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Os graus do amor

São Bernardo de Claraval, Doutor da Igreja Sobre os graus do amor ( De gradibus amoris ) Texto inspirado em S. Bernardo  1. O amor de si. O homem ama a si mesmo, quer conservar e engrandecer a própria existência.  2. O homem vê que não se basta. Então começa a amar a Deus como fonte de benefícios. O homem ama a Deus por causa do que Deus pode proporcionar-lhe. Aqui estão todos os que usam Deus ou se servem de Deus. O centro ainda é o ego.  3. O homem começa a ver que Deus é digno de ser amado por si mesmo. A grandeza de Deus é fascinante. Sua beleza é arrebatadora. Ele é a Fonte de todo ser. Mas  aqui a Fonte começa a ser vista em sua própria grandeza. Deus é amável por aquilo que ele é, não por aquilo que faz. No segundo grau, o homem amava a Deus com a medida humana. Não podia receber Deus como Deus. Aqui no terceiro grau, a medida se alarga, e o homem se torna capaz de receber Deus como Deus, e de se transformar nele. Quem recebe Deus à medida divina é inevitavelm...

Por que rejeitam o Vaticano II?

Hoje cresce uma onda de católicos que rejeitam o Concílio Vaticano II ou ao menos lhe torcem o nariz. Qual seria o motivo?  — Penso, antes de tudo, que o concílio é legítimo, não pode ser cancelado nem nunca o será. É o último da série de 21 concílios ecumênicos da Igreja católica. A autoridade que sustentou os 20 concílios que o antecederam é a mesma que sustenta o Vaticano II, ou seja, a autoridade máxima da Igreja, papa e bispos de todo orbe católico em comunhão.  O concílio quis renovar uma Igreja — e isso ficou mais claro com o próprio desenvolver-se do evento — que se tinha encastelado por causa das grandes mudanças operadas na modernidade (revolução científica (séc. XVII), revolução política (séc. XVIII), revolução industrial (séc. XVIII/XIX), revolução social (séc.XX),  revolução sexual (séc. XX), questionamento das bases mesmas da civilização ocidental cristã (séc. XIX/XX) etc.). A Igreja entendeu que não podia conservar-se numa atitude reativa, mas precisava dar...

A Bíblia, a ciência e a espiritualidade

O criacionismo que postula que o mundo tenha sido criado há cerca de 6 mil anos e num período de 6 dias é burro. Toma a Bíblia ao pé da letra, sem mediação hermenêutica alguma. Ora, tomar a Bíblia ao pé da letra é uma afronta à própria Bíblia. Os textos sagrados foram escritos numa cultura diversa, com propósitos bem específicos para seu tempo e para seus leitores, em geral usando gêneros literários bem diversos dos gêneros com os quais estamos acostumados. A doutrina da criação é uma verdade de fé e de razão, mas ela não precisa assumir os traços fundamentalistas que excluem as evidências de que o planeta Terra existe já há 4,5 bilhões de anos e a vida nele, há cerca de 3,5 bilhões de anos. A criação é uma realidade metafísica de dependência radical do ser dos entes criados para com o Ser puro ( Ipsum Esse subsistens ), que chamamos de Deus.  Outra coisa: querer refutar a teoria da evolução com base na Bíblia é também burrice, pois a Bíblia não pretende ensinar nem desautorizar te...

Ser e pensar são um

Transcendentalmente falando, ser e pensar são uma coisa só. Não pode haver o ser sem o pensar nem o pensar sem o ser. Parmênides viu esta verdade neste nível transcendental, que é o nível do pensamento em si e do ser em si. Ser e pensar são o mesmo ! Aqui tanto o realismo quanto o idealismo têm a sua parte de razão, mas, para dizer com Hegel, ambos são suprassumidos, isto é, são afirmados (no que têm de verdadeiro) e negados (no que têm de falso) numa síntese superior, absoluta. Tomás de Aquino reconhece que Deus, absolutamente simples, é identidade pura e sempre atual de ser e pensar. O Absoluto, em Hegel, é Idea que sabe de si, Ser consciente de si. Karl Rahner dizia que ser é ser-junto-de-si . O ser sabe-se junto de si na claridade daquele “espaço” em que o ser mesmo se mostra. É um absurdo, em nível absoluto ou transcendental, falar de ser e, ao mesmo tempo, não reconhecer o pensar, que é o aparecer do ser.  No nível categorial, que é o nosso humano, as coisas mudam de figura. ...

Somos uma restrição do ser de Deus

Nossa essência é somente “parte” metafísica da essência de Deus. Se nossa essência fosse a dele, seríamos o Ipsum Esse subsistens . A mesma coisa: nosso ser é somente “parte” metafísica do ser de Deus: se nosso ato de ser fosse o dele, seríamos o Ipsum Esse Subsistens .  Por isso, fora de Deus, todo ente é composto de inteligibilidade (essência) e ato de ser (ato da essência ou efetividade). Uma inteligibilidade limitada não pode existir por si e em virtude de si. Só a inteligibilidade absoluta existe por si e em virtude de si. Um ato de ser limitado não pode existir por si e em virtude de si. Só o ato de ser puro existe por si e em virtude de si.  Assim, nós criaturas precisamos, para ser, derivar nossa inteligibilidade parcial da inteligibilidade absoluta de Deus, e precisamos ainda de que essa inteligibilidade parcial, que de per si não pode existir, receba a efetividade ou o ato de ser, que a faz ser inteligível em ato e existir. Somos uma restrição de Deus.  O que ...

O ser como ato e a essência

O ser como ato ( actus essendi ) traz em si a inteligibilidade (essência) e a efetividade (a enérgeia suprema) numa unidade superior à da mera inteligibilidade (essência). Se a essência é o ato da matéria, o ato de ser é o ato da essência. S. Tomás do que o ato de ser é a perfeição das perfeições, o ato de todos os atos. O ato de ser é outro, mas não é totalmente outro em relação à essência, como se fosse a mera existência em sua diversidade da essência. Ele é um outro (metafísico) em relação à mera inteligibilidade da essência, mas não à inteligibilidade da essência como tal . O ato de ser é o coroamento da essência. Se a essência é a mera inteligibilidade, o ato de ser é a efetividade que suprassume a inteligibilidade ou a inteligibilidade suprassumida pela efetividade. O ser como ato é a essência efetivada ou dotada do ato que a faz ser efetivamente.  Fabro usa o conceito de “emergência” para falar do ato de ser. O ato de ser emerge sobre a inteligibilidade, não a negando, nem...

Metafísica e metáfora

Suponhamos que exista um filósofo que atingiu um conhecimento insuperável. Ninguém pode ultrapassá-lo. Ele comunica o seu conhecimento aos discípulos, que, por não poderem receber todo o saber do mestre, recebem parte dele.  Ora, ao comunicar o conhecimento, o mestre insuperável não perdeu nada do que tinha, pois o conhecimento não tem partes físicas.  Ao receber o conhecimento, os discípulos não aumentaram em nada a soma do conhecimento total, pois o conhecimento do mestre mais o conhecimento dos discípulos não são mais do que o conhecimento insuperável do mestre.  Cada discípulo recebeu o conhecimento do mestre segundo a sua capacidade.  Esta é uma boa metáfora para falar da metafísica de S. Tomás.  O Ser, que é Deus, não pode receber acréscimo, pois é o Ser em plenitude. Ao criar o mundo, ele comunica o ser aos entes, que, por não poderem receber todo o ser, recebem parte dele. Os entes participam do Ser.  Ora, ao comunicar o ser, o Ser não perde nada se...

Trindade divina: uma só realidade em três modos de subsistência

 Por sugestão de um amigo, que me pedia uma ilustração sobre o mistério da Trindade em Deus, escrevo o seguinte texto:  O último pensamento de S. Tomás sobre a Trindade em Deus está muito próximo do que foi defendido por K. Rahner no século XX.  Rahner defendeu que em Deus há três modos de subsistência . Alguns o querem acusar de modalismo, mas, a meu ver, sem razão.  O modalismo não defende a subsistência dos modos distintos, mas modos sem subsistência, modos econômicos, por assim dizer temporais, em relação a nós. Deus seria chamado de Pai, Filho e Espírito porque se teria mostrado como Pai, Filho e Espírito na história, para nós, mas em si mesmo seria simplesmente Deus. O modalismo tira a trindade da essência eterna de Deus.   O entendimento de Rahner é bem outro. Os modos em Deus são subsistentes, constitutivos da essência divina. E, assim, existem na eternidade de Deus. Subsistem na sua distinção e mútua relação. São o próprio Deus.  Rahner ressalta so...