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A missa é o maior poema

Celebrando a Missa, ocorreram-me alguns pensamentos. Vi e senti que a essência da Missa não está, de maneira alguma, na utilidade que ela possa ter. A Missa pode ensinar, mas ela não existe primeiramente para ensinar. Se quiséssemos ensinar, poderíamos marcar uma reunião ou promover um curso. Seria mais eficaz. A Missa também não existe, em primeiro lugar, para promover a comunidade. Ela pode e deve fazê-lo, mas isso não é ainda a essência mesma da Missa. Se quiséssemos simplesmente promover a comunidade, poderíamos nos valer de outros expedientes. Poderíamos multiplicar as razões de caráter utilitário e atribuí-los à Missa. Missa “para” isto ou aquilo. Mas, assim fazendo, não encontraríamos a Missa. A sua essência está em algo grande, que não pode ser simplesmente útil ou simplesmente “para”. A Missa é fim em si mesma. Nela contemplamos o mistério da autoentrega de Jesus. Ali vemos a caridade perfeita. Somos arrebatados pela presença mesma do “Amor que move o Sol e as outras ...

Natal, celebração de um evento

Dezembro, que se aproxima, é o mês do Natal, quando os cristãos celebramos um grande acontecimento: a encarnação do Filho de Deus. A história é feita de processos e de eventos. Os processos são relativamente longos, feitos de continuidade e de gradualidade. Já os eventos são curtos espaços de tempo em que ocorre uma ruptura, e dá-se a irrupção de uma novidade. Tomemos, como analogia, a reprodução humana. A fertilização de um gameta feminino por um gameta masculino é um evento. Algo novo — uma vida nova — inicia-se em um curtíssimo espaço de tempo. Já o desenvolvimento da nova vida surgida pelo evento da fertilização é um processo, pois que se faz em um tempo maior e por mudanças graduais. Na história tivemos vários eventos e processos. É indubitável que o nascimento de Jesus, há mais de dois mil anos, foi um evento. Aos olhos do historiador, em Jesus teve início um novo ciclo cultural, que irrompeu com força pelo movimento suscitato pelo Mestre de Nazaré no solo da religião de Is...

Amor de salvação

Sabemos pela fé que somos importantes aos olhos de Deus. A razão, dentro de seus limites, consegue mostrar que somos criados pelo Ser subsistente. No entanto, à primeira vista e em nível meramente fenomenológico, nem sempre conseguimos ver que somos importantes, a não ser para nossos familiares e amigos mais íntimos. Na vida social podemos ser substituídos facilmente por outros. A engrenagem da sociedade e da história continuará a funcionar sem nossa presença. Tudo se passa como se fôssemos totalmente supérfluos e insignificantes. Sem a luz da fé e da razão metafísica, até mesmo a história e o universo inteiro parecem não ter sentido algum. Tudo parece caminhar para o vazio e nele se resolver. Tudo isso impressionou sobremaneira o autor do livro bíblico do Eclesiastes, que clamava: “ Vanitas vanitatum, dixit Ecclesiastes, vanitas vanitatum et omnia vanitas ” - "Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades, tudo é vaidade!” ( Eclesiastes 1,2). Heidegger, fil...

Concílio Vaticano II - Parte I

João XXIII quis um novo concílio  O Concílio Vaticano II representou o maior evento da Igreja católica no século XX e talvez o maior evento desde o Concílio de Trento. O Concílio Vaticano I havia sido interrompido abruptamente pela guerra franco-prussiana em 1870 e não pôde tratar da relação do colégio dos bispos com o Sucessor de Pedro, cuja infalibilidade em matéria de fé e moral (respeitadas certas condições) e jurisdição universal sobre a Igreja acabara de proclamar como verdades reveladas. Por isso, desde então esteve presente a possibilidade de uma sua reconvocação, já que ficara inconcluso e apresentara uma eclesiologia incompleta. Entretanto, João XXIII não quis reconvocar o Concílio Vaticano I, mas convocar um novo Concílio, que desse tonalidade pastoral a seus documentos e abrisse um clima de diálogo com a modernidade. As mudanças culturais tinham sido tantas nos últimos séculos que a Igreja se assustara e como que se trancara numa num palácio fortificado, longe ...

Último lugar

É fácil compreender porque Jesus pediu que se evitasse cobiçar os primeiros lugares e que ninguém os ocupasse sem o convite do dono da festa (cf. Lc 14). A cobiça por cargos no mundo — e até mesmo na Igreja — é a causa principal de desavenças, conluios, puxa-saquismo, fofocas, injustiças e tudo o mais que não presta. A disputa pelos primeiros lugares sempre causa divisão e feridas. Por outro lado, ninguém vai causar nada de mal se buscar o último lugar. O último lugar não é disputado. O discípulo de Jesus o escolherá por amor e por entender que há um modo alternativo de convivência. O cristão é chamado a viver de modo diferente, e, nessa diferença, construir a paz em meio a um mundo que promove a divisão. Só se for chamado por alguém superior ou pelo povo é que o discípulo aceitará um lugar de destaque. Mas tal aceitação se fará por espírito de serviço, não por ambição. Deve-se também parar de elogiar os que ocupam cargos de destaque só porque ocupam esses cargos. Esses elog...

Sabedoria e piedade

Enquanto tomo um café, escrevo: Agostinho, logo quando da sua conversão à fé católica em 386 d.C., retira-se com amigos em um sítio de Cassicíaco, que lhe fora cedido pelo amigo Verecúndio, nas proximidades de Milão. Aí escreve diálogos filosóficos. A filosofia, para Agostinho, é instrumento de união com a divindade. A influência do neoplatonismo se faz sentir. A inteligência fulgurante do recém-convertido deseja como nunca a Deus e acredita poder possuí-lo já nesta vida. Procura a Deus na sabedoria ( sapientia ). Mais tarde se dará conta de que a divindade é inapreensível nesta vida e a piedade ( pietas ) é mais profícua do que a sabedoria filosófica para a união com Deus, piedade que se mostra na contemplação do mistério da encarnação e da cruz, “lugares” onde Deus mesmo se humilhou, confundindo a inteligência dos sábios. Com o passar do tempo, o que era próprio do cristianismo se acentua cada vez mais na espiritualidade de Agostinho; na mesma medida, a influência do neoplatonismo...

Eucaristia: sacrifício da Igreja?

Elílio de Faria Matos Júnior Como a Eucaristia pode ser entendida como sacrifício da Igreja? Evidentemente, por si só a Igreja não tem nada de valioso a oferecer a Deus. Por si só, pois, a Igreja não pode oferecer a Deus um sacrifício agradável. O sacrifício perfeito, agradável a Deus, que, inclusive, substituiu todos os sacrifícios antigos, levando-os à perfeição, é o sacrifício de Cristo. E o sacrifício de Cristo consistiu na sua autoentrega contínua, que alcançou seu ápice na autoentrega da Cruz. O sacrifício de Cristo foi um sacrifício existencial, de oferecimento da própria vida à vontade do Pai. Jesus, entretanto, deixou um sinal sacramental do seu sacrifício único e perfeito. Na sua última ceia com os discípulos, quando estava para ser entregue, ele tomou o pão e o último cálice e disse que eram o seu corpo doado e o seu sangue derramado. A Igreja guardou no coração os gestos dessa última ceia e entendeu que devia repeti-los para fazer memória ( anamnese ) de ...

Sobre os sacramentos - Mystérion, mystéria, sacramentum, sacramenta

Pontos histórico-teológicos importantes  Mystérion, mystéria, sacramentum, sacramenta  - O termo sacramento vem do latim sacramentum , que, por sua vez, é a tradução do grego mystérion . Mystéria é o plural de mystérion , assim como sacramenta é o plural de sacramentum .    - No uso pagão, mystérion é usado para referir-se a ensinamentos filosóficos que elevam o iniciado à suprema realidade ou a práticas cultuais ou representações sagradas que colocam o iniciado no âmbito da divindade (por exemplo, no culto de Ísis, Mitra ou Osiris). A raíz grega do vocábulo mysterion é myein , que significa fechar a boca, calar-se .  --Veja-se que em Elêusis, cidade da Grécia antiga, celebrava-se o culto de Deméter. Coré (grão de trigo), raptada por Plutão, desce ao mundo inferior (semeadura), e sua mãe Deméter, desesperada, corre à procura da filha destruindo tudo por onde passa (inverno). O deus Hélio (sol) sai ao encontro de Deméter para ajudá-la (...