quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

De rationibus fidei (Santo Tomás de Aquino)

Continuação de nossa tradução. Pe. Elílio Júnior

Capítulo IV

Como se deve entender a processão do Espírito Santo a partir do Pai e do Filho:

Deve-se considerar, ademais, que a todo conhecimento segue-se alguma operação apetitiva. De todas as operações apetitivas, o amor é o princípio. Se o amor for subtraído, não haverá gozo nem tristeza, e, consequentemente, serão também subtraídas todas as outras operações apetitivas, que, de certo modo, referem-se ao gozo e à tristeza. Existindo, pois, em Deus perfeitíssimo conhecimento, importa que nele haja também perfeito Amor, cuja processão se exprime por operação apetitiva, ao passo que a do Verbo, por operação do intelecto.

Deve-se, contudo, considerar certas diferenças entre a operação intelectual e a apetitiva, pois a operação intelectual, e absolutamente toda operação cognitiva, completa-se pelo fato de o cognoscível existir de certo modo no cognoscente, a saber, o sensível nos sentidos e o inteligível no intelecto. Já a operação apetitiva completa-se segundo certa ordem ou movimento do apetente ao objeto do apetite. Aquilo cujo princípio do próprio movimento é oculto recebe o nome de espírito, assim como o vento é dito espírito, uma vez que o sopro não aparece. Também a respiração e o movimento das artérias, procedendo de um princípio intrínseco oculto, recebem o nome de espírito. Daí que, convenientemente, na medida em que as coisas divinas podem ser significadas por palavras humanas, o Amor divino procedente recebe o nome de Espírito.

Entretanto, em nós o amor procede de dupla causa: ora da natureza corporal e material, o qual muitas vezes é amor imundo, já que por ele a pureza de nossa mente é contaminada; ora da propriedade natural do espírito, como quando amamos as boas coisas inteligíveis, que convêm à razão: tal amor é puro. Já em Deus não há lugar para o amor material. Convenientemente, portanto, denominamos o seu Amor não só Espírito, mas Espírito Santo, sendo que santo denota a sua pureza. É manifesto, contudo, que nada podemos amar com amor inteligível e santo a não ser aquilo que conhecemos em ato pelo intelecto. A concepção do intelecto é o verbo, donde ser necessário que o amor tenha origem do verbo. O Verbo de Deus dizemos ser o Filho, por onde fica claro que o Espírito Santo existe a partir do Filho.

Como, no entanto, o divino inteligir é o seu próprio ser, assim também o amor de Deus é o seu ser; e como Deus sempre intelige em ato, e, inteligindo-se a si mesmo, todas as coisas intelige, assim também sempre ama em ato e ama todas as coisas amando a sua própria bondade. E como o Filho de Deus, que é o seu Verbo, é subsistente na divina natureza, coeterno ao Pai, perfeito e único, assim também é preciso que todas essas coisas sejam afirmadas do Espírito Santo.

Dito isso, podemos considerar que, uma vez que tudo o que subsiste em natureza inteligente é dito pessoa (de acordo com os latinos) e hypóstase (de acordo com os gregos), é necessário dizer que o Verbo de Deus, que denominamos Filho de Deus, é hypóstase ou pessoa; e o mesmo é preciso dizer a respeito do Espírito Santo. A ninguém é duvidoso que Deus, de quem o Verbo e o Amor procedem, seja também subsistente, de modo que possa ser dito hypóstase ou pessoa. Assim, convenientemente, dizemos haver em Deus três pessoas, a saber, a pessoa do Pai, a pessoa do Filho e a pessoa do Espírito Santo. Não dizemos que essas três pessoas são diversas em essência, já que, como foi dito acima, assim como o inteligir e o amar de Deus são o seu próprio ser, assim também o seu Verbo e o seu Amor são a sua própria essência.

Tudo o que se diz absolutamente de Deus outra coisa não é que sua própria essência. Deus não é ou grande ou poderoso ou bom acidentalmente, mas essencialmente; donde não dizemos que as três pessoas ou hypóstases são distintas em Deus por algo absoluto, mas tão somente pelas relações que provêm da processão do Verbo e do Amor. E porque chamamos a processão do Verbo de geração, da geração provêm as relações de paternidade e filiação; a pessoa do Filho distingue-se da pessoa do Pai somente pela paternidade e filiação: todas as outras coisas são predicadas comum e indiferentemente de ambos. Assim como afirmamos que o Pai é verdadeiro Deus, onipotente, eterno e outras coisas semelhantes, assim também é o Filho, e o mesmo deve-se afirmar a respeito do Espírito Santo. Já que o Pai e o Filho e o Espírito Santo não se distinguem na natureza da divindade a não ser tão somente pelas relações, convenientemente não afirmamos que as três pessoas são três deuses, mas professamos existir um só verdadeiro e perfeito Deus.

Nos homens, porém, três pessoas são ditas três homens, não um só homem, porque a natureza da humanidade, que é comum aos três, diferentemente lhes convém segundo a divisão material, que em Deus absolutamente não existe. Segue-se daí que existindo em três homens três humanidades diferentes em número, só uma essência da humanidade se encontra neles. Entretanto, nas três pessoas divinas não existem três divindades diferentes em número, mas é necessário que haja uma única e simples divindade, já que a essência do Verbo e do Amor não é outra que a essência de Deus; e, assim, confessamos, não três deuses, mas um único Deus, por causa da única e simples divindade em três pessoas.

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