Pular para o conteúdo principal

O Tudo e o nada. A mensagem mística de São João da Cruz


Quando diz que quem quiser possuir Tudo não deve querer possuir nada, o místico São João da Cruz não ensina a anulação do ego, como se isso fosse possível. Antes, ensina que a alma pode superar o ego, vivendo em outro nível de existência — a existência unida ao absoluto de Deus.
 
O ego não é eliminado, mas a pessoa deixa de identificar-se com o seu reduzido horizonte. Tudo o que o ego pensa, projeta, sente ou deseja no seu horizonte próprio, que é o horizonte espácio-temporal, é finito e caduco. O espaço não pode apresentar-nos um bem infinito nem o tempo um bem eterno. Finitude e caducidade são próprias do horizonte espácio-temporal. Quando o ego se move nesse horizonte sente-se à vontade, mas, ao fim e ao cabo, fica sempre desiludido e cheio de apreensões e tristezas. Ele não pode ter firme em suas mãos os bens que procura, porque são bens fugazes que o tempo destrói, nem encontra bem algum que o satisfaça, porque são bens finitos delimitados pelo espaço.
 
O ego deve deixar-se superar pelo movimento da alma que ultrapassa o horizonte espácio-temporal. Wittgenstein já dizia que o sentido do tempo e do espaço está fora do tempo e do espaço. O eu mais profundo da alma (o Si mesmo) está ligado ao Eterno e o deseja, ainda que seja um desejo não refletido. O Si mesmo supera o ego deixando de identificar-se com ele e com seu horizonte próprio. São João da Cruz usa o verbo “querer” para falar desta desidentificação. “Se quiseres possuir Tudo, não queiras possuir nada”. Trata-se de soltar ou libertar-se da vontade ligada ao ego e de deixá-la mover-se pela graça que nela opera o desejo do Eterno. Trata-se de efetivar a vontade livre do horizonte espácio-temporal e orientata conscientemente ao Eterno. Não se trata de não possuir nada neste mundo — o que seria impossível —, mas de não identificar-se com essas posses. A alma unida ao Eterno é infinitamente mais do que qualquer posse dentro do espaço e do tempo, inclusive a posse de pensamentos, sentimentos, memórias e projetos, passado e futuro... Tudo é relativizado e perde a sua importância decisiva diante do Eterno.
 
Mas como libertar a vontade? Como superar o ego? Cada um terá seu caminho. São João da Cruz fala de “noites escuras”, umas em que o homem participa mais, outras em que o homem participa menos. As primeiras são as noites ativas (dos sentidos e do espírito). As segundas são as noites passivas (também dos sentidos e do espírito). A noite mais terrível, mais densa e mais proveitosa é a noite passiva do espírito. É passiva porque o homem quase não age. Ele a sofre. Essa noite o faz perder todas as suas seguranças, demasiadamente humanas, inclusive as seguranças religiosas. Quantas vezes não criamos um “Deus” à nossa imagem e semelhança, não é mesmo? Quantas vezes satisfazemos o nosso ego com esse “Deus” à nossa medida? Mas é justamente quando a noite age sobre as falsas seguranças religiosas que o homem cria, que ela se faz mais dolorida. Isso porque a noite passiva do espírito atinge as pessoas que já tinham se decidido totalmente por Deus. Deus já era tudo pra elas. Mas era preciso que esse “Deus” imaginado e pensado segundo medidas humanas se desmontasse para dar lugar a uma imagem menos inadequada de Deus. O “Deus” imaginado e pensado humanamente deve ceder lugar ao Deus divino. São João da Cruz descreve este processo como dolorosíssimo.
 
Passada a noite, surge a aurora! A alma, liberta da identificação com o ego e seu restrito horizonte, está já solta e pode unir-se livremente ao Absoluto. São João da Cruz descreve esta união como matrimônio místico. Nada mais a pode perturbar. A alma, enfim, encontrou o bem que não é finito nem caduca. É o bem eterno que nunca passa, aconteça o que acontecer. Porque não está mais identificada com o ego, não importa à alma se está na saúde ou na doença, se tem uma boa profissão ou não, se ocupa cargos importantes ou não, se lhe são concedidas glórias e reconhecimentos humanos ou se isso lhe é negado… Qualquer sucesso ou insucesso no horizonte espácio-temporal é por demais relativo e até irrelevante. A alma já vive a vida do Absoluto e frui da sua constante presença. Ela sabe que está enraizada n’Ele para sempre. E a vida do Absoluto é paz perpétua, felicidade sem fim. É a autopresença d’Aquele que é! A alma participa de tudo o que o Absoluto é! Na linguagem de São João da Cruz, a esposa (a alma) se transforma no Amado (o Absoluto). 
 
As dificuldades desta vida não cessam para a alma que venceu o ego, mas, justamente porque venceu o ego, a alma não se sente perturbada como antes pelas vicissitudes do horizonte espácio-temporal. Ela vive já num nível que transcende esse horizonte. 
 
Tudo isso não leva a alma necessariamente a fugir do mundo. Ao contrário, com mais leveza dentro de si, com a presença do Eterno em seu centro, a alma se torna mais livre para doar-se em favor das boas causas deste mundo! Torna-se livre para amar! Não foram os grandes místicos, a começar por Jesus, cuja vida era uma coisa só com o Pai, os que mais derramaram óleo sobre as feridas do mundo?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Maritain e a reformulação da teologia da graça

  A Visão de Jacques Maritain sobre a Permissão do Mal e a Graça Jacques Maritain propôs uma alternativa ao modelo tradicional de Domingo Bañez e Reginald Garrigou-Lagrange na questão da graça, da predestinação e do pecado. Seu objetivo era preservar simultaneamente a soberania de Deus e a autêntica liberdade do homem, rejeitando a ideia de que Deus decreta infalivelmente quem terá a graça e quem terá a graça meramente suficiente sem levar em conta as escolhas humanas. 1. O Problema da Tradição Bañeziana Maritain critica os tomistas “rígidos” da escola de Bañez, argumentando que sua explicação leva a um determinismo disfarçado. Para Bañez e Garrigou-Lagrange: • Deus decreta infalivelmente quem receberá a graça eficaz e quem terá apenas a graça suficiente. • Deus permite o pecado infalivelmente através de um decreto permissivo que assegura a queda de alguns. • O homem sempre resistiria à graça suficiente se Deus não lhe concedesse uma graça eficaz especial. Maritain ar...

Conturbados tempos pós-conciliares...

http://www.sectorcatolico.com/2009/07/presentado-en-italia-un-nuevo-libro-que.html Presentado en Italia un nuevo libro que pone en cuestión el papel de los teólogos tras la celebración del Vaticano II 23/07/09 El filósofo estadounidense Ralph McInerny acaba de presentar la versión italiana de su nuevo libro Qué salió mal en el Vaticano II ("What went wrong with Vatican II") en el que aborda la situación de la Iglesia Católica 44 años después de la celebración del último gran concilio ecuménico y el único que no ha tenido carácter dogmático en sus 2.000 años de historia. Para el veterano profesor de la polémica Universidad de Notre Dame (Indiana, Estados Unidos), los principales problemas vividos por la Iglesia católica en los años que nos separan del Vaticano II no tuvieron su punto de arranque en el propio Concilio, sino en la publicación de la encíclica Humanae Vitae , explica en su blog el periodista Diego Contreras, antiguo corresponsal en Roma. La oposición que ...

Tomismo transcendental, Ser e graça

Joseph Maréchal, iniciador do “tomismo transcendental” No tomismo transcendental, que é uma posição filosófica desenvolvida principalmente por Joseph Maréchal e outros pensadores que tentaram dialogar entre a metafísica tomista e a filosofia transcendental kantiana, temos:  1. A Estrutura do Espírito e a Abertura ao Ser No tomismo tradicional, seguindo Santo Tomás de Aquino, o intelecto humano é ordenado naturalmente para o ser, pois todo conhecimento começa na experiência dos entes sensíveis e se dirige ao ser enquanto tal. No entanto, o tomismo transcendental enfatiza que essa estrutura não é meramente empírica, mas uma exigência estrutural do próprio intelecto. Assim, cada ato de conhecimento já carrega uma abertura ao Ser em sentido absoluto. Em outras palavras, o nosso espírito é constitutivamente dirigido ao Ser, porque somente nele encontra sua realização última.   2. Conhecimento Implícito do Ser e Tendência ao Bem Como cada ente particular participa do Ser, cada conhe...