segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Mente e corpo, espírito e matéria (parte I)

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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Com o atual desenvolvimento da neurociência, a grande tentação que se apresenta aos estudiosos é a de diluir a alma humana (expressão clássica da filosofia e da teologia) no corpo ou a mente no cérebro ou ainda o espírito na matéria. As atos reconhecidos tradicionalmente como atividades espirituais da alma, como o raciocinar, o querer e o refletir, não seriam outra coisa senão o cérebro em funcionamento. Tal posição é reconhecida como fisicalismo, porque sustenta que todas as atividades da alma são, em última análise, a matéria em determinada configuração e atividade.

O fisicalismo, na verdade, desdobra-se em várias correntes, a saber: a) o behaviorismo analítico, o eliminacionismo, a teoria da identidade, os funcionalismos. Todas essas correntes, com variações de perspectiva às vezes consideráveis, são unânimes em defender que não existe nada para além da matéria ou do cérebro. Algo como natureza espiritual da alma, irredutível à matéria ou ao cérebro, seria impensável.

Santo Tomás de Aquino tratou com profundidade da questão da alma em geral e da alma humana em particular. Sim; a noção de alma não se aplica só aos seres humanos. Na linguagem de Santo Tomás, alma nada mais é do que a forma de um ser corpóreo vivente. Nesse sentido, a planta – ser corpóreo vivente - é dotada de alma, assim como os animais irracionais. A alma é a «forma corporis» (a forma do corpo). Os seres humanos são igualmente dotados de alma, uma vez que são seres corpóreos viventes.

Acontece, porém, que a planta, o animal e o ser humano, se vivem, não vivem, contudo, do mesmo modo. A planta vive uma vida vegetativa; o animal, uma vida sensitiva; o homem, uma vida chamada intelectiva. Os níveis superiores de vida, nessa escala, não negam os inferiores, mas os assume numa síntese nova. O animal, que sente, não deixa de exercer sua dimensão vegetativa. O homem, que raciocina, quer e reflete, não deixa de sentir nem de vegetar.

Diante disso, a questão que se mostra crucial é a de saber se esses três tipos de alma ou de forma de seres corpóreos viventes podem se reduzir à matéria em determinada configuração e atividade, como quer o fisicalismo. A vida supõe ou não um princípio imaterial? Seria o mesmo caso para a vida vegetativa, animal e humana?

Os biólogos, até o início do século XX, defendiam o que se chama de vitalismo, que sustentava que a vida era devida a obscuras forças imateriais, diferentes das forças físicas, tais como o élan vital. O desenvolvimento da biologia, contudo, tem rejeitado o vitalismo, isto é, tem rejeitado a explicação da vida por meio de forças não-físicas. Embora a questão da origem da vida seja ainda das mais obscuras, dada a complexidade dos mecanismos e das condições necessárias para o seu aparecimento, não haveria motivos para surpresa se os estudiosos comprovassem que a vida é eduzida das potencialidades da matéria mesma. A matéria criada por Deus poderia trazer em si mesma as "razões seminais" (S. Agostinho) para o aparecimento da vida em circunstâncias adequadas.

O que sustentamos é que a noção tomásica de «anima forma corporis» não supõe necessariamente forças imateriais para explicar a vida dos seres corpóreos viventes. A vida pode ser muito bem um fenômeno eduzido das virtualidades da própria matéria. A noção de alma como forma não implica que a forma seja um outro ser ou uma espécie de fluido acrescentado ao ser da matéria, mas tão-somente que seja o ato da matéria vivente.

Coisa diversa, entretanto, se passa com o homem. O ser do homem, pela sua capacidade de raciocínio, de abstração, de vontade e de reflexão, não pode ser reduzido a determinada configuração da matéria. Nesse sentido, a alma humana seria sui generis, de natureza diversa da alma vegetativa das plantas ou da alma sensitiva dos animais. A vida humana não se pode reduzir a vegetar nem a sentir. Raciocinar, abstrair, querer, refletir também é viver. E é viver humanamente. Mas o homem, se é capaz dessas atividades ditas espirituais, é também um corpo material.

Então, a grande questão que deve ser esclarecida é a relação entre as atividades ditas espirituais da alma humana e a matéria. No homem espírito e matéria estão unidos. A descontinuidade não se dá propriamente entre matéria e vida, já que a vida pode ser um fenômeno eduzido da matéria. A descontinuidade existe entre atividades espirituais e atividades materiais, já que, a nosso ver, aquelas não podem ser eduzidas destas.

Para esclarecer a problemática, entretanto, devemos demonstrar que as atividades propriamente humanas são irredutíveis às simples atividades materiais. E depois tentar esclarecer como espírito e matéria estão unidos no homem, ou, em outras palavras, como alma humana é espiritual. Tarefa que ficará para um próximo artigo.

2 comentários:

  1. Alma e espírito são temas muito questionáveis nos estudos pastorais.Por isso, vou ficar de olho no próximo artigo para poder multiplicar esse conhecimento. Um abraço Pe Elílio, FCD e até
    Jayme

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  2. Pe. Elílio, muito bom o artigo. Já deixa algumas questões bem colocadas. Se me permite, gostaria de começar já com algumas perguntas.

    As concepções hilemórfica e mecanicista do universo e da vida disputam entre si. No desenvolvimento da ciência experimental (física, química e biologia, sobretudo) o mecanicismo foi verdadeiro "programa de pesquisa". Demonstrada a "inutilidade" das causas finais e formais, passou-se a investigar as causas materiais e eficientes, e a reduzir tudo a seus aspectos físico-químicos. Assim a ciência passou a dominar tudo. Como disse C. S. Lewis n'A Abolição do Homem, reduzimos assim as coisas para conquistá-las. Da ciência experimental nasce a técnica, que hoje é capaz até de "engenharia genética", inclusive em homens. Os defensores das causas formais e finais dizem que sua filosofia nunca excluiu o mecanicismo, mas é o mecanicismo que exclui o hilemorfismo.

    Dizem então que não se deve ver na forma substancial uma causa eficiente do movimento e da organização da matéria. Que a forma substancial dos irracionais se reduz à organização da matéria. Se é assim, então a forma nada mais é que uma determinada estrutura de um ser. Só é distinta da matéria como a estrutura de uma estátua de pedra é distinta da pedra de que é feita. Mas então por que encontramos em manuais de escolástica considerações tão ambíguas sobre o "princípio vital"? A forma dos irracionais é "um princípio simples" como dizem os manuais?

    Afinal, é a forma substancial que organiza a matéria e a mantém organizada "inteligentemente" no caso dos seres vivos? Ou é a organização mais ou menos estável da matéria que realiza a forma? Nesse último caso a forma "emerge" da matéria, e só é dita "princípio de determinação" como que retroativamente; na prática são as forças físico-químicas que determinam o aparecimento desta ou daquela forma. Acontece que essas questões estão longe de serem claras nas obras de Aristóteles ou nos manuais de escolástica. Existiram discussões entre neoescolásticos se deviam manter o "hilemorfismo" ou adotar o "hilesistemismo". Essa última teoria diz que as coisas são sistemas mais ou menos estáveis de matéria organizada. Muitos escolásticos diriam que isso não difere do hilemorfismo clássico. Mas então por que as controvérsias? Há questões mal esclarecidas.

    Um problema que já detectei é que alguns escoláticos são "hilesistemistas" na explicação do hilemorfismo, mas na hora de explicar o caso particular de relação forma-matéria que é o da alma humana com seu corpo, aí são "hilemorfistas" mesmo, falando da alma como se fosse uma causa eficiente que mantém as partes do corpo unidas (e às vezes fazem isso de maneira ambígua, negando que a alma é causa eficiente, mas dizendo coisas que implicam que é!).

    Outro ponto interessante nessa discussão é que há diferenças na filosofia escolástica, cujo tratamento revela, a meu ver, muita incoerência. Para São Boaventura a alma une-se ao corpo como forma, isto é, há várias formas hierarquizadas, e o que é forma num nível torna-se matéria em outro. No homem, a alma sensitiva é distinta da alma intelectiva. O princípio de individuação é a união entre forma e matéria. Já para São Tomás, o princípio de individuação é a matéria assinalada pela quantidade, no que não se compreende a razão, já que a forma não é universal! Aliás, considerando que para São Tomás é da forma do homem que procede toda determinação do seu ser, a quantidade que assinala a matéria não procederia igualmente da forma? Para São Tomás, a alma é uma só (intelectiva, sensisitva e vegetativa). Duns Scotus e Ockham também trataram da questão com suas respectivas peculiaridades.

    Enfim, é uma questão muito difícil. Vou acompanhar seus artigos, Padre, já que o sr. entende do problema muito mais do que eu. Obrigado e até mais.

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