Pular para o conteúdo principal

De rationibus fidei (Santo Tomás de Aquino) - Cap. V

Capítulo V

Qual foi a causa da encarnação do Filho de Deus:

Com semelhante cegueira de espírito, impugnam a fé cristã por confessar que Cristo, Filho de Deus, morreu, não entendendo a profundidade de tão grande mistério. E para que a morte do Filho de Deus não seja perversamente entendida, antes é preciso dizer algo sobre a sua encarnação. Não dizemos que o Filho de Deus esteve sujeito à morte segundo a natureza divina, pela qual é igual ao Pai e que é a fonte de toda vida, mas segundo a nossa natureza, que assumiu na unidade da pessoa.

Para considerar o mistério da divina encarnação, é preciso advertir que tudo o que age pelo intelecto opera pela concepção do intelecto, concepção que chamamos verbo, como é claro a respeito do construtor e de qualquer artífice, que opera exteriormente segundo a forma que concebe na mente. Sendo o Filho de Deus o próprio Verbo de Deus, conseqüentemente Deus fez todas as coisas através do Filho.

Qualquer coisa é feita e reparada pela mesma razão: se, portanto, uma casa for danificada, será reparada pela mesma forma de arte através da qual foi construída. Entre as criaturas feitas por Deus através de seu Verbo, a criatura racional ocupa o principal lugar, sendo que todas as demais criaturas servem-na e lhe parecem estar ordenadas; tal se dá de acordo com a reta razão, pois que somente a criatura racional tem domínio de seu ato pela liberdade de arbítrio. As outras criaturas, na verdade, não agem a partir do livre juízo, mas são levadas a agir por uma espécie de força da natureza. Quem é livre está acima do servo, e os servos são ordenados ao serviço dos livres e pelos livres são governados.

A falta da criatura racional, desse modo, segundo uma avaliação verdadeira, deve ser mais considerada do que o defeito de qualquer criatura irracional. Nem é duvidoso que, de acordo com o juízo de Deus, as coisas sejam julgadas segundo a verdadeira avaliação. É conveniente, portanto, que a sabedoria divina repare principalmente a falta da criatura racional, e isso mais do que se os céus fossem abalados ou outra coisa nas coisas corpóreas pudesse acontecer.

Há, contudo, dois tipos de criatura racional ou intelectual: uma separada do corpo, denominada anjo; outra unida ao corpo, que é a alma humana. Em ambas pôde dar-se a falta devido à liberdade de arbítrio. Digo falta não como deficiência do ser, mas como deficiência da retidão da vontade. A falta, ou defeito, é considerada principalmente em relação àquilo através do qual uma coisa opera, como quando dizemos que o artífice erra se houver deficiência naquilo através do qual ele deve operar; também dizemos que uma coisa natural é deficiente e danificada se a virtude pela qual age estiver corrompida, como quando há deficiência no poder de germinação da planta ou no poder de frutificação da terra. Aquilo através do qual a criatura racional opera é a vontade, na qual está a liberdade de arbítrio. Portanto, a falta da criatura racional está relacionada à deficiência da retidão da vontade, o que se dá pelo pecado.

Remover o defeito do pecado, que não é senão a perversidade da vontade, convém principalmente a Deus, e isso através de seu Verbo, pelo qual fez o universo das criaturas. Para o pecado dos anjos não há remédio, uma vez que, de acordo com a imutabilidade de sua natureza, não são passíveis de penitência em relação àquilo em que uma vez se convertem. Os homens, todavia, segundo a condição de sua natureza, têm a vontade mutável, de modo que não somente podem escolher o bem ou o mal, mas também, depois de escolhido um, podem arrepender-se e voltar-se ao outro; e essa mutabilidade da vontade do homem permanece tanto tempo quanto estiver unido à variação do corpo. Quando, porém, a alma estiver separada do corpo, terá a mesma imutabilidade da vontade que, naturalmente, tem o anjo; donde a alma humana não ser passível de penitência após a morte, não podendo converter-se do bem ao mal ou do mal ao bem.

Assim, coube à bondade de Deus reparar por seu Filho a natureza humana corrompida. O modo da reparação devia ser tal que conviesse à natureza a ser reparada e à desordem. À natureza a ser reparada porque, sendo o homem de natureza racional e ordenado pelo livre-arbítrio, devia ser reconduzido ao estado de retidão, não por coação externa, mas pela própria vontade. À desordem também porque, consistindo ela na perversidade da vontade, foi preciso que a reparação fosse feita por algo que reduzisse a vontade à retidão. A retidão da vontade humana consiste na ordenação do amor, que é a principal afeição. O amor é ordenado quando amamos, como Sumo Bem, a Deus sobre todas as coisas e referimos-lhe, como ao fim último, tudo o que amamos, e, ainda, quando, para que a justa ordem seja preservada, preferimos as coisas espirituais às temporais.

Nada pode ser mais eficaz para provocar nosso amor a Deus do que o fato de o Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas, ter assumido nossa própria natureza, de modo a ser Deus e homem, para nossa reparação. Primeiro, porque isso demonstra maximamente quanto Deus, que quis fazer-se homem para a salvação do homem, ama o homem. Nada mais provoca tanto o amor do que o fato de alguém saber-se amado. Depois, porque, tendo o homem o intelecto e o afeto voltado para as coisas corporais, não teria podido elevar-se facilmente ao que está acima de si. É fácil a qualquer homem conhecer e amar outro homem, mas considerar a altitude divina e a ela se dirigir pelo reto afeto do amor não é próprio de qualquer homem, mas daqueles que, pelo auxílio divino, com grande empenho e labor, se elevam das coisas corporais às espirituais. Portanto, para que a todos os homens se mostrasse fácil o caminho que conduz a Deus, quis Deus fazer-se homem, para que também os pequenos (os menos dotados) pudessem pensar em Deus e amá-lo como sendo-lhes semelhante, e, assim, por aquilo que podem apreender, pouco a pouco fossem levados ao que é perfeito. Por isso também, já que Deus se fez homem, é dada ao homem a esperança de participar da perfeita bem-aventurança, que só Deus possui naturalmente.

O homem, conhecendo sua enfermidade, mal poderia esperar pela posse da bem-aventurança, de que apenas os anjos são capazes e que consiste na visão e fruição de Deus, se tal posse lhe fosse prometida, a não ser que, de outra parte, lhe fosse mostrada a dignidade da natureza humana, tão estimada por Deus a ponto de ele querer fazer-se homem pela sua salvação. E, assim, pelo fato de Deus ter-se feito homem, foi dada ao homem a esperança de unir-se a Deus por beata fruição. O conhecimento de sua dignidade, que foi possível pelo fato de Deus ter assumido a dignidade humana, é também importante ao homem para que ele não submeta seu afeto a alguma criatura, cultuando pela idolatria os demônios ou quaisquer criaturas, nem se submeta às criaturas corporais por afeto desordenado. É indigno do homem, que possui tão grande dignidade e está tão próximo de Deus a ponto de Deus ter querido fazer-se homem, submeter-se desordenadamente a coisas inferiores a Deus.

Comentários

  1. Graças a Deus há pastores que reconhecem a importância de Sto Tomás. É somente através dele que se conhecem os erros cometidos pelo Concílio Vaticano II e é através dele que se
    pode consertar o que está errado, voltando-se à tradição da Igreja.

    Nossa Senhora disse que por fim seu Imaculado Coração Triunfará. Acredito que é chegada a hora, pois as almas, pelo pecado, estão desabando para o inferno.

    ResponderExcluir
  2. Padre Elídio, a sua bênção.
    Há anos esperamos que o clero brasileiro coloque matérias que ajudem os leigos a manter sua fé.
    Rationibus fidei é excelente e pode ajudar as pessoas a reconhecerem o grande mistério de Nosso Senhor e plano para salvação das almas.
    Parabéns.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

De rationibus fidei (Santo Tomás de Aquino)

Apresentamos aos caros leitores uma tradução nossa, diretamente do latim, de um opúsculo escrito por Santo Tomás de Aquino, o maior teólogo do séc. XIII. O opúsculo intitula-se De rationibus fidei (Sobre as razões da fé), e presta-se ao esclarecimento sobre os fundamentos da nossa fé católica. A tradução será publicada em várias partes. Pe. Elílio Júnior DE RATIONIBUS FIDEI Capítulo I O plano do autor: O bem-aventurado apóstolo Pedro recebeu do Senhor a promessa de que, sobre sua confissão, seria fundada a Igreja, contra a qual as portas do inferno não podem prevalecer. Para que a fé da Igreja a ele entregue permanecesse inviolada contra as portas do inferno, diz aos fiéis de Cristo: venerai o Senhor Jesus em vossos corações , isto é, pela firmeza da fé, por cujo fundamento, colocado no coração, poderemos permanecer seguros contra todas as impugnações ou irrisões dos infiéis. Donde também diz em seguida: estai sempre preparados a dar satisfação a todo aquele que vos pede a razão das c...

O amor é que constrói a Igreja, não outra coisa

Padre Elílio de Faria Matos Júnior O Natal do Senhor aproxima-se. Confesso que a alegria dos tempos natalinos, que sempre invadia a minh’alma, está ausente. Tenho enfrentado muitas dificuldades, de tal modo que às vezes sinto a vontade de desanimar. As coisas não tem sido tão fáceis para mim. Os sonhos parecem dissipar-se como nuvens num dia ensolarado e ventoso... Os ideais parecem afastar-se na medida em que tento deles me aproximar... O sentido das coisas parece estar escondido e difícil de ser visto... Entretanto, contemplando a manjedoura e o Menino, uma consolação veio pairar sobre meu espírito. Quem é este Menino? O que foi dele? Qual a sua sorte? Humanamente falando, a trajetória do Menino foi a de um fracassado. E em todos os sentidos. Nasceu pobre e marginalizado... Morreu como nasceu, desprezado e quase só. É que a silhuetas da cruz já se mostravam na manjedoura. A sua vida não foi fácil. Incompreensões, maledicências, insucessos, perseguições e fadigas não faltaram. Ele...

Deus é Trindade: uma abordagem filosófico-teológica

I. A questão terminológica: hypóstasis , persona e subsistência A afirmação cristã de que Deus é Trindade tem sido sistematicamente mal compreendida — tanto por seus críticos quanto, por vezes, por seus próprios professores — em razão de uma imprecisão no uso do conceito de pessoa. Quando os Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (381) definiram a fé trinitária, recorreram ao vocábulo grego hypóstasis para designar aquilo que distingue o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Este termo, traduzido para o latim como persona e daí para as línguas modernas como “pessoa”, carrega um sentido técnico preciso que não deve ser confundido com o uso corrente do vocábulo: hypóstasis significa subsistência, isto é, aquilo que existe em si e por si, de modo estável e permanente, como modo real de ser de uma natureza. Dizer, portanto, que em Deus há três pessoas não equivale a afirmar que há três indivíduos distintos, três centros de consciência separados ou três divindades justapostas — o que seria...