sábado, 6 de setembro de 2014

O que é o Catolicismo? - What is the Catholicism thing?

Robert Barron
Catedral de Orvieto - Itália

"O que é o Catolicismo? O que distingue o Catolicismo entre todas as filosofias, ideologias e religiões do mundo? Eu estou de acordo com o Bem-aventurado John Henry Newman, que disse que o 'grande' princípio do Catolicismo é a encarnação de Deus. O que isso significa? Significa que a 'Palavra de Deus' - a mente pela qual todo o universo foi criado - não permaneceu fechada do céu, mas, antes, entrou neste mundo ordinário de corpos, neste palco sujo da história, nesta nossa comprometida e lacrimosa condição: 'A Palavra se fez carne e armou a sua morada entre nós' (Jo 1,14): isso é o Catolicismo".

A encarnação envolve verdades centrais concernentes a Deus e a nós. Se Deus se tornou humano sem deixar de ser Deus e sem comprometer a integridade da criatura, Deus não deve ser visto como um competidor do homem. Em muitos antigos mitos e lendas, figuras divinas como Zeus ou Dionísio entram nos negócios humanos precisamente por meio da agressão, destruindo e machucando o que invadem. E em muitas filosofias da modernidade, a imagem de Deus é construída como uma ameaça ao bem-estar humano. Cada qual à sua maneira, Marx, Freud, Feuerbach e Sartre ensinam que Deus deve ser eliminado se o homem deseja ser plenamente ele mesmo. Mas não há nada disso na doutrina cristã da encarnação. A Palavra, na verdade, se faz homem, mas nada do humano é destruído nesse processo; Deus entra na sua criação, mas o mundo é aprimorado e elevado por meio disso. O Deus capaz de encarnação não é um ser supremo que está em competição com o homem, mas, antes, nas palavras de Santo Tomás de Aquino, o puro Ato de Existir, que funda e sustenta a criação, assim como um cantor sustenta o canto".

 (Robert BARRON, Catholicism, a journey to the heart of the faith, New York, 2011) Tradução de Pe. Elilio Jr.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Contradição no sistema kantiano

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

Como se sabe, o filósofo Immanuel Kant (séc. XVIII) empreendeu um enorme obra de crítica do conhecimento consignada na sua famosa Crítica da Razão Pura. Ele aí defendeu que somos aptos para conhecer cientificamente somente o que cai sob os nossos sentidos, ao qual de imediato a estrutura do eu penso aplica as suas formas a priori: espaço, tempo e categorias do entendimento, entre as quais a categoria de causalidade. Isso quer dizer que, para Kant, a causalidade (juntamente com as outras formas a priori) não existe fora da mente ou nas coisas, mas é somente uma forma da mente, que aplico ao que me vem pelos sentidos. Assim, o que conhecemos não é simplesmente o que estava lá fora como já dado, já pronto. O dado puro não existe pra Kant. Nossa estrutura de conhecimento sempre filtra o que cai sob os sentidos através de suas formas a priori. O conhecimento, assim, para Kant, é fruto da nossa ação, isto é, da ação espontânea do nosso aparato cognoscitivo (que existe já antes de toda experiência sensível). 

Para além da experiência sensível, existem as grandes ideias que podemos pensar (a ideia de "eu", de "mundo" e de "Deus"), mas não conhecer. O que podemos pensar, mas não é passível de uma experiência sensível (como as ideias de "eu", "mundo" e "Deus"), não pode ser objeto de ciência, isto é, não pode ser conhecido. Assim, Kant proclamava o fim da metafísica como ciência do meta-sensível. O fim da possibilidade de conhecer pela razão, entre outras coisas, Deus e a alma, que nos seus Solilóquios, eram as duas únicas coisas que Santo Agostinho dizia que vale a pena conhecer e pelo qual ele empregou todo seu esforço. 

Acontece, porém, que, para não cair num idealismo extremo, Kant sempre admitiu e existência extra-mental de uma realidade que jamais saberemos o que é e que pode ser apenas pensada (noumenon). Se Kant não admitisse tal realidade fora da nossa mente, ele teria de admitir que todo o nosso conhecimento derivasse da estrutura a priori do eu penso. O conhecimento seria então totalmente fruto do eu penso. A única realidade seria o eu penso. Idealismo puro. Para não chegar a tanto, a realidade extra-mental sempre admitida por ele (conhecida também como coisa em si) exercia o papel de fundamento e causa do dado sensível que informa as nossas estruturas cognoscitivas. O conhecimento, então, não é pura obra do eu penso, muito embora o eu penso aja, como já se disse. O conhecimento depende do dado sensível e este depende da coisa em si, seu fundamento e causa, que, porém, nunca saberemos o que seja. 

Notamos, porém, no sistema de Kant, uma grande e fundamental contradição. Como a coisa em si, que está fora da mente e que é necessária no sistema kantiano para não se cair no idealismo mais extremado, pode realmente causar o conhecimento (ela é o fundamento ou a causa do dado sensível que nos atinge) se a causalidade, segundo o próprio sistema de Kant, é somente uma forma a priori do conhecimento e não pertence ao que está fora da mente?

Resta dizer: sem a coisa em si, o sistema de Kant não funciona bem, vira idealismo puro e simples. Com a coisa em si, o sistema é implodido a partir de seus próprios fundamentos. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Rezar é preciso

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

O tema da oração é de inegável importância para a vida humana. Os animais irracionais não rezam, mas o ser humano sim. Isso porque o homem é fundamentalmente aberto à Transcendência. Não se contenta com nada que é finito. E a oração é a elevação da alma, é o suspiro pelo Eterno, é o encontro com Deus.

Uma das características das sociedades modernas é a secularização, que outra coisa não é senão um movimento de volta para o mundo. Voltar para o mundo, reconhecer-lhe a realidade e a beleza e valorizá-lo como convém não são em si mesmas atitudes más. O perigo está em se tornar prisioneiro do mundo, em agarrar-se em suas malhas finitas e perder a capacidade da ultrapassagem, da elevação, do olhar superior. Não devemos nunca esquecer o que disse São João da Cruz, grande místico e doutor da Igreja: “Um só pensamento do homem vale mais que todo o mundo; portanto, só Deus é digno dele”.

A vida moderna, com todo o desenvolvimento científico-técnico de que hoje dispomos, corre facilmente o perigo de fazer do homem um prisioneiro do finito, que jamais poderá preenchê-lo. A oração vem em nossa ajuda, fazendo-nos ver que há uma Realidade (Deus) que dá o verdadeiro sentido a todas as coisas, uma Realidade capaz de entender o homem em todas as suas questões, uma Realidade que é Inteligência e Amor eternos!

O homem que reza nunca está sozinho. Pela oração estamos bem acompanhados, estamos na presença d’Aquele que, sendo Inteligência infinita, pensou em cada um desde toda a eternidade, e, sendo Amor sem limites, deu-nos a existência e guia-nos os passos, por Cristo e no Espírito, para a felicidade completa em seu Reino.

Que a Bem-Aventurada Virgem Maria, mestra da vida de oração, ensine-nos a ser pessoas que rezam! É preciso rezar, pois que oração há de salvar o mundo!

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Fé e evolução

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

A fé cristã é compatível com a compreensão do mundo em evolução? Sim, eu diria. A fé substancialmente não diz 'como' o mundo foi criado, mas que foi (é) criado. A evolução pode muito bem ser o modo pelo qual Deus cria o mundo. O que é incompatível com a fé é a afirmação de que o espírito seria um mero produto casual da matéria ou um "bolor casual na superfície da matéria", como diria Ratzinger. A evolução não exige que se afirme isso. Num quadro de compreensão evolutivo, a fé nos mandaria crer que, longe de ser um produto casual da matéria, o espírito, que se verifica no homem, é a meta da evolução e a matéria, a sua pré-história. Nesse sentido, o espírito é a grande obra criada por Deus, não algo simplesmente derivado da matéria.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Santo Agostinho


Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

Santo Agostinho viveu na tarda Antiguidade (séculos IV e V) e foi o primeiro grande pensador cristão. Conseguiu uma invejável síntese entre a fé da Igreja, transmitida pelos apóstolos, e as ideias fundamentais do platonismo ou neoplatonismo. Agostinho foi também o primeiro a pensar em primeira pessoa, isto é, soube envolver o seu «eu» concreto e suas inquietações na busca da verdade. Sua grande lição permanece válida: o mergulho na interioridade não é subjetivismo, mas comporta uma elevação à Transcendência – inferior infimo meo superior summo meo. No mais profundo da razão criada deixa seus sinais a Razão incriada, Fogo sempre vivo em que se acende constantemente o pensamento humano. Na atualidade, um grande estudioso e admirador de Agostinho é o papa emérito Bento XVI.

A confiança originária

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

A confiança é originária. É uma posição originária em virtude da qual a minha visão de mundo apresenta uma direção fundamental. Escutar o apelo originário que me chama à confiança é escolher acreditar que não existo por acaso e que há um lugar reservado para mim; é escolher acreditar que o meu estar no mundo é mais do que o simples estar. Tal atitude pode ser o primeiro grande passo rumo à maturação daquela fé em um Deus pessoal, que cria o mundo, intervém na história e faz promessas de futuro que ultrapassam toda imaginação e todo desejo. De outro ponto de vista, todo aquele que crê no Deus pessoal anunciado pelo cristianismo cultiva a confiança originária que o faz ver que o universo não é uma mera extensão infinita e silenciosa, indiferente às vicissitudes humanas, mas uma casa ou um lar que nos abriga, ainda que numa perspectiva provisória em relação à nossa atual condição.

Liberdade vazia?

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

A liberdade humana não é uma liberdade vazia nem deve ser entendida como tal. Ela se realiza no horizonte de sentido dado pela Razão criadora. Assim, o homem não é pura liberdade, não é liberdade indeterminada, mas é liberdade dotada de uma consistência ontológica, isto é, antes da liberdade ou concomitantemente a ela, existe um sentido ou uma orientação fundamental doado pelo Lógos divino. O horizonte de sentido não exclui a liberdade, mas a chama a realizar-se em conformidade com o que lhe é anterior e ganha expressão na natureza humana.

sábado, 14 de junho de 2014

Sobre a metafísica

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

A metafísica tem como subjectum ou tema de estudo o ser enquanto ser. Mas o que significa a expressão ser enquanto ser? Ser significa aquilo que é. Ser enquanto ser significa exatamente aquilo que é, numa perspectiva de totalidade. Só a metafísica estuda o ser em perspectiva de totalidade, isto é, o ser sem restrição alguma.

Senão vejamos: todas as ciências, afora a metafísica, sempre estudam o ser segundo alguma restrição, nunca o ser sem restrição alguma. Um grande exemplo que se pode tomar é a física moderna: ela estuda o ser, mas se restringe ao aspecto móvel, experimentável e mensurável do ser, isto é, o ser natural. E se existir um âmbito do ser que não pertença àquilo que é móvel, experimentável e mensurável? Um âmbito do ser que não entre na categoria de ser natural? A física como tal jamais poderá responder se existe este âmbito de ser ou se tudo o que existe se restringe ao natural, que é móvel, experimentável e mensurável. O principio metodológico da física é este: explicar o natural pelo natural, sem se perguntar se para além do ser natural exista qualquer outra realidade.

Compete à metafisica colocar a questão da totalidade do ser: é somente o móvel, o experimentável e o mensurável que existe? Ou o ser na sua totalidade implica uma realidade diversa, que talvez não se mova, não seja experimentável pelos sentidos nem possa ser medida? O princípio metodológico da metafísica não a restringe a explicar o natural somente pelo natural, como é o caso da física, mas é um princípio que a libera de toda restrição. A única restrição da metafísica é a incongruência do pensamento na sua relação com aquilo que é. Onde o pensamento lógico e bem fundado na realidade pode chegar, esse é o campo da metafísica. Isso quer dizer que a metafísica trata da totalidade do que pode ser pensado e expresso. Ela tem como única fronteira o nada, que não existe. O seu campo de pesquisa não é precisamente um campo, mas é o todo do real. No âmbito do todo, não há muito sentido falar de campo, pois um campo é delimitado, mas o todo é a condição suprema de tudo o que é, que pode ser pensado e dito. É a condição incondicionada, e por isso mesmo, a condição de toda e qualquer condição ou de todo e qualquer campo de investigação.

A metafísica é a única ciência que se depara de frente com a condição suprema do real. O pensamento também é real. Por isso, só a metafísica encara frente a frente a condição incondicionada do pensamento, aquele fogo originário e primeiríssimo com o qual se acende qualquer raciocínio humano, seja que este se faça no plano do senso comum, seja no plano das ciências. Só à metafísica cabe, se é possível, justificar diante da razão raciocinante, a realidade e a pensabilidade. Sem a metafísica somos como cegos, ainda que sejamos capazes de ver muitas coisas. 

domingo, 11 de maio de 2014

A questão sobre o Jesus histórico II

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

2) Período pós-bultmanniano. A primeira fase da pesquisa sobre o Jesus histórico havia terminado com o reconhecimento da impossibilidade de se ter um acesso fidedigno à verdadeira fisionomia história de Jesus. Por isso, o teólogo protestante Rodolf Bultmann (1884-1976) ensinava que a história, na verdade, não tinha importância para a vida de fé (o que se conhece com o termo "fuga da história"). Bastava crer em Cristo tal como era anunciado no querigma e deixar-se transformar existencialmente por esse anúncio. Nesse sentido Bultmann se mostrava fiel ao fundador do protestantismo, Martinho Lutero, para o qual a fé era a única via de acesso ao conhecimento e à salvação (sola fides), e também deixava ver a sua opção pelo existencialismo, que, acima da verdade enquanto tal, coloca a decisão do sujeito, que no caso se traduzia assim: crê, muda de vida!

Os discípulos de Bultmann, porém, não se acontentaram com a impostação do mestre, pois lhes parecia que uma fé sem fundamento nenhum na história (Bultmann dizia que o que sabemos do Jesus histórico é apenas que nasceu, viveu e morreu crucificado) não podia ser sustentada. Entre estes se destacou Ernst Käsemann (1906-1998), que, juntamente com seus colegas, procurou estabelecer critérios confiáveis que permitissem um real acesso a Jesus de Nazaré.

O critério mais notável é o chamado critério da descontinuidade, que estabelece que tudo o que, nos Evangelhos, revela uma grave descontinuidade com a cultura judaica do tempo de Jesus e com as tendências da Igreja primitiva, certamente pode ser julgado como historicamente confiável, porque não teria sido simplesmente "inventado" pelos evangelistas ou pelas primeiras comunidades. A condenação do divórcio e a rejeição das segundas núpcias por parte de Jesus se encaixam nesse critério, já que os doutores em seu tempo ensinavam, conforme a Lei mosaica, a possibilidade de desfazer o matrimônio, divergindo somente sobre os motivos que tornavam justa a decisão, e de contrair novas núpcias. Um outro critério é o critério da consternação, segundo o qual o que causava desconforto à Igreja primitiva não poderia ter sido criado por ela, mas seria um fato histórico que remonta a Jesus. Um exemplo da aplicação do critério da consternação diz respeito ao batismo de Jesus por João Batista. A Igreja primitiva, que proclamava a sua fé no Cristo como o Santo de Deus, não iria "criar" o episódio de Jesus recebendo um batismo que era destinado aos pecadores que faziam penitência.

Essa postura, mais confiante na possibilidade de atingir verdades históricas certas sobre Jesus, ficou conhecida como new quest ou second quest. Mas ainda teremos de falar de um novo período sobre a pesquisa histórica sobre Jesus, a third quest.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

A questão sobre o Jesus histórico

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

As pesquisas sobre o Jesus histórico conta com três períodos:

1) Período racionalista: surge no séc. XVIII e procura tirar a veste dogmática com a qual a Igreja haveria revestido Jesus. O Jesus verdadeiro seria um revolucionário (Reimarus) ou um moralista de corte iluminista (Renan), mas não o Messias ou o Filho de Deus (Wrede). O Cristo da fé seria apenas uma invenção da Igreja e era hora de combater o mito para fazer transparecer a realidade.

Todavia, Albert Schweitzer (1875-1965) mostrou em um minucioso estudo que a pretensão de reconstruir o Jesus histórico não era legítima, pois o que resultava era uma criação artificial conforme a ideia preconcebida dos diversos autores. Em síntese, o dito "Jesus histórico" outra coisa não era senão uma figura criada à imagem e semelhança das ideias iluministas.

A crítica de Schweitzer levou Rudolf Bultmann (1884-1976) a reconhecer que era impossível o acesso à história real do homem Jesus de Nazaré. O crente, pois, não deveria preocupar-se com a história, mas se deixar transformar pela pregação do querigma, que o interpela e o chama a uma mudança de vida. O Jesus histórico não teria importância. Decisivo seria o Cristo proclamado pela Igreja.

Entretanto, uma pergunta se põe: uma fé sem base na história se sustenta? É essa questão que levará ao segundo período da pesquisa sobre Jesus, do qual falaremos em outro momento.