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Mostrando postagens de dezembro, 2024

Purgatório? Como entender?

A pedido de um amigo, faço algumas considerações histórico-teológicas sobre o Purgatório:  1) Nos inícios do povo de Israel, não havia fé na ressurreição ou na imortalidade da alma. Acreditava-se, como era comum entre muitos povos antigos, que “sombras” do homem restassem no sheol depois da sua morte, isto é, numa região inferior, conforme a cosmologia da época. Aí não se tinha vida consciente, mas uma existência espectral. As “sombras” de quem morria iam juntar-se às dos pais. Daí vem a noção de “mansão dos mortos”. 2) Aos poucos surgiu a fé na ressurreição dos mortos no meio do povo bíblico. Metáforas de Deus agindo em favor da restauração e da revitalização do povo foram relidas na perspectiva de uma ressurreição individual. Afinal, seria ininteligível que os bons e piedosos homens do século II a.C., que morriam nas batalhas resistindo à helenização de Israel sob Antíoco IV Epífanes, desaparecessem no nada das sombras. Espera-se, então, a ressureição dos justos. Depois, a fé na...

Excelência do tomismo

Ai de mim se não propagar o tomismo — dizia Maritain. E eu o digo com ele.  O tomismo é a filosofia da verdade. Ele parte da constatação, por reflexão, de que a inteligência está estruturalmente voltada para a afirmação da verdade, que é a condição transcendental da vida do espírito. Quem afirma que a verdade não existe, afirma ser verdade que a verdade não existe, caindo, assim, em contradição. Essa contradição mostra que a afirmação da verdade é inalienável. O espírito sempre tende à verdade na afirmação do juízo; inclusive nos atos preparatórios da afirmação, como os atos de simples apreensão, esta já a preparação da afirmação da verdade. Sendo filosofia da verdade, o tomismo é também a filosofia da vida da inteligência, já que a inteligência vive da verdade.  O tomismo é a filosofia do ato de ser. Todos os entes existem na medida em que têm o ato de ser. O ato de ser é mais do que a simples essência; é o ato da essência. Lá onde o ato de ser é puro (no Motor imóvel, na Cau...

Loucura de Deus

Por Padre Alberto Maggi, biblista  Somente um Deus louco poderia pensar em se tornar um homem. Mas quem fez o Senhor deixar o privilégio da condição divina para assumir a fraqueza da condição humana? Em todas as épocas o sonho dos poderosos tem sido tornar-se deuses, elevar-se acima de tudo (“Subirei ao céu, elevarei o meu trono acima das estrelas de Deus… Tornar-me-ei igual ao Altíssimo”, Is 14, 12.14). Chegar ao Senhor também tem sido a maior aspiração de todo religioso: ascender, espiritualizar-se, fundir-se misticamente com o Deus invisível. Os poderosos pensavam que poderiam alcançar Deus e estar em pé de igualdade com ele acumulando poder para dominar melhor o povo; os religiosos aspiravam unir-se a Deus por meio do acúmulo de orações para se apresentarem como modelos de santidade. Mas quanto mais o homem se afastava dos outros para encontrar Deus, mais Ele parecia se distanciar, se tornar inalcançável. Com Jesus entendemos o porquê. Com o Natal, Deus se torna homem, rebaixan...

Ano Santo ou Jubileu 2025

Nas raízes do Ano Santo ou Jubileu celebrado pela Igreja, está o Antigo Testamento, isto é, a antiga sociedade judaica. Os judeus celebravam, de 50 em 50 anos, o ano do yobel  (carneiro, cabra), pois tinha início com o anúncio feito por chifres de carneiro ou de cabra. Era um ano santo e de graça, em que as propriedades da terra deveriam voltar para seus antigos donos e os escravos deveriam ser liberados. A Septuaginta traduz yobel (jubileu) por áphesis (remissão, libertação), sugerindo a ideia central do evento: uma dispensação especial de graça.  A ideia de base era a de que Deus originariamente tinha dividido a terra por famílias, de modo que, se alguém a tivesse vendido por alguma necessidade, ela deveria voltar ao proprietário original estabelecido por Deus ou aos seus descendentes no ano do jubileu ( yobel ). Servia para evitar o acúmulo de terras nas mãos de poucos e mostrava a soberania de Deus sobre a sociedade. Se essa regra ou ideal, presente na Bíblia no livro do...

Graça universal?

Deus criou a todos para a visão sobrenatural. Estamos diante de duas grandes graças: a criação, por nada devida à criatura, que sequer existia; e a visão da face de Deus com a luz da glória, que é algo que nenhuma criatura, uma vez tirada do nada, poderia alcançar, já que a visão imediata de Deus é uma certa infinitização da criatura, realizada tão somente pelo Infinito. O fim que nos realiza para além das medidas finitas não pode ser atingido por nós sem a ajuda do Infinito. E nenhum fim finito preencheria totalmente o nosso espírito, infinito na intenção. Qualquer fim finito deixaria no espírito uma percepção de que uma lacuna ainda existe. Este é o paradoxo: o homem não pode atingir fim para o qual foi criado sem a ajuda de Outro divino. No entanto, observe-se, atingir o fim com a ajuda de outro não é nenhum demérito.  Essa vontade salvífica de Deus nunca foi cancelada e nunca foi impedida por nenhum desastre da história humana. Isso equivaleria a dizer que Deus abandonou por co...

A Missa é o maior poema

Celebrando a Missa, ocorreram-me alguns pensamentos. Vi e senti que a essência da Missa não está, de maneira alguma, na utilidade que ela possa ter.  A Missa pode ensinar, mas ela não existe primeiramente para ensinar. Se quiséssemos ensinar, poderíamos marcar uma reunião ou promover um curso. Seria mais eficaz. A Missa também não existe, em primeiro lugar, para promover a comunidade. Ela pode e deve fazê-lo, mas isso não é ainda a essência mesma da Missa. Se quiséssemos simplesmente promover a comunidade, poderíamos nos valer de outros expedientes.  Poderíamos multiplicar as razões de caráter utilitário que pensamos atribuir à Missa. Missa “para” isto ou aquilo. Mas, assim fazendo, não encontraríamos a Missa. A sua essência está em algo grande, que não pode ser simplesmente útil, simplesmente “para”.  A Missa é fim em si mesma. Nela contemplamos o mistério da autoentrega de Jesus. Ali vemos a caridade perfeita. Somos arrebatados pela presença mesma do “Amor que move o So...

O ego e a alma

Viver para o ego é experimentar o vazio. Viver para a alma é tocar a Plenitude.  Ser conduzido pelo ego é fazer-se prisioneiro da vaidade, ambição e inveja. Ser conduzido pela alma é estar livre para amar e doar-se.  Na superfície do ego encontramos as feridas e os traumas. Na profundidade da alma tocamos o remédio e a cura.  Os caminhos do ego são cheios de trevas. As vias da alma são feitas de luz.  O rancor é obra do ego ferido e lacunoso. O perdão é fruto da abundância e da saúde que há na alma.  O ego nos afasta de Deus. A alma é abertura para Deus.  O ego nos isola e nos faz indiferentes. A alma nos une a toda a criação.  O ego nos faz viver para depois morrer. A alma nos ensina a morrer para viver.  A vida do ego é morte da alma. A morte do ego é vida da alma.  É preciso viver para além do ego. É preciso viver no nível da alma. Não se trata de uma necessidade material, mas da nostalgia da Vida. 

A Fonte transcendente do bem que realizamos

O Natal faz parte do nosso calendário e das nossas festas, independentemente da profissão de fé religiosa de cada um. Embora seja explorada pelo mercado e pela ideologia consumista, a data apresenta-se como ocasião para que se manifestem os melhores pensamentos e sentimentos humanos — a reconciliação, a pausa para um novo começo, a solidariedade, a fraternidade, a paz… Foi no século IV que a Igreja passou a celebrar na sua liturgia o nascimento de Jesus aos 25 de dezembro. Não importa se Jesus nasceu mesmo nesta data; o importante é celebrar o evento. De que evento se trata? O Cristianismo primitivo passou a olhar para o nascimento de Jesus a partir do significado de sua inteira vida, morte e, sobretudo, a experiência da ressurreição. Foi porque chegaram à convicção de que aquele homem que pregara a Boa Notícia e morrera na cruz continuava a viver em Deus que os discípulos consideraram o peso de sua origem: o nascimento de um homem tão importante, que inaugurou um modo novo de conceber...

O Ser fala. Falou em Jesus!

O que se manifestou em Jesus de Nazaré foi a luz puríssima da realidade incriada do Ser. Essa luz, chamamo-la Verbo divino.  As ideias mais puras que um homem pode conceber, os sentimentos mais nobres e as atitudes mais justas e misericordiosas apareceram na consciência e na ação de um jovem pobre, camponês da Galiléia, que, como seu pai putativo, começou a dedicar sua vida à profissão de artesão/carpinteiro/pedreiro, mas, analogamente a grandes profetas antigos, deixou tudo para proclamar o que via com os olhos da alma e sentia com o coração: é que fora tomado pelo fascínio da pureza e da grandeza da Última Realidade, que é também a Primeira.  A bem da verdade, foi a Primeira e Última Realidade, em sua luz e amor eternos, que assumiu o ser criado de Jesus como órgão da manifestação da Sabedoria imperecível neste mundo temporal.  O Ser fala. O Ser é luz. O Ser não é opaco nem é irracionalidade. O Ser faz surgir ordem, organismos, consciência e liberdade no mundo material....

D. Estêvão Bettencourt e Leonardo Boff sobre a Teologia da Libertação

No centro de nova polêmica, a Teologia da Libertação é debatida por Leonardo Boff e Dom Estêvão Bettencourt  JORNAL DO BRASIL - Domingo, 18 de Fevereiro de 1996 - Caderno B CELINA CÔRTES A doutrina conhecida como Teologia da Libertação (TL) sofreu um duro golpe no último dia 5, quando, em sua viagem por países da América Central, o Papa João Paulo II declarou que, com a queda do comunismo, “caiu também a Teologia da Libertação”. Preocupada com uma prática que busque soluções para a injustiça social na América Latina, a corrente progressista chegou a ser vista como uma ameaça de desmembramento dentro da Igreja. Por isso, seu maior defensor no Brasil, o teólogo franciscano catarinense Leonardo Boff, 57 anos, acabou condenado a passar 11 meses em silêncio, em 1985, sob a acusação de duvidar da origem divina da hierarquia católica em seu livro Igreja, carisma e poder (1981). Segundo Boff, que abandonou a batina, o processo que culminou com a punição teve a intensa participação do monge...

O drama do pobre

O pobre (o trabalhador assalariado, o operário), primeiramente, foi largado à própria sorte. Isso no início da Revolução Industrial.  A Igreja entrou em cena com Leão XIII para ajudá-lo e reclamar a justiça social e a colaboração entre proprietários e operários, mas um pouco atrasada, e, a tal altura, a grande massa dos pobres já não tinha a Igreja como protetora nem a sociedade lhe dava mais ouvidos, sobretudo em questões econômicas. A economia tornava-se uma atividade autônoma.  O pobre por um tempo conquistou direitos trabalhistas e sociais. No entanto, a máquina de concentração de renda nunca parou. As esquerdas não realizaram o que prometiam em termos de justiça social. O pobre se viu traído.  Desamparado, mesmo com alguns direitos conquistados, o pobre se culpabiliza por ser pobre. Agora lança-se na falácia neoliberal, que lhe promete prosperidade se ele se esforçar. O discurso neopentecostal reforça isso, dizendo que ele ficará rico se tiver fé. O pobre, assim, ali...