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O ser humano como corpo, psiquismo e espírito

O ser humano é expressividade . É vida que age, e, agindo, se constrói e se conhece na relação com o mundo, com os outros e com o divino, já que vive num horizonte aberto ao infinito .  De forma mais imediata, o ser humano se conhece como corpo. O corpo é o lugar de sua expressão no mundo. O corpo aqui não é o simples objeto da ciência biológica nem da anatomia. É o corpo vivido como corpo próprio . Pelo corpo, tenho uma história — a história da espécie humana e a história familiar. É através do corpo que posso dizer onde e quando nasci e apontar o lugar e o tempo em que vivo. A vida corporal me faz um ser no mundo, existindo nas coordenadas do espaço e do tempo.  Mas a expressão do ser humano não se identifica totalmente com o corpo. Ele se percebe como corpo, mas não somente como corpo. O ser humano se percebe também como psiquismo . Ele sente, prova emoções, tem memória e vive de acordo com seus projetos. Ele imagina e deseja. Tem ideias e conhece coisas e pessoas. Embora possa exp
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Nota sobre a “Suma de teologia”

A Suma de Teologia,  de Santo Tomás, é uma obra, evidentemente, de teologia. Segue o método teológico tal como era considerado no tempo de S. Tomás. Isso significa dizer que o discurso parte de Deus considerado em si mesmo, tal como se deu a conhecer pela revelação histórica dos patriarcas, de Moisés, dos profetas, de Jesus e dos apóstolos, cujo depósito foi confiado à Igreja, para que o guardasse e anunciasse.  Assim, Tomás começa a obra falando de Deus. Se fosse uma obra de filosofia, a teria começado pela consideração do mundo e do homem.  Quando trata de Deus, Tomás, no entanto, para fazer ver que o que propõe a fé católica não está em contradição com a razão, vale-se de argumentações filosóficas e de analogias delineadas pela razão.  Assim, ao tratar da unicidade e unidade de Deus (Deus que é único e uno), primeiro Tomás procura fazer ver que a razão humana oferece caminhos para afirmar a existência de um Princípio transcendente  (que explica metafisicamente o movimento, a causali

A justiça social

 Por muito tempo, durante toda a modernidade, a teologia moral social privilegiou a consideração da justiça comutativa, que é a justiça que trata da igualdade ou proporcionalidade entre bens que se trocam, se vendem e se compram, ou entre contratos que se fazem, de pessoas para pessoas, físicas ou jurídicas. O objetivo da justiça comutativa é que as pessoas não sejam lesadas em seus direitos particulares. As relações de pessoas para pessoas são relações particulares.  No entanto, no século XIX, veio à tona um outro tipo de justiça, mais fundamental e determinante. Trata-se da justiça social . Esta não está confinada a relações meramente particulares, mas tem em vista a sociedade como um todo. Percebeu-se que há uma estrutura social, amparada por leis ou costumes, que condiciona universalmente a vida das pessoas antes de determinar as relações particulares entre elas. Essa estrutura pode ser justa ou injusta. Será injusta se não garantir a alguns membros da sociedade (minorias ou a ampl

O homem e a religião

Se não encontramos em nós mesmos as condições de possibilidade de receber uma luz de ordem metafísica; mais: se não reconhecemos em nós uma abertura dinâmica, um movimento para uma luz que em si mesma ultrapassa todas as exigências e expectativas puramente humano-mundanas; ou seja, se não reconhecermos que estamos já, de alguma maneira, para além do mundano e do meramente humano, todo o discurso da religião, com suas narrativas e dogmas, de modo especial nestes tempos de grandes mudanças, soará como obsoleto. Ou então estará simplesmente entregue ao sentimentalismo que não convence os espíritos mais exigentes ou ao fanatismo ou ao fundamentalismo que o desfiguram.  A revelação cristã não é simplesmente um pacote que cai abruptamente do céu sem nenhuma relação com o que o homem é em sua constituição íntima. Embora o conteúdo ou a finalidade da revelação ultrapasse toda medida humana, pois, em última análise, o seu objeto é a transformação em Deus, é graça pura, ela não encontra na const

Quem é Padre da Igreja?

Marta e Maria, atividade e repouso

Marta e Maria podem representar dois estilos de vida — o ativo e o contemplativo.  A realidade consta de duas dimensões: 1) A dimensão originária, primária, não derivada, que se basta a si mesma. 2) A dimensão emanada, secundária, derivada, que depende da primeira.  A dimensão originária é o Real propriamente dito. É o que chamamos de Deus. Essa dimensão é paz, quietude, repouso, bem-aventurança! É a eterna luz do Ser em sua verdade, o eterno regozijo do Ser em sua bondade.  A dimensão emanada é real por participação. É o universo criado. Essa dimensão é marcada pela dualidade, finitude e limitação. Tem algo do Ser, mas não é o Ser. Experimenta algo da plenitude, mas sofre também com a falta. É marcada pela alegria e tristeza, vitória e derrota, gozo e dor.  Por causa da não plenitude, a dimensão derivada tem de mover-se para ser mais. Tem de transpor obstáculos. Tem de crescer. Tem de tomar consciência e decidir livremente.  A dimensão originária cria a dimensão emanada para que esta

Ultrapassar o ego

Se há algo que acomuna todas as grandes religiões, parece ser a necessidade de ultrapassar o ego. O ego, com seus interesses mesquinhos, sua visão míope e sua mentalidade estreita, deve ceder espaço ao divino. São Paulo o experienciou muito bem quando disse já não ser ele que vivia, mas Cristo nele. A consciência pequena deve deixar-se ultrapassar pela consciência grande. O homem deve reconhecer os valores que o ultrapassam como mero indivíduo e o introduzem conscientemente no horizonte do Ser e na comunhão do Todo .   No entanto, para que o homem se desapegue do seu ego, é inevitável a crise . Esta tem por função sacudir o ego e feri-lo, de modo que seja reconhecido impotente e frágil, incapaz de salvação. É então que o homem perderá sua identificação com as estreitezas do ego para alojar-se num mais amplo espaço do espírito. Perdido o ego, o homem ganhará o que está para além do ego.   O ego é o eterno insatisfeito. É carente, quer atenção, busca destacar-se… Tudo isso porque é essen