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Ultrapassar o ego

Se há algo que acomuna todas as grandes religiões, parece ser a necessidade de ultrapassar o ego. O ego, com seus interesses mesquinhos, sua visão míope e sua mentalidade estreita, deve ceder espaço ao divino. São Paulo o experienciou muito bem quando disse já não ser ele que vivia, mas Cristo nele. A consciência pequena deve deixar-se ultrapassar pela consciência grande. O homem deve reconhecer os valores que o ultrapassam como mero indivíduo e o introduzem conscientemente no horizonte do Ser e na comunhão do Todo .   No entanto, para que o homem se desapegue do seu ego, é inevitável a crise . Esta tem por função sacudir o ego e feri-lo, de modo que seja reconhecido impotente e frágil, incapaz de salvação. É então que o homem perderá sua identificação com as estreitezas do ego para alojar-se num mais amplo espaço do espírito. Perdido o ego, o homem ganhará o que está para além do ego.   O ego é o eterno insatisfeito. É carente, quer atenção, busca destacar-se… Tudo isso porqu...

Saber viver

 Desde o advento da ciência moderna no séc. XVII, que, não se pode negar, trouxe muitos benefícios para a humanidade, vivemos no contínuo perigo de nos deixar arrastar pela sensação de que tudo podemos, de que o homem é o único criador de si mesmo e de seu mundo.  É verdade que essa sensação de onipotência foi contraditada, sobretudo pelas duas grandes guerras do séc. XX, que mostraram com intensidade o seu poder destruidor. O homem que acreditava cegamente na ideologia iluminista do progresso irrevogável acabou por confrontar-se com seus limites, de modo especial com os limites que traz dentro de si, porque o homem não é somente capaz do bem; é também capaz do mal. Não é só criador, mas é também destruidor. E, nesse sentido, deve continuamente buscar forças que o purifiquem, afastando-o do mal e encaminhando-o para o bem. Como quer que seja, o grande legado da revolução científica é a produção e o consumo de bens, o que coloca o mundo num dinamismo tal que a vida passa a ser ...

A Vida que dá vida ao mundo

O mundo é um fluxo contínuo. As galáxias se expandem, as estrelas giram em torno do centro de suas galáxias e os planetas, em torno do centro das estrelas, que, antes de apagarem-se, nascem e irradiam luz. A vegetação, como os animais aquáticos, voláteis e terrestres, têm o ciclo de sua vida, e as gerações sucedem-se segundo os seus ritmos em tempos indefinidos. O homem traz o clarão da consciência para o centro do universo, procura lançar o olhar sobre a parte e o todo e é capaz de maravilhar-se na presença do que existe. Por detrás de tudo o que é e se move em seu incessante dinamismo, está a Vida, a Causa transcendente e imanente da vida do inteiro mundo. A Vida é invisível aos olhos sensíveis, mas é a Realidade mais real, que dá origem e sustenta o espetáculo do universo com tudo o que ele encerra. A Vida é reconhecível pelo espírito, abertura infinita ao Infinito. A Vida mostra-se, de alguma maneira, em tudo aquilo que aparece, mas ela, em si mesma, é Vida escondida ( Deus abscond...

A imagem de Deus está mudando?

Eu diria que não temos acesso direto ao Ser divino. Ele se mostra conforme nossa capacidade de percepção, de investigar (no caso da filosofia) ou de receber (no caso da teologia). Cada cultura ou cada pessoa faz, então, uma “imagem” de Deus. Uso aqui o termo imagem em sentido amplo. Abarca as representações imagéticas ainda não muito conscientes de seu caráter metafórico, as metáforas conscientes de si mesmas, até os conceitos refinados da filosofia e teologia. Estas pretendem alcançar ou expressar algo de estável e eterno sobre a imagem de Deus pelo alto grau de abstração e formalidade que alcançam, mas mesmo assim trazem alguma marca da história e da cultura.   Assim, a imagem de Deus que temos hoje não é exatamente a mesma que tinham os primeiros hebreus henoteístas ou os primeiros judeus monoteístas. Para os cristãos, Jesus, embora falasse a partir de sua cultura judaica, renovou a imagem de Deus, acentuando a gratuidade e a misericórdia divina, que não eram desconhecidas, e a ...

Católicos devem deixar-se iluminar pela Doutrina Social da Igreja

A Doutrina Social da Igreja (DSI) oferece princípios para o entendimento , critérios para a formação do juízo e diretrizes para a ação no campo social e político, já que pertence ao humanismo cristão e à própria fé procurar construir um mundo mais respeitoso dos valores da justiça, da liberdade, da participação, do bem comum e da alta dignidade da pessoa.   Como a realidade social é mutável e admite um leque mais ou menos amplo de soluções, o parâmetro da DSI admite aquela flexibilidade que caiba dentro do quadro geral dos seus princípios e grandes critérios. Por isso, um católico pode encontrar solução, dependendo da situação concreta, mais à esquerda ou mais à direita do espectro da realidade político-social em que vive. E nem todos os católicos precisam encontrar a mesma solução concreta, embora devam todos observar os mesmos princípios e levar em conta os critérios gerais e as grandes diretrizes.   A solução concreta das questões sociais depende muito de uma análise feita...

Origens do carnaval

As origens das festas carnavalescas lançam raízes em tradições pré-cristãs. Nos tempos cristãos, o carnaval acontece nos dias imediatamente anteriores à Quarta-feira de Cinzas, início do tempo penitencial da Quaresma.  Entre gregos e romanos havia desfiles ou procissões em honra do deus Dionísio ou Baco com fantasias e alegorias. Esta festa em Roma chamava-se Bacanal.  Havia ainda entre os romanos diversas festas, em dezembro, janeiro e fevereiro, para celebrar o deus Saturno, o solstício de inverno, o início do ano ou da primavera. Assim, tinha-se a Saturnália , o Dies Natalis Solis Invicti , a Lupercália . Esta última era realizada em fevereiro e era um festival de purificação da cidade de Roma para o início do novo ano, que começava em março. Nela celebrava-se também a fertilidade, que a aproximação da primavera anunciava. As festas em geral davam lugar para as licenciosidades do povo, em que a ordem social como que deixava de existir por alguns dias, a ponto de o Senado ro...

A mística: deixar-se perder na divindade

A mística, que é o fim supremo da vida cristã, não tem nada a ver com aparições, visões, êxtases ou fenômenos extraordinários. Se acontecem essas coisas, trata-se de algo secundário, que não constitui a essência mesma da mística. Esta é um perder-se na divindade, um deixar- se absorver no oceano sem limites do Ser ( pelagus essendi ), que é também Amor ( ignis ardens caritatis ). A mística pode adquirir feições mais intelectuais, mais afetivas ou mais práticas, mas em uma forma ou outra sempre terá a dimensão da visão: é preciso estar consciente da quase fusão com a divindade, vendo com os olhos da alma a sua Beleza; a dimensão do coração: a união com o Absoluto é tão transformante que reordena os afetos da alma, que se concentra tanto na fonte do Amor ( ignis originarius ) que acaba quase não mais sentindo aquela necessidade própria do homem de receber dos outros algum afeto para que possa transmitir afeto; a alma se sente plena e transbordante do afeto divino; e a dimensão do agir: a...

O Ocidente e o divino

O Ocidente racionalista, empirista e cientificista tem enormes dificuldades, às vezes intransponíveis, de acreditar que Jesus de Nazaré possa ser Deus. Mas esse Ocidente é só uma perspectiva.   Se olhamos para o hinduísmo da Escola Advaita-Vedanta , por exemplo, não há a mínima dificuldade de reconhecer que Jesus possa ser Deus. Muito ao contrário, haveria dificuldades sérias se Jesus não pudesse ser Deus. É que para esse hinduísmo, a substância de todas as coisas é Deus. Rigorosamente falando, só Deus existe, e o mundo fenomênico não passa de uma superposição de Deus. Deus é o Ser que subjaz informe sob o véu das diversas formas finitas — passageiras e ilusórias — dos entes mundanos. É o Um permanente que está sob a multiplicidade fenomênica e fugaz dos muitos . Pelo atman (alma, centelha divina), emerge no homem a consciência de ser Deus ( Brahman ), de tal modo que a afirmação do Jesus joanino valeria para todo homem iluminado: “Eu e o Pai somos um”. Nesse sentido, Jesus seria...