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Mostrando postagens de dezembro, 2008

O drama do mal

A presença do mal no mundo é inquietante e desafiadora. Inquietante porque não nos rendemos à vitória final do mal, uma vez que uma forte orientação para o bem habita em nós. Desafiadora porque essa mesma orientação ao Bem infinito nos leva, ou ao menos deveria levar, a combatê-lo enquanto puderem nossas forças. Ao cristão e a todo aquele que professa a existência de Deus criador, que é a Bondade mesma e a Beleza mesma, surge a grande questão: se Deus é bom, de onde vem o mal? Se a criação é ontologicamente boa e bela, já que é fruto da Bondade e da Beleza, por que há nela o mal e a fealdade? O conceito de mal não é unívoco. Por isso, é comum distinguir o mal físico, o mal psíquico e o mal moral. Todos os tipos de mal, entretanto, fazem referência a uma só realidade: a dor. O conceito de mal é análogo porque todo tipo de mal refere-se à dor. A dor é o grande escândalo. E a dor do inocente é muito repugnante. Em termos metafísicos, devemos dizer que o mal subsistente, o puro mal, não

O triunfo final e glorioso da Beleza

Em Jesus Cristo, o Último já se manifestou no mundo. O aparecimento de Jesus imprime à história sua orientação decisiva. O anúncio do Evangelho, os milagres, o Mistério Pascal, mormente a ressurreição, são os sinais certíssimos de que Deus age no mundo de uma maneira nova em vista da consumação perfeita de seu plano. O tempo da Igreja já são tempos escatológicos, embora ainda não se tenham manifestado plenamente os novos céus e nova terra [1] de que fala a Escritura. Com efeito, esperamos ainda a manifestação gloriosa do Senhor a fim de transfigurar, de maneira nova e inusitada, este mundo na e pela Beleza divina. A irrupção de Cristo, o Último , na história leva-nos naturalmente a perguntar pelas últimas coisas que nos aguardam, seja no fim da vida terrestre do homem (escatologia individual), seja no fim da história (escatologia coletiva, final ou cósmica). Ressalte-se que a esperança cristã na manifestação das últimas coisas está ancorada no poder de Deus, de modo que não é esper

Santo Agostinho e o filosofar na fé

Agostinho pertence ao período patrístico (séc. II-VIII), época em que certos cristãos doutos (chamados “Padres da Igreja”) elaboraram a sistematização da doutrina pregada por Jesus, consignada por escrito no Novo Testamento e confiada à custódia da Igreja. Essa sistematização se deu sob o embate provocado pelo encontro da mensagem bíblica e a filosofia grega. Os Padres da Igreja serviram-se de categorias da filosofia grega e mesmo de certas teses filosóficas para transmitir e tornar compreensível no mundo greco-romano, sem comprometer seu conteúdo, a doutrina religiosa de Jesus e da Igreja. Desse grande encontro entre cultura bíblica e grega nasceu nossa civilização ocidental, assinalada pela proposta da mensagem cristã e pelo ideal grego da razão. Santo Agostinho representa a experiência mais bem sucedida desse encontro. A sua obra constitui a base cultural de nossa civilização, informando-a até nossos dias. De pai pagão e mãe cristã, Agostinho nasceu em Tagasta (África) em 354 d.C

O valor da filosofia

. Em geral, as pessoas não se interessam pelo cultivo da filosofia. Não raro ouço alguém dizer: "Filosofia não serve para nada". Mas quem faz afirmações como essa nunca se dedicou à filosofia. Será que sua palavra deve ser levada a sério? Claro que não. Entretanto, uma coisa é interessante: Por que tais afirmações andam de boca em boca? É porque nossa cultura, tão marcada pelo pragmatismo ou utilitarismo, costuma valorizar tão somente aquilo que dá resultados práticos ou úteis à vida material: poder, honra, riquezas, prazer imediato. Ora, a filosofia não está interessada, em primeiro lugar, em alcançar resultados práticos. A filosofia verdadeiramente digna desse nome é busca de sabedoria; quer, antes de tudo, conhecer a razão de ser das coisas; anela um saber desinteressado, isto é, almeja conhecer pelo simples fato de conhecer. Conhecer a razão de ser das coisas é um desejo que está profundamente arraigado na alma humana. "O homem é ávido de saber" (Aristóteles)

Existência de Deus

. A existência de Deus é também uma questão filosófica, não só teológica. A nosso ver, foi Santo Tomás de Aquino (séc. XIII), grande gênio filosófico e teológico, quem condensou os argumentos filosóficos mais pertinentes para provar a existência de Deus: são as famosas cinco vias , que se encontram sintetizadas logo no início da grande obra do santo doutor, a Suma Teológica . A primeira via parte do fato de que neste mundo há movimento (toda e qualquer passagem da potência ao ato ). Ora, nada pode ser, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, movente e movido, ou estar em potência e em ato; nada pode ser a causa do próprio movimento, e, então, é necessário admitir que tudo o que se move é movido por outro . Assim, se uma coisa qualquer se move, é necessário que ela se mova por outra, e essa outra por outra ainda. Mas, assim, não se pode ir ao infinito, pois é necessário admitir uma fonte absoluta do movimento. Se não existisse uma tal fonte, o movimento que há no mundo não seria inteli

Bento XVI fala sobre o amor - Encíclica "Deus caritas est"

Introdução  Na Solenidade do Natal do Senhor de 2005, o Santo Padre Bento XVI assinou sua primeira carta encíclica, endereçada a todo orbe católico. O documento veio a lume no dia 25 de janeiro, festa da conversão do apóstolo Paulo, e traz o título Deus Caritas est (Deus é Amor). O tema escolhido foi o amor cristão, como já indica o título da encíclica. Tema de capital importância para a vida cristã, já que "Deus é Amor" (1Jo 14,6). Quem quiser se aprofundar no conhecimento do verdadeiro Deus que se nos revelou no evento Jesus Cristo e no conhecimento de quem nós mesmos somos, não deve descurar da reflexão sobre o amor.  O multiforme uso da palavra amor  Muita preocupação causava ao Santo Padre o fato de a palavra amor já não se apresentar com a plenitude de seu mais legítimo significado entre nós. Muitas vezes se abusa da palavra, fazendo-a até mesmo dizer aquilo que, em última análise, contraria seu significado profundo. Diz Bento XVI: "O termo 'amor' tornou

Ensinamento social dos Papas

. Papa Leão XIII (1878-1903) A Igreja católica, por sua índole, tem como principal missão, decorrente do mandato mesmo de seu divino fundador, santificar as almas e fazê-las participar dos bens sobrenaturais a que são chamadas, convidando todo homem “a elevar o pensamento, das condições mutáveis da vida terrena às alturas da vida eterna, onde encontrará, sem limites, a plenitude da felicidade e da paz” (Beato João XXIII, Mater et Magistra , n.º2).  Não obstante, a Igreja não deixa de preocupar-se com as condições de vida concernentes à ordem temporal, isto é, com aquilo que diz respeito ao progresso e problemas da civilização. Ao longo de seus dois mil anos de história, a Igreja realizou obras caritativas de assistência e de promoção social que, deve-se reconhecer, são o sinal e o testemunho certíssimo de sua solicitude pela questão social. Um marco reconhecidamente monumental dessa solicitude da Igreja é, sem dúvida, a carta encíclica do saudoso Papa Leão XIII, de bem-aventurada memó

Transubstanciação: O que é?

. Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS” D. Estevão Bettencourt, osb. Nº 473 – Outubro - Ano 2001 – Pág. 475 a 479 Em síntese: A palavra “transubstanciação” exprime a conversão da substância ou da realidade íntima do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo. A verdade assim formulada está nos escritos do Novo Testamento (cf. Mt 26,26-28 e paralelos), foi aprofundada na teologia posterior, que recorreu a um termo próprio para significar o mistério da fé. – O artigo subsequente explana a história e o sentido do vocábulo “transubstanciação”. * * * Frente a cristãos que rejeitam o vocábulo “transubstanciação”, o presente artigo expõe o significado desta palavra após esboçar o seu histórico. A presença real do Senhor na Eucaristia é professada como consequência da transubstanciação do pão e do vinho, ou seja, consequência da conversão da substância do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo. O termo transubstanciação, na linguagem teológica, só se tornou corrente a partir do

A vocação da filosofia

. A filosofia já conta com 2500 anos de história. Essa longa trajetória é já uma insígnia de que se orgulhar. E, apesar de tão longa existência, são muitos os que ainda se perguntam sobre o sentido e o valor da filosofia. Na verdade, não é nada fácil definir a filosofia. Em geral, cada escola ou corrente filosófica trata de dar a sua definição, de acordo com a visão que tem de seu alcance. Hoje em dia, infelizmente, não são poucos os que acham que a hora da filosofia já passou, e que as diversas ciências tomaram o seu lugar. Nesse sentido, a filosofia seria um saber por demais especulativo, uma construção mental apenas, alicerçada não raro no vazio; um saber deficiente, cuja imprecisão viriam as ciências a corrigir com sua metodologia caracterizada pelo controle da verificação empírica. Entretanto, cabe-nos perguntar: O domínio do que se pode saber reduz-se apenas ao que se pode constatar empiricamente? O homem estaria condenado a lidar apenas com os fenômenos, sem poder lançar o olh

Que civilização queremos?

Nossa civilização ocidental passa por uma crise cujos contornos atingem, de maneira inédita, seus próprios fundamentos. Ora, todos sabemos que as bases constitutivas de nossa cultura ocidental estão na Grécia antiga, de um lado, e no cristianismo, que se difundiu pelo antigo Império Romano no início de nossa era, de outro. O que hoje está em jogo é exatamente a concepção que essas bases de nossa civilização apresentam sobre quem é o homem. Tanto a Grécia antiga, com a filosofia, quanto a fé cristã reconheceram o que se pode chamar de Transcendência. A Transcendência é uma Realidade que está acima do homem e do mundo, e é o fundamento de ambos. É o que podemos também chamar de divino ou de Deus. A Grécia antiga elevou-se até a Transcendência através do pensamento. Exercitando a razão em busca da verdade, principalmente em seus mais ilustres representantes – Sócrates, Platão e Aristóteles -, a filosofia grega deparou-se com o Princípio e Fundamento de tudo, que Platão celebrou como Sum

Encíclica SPE SALVI: um ano depois

. Um ano depois de sua publicação, ocorrida aos 30 de novembro de 2007, cabe-nos perguntar: Quais são os frutos da grande encíclica de Bento XVI, a Spe salvi ? Sem dúvida, a encíclica semeou a alegria da existência cristã, confirmando nos corações a esperança que não decepciona, e, nesse sentido, tem produzido muitos frutos, ainda que sem alardes. . Entretanto, creio que os pastores bem como os teólogos e agentes de pastoral ainda não deram à encíclica o seu devido lugar na Igreja. Isso porque as grandes questões tratadas no texto pontifício não foram suficientemente levadas em consideração na reflexão teológica e na pastoral. Mereceriam maior atenção e destaque. Não podemos esquecer que a Spe salvi é uma pérola teológica e, para além dos legítimos debates e divergências de escolas teológicas, reflete o genuíno pensamento da Igreja, isto é, o pensamento de Cristo. Eis algumas das grandes questões ou pontos salientes apresentados à reflexão pela encíclica: a) “A ‘redenção’, a salvaçã