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O homem e a religião

Se não encontramos em nós mesmos as condições de possibilidade de receber uma luz de ordem metafísica; mais: se não reconhecemos em nós uma abertura dinâmica, um movimento para uma luz que em si mesma ultrapassa todas as exigências e expectativas puramente humano-mundanas; ou seja, se não reconhecermos que estamos já, de alguma maneira, para além do mundano e do meramente humano, todo o discurso da religião, com suas narrativas e dogmas, de modo especial nestes tempos de grandes mudanças, soará como obsoleto. Ou então estará simplesmente entregue ao sentimentalismo que não convence os espíritos mais exigentes ou ao fanatismo ou ao fundamentalismo que o desfiguram.  A revelação cristã não é simplesmente um pacote que cai abruptamente do céu sem nenhuma relação com o que o homem é em sua constituição íntima. Embora o conteúdo ou a finalidade da revelação ultrapasse toda medida humana, pois, em última análise, o seu objeto é a transformação em Deus, é graça pura, ela não encontra na const
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Quem é Padre da Igreja?

Marta e Maria, atividade e repouso

Marta e Maria podem representar dois estilos de vida — o ativo e o contemplativo.  A realidade consta de duas dimensões: 1) A dimensão originária, primária, não derivada, que se basta a si mesma. 2) A dimensão emanada, secundária, derivada, que depende da primeira.  A dimensão originária é o Real propriamente dito. É o que chamamos de Deus. Essa dimensão é paz, quietude, repouso, bem-aventurança! É a eterna luz do Ser em sua verdade, o eterno regozijo do Ser em sua bondade.  A dimensão emanada é real por participação. É o universo criado. Essa dimensão é marcada pela dualidade, finitude e limitação. Tem algo do Ser, mas não é o Ser. Experimenta algo da plenitude, mas sofre também com a falta. É marcada pela alegria e tristeza, vitória e derrota, gozo e dor.  Por causa da não plenitude, a dimensão derivada tem de mover-se para ser mais. Tem de transpor obstáculos. Tem de crescer. Tem de tomar consciência e decidir livremente.  A dimensão originária cria a dimensão emanada para que esta

Ultrapassar o ego

Se há algo que acomuna todas as grandes religiões, parece ser a necessidade de ultrapassar o ego. O ego, com seus interesses mesquinhos, sua visão míope e sua mentalidade estreita, deve ceder espaço ao divino. São Paulo o experienciou muito bem quando disse já não ser ele que vivia, mas Cristo nele. A consciência pequena deve deixar-se ultrapassar pela consciência grande. O homem deve reconhecer os valores que o ultrapassam como mero indivíduo e o introduzem conscientemente no horizonte do Ser e na comunhão do Todo .   No entanto, para que o homem se desapegue do seu ego, é inevitável a crise . Esta tem por função sacudir o ego e feri-lo, de modo que seja reconhecido impotente e frágil, incapaz de salvação. É então que o homem perderá sua identificação com as estreitezas do ego para alojar-se num mais amplo espaço do espírito. Perdido o ego, o homem ganhará o que está para além do ego.   O ego é o eterno insatisfeito. É carente, quer atenção, busca destacar-se… Tudo isso porque é essen

Saber viver

 Desde o advento da ciência moderna no séc. XVII, que, não se pode negar, trouxe muitos benefícios para a humanidade, vivemos no contínuo perigo de nos deixar arrastar pela sensação de que tudo podemos, de que o homem é o único criador de si mesmo e de seu mundo.  É verdade que essa sensação de onipotência foi contraditada, sobretudo pelas duas grandes guerras do séc. XX, que mostraram com intensidade o seu poder destruidor. O homem que acreditava cegamente na ideologia iluminista do progresso irrevogável acabou por confrontar-se com seus limites, de modo especial com os limites que traz dentro de si, porque o homem não é somente capaz do bem; é também capaz do mal. Não é só criador, mas é também destruidor. E, nesse sentido, deve continuamente buscar forças que o purifiquem, afastando-o do mal e encaminhando-o para o bem. Como quer que seja, o grande legado da revolução científica é a produção e o consumo de bens, o que coloca o mundo num dinamismo tal que a vida passa a ser regida fu

A Vida que dá vida ao mundo

O mundo é um fluxo contínuo. As galáxias se expandem, as estrelas giram em torno do centro de suas galáxias e os planetas, em torno do centro das estrelas, que, antes de apagarem-se, nascem e irradiam luz. A vegetação, como os animais aquáticos, voláteis e terrestres, têm o ciclo de sua vida, e as gerações sucedem-se segundo os seus ritmos em tempos indefinidos. O homem traz o clarão da consciência para o centro do universo, procura lançar o olhar sobre a parte e o todo e é capaz de maravilhar-se na presença do que existe. Por detrás de tudo o que é e se move em seu incessante dinamismo, está a Vida, a Causa transcendente e imanente da vida do inteiro mundo. A Vida é invisível aos olhos sensíveis, mas é a Realidade mais real, que dá origem e sustenta o espetáculo do universo com tudo o que ele encerra. A Vida é reconhecível pelo espírito, abertura infinita ao Infinito. A Vida mostra-se, de alguma maneira, em tudo aquilo que aparece, mas ela, em si mesma, é Vida escondida ( Deus abscond

A imagem de Deus está mudando?

Eu diria que não temos acesso direto ao Ser divino. Ele se mostra conforme nossa capacidade de percepção, de investigar (no caso da filosofia) ou de receber (no caso da teologia). Cada cultura ou cada pessoa faz, então, uma “imagem” de Deus. Uso aqui o termo imagem em sentido amplo. Abarca as representações imagéticas ainda não muito conscientes de seu caráter metafórico, as metáforas conscientes de si mesmas, até os conceitos refinados da filosofia e teologia. Estas pretendem alcançar ou expressar algo de estável e eterno sobre a imagem de Deus pelo alto grau de abstração e formalidade que alcançam, mas mesmo assim trazem alguma marca da história e da cultura.   Assim, a imagem de Deus que temos hoje não é exatamente a mesma que tinham os primeiros hebreus henoteístas ou os primeiros judeus monoteístas. Para os cristãos, Jesus, embora falasse a partir de sua cultura judaica, renovou a imagem de Deus, acentuando a gratuidade e a misericórdia divina, que não eram desconhecidas, e a cent