Pular para o conteúdo principal

A mística: deixar-se perder na divindade

A mística, que é o fim supremo da vida cristã, não tem nada a ver com aparições, visões, êxtases ou fenômenos extraordinários. Se acontecem essas coisas, trata-se de algo secundário, que não constitui a essência mesma da mística. Esta é um perder-se na divindade, um deixar- se absorver no oceano sem limites do Ser (pelagus essendi), que é também Amor (ignis ardens caritatis). A mística pode adquirir feições mais intelectuais, mais afetivas ou mais práticas, mas em uma forma ou outra sempre terá a dimensão da visão: é preciso estar consciente da quase fusão com a divindade, vendo com os olhos da alma a sua Beleza; a dimensão do coração: a união com o Absoluto é tão transformante que reordena os afetos da alma, que se concentra tanto na fonte do Amor (ignis originarius) que acaba quase não mais sentindo aquela necessidade própria do homem de receber dos outros algum afeto para que possa transmitir afeto; a alma se sente plena e transbordante do afeto divino; e a dimensão do agir: a união da alma com o Absoluto reverbera nas atitudes e na ação. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Criação "ex nihilo"

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Em Deus, e somente em Deus, essência e existência identificam-se. Deus é o puro ato de existir ( Ipsum Esse ), sem sombra alguma de potencialidade. Ele é a plenitude do ser. Nele, todas as perfeições que convém ao ser, como a unidade, a verdade, a bondade, a beleza, a inteligência, a vontade, identificam-se com sua essência, de tal modo que podemos dizer: Deus é a Unidade mesma, a Verdade mesma, a Bondade mesma, a Beleza mesma... Tudo isso leva-nos a dizer que, fora de Deus, não há existência necessária. Não podemos dizer que fora de Deus exista um ser tal que sua essência coincida com sua existência, pois, assim, estaríamos afirmando um outro absoluto, o que é logicamente impossível. Pela reflexão, pois, podemos afirmar que em tudo que não é Deus há composição real de essência (o que alguma coisa é) e existência (aquilo pelo qual alguma coisa é). A essência do universo criado não implica sua existência, já que, se assim fosse, o universo, contingen...

Instrução Dignitas Personae

  A dignidade da pessoa humana segundo a Instrução  Dignitas Personae  (2008) 1. Introdução A instrução Dignitas Personae, publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé em 8 de setembro de 2008 e aprovada pelo Papa Bento XVI, trata de questões bioéticas relacionadas à origem e à dignidade da vida humana. Seu objetivo é orientar a reflexão moral diante das novas possibilidades oferecidas pelas biotecnologias, especialmente aquelas ligadas à reprodução humana, à manipulação genética e à pesquisa com embriões.  O documento procura formar as consciências e incentivar a pesquisa científica, desde que respeite a dignidade da pessoa humana, reconhecida desde a concepção até a morte natural.  A instrução dirige-se não apenas aos católicos, mas também a médicos, cientistas, legisladores e a todos os que procuram a verdade sobre a vida humana.  PARTE I Fundamentos antropológicos, teológicos e éticos 1. A dignidade da pessoa humana O p...

Caraça

  A Parte I – Caraça do Irmão Lourenço (1770–1819), no livro Caraça: Peregrinação, Cultura e Turismo, de Pe. José Tobias Zico C.M., constitui a narrativa fundacional da história do Caraça, com forte tom memorialista, documental e espiritual. A seguir, apresento um resumo estruturado dessa seção: Parte I – Caraça do Irmão Lourenço (1770–1819) 1. O que é o Caraça? Situado no coração de Minas Gerais, a 1.400 m de altitude, o Caraça é descrito como lugar de silêncio, solidão e santidade, que por 200 anos atraiu pessoas para oração, estudo e convivência. O autor ressalta o impacto histórico e formativo do Colégio, fundado em 1820 e fechado após o incêndio de 1968, mas que ainda mantém seu papel como Santuário e centro cultural. É chamado por Juarez Caldeira Brant de “mais velho que o Império”, contemporâneo de Tiradentes. 2. Quem foi o Irmão Lourenço? Nome religioso: Irmão Lourenço de Nossa Senhora. Origem provável: português, natural de Nagozelo (diocese de Lam...