estaria automaticamente excomungado. O tema é sério e merece ser tratado com precisão, a partir dos próprios documentos da Igreja. 1. A CONDENAÇÃO DOUTRINAL DO COMUNISMO CONTINUA DE PÉ Desde Pio IX (Qui pluribus, 1846), passando por Leão XIII (Rerum novarum, 1891), os Papas condenam o comunismo como sistema contrário ao direito natural. Pio XI, em Quadragesimo anno (1931), afirma que socialismo e catolicismo, entendidos em sentido próprio, são inconciliáveis, porque o socialismo concebe a sociedade de modo alheio à verdade cristã. Em Divini Redemptoris (1937), chama o comunismo de "intrinsecamente perverso", por seu materialismo dialético, pela luta de classes como motor da história e pela negação de Deus, da pessoa e da família. João Paulo II, em Centesimus annus (1991), ...

"Des"-sacerdotalizar o ministério presbiteral - Uma resenha

COSTADOAT, Jorge. «Desacerdotalizar» el ministerio presbiteral: un horizonte para la formación de los seminaristas. Seminarios , Madrid, v. 67, n. 231, p. 249-267, 2022. DOI: 10.52039/seminarios.v67i231.1526. 1. Apresentação Jorge Costadoat é teólogo da Pontificia Universidad Católica de Chile. Neste artigo, ele parte da crise dos abusos sexuais, de poder e de consciência cometidos por clérigos para diagnosticar um problema de fundo: a progressiva "sacerdotalização" do ministério presbiteral. Sua proposta é repensar a formação dos seminaristas a partir de uma volta às origens do ministério ordenado. 2. Conceitos-chave Sacerdotalização. É o processo histórico pelo qual se passou a nomear os ministérios cristãos com vocabulário sacerdotal e a compreender seus titulares como sacerdotes em sentido cultual. Nesse sentido, o sacerdote é visto como mediador separado do povo, encarregado do sagrado. Desacerdotalização. É o movimento inverso proposto pelo autor. Não se trata de...

SÍNTESE DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA

1. O QUE É A DOUTRINA SOCIAL E COMO ELA FUNCIONA A Doutrina Social da Igreja não é um terceiro sistema entre capitalismo e socialismo, nem um receituário técnico de política econômica. É teologia moral aplicada à vida social: a leitura das transformações históricas à luz do Evangelho, com o auxílio da razão e das ciências humanas. Daí seu método clássico, consagrado pelo Concílio Vaticano II mas já operante desde Leão XIII: ver, julgar e agir. Ver, com competência humana, o que de fato acontece; julgar, com o critério evangélico, o que humaniza e o que desumaniza; agir, com responsabilidade histórica concreta. Esse método explica por que a Doutrina Social é ao mesmo tempo permanente nos princípios e mutável nas aplicações. Os enunciados fundamentais não mudam; os diagnósticos acompanham a história. 2. A FASE FUNDACIONAL: DA QUESTÃO OPERÁRIA À QUESTÃO DAS ESTRUTURAS Leão XIII, na Rerum Novarum de 1891, inaugura o percurso. Põe no centro a dignidade do trabalho e do trabalhador, o salár...

Deus é Trindade: uma abordagem filosófico-teológica

I. A questão terminológica: hypóstasis , persona e subsistência A afirmação cristã de que Deus é Trindade tem sido sistematicamente mal compreendida — tanto por seus críticos quanto, por vezes, por seus próprios professores — em razão de uma imprecisão no uso do conceito de pessoa. Quando os Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (381) definiram a fé trinitária, recorreram ao vocábulo grego hypóstasis para designar aquilo que distingue o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Este termo, traduzido para o latim como persona e daí para as línguas modernas como “pessoa”, carrega um sentido técnico preciso que não deve ser confundido com o uso corrente do vocábulo: hypóstasis significa subsistência, isto é, aquilo que existe em si e por si, de modo estável e permanente, como modo real de ser de uma natureza. Dizer, portanto, que em Deus há três pessoas não equivale a afirmar que há três indivíduos distintos, três centros de consciência separados ou três divindades justapostas — o que seria...

A respeito da encíclica “Magnifica Humanitas”

A encíclica Magnifica Humanitas , do Papa Leão XIV, dedicada à inteligência artificial, representa uma das intervenções mais importantes recentes da Igreja no debate sobre tecnologia e humanidade. Longe de assumir uma postura meramente alarmista ou tecnofóbica, o documento procura discernir, à luz da tradição cristã e da doutrina social da Igreja, as possibilidades e os riscos da nova revolução tecnológica. Entretanto, o núcleo mais profundo da encíclica não é tecnológico, mas antropológico e metafísico: quem é o homem diante da ascensão das inteligências artificiais? O primeiro grande eixo do documento é a defesa da dignidade humana. A encíclica insiste que o valor da pessoa não pode ser reduzido à produtividade, à eficiência ou à capacidade de desempenho. Em uma civilização cada vez mais marcada pela lógica algorítmica, existe o risco de interpretar o próprio homem como sistema operacional sofisticado, avaliável segundo métricas de rendimento, adaptação e utilidade. Contra isso, o P...

S. Gregório de Nissa e a escravidão

Gregório de Nissa foi um dos autores cristãos antigos mais radicais na crítica à escravidão. Em um contexto no qual a escravidão era considerada algo normal no mundo greco-romano — inclusive por muitos filósofos — ele formulou uma crítica profundamente teológica e antropológica à ideia de que um ser humano pudesse possuir outro. O texto mais famoso sobre isso aparece em suas Homilias sobre o Eclesiastes, especialmente comentando a frase bíblica: “Comprei servos e servas” (Ecl 2,7). Gregório reage com indignação. Ele pergunta: como alguém pode “comprar” um ser humano, se o homem foi criado à imagem de Deus? Quem poderia atribuir um preço àquilo que reflete o próprio Deus? A argumentação dele é impressionante para o século IV. Ele diz, em essência: Deus fez o homem livre; nenhum homem é senhor da natureza humana; vender ou comprar uma pessoa é usurpar um direito que pertence somente a Deus; reduzir alguém à condição de propriedade é uma violência contra a imagem divina. Gregório chega a ...

Transformação em Deus: fonte de vida e renovação

Há momentos em que se tem a impressão de que a vida cristã contemporânea se tornou excessivamente ocupada consigo mesma. Multiplicam-se reuniões, planejamentos, projetos, estratégias pastorais, metodologias de gestão, técnicas de comunicação, iniciativas de visibilidade e eficiência. Em muitos ambientes eclesiais, parece haver uma preocupação constante com organização, desempenho e resultados. Em outros, observa-se uma forte centralidade da emoção religiosa: experiências afetivas intensas, entusiasmo devocional, busca de consolações espirituais e de sentimentos de pertença. Tudo isso possui seu lugar e sua legitimidade relativa. A Igreja, enquanto realidade histórica, necessariamente se organiza; e a experiência religiosa toca também a dimensão afetiva do ser humano. Contudo, permanece a pergunta: onde está o caminho da transformação interior? Onde está a busca silenciosa da união com Deus?  Os grandes místicos cristãos recordam que o centro da vida espiritual não consiste nem na e...