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O espírito e o ser

O espírito finito só pode ser entendido propriamente por referência analógica ao Espírito infinito. O Espírito infinito é o Ser perfeitíssimo em que há perfeita e real identidade entre o pensar e o ser em sua perfeição infinita. Essa ideia do Espírito infinito pode ser pensada, mas pode ser também demostrada. Que haja um Espírito infinito é demonstrado de diversas formas, entre as quais, pela necessidade de haver o Ato puro. Pelas exigências originárias, lógicas e ontológicas, do pensamento, o Ato deve preceder a potência, e o Ato puro deve preceder qualquer forma de ato mesclado com a potência. Existe, pois, o Espírito em que pensar e ser são um em atualidade pura e infinita.   Já no espírito finito não há identidade perfeita e real entre o pensar e o ser na sua perfeição infinita. O espírito finito no homem não possui realmente o ser em toda a sua riqueza. No entanto, há no seu ádito um tipo de presença do ser em sua universalidade transcendental . Se não fosse assim, o espír...

A técnica como fim e o problema da transcedência

  INTRODUÇÃO  Este breve artigo é fruto da Aula Magna que ministrei em agosto de 2019 por ocasião da abertura do 2º semestre do Curso de Teologia do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF) e do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio (ITASA), de Juiz de Fora. Visa a lançar elementos de reflexão sobre o atual momento da história, caracterizado pela intensa presença da técnica, que, sem dúvida, contribui positivamente com a existência do homem no mundo, mas que tende a absorver todas as energias humanas, pretendendo tornar-se o fim supremo de nossas atividades. O homem poderia existir para a técnica? Dependemos fundamentalmente, para essa reflexão, dos textos em geral do filósofo italiano Emanuele Severino [1] . O TERROR DO DEVIR E O SABER QUE SALVA  A civilização ocidental alcançou ser a primeira civilização planetária da história. Ela exportou a todos os recantos da Terra, não tanto valores metafísicos ou éticos, mas a metodologia e os resultados da...

A descoberta do ser

Segundo Santo Tomás, os filósofos, passo a passo, foram-se aproximando da verdade.  Os primeiros (pré-socráticos) estavam tão ligados ao sensível que pensavam existir apenas coisas materiais . Postulavam um ou mais substratos (água, ar, terra, fogo...) eternos e indestrutíveis. O devir era visto como mudança acidental de uma mesma substância material originária.  Depois, vieram os filósofos que entenderam que a forma é ente, e é mais ente do que a matéria . A matéria passou a ser vista como potência, e o devir foi explicado como a passagem da potência para o ato, este último dado pela forma. Nesse sentido, o devir não foi visto necessariamente como simples acidente, mas sobretudo como mudança substancial, perda ou recebimento de uma forma. Esse estágio representa a vitória do inteligível sobre o simples sensível. A filosofia elevou-se da matéria à forma ou à substância (dada pela forma).  Em ambos esses estágios, o devir ocupa a ribalta, na medida em que sempre se pressup...

São João da Cruz, místico e doutor da Igreja

Memória: 14 de dezembro Viveu no século XVI. Com Santa Teresa de Jesus, empenhou-se pela reforma do Carmelo. Por isso foi incompreendido, perseguido e até encarcerado.  O que nele se destaca é a busca inquieta por Deus. Mas não se trata de uma busca qualquer. Muitos querem Deus, mas querem um Deus que transforme suas vidas em existências mais fáceis, com mais sucesso e mais reconhecimento. João da Cruz, não. Ele queria Deus mesmo, não os favores temporais de Deus. E estava consciente de que, ganhar a Deus, num mundo de pecado e com a natureza humana caída, não era coisa para preguiçosos. Desse modo, teria revelado a Jesus, numa aparição, o seu desejo: Patiar pro te - "Que eu saiba sofrer por ti!" Baseado na tradição da Igreja (soube assimilar também elementos vindos de fora) e na própria experiência, elaborou sua versão da ascensão mística:  Há duas noites na escalada da montanha da união com Deus: a noite ativa e a noite passiva. Noite é a metáfora escolhida para falar da a...

Metafísica em pauta

A metafísica é ciência do ente enquanto tal e no seu todo. Enquanto as diversas ciências estudam o ente enquanto isto ou aquilo (o ente particularizado), a metafísica estuda o ente na sua dimensão mais universal, isto é, o ente enquanto tem ser, independente se ele seja isto ou aquilo.  O ser é que dá vida ao ente. A palavra ente , aliás, significa aquilo que é  ou aquilo que está sendo . O que faz com que o ente seja ou esteja sendo é o ser.  Depois de estabelecer o sentido do ser e tudo aquilo que lhe diz respeito, a metafísica se pergunta pela causa do ser. O ser que a metafísica considera é o ser do complexo humano- mundano — o ser dos entes do universo que conhecemos. Este ser terá uma causa? A reflexão metafísica dirá que sim . A causa do ser dos entes é o Ser subsistente , cujos atributos coincidem com os daquele que chamamos de Deus. Deus, assim, entra na metafísica, não como seu objeto, mas como causa do ser dos entes ( esse commune ), este, sim, objeto próprio...

Deus é o próprio Ser

"Ele é sem dúvida substância ou, se for melhor esta designação, essência, a que os gregos chamam ousía . [...] Com efeito, o que muda não conserva o próprio ser, e o que pode mudar, ainda que não mude, pode não ser o que fora e, por isso, só aquilo que não muda, mas também não pode mudar de maneira nenhuma, é o que se pode dizer, com toda verdade, ser" (S. Agostinho, De Trinitate , IV-3.4). ______ Nesse texto, Agostinho diz que, propriamente falando, só Deus merece o nome "substância", "essência", em suma, "ser". A razão disso é que Deus é estável, não muda. Ele não deixa de ser, é sempre o que é. Assim Agostinho interpreta as célebres palavras do Êxodo: "Ego sum qui sum" - "Eu sou aquele que sou" (Ex 3,14). Deus é o único que é em sentido forte porque é o único que permanece sempre o mesmo . Vemos que Agostinho liga-se a Platão, que considerava verdadeiramente ser  somente as ideias imutáveis de seu mundo inteligível. Ser =...

Bíblia, inspiração e interpretação

A Bíblia Sagrada é um conjunto de livros. O nome “Bíblia” veio da língua grega ( biblía é o plural de biblíon , que por sua vez é o diminutivo de bíblon , que significa “livro”). De acordo com sua raiz etimológica, portanto, Bíblia faz referência a um conjunto de livrinhos. Na verdade, segundo o catálogo católico, já presente em concílios (reuniões eclesiásticas) regionais da Antiguidade (final do século IV) e, depois, reafirmado pelo Concílio Geral de Trento (século XVI), a Bíblia é um conjunto de 73 livros, cujos tamanhos variam, mas em geral não são grandes (há mesmo “livros” que são cartas de uma ou poucas páginas, como a Carta de São Paulo a Filêmon). Esses 73 livros foram compostos em datas e circunstâncias variadas, num período de tempo que se estende do século VIII a.C até os fins do século I ou inícios do século II d.C. Até recentemente, se admitia que no século IX a.C. já se escreviam os primeiros textos bíblicos na corte do rei Salomão, de Israel, mas estudiosos têm agora d...

O ofício do sábio segundo S. Tomás de Aquino

Trecho da minha monografia de graduação em filosofia. Escrevi-a aos 21 anos de idade, mas a monografia hoje está perdida. Eu tinha uma cópia, emprestei-a e não me devolveram. ——— Ser sábio é dito daqueles que, considerando o fim, tudo ordenam em conformidade com ele: "pertence ao sábio ordenar". As artes arquitetônicas ou principais dirigem as inferiores, assim como a arte médica ordena a arte farmacêutica, uma vez que o fim da farmácia é a medicina. Desse modo, são chamados sábios os artífices das artes arquitetônicas, pois que lhes compete ordenar para o devido fim as artes inferiores. Todavia, o sábio por excelência, o único propriamente digno desse nome, é o que considera o fim último de todas as coisas e, por isso, está em condições de tudo ordenar em conformidade com ele: "O nome sábio, porém, é simplesmente reservado só para quem se dedica à consideração do fim do universo, que é também o princípio". O propósito fundamental de Santo Tomás é realizar o ofício ...