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A Vida que dá vida ao mundo

O mundo é um fluxo contínuo. As galáxias se expandem, as estrelas giram em torno do centro de suas galáxias e os planetas, em torno do centro das estrelas, que, antes de apagarem-se, nascem e irradiam luz. A vegetação, como os animais aquáticos, voláteis e terrestres, têm o ciclo de sua vida, e as gerações sucedem-se segundo os seus ritmos em tempos indefinidos. O homem traz o clarão da consciência para o centro do universo, procura lançar o olhar sobre a parte e o todo e é capaz de maravilhar-se na presença do que existe. Por detrás de tudo o que é e se move em seu incessante dinamismo, está a Vida, a Causa transcendente e imanente da vida do inteiro mundo. A Vida é invisível aos olhos sensíveis, mas é a Realidade mais real, que dá origem e sustenta o espetáculo do universo com tudo o que ele encerra. A Vida é reconhecível pelo espírito, abertura infinita ao Infinito. A Vida mostra-se, de alguma maneira, em tudo aquilo que aparece, mas ela, em si mesma, é Vida escondida ( Deus abscond...

A imagem de Deus está mudando?

Eu diria que não temos acesso direto ao Ser divino. Ele se mostra conforme nossa capacidade de percepção, de investigar (no caso da filosofia) ou de receber (no caso da teologia). Cada cultura ou cada pessoa faz, então, uma “imagem” de Deus. Uso aqui o termo imagem em sentido amplo. Abarca as representações imagéticas ainda não muito conscientes de seu caráter metafórico, as metáforas conscientes de si mesmas, até os conceitos refinados da filosofia e teologia. Estas pretendem alcançar ou expressar algo de estável e eterno sobre a imagem de Deus pelo alto grau de abstração e formalidade que alcançam, mas mesmo assim trazem alguma marca da história e da cultura.   Assim, a imagem de Deus que temos hoje não é exatamente a mesma que tinham os primeiros hebreus henoteístas ou os primeiros judeus monoteístas. Para os cristãos, Jesus, embora falasse a partir de sua cultura judaica, renovou a imagem de Deus, acentuando a gratuidade e a misericórdia divina, que não eram desconhecidas, e a ...

Católicos devem deixar-se iluminar pela Doutrina Social da Igreja

A Doutrina Social da Igreja (DSI) oferece princípios para o entendimento , critérios para a formação do juízo e diretrizes para a ação no campo social e político, já que pertence ao humanismo cristão e à própria fé procurar construir um mundo mais respeitoso dos valores da justiça, da liberdade, da participação, do bem comum e da alta dignidade da pessoa.   Como a realidade social é mutável e admite um leque mais ou menos amplo de soluções, o parâmetro da DSI admite aquela flexibilidade que caiba dentro do quadro geral dos seus princípios e grandes critérios. Por isso, um católico pode encontrar solução, dependendo da situação concreta, mais à esquerda ou mais à direita do espectro da realidade político-social em que vive. E nem todos os católicos precisam encontrar a mesma solução concreta, embora devam todos observar os mesmos princípios e levar em conta os critérios gerais e as grandes diretrizes.   A solução concreta das questões sociais depende muito de uma análise feita...

Origens do carnaval

As origens das festas carnavalescas lançam raízes em tradições pré-cristãs. Nos tempos cristãos, o carnaval acontece nos dias imediatamente anteriores à Quarta-feira de Cinzas, início do tempo penitencial da Quaresma.  Entre gregos e romanos havia desfiles ou procissões em honra do deus Dionísio ou Baco com fantasias e alegorias. Esta festa em Roma chamava-se Bacanal.  Havia ainda entre os romanos diversas festas, em dezembro, janeiro e fevereiro, para celebrar o deus Saturno, o solstício de inverno, o início do ano ou da primavera. Assim, tinha-se a Saturnália , o Dies Natalis Solis Invicti , a Lupercália . Esta última era realizada em fevereiro e era um festival de purificação da cidade de Roma para o início do novo ano, que começava em março. Nela celebrava-se também a fertilidade, que a aproximação da primavera anunciava. As festas em geral davam lugar para as licenciosidades do povo, em que a ordem social como que deixava de existir por alguns dias, a ponto de o Senado ro...

A mística: deixar-se perder na divindade

A mística, que é o fim supremo da vida cristã, não tem nada a ver com aparições, visões, êxtases ou fenômenos extraordinários. Se acontecem essas coisas, trata-se de algo secundário, que não constitui a essência mesma da mística. Esta é um perder-se na divindade, um deixar- se absorver no oceano sem limites do Ser ( pelagus essendi ), que é também Amor ( ignis ardens caritatis ). A mística pode adquirir feições mais intelectuais, mais afetivas ou mais práticas, mas em uma forma ou outra sempre terá a dimensão da visão: é preciso estar consciente da quase fusão com a divindade, vendo com os olhos da alma a sua Beleza; a dimensão do coração: a união com o Absoluto é tão transformante que reordena os afetos da alma, que se concentra tanto na fonte do Amor ( ignis originarius ) que acaba quase não mais sentindo aquela necessidade própria do homem de receber dos outros algum afeto para que possa transmitir afeto; a alma se sente plena e transbordante do afeto divino; e a dimensão do agir: a...

O Ocidente e o divino

O Ocidente racionalista, empirista e cientificista tem enormes dificuldades, às vezes intransponíveis, de acreditar que Jesus de Nazaré possa ser Deus. Mas esse Ocidente é só uma perspectiva.   Se olhamos para o hinduísmo da Escola Advaita-Vedanta , por exemplo, não há a mínima dificuldade de reconhecer que Jesus possa ser Deus. Muito ao contrário, haveria dificuldades sérias se Jesus não pudesse ser Deus. É que para esse hinduísmo, a substância de todas as coisas é Deus. Rigorosamente falando, só Deus existe, e o mundo fenomênico não passa de uma superposição de Deus. Deus é o Ser que subjaz informe sob o véu das diversas formas finitas — passageiras e ilusórias — dos entes mundanos. É o Um permanente que está sob a multiplicidade fenomênica e fugaz dos muitos . Pelo atman (alma, centelha divina), emerge no homem a consciência de ser Deus ( Brahman ), de tal modo que a afirmação do Jesus joanino valeria para todo homem iluminado: “Eu e o Pai somos um”. Nesse sentido, Jesus seria...

A lei moral natural. Entrevista com o filósofo francês Rémi Brague

Se as leis que o homem estabelece não se baseiam no “fulcro” de uma lei universal, ele se expõe a justificar todas as loucuras do homem contra o homem.  Muitas vezes em sua obra, Rémi Brague voltou ao fracasso da modernidade que pretende prescindir de uma referência a "algo além do humano", como a lei divina ou a natureza. Este é particularmente o tema de seu livro Depois do humanismo , onde ele evoca a necessidade de uma imagem do homem que o salve de si mesmo. Recentemente convidado pelo Instituto Tomista de Paris, ele mostrou as ligações entre a lei divina e a lei humana e por que, sem a lei natural, o homem dificilmente pode possuir “direitos”. Fonte:  https://fr.aleteia.org/2022/02/21/la-loi-naturelle-cest-la-loi-de-la-raison/?fbclid=IwAR2uo5VkBJmZE203_dkIyQPinwqZXY0wG6Ty1cS1wXg2QS3UHDPSpzivdmM . Tradução de Elílio Júnior ____ Aleteia : Você publica Après l’humanisme. L’image chrétienne de l’homme  (Salvator). Segundo você, a tentação de definir o homem com base em s...

Vocacionados à União

  «Foi bom para mim ser humilhado, para aprender teus estatutos» (Sl 119,71). Como o homem, nascido nas baixezas da imperfeição e da ignorância, poderá alçar-se às alturas da sabedoria e da beatitude divina? Não são somente as espiritualidades orientais, (como o hinduísmo ou o budismo) que falam da iluminação ou da mudança de consciência que não só nos liberta, mas nos introduz na plenitude divina ou na Vida da nossa vida. Para o cristianismo, a divinização é a grande vocação do homem. Divinizar-se é participar do que Deus é em si mesmo. É como que identificar-se com Deus. São João da Cruz usa expressões muito fortes; fala da transformação da alma em Deus e recorre à metáfora do fogo (Deus) que toca a madeira (homem) até que ela, não sem os ruídos que atestam sua transformação, expele toda a sua humidade e adquire cor enegrecida, para depois tornar-se quente e incandescente como o próprio fogo. A madeira como que se faz uma só coisa com o fogo. Como receber a graça da divinização?...