sábado, 1 de dezembro de 2012

Novo tempo-eixo?

O filósofo Karl Jaspers identificou na Antiguidade o que ele chamou de "tempo-eixo", um período de tempo entre 800 e 200 a.C., que, da Grécia até o Extremo Oriente, foi capaz de forjar o destino da história subsequente. O que caracterizou esse fecundo período, na verdade, foi a tomada de consciência de que o sentido do mundo não se encerra no próprio mundo. Rompendo com visões rigidamente cosmocên
tricas, grandes individualidades na Grécia (os filósofos), em Israel (os profetas), na China e na Índia apontaram para uma Realidade metacósmica e nela viram o fundamento do mundo e do homem.

Notadamente, o globo simbólico de nossa civilização ocidental foi constituído pelo encontro de duas experiências nascidas no tempo-eixo, a saber, a experiência da Revelação em Israel e a experiência da Ideia na Grécia. Em ambas as experiências, o homem e o mundo são remetidos a um fundamento transcendente, que não está simplesmente ao dispor das arbitrariedades e decisões humanas. No caso de Israel, tal experiência se realiza como acolhimento na fé de Deus que se dirige ao homem (movimento de descida); já no caso da Grécia, a experiência se perfaz no movimento de subida, em que se procura alcançar a razão última do mundo e do homem num supremo esforço de exercício filosófico. Num caso como no outro, o fundamento metacósmico é reconhecido como estando muito além da razão finita do homem - supra intellectum -, o que deu origem ao tema do "Deus inapreensível", estudado pela teologia e pela filosofia.

Foi a partir do século II de nossa era que a experiência de Israel, já tornada Cristianismo, e a experiência grega se encontraram e mutuamente se fecundaram para abrir, assim, o globo simbólico de nossa civilização ocidental. Desde então, temos vivido sob o signo do fundamento transcendente (Deus, o Absoluto). Acontece, porém, que a modernidade dita pós-cristã tem pretendido fundar um novo tempo-eixo, em contraposição ao primeiro. Um tempo em que a referência ao fundamento transcendente fosse banida de vez. A própria filosofia em geral, esquecendo-se de sua vocação originária, tem procurado transferir para a imanência a fonte de todo sentido que o homem possa ver nas coisas. Deixando de lado o Absoluto transcendente, o establishment cultural dito pós-cristão tem procurado transferir a fonte de sentido para o sujeito, para a natureza, para a história, para a cultura, para a linguagem... Num périplo que parece interminável.

A luta que então se trava é a luta entre dos modelos de civilização. Um que tem no transcendente sua medida, de um lado, e, de outro, aquele que procura a todo custo imanentizar a medida, o critério ou o sentido. Mas um novo tempo-eixo que deixe de lado o transcendente estaria conforme à dignidade espiritual do homem? Não privaria o homem de sua mais alta expressão, qual seja, a busca do absoluto?

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Resumo de uma parte de um livro sobre moral

BRUGUÈS, Jean-Louis, Introduzione. Il ritorno della morale. In ____ Corso di teologia morale fondamentale. 1: Che cosa è la morale e a che serve, Edizioni Studio Domenicano, Bologna 2004, p. 9-42.

Introdução

O autor começa referindo-se à grande crise da moral vivida sobretudo a partir da onda libertária de 1968. Em um clima refratário à lei e amante da pura liberdade, a moral era vista como algo repressivo e limitante. Reivindicavam-se os direitos do homem, esquecendo-se, porém, de que sobre ele recaem também deveres.
Atualmente, entretanto – o autor escreve nos anos 90 -, a moral retorna! A onda revolucionária não conseguiu as liberdades esperadas. Problemas como a AIDS, a pobreza e o desencanto com as ideologias rederam os homens mais comedidos em relação a uma fácil libertação que proviria do uso da pura liberdade.

Mesmo as democracias, tão sonhadas pelas sociedades modernas, dão sinais de cansaço e apresenta problemas: o desinteresse dos jovens pela vida cívica, os escândalos, o domínio desenfreado dos mass media... 

Tudo isso apresenta grandes desafios à nossa época, que, embora corra o risco de resvalar no niilismo, dada a desilusão com as ideologias, tem um afinado senso e uma clara exigência de autenticidade e transparência. Se os problemas hoje vividos são de ordem moral, de ordem moral devem ser as soluções indicadas. Daí falarmos hoje de retorno da moral. Nossa civilização hoje dela precisa, mais do que nunca, para prosseguir o seu caminho, sem deixar-se destruir pela desilusão ou pelo niilismo.

A Igreja, por sua vez, oferece ao nosso tempo dois grandes textos de referência relativos ao problema moral, o Catecismo da Igreja Católica e a Carta Encíclica «Veritatis Splendor», textos estes que, seguindo o horizonte apontado pelo Concílio Vaticano II, se enquadra num espírito de renovação e de diálogo aberto com o mundo.


A Encíclica "Veritatis Splendor" 

Depois de cuidadoso trabalho de preparação, e só depois da publicação do Catecismo da Igreja Católica em 1992, ao qual a Veritatis Splendor faz constantes referências, três são os objetivos apontados pela encíclica:

a) Salvaguardar o patrimônio ético-cultural do cristianismo dentro da consciência de ele tem muito a oferecer ao homem do nosso tempo e às gerações futuras;

b) Reafirmar a idoneidade e a autoridade do Magistério Eclesial para interpretar, não somente o depositum fidei, mas também a lei mora natural, cujo respeito é decisivo para a vida humana;

c) Confrontar-se com a dimensão secularizante da Modernidade que transcura ou rejeita a relação com a Transcendência. Para a encíclica, a vida moral não pode ser compreendida sem a abertura à Transcendência, medida e meta do agir humano.

Esses objetivos se entendem em um contexto de crise ética e religiosa vivida no final do século XX, ao qual a Encíclica reage. A crise se mostra tanto externa quanto internamente à Igreja e ameaça atingir o patrimônio ético-cultural do cristianismo e a antropologia que lhe é subjacente, podendo causar assim um grande dano ao homem considerado pessoalmente e à humanidade em seu todo.

Concepções fundamentais da encíclica

Entre as concepções fundamentais da encíclica, podemos destacar:

a) A moral é busca de perfeição. Aqui se rejeita uma visão de moral centrada somente na observância formal de normas ou baseada na utilidade ou consequências imediatas que os atos morais podem acarretar; antes, leva-se em consideração a pessoa humana no seu todo, com seu anelo de verdade, de bem e de beleza, ou seja, seu desejo do Absoluto, de Deus. A moral é caminho de perfeição, não de uma perfeição irrealizável, que não tem olhos para as limitações humanas, mas de uma perfeição a que devemos tender e que tem como fonte o apelo de sair de nós mesmos e de nos deixar guiar pelo único Bem. Cristo é Mestre e Modelo da perfeição moral a que o homem é chamado.

b) A vida moral faz referência à Transcendência. A perfeição a que o homem é chamado não é uma perfeição moral em sentido estrito, mas é uma perfeição transcendental, que supõe uma relação com o Outro Transcendente. O desejo de Deus (de verdade, de bem e de beleza) está inscrito no mais íntimo do homem. Essa tendência inata ao Outro faz com que o homem se confronte com a transcendência da lei, sua objetividade e universalidade. Conformar-se à lei é condição do correto uso da liberdade. A moral cristã não é heteronomia, pois existe dentro de nós o apelo à verdade e ao bem, que nos encaminha naturalmente para o reconhecimento da lei moral; mas também não é autonomia radical, porque nos confrontamos em consciência com uma verdade que, embora esteja em nós, não é simplesmente produzida por nós. Dada a transcendência da lei, tem-se o grave dever de formar a consciência conforme às suas exigências.

c) Existe uma relação dialética entre o sujeito moral e seus atos. O sujeito lhes é transcendente – por isso seria lúcido falar de uma opção fundamental do sujeito -, mas os mesmos atos são abertos à transcendência do sujeito e, dada a sua bondade ou maldade, são, por isso, capazes de mudar a opção fundamental do sujeito. Aqui se rejeita a moral dita da “opção fundamental”, para a qual, se um cristão tem sua opção fundamental voltada para Cristo, não seria pecado um ato particular que desrespeitasse a lei divina.

A encíclica está consciente de que a nova evangelização está estreitamente ligada ao problema moral e, por isso, deseja que o fermento moral do cristianismo atinja toda a sociedade e produza frutos. Os totalitarismos e o relativismo são vistos como coisas a evitar.

O Catecismo da Igreja Católica 

O Catecismo da Igreja Católica veio a lume em 1992 e procura expor, de forma lúcida, calma e tranquila, o conjunto da fé católica, inclusive a parte relativa à moral, que vem apresentada em sua íntima interconexão com o dogma e a liturgia. Assim, apresenta ao mundo, de forma orgânica e sistematizada, o conjunto da fé católica qual um precioso tesouro religioso, mas também cultural, para benefício dos cristãos e de toda a humanidade. Desse modo, se atende a uma necessidade, qual seja, aquela de conservar a memória – e a Igreja conta com dois mil anos de história e com um rico patrimônio teológico-filosófico-cultural! – diante de uma cultura que corre o risco de perdê-la.

Depois de consultas ao episcopado e de acurado trabalho, a parte moral do catecismo apresenta num primeiro momento o fundamento da vida moral cristã: a vida no Espírito, a sequela Christi; num segundo momento, a exposição das particularidades da vida moral em confronto com o Decálogo, ao qual são associadas as virtudes morais correspondentes.

A parte do Catecismo reservada à moral lança seu olhar sobre a questão do homem e a apresenta em relação com a questão de Deus. “Non si può parlare correttamente dell’uomo se non si parla anche di Dio” (p. 36). E para falar corretamente de Deus, devemos ouvir o que Deus mesmo diz sobre si – a Revelação!
Toda a visão cristã-católica do homem repousa no fato de ele ser “imagem e semelhança” de Deus; daqui sua intrínseca e inviolável dignidade, sobre a qual repousa o discurso moral. Toda a reflexão moral do Catecismo se baseia sobre a verdade da pessoa humana. Daqui se parte. Desse modo, o Catecismo, centrando-se sobre a dignidade da pessoa, está longe de propor uma “moral do códice”, e nesse ponto mostra-se grandemente inovador.

Pode-se dizer que a apresentação da moral do Catecismo é “moderna”, seja porque trata de questões atuais da vida moderna, seja porque baseia todo o seu discurso sobre a pessoa humana (a assim chamada “modernidade” colocara o sujeito como realidade primária), dotada de dignidade inalienável, de livre arbítrio e capaz de autodeterminar-se. Não se confunde, é claro, com a “modernidade” na medida em que esta transcura ou rejeita a relação de Transcendência, fechando o homem em si mesmo. Destarte, o Catecismo, ao contrário do que muitos julgam, é moderno, ainda que seja moderno passando por uma via lateral.
Com efeito, a moral católica conheceu, ao longo da história, dois grandes modelos de moral: de um lado, aquele que apresenta desde o exterior normas a serem observadas e cujo acento recai sobre a liceidade dos atos humanos (correspondência a normas prescritas), modelo este chamado pelo filósofo Michael Foucault de “moral do códice”; de outro lado, aquele centrado sobre o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da pessoa, sujeito da vida moral, chamado pelo mesmo filósofo de “moral da construção de si”.

As exigências dos tempos atuais mostram que a “moral do códice” já não satisfaz. Ninguém se sente satisfeito se, à pergunta – o que é bom e o que é mal, moralmente falando – se responde: “bom é o que se conforma à lei, mal é o que destoa da lei”. Os contemporâneos tem uma sensibilidade muito mais voltada para as questões relativas sobre o que pode realizar o homem, torná-lo mais livre e feliz, ou, em contrapartida, o que pode impedir-lhe a autorrealização. 

O Catecismo, na verdade, incorpora a “moral da construção de si”. Nele não vemos simplesmente uma lista de leis ou de mandamentos a cumprir. Se o esquema da apresentação mais específica da moral segue, como já havia feito Trento, os dez mandamentos, estes, contudo, são apresentados de forma bastante personalista – basta mencionar o fato de virem coligadas as virtudes correspondentes a cada mandamento. A noção de virtude nos reenvia para a responsabilidade do homem na construção de si mesmo.

Ainda mais, toda a moral do Catecismo encontra seu ponto de partida na dignidade do ser humano, criado e redimido por Deus e destinado à felicidade plena no Reino. Essa noção, ao mesmo tempo em que reconhece a primazia da graça e do agir salvífico de Deus, mostra a responsabilidade do homem, que, chamado por Deus, deve responder-lhe em liberdade, construindo-se, assim, a si mesmo. Realça também a dimensão social do homem, pois que sua resposta a Deus passa pela vida em comunidade (responsabilidade política, econômica, social), que tem na justiça, fundada na singular dignidade do homem, seu grande alicerce.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Concílio Vaticano II : 50 anos

O Concílio Vaticano II está comemorando os 50 anos de sua abertura. Seus textos devem hoje ser relidos e meditados com seriedade. São ricos e conservam a atualidade. Como ensina Bento XVI, eles são a bússola a guiar a Igreja neste início do 3º milênio. Creio que os melhores frutos do concílio ainda estão por vir, mas para isso é preciso lê-lo e interpretá-lo seguindo as orientações fundamentais dos Papas, de João XXIII a Bento XVI. O Vaticano II não quis fundar uma nova Igreja, como muitos deram a entender nos anos de eferverscência pós-conciliar, mas apresentar a mesma fé de sempre de um modo renovado, isto é, em diálogo com o mundo moderno a quem se deve portar o Evangelho. A vida da Igreja é assim: sempre se renova dentro da relação fundamental com as origens.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Reencarnação ou ressurreição?

Padre Elílio de Faria Matos Júnior


Muitos são levados a crer na reencarnação porque acham que ela pode explicar, com lógica férrea, o fato de uns viverem neste mundo em melhores condições do que outros.

Assim, uns vêm de boas famílias, que lhes dão todas as condições para uma vida digna e feliz, enquanto outros ficam privados da educação mínima e da formação do caráter por não terem tido a sorte de nascerem no seio de uma família estruturada.

Outros, muitos dos quais inocentes e gente que só faz o bem, são atormentados com terríveis sofrimentos corporais e psíquicos, morais e espirituais, sem que entendamos o porquê de uma situação aparentemente tão injusta.

Os exemplos poderiam multiplicar-se, dando-nos a ver que a vida parece ser muito injusta com não poucos homens e mulheres.

O relativo sucesso da doutrina reencarnacionista estaria em oferecer uma resposta a esse impasse, ensinando que as diversas sortes das pessoas neste mundo devem-se ao teor do comportamento moral que levaram em vidas passadas.

Dizem que Deus, sendo perfeitíssimo e justíssimo por definição, não poderia dar boas condições de vida a uns, privando outros de condições semelhantes.

A única explicação lógica – dizem eles – está em admitir que o mundo seja uma escola onde os espíritos devem aprender a exercitar a liberdade, ser provados e evoluir.

Nessa escola, cada um chegaria para aprender, de modo que, aos poucos, iria adquirindo sabedoria; entre avanços e retrocessos pontuais, iria-se realizando a evolução espiritual.

As provações e sofrimentos não faltariam, segundo as necessidades de cada qual. Se mais preciso de purificação, mais tenho de enfrentar o sofrimento.

A doutrina da reencarnação sustenta como princípio básico de seu sistema explicativo a chamada lei da ação e da reação.

Se alguém, vivendo neste mundo, praticar o mal, deverá também sofrer o mal em proporção semelhante. Tratar-se-ia de uma lei irrevogável, que nem Deus poderia mudar.

Enquanto o espírito não se purificar das faltas cometidas e não aprender bem a lição, não poderá sair da escola, que é este mundo, devendo-se reencarnar quantas vezes lhe forem necessárias, e isso nas mais diversas situações de vida, segundo o seu procedimento anterior.

Assim, entenderíamos a diversidade de sorte das pessoas; o sofrimento aparentemente injusto e desmedido de muitos se explicaria como purificação das faltas cometidas em vidas pregressas.

O objetivo seria alcançar o estágio evolutivo que dispensaria o espírito de ter de se submeter a nova reencarnação.

Que dizer sobre a doutrina da reencarnação?

Antes do mais, é preciso dizer que a doutrina da reencarnação não é nem dotada de lógica férrea nem muito menos compatível com o Cristianismo.

Ora, não devemos acreditar em coisa alguma a não ser que haja motivos razoáveis para crer.

Mas a doutrina reencarnacionista não oferece tais motivos.

Em primeiro lugar, não temos provas empíricas da reencarnação. Ninguém sabe dizer quando e onde teria vivido sua pretensa vida passada.

Uma vez que ninguém sabe dizer quando e onde teria vivido a vida pregressa, não sabe também dizer quais são as faltas cometidas de que se deve purificar na vida presente.

Ora, todo bom educador indica onde está a falha para que o aluno se corrija. Será que o grande Educador que é Deus permitiria que viéssemos a este mundo pagar por aquilo de que não temos conhecimento?

De que adiantaria sofrer para purificar-se de uma falta que não conheço? Uma falta de que não me recordo? Como poderia eu evoluir assim?

A memória das faltas passadas ajuda-nos a não cair nelas novamente. Insensato é o homem que tropeça duas vezes na mesma pedra. Como poderia prevenir-me de um erro se não guardo na memória a lição do passado?

As pretensas recordações de vidas passadas quando alguém está em estado de transe explicam-se como fenômenos do inconsciente.

Outra incoerência da doutrina da reencarnação: ela supõe que podemos nos salvar por nós mesmos.

Quem é que disse que o ser humano é capaz de superar, por si mesmo, todas as suas imperfeições?

Quem é que disse que o ser humano pode sair, por si mesmo, de todas as imundícies nas quais ele frequentemente cai?

A doutrina da transmigração das almas (outro nome da doutrina reencarnacionista) supõe que, através de sucessivas reencarnações, o espírito possa livrar-se por si mesmo das teias do pecado e alcançar a santidade.

Entretanto, a experiência não mostra isso. Nós nos sentimos frágeis e presos pelo mal que praticamos. O pecado pode ser algo parecido com uma bola de neve.

O pecado é semelhante a uma doença da qual não podemos nos livrar a não ser com a ajuda externa de um Divino Médico.

Não seria mais digno de um Deus de bondade perdoar-nos e cancelar o mal que praticamos?

Não seria mais digno de um Deus de misericórdia renovar a nossa vida, livrando-nos das teias do mal?

Não seria mais digno de um Deus verdadeiramente Deus tomar a iniciativa, vindo ao nosso encontro para nos salvar?

Ora, é este Deus que Jesus Cristo nos ensinou a adorar: o único e verdadeiro Deus, que perdoa, cura, renova, salva.

O Deus de nosso Senhor Jesus Cristo é o Deus que não deixa o ser humano entregue a si mesmo. É o Deus que toma a iniciativa. É o Deus que vem ao encontro do homem.

Ademais, a doutrina da reencarnação quebra a identidade do “eu”. Como posso saber quem sou “eu” se assumi tantas e tantas personalidades?

Como saber quem sou eu verdadeiramente se ontem fui Maria e hoje sou João?

Como minha identidade genuína seria recomposta após tantas reencarnações? Isso parece não ter resposta clara na doutrina da metempsicose.

O Cristianismo, ao contrário, ensina algo mais razoável: Os homens devem morrer uma só vez (cf. Hb 9,27).

Além dessas falhas que o simples raciocínio pode detectar, a doutrina da reencarnação nega um fato ocorrido na história da humanidade: a ressurreição de Jesus.

Se Jesus ressuscitou, não podemos crer na reencarnação.

Podemos crer na ressurreição de Jesus porque temos motivos razoáveis para dar-lhe fé.

Os apóstolos mudaram de repente seu ânimo e sua compreensão das coisas de Deus: eram homens lentos para entender as coisas; custava-lhes aceitar a ideia de um Messias sofredor; estavam desanimados por causa da morte do Mestre...

Eis que, de uma hora para outra, tudo mudou: tornaram-se mestres do plano salvífico de Deus.

Passaram a anunciar o Cristo crucificado; adquiriram tamanho vigor que nada era obstáculo para a sua atuação; nem a ameaça da morte os paralisava...

Como explicar a radical reorientação de vida de um São Paulo, cuja vida, desde tenra idade, fora totalmente dedicada ao zelo pelas tradições do judaísmo?

Como explicar que, de repente, tenha abraçado a mensagem cristã, mesmo a custa de separar-se de seu farisaísmo antes tão amado?

Todas essas mudanças são o efeito de um encontro... Um encontro capaz de transformar a vida.

Trata-se do encontro com Aquele que estivera morto, mas que agora vive: “Estive morto, mas agora estou vivo para todo o sempre. Eu tenho a chave da Morte e da Morada dos mortos” (Ap 1,18).

Jesus ressuscitou, eis a mensagem que moveu os apóstolos, os primeiros discípulos e ainda move hoje a Igreja inteira.

A ressurreição do Senhor nega por si mesma a doutrina da reencarnação. Jesus ressuscitou, não se reencarnou!

Pela vida, paixão, morte e ressurreição do Senhor Jesus, o próprio Deus nos deu um grande recado: tendo cumprido o único percurso de nossa vida sobre a terra, somos chamados a viver uma vida plena em Deus.

Não somos nós que nos salvamos. É Deus que nos estende a mão através de seu Filho na força do Espírito.

A resposta que Deus deu para o sofrimento e a morte não foi simplesmente teórica.

Deus mesmo assumiu concretamente o sofrimento e a morte em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Deus transfigurou o sofrimento e a morte. Jesus passou por eles, e eles se tornaram caminho para a plenitude da vida.

Devemos combater o sofrimento tanto quanto pudermos. Mas os sofrimentos de que não nos podemos livrar, devem ser aceitos pela fé no Filho de Deus que sofreu, morreu e a tudo venceu.

A desigualdade das sortes neste mundo deve-se a vários fatores: biológicos, históricos, culturais, estruturais...

A nossa missão é combater todo tipo de desigualdade injusta. Não podemos justificar as desigualdades pelo recurso a pecados de vidas anteriores. Isso não é lógico nem humano.

Acima de tudo, confiamos em Deus, que deu a grande resposta ao sofrimento e à morte: a ressurreição do Filho ao terceiro dia.

Com Jesus, somos destinados à glória da ressurreição e à participação na vida divina.

A doutrina da ressurreição é mais coerente porque:

a) Não apaga nossa memória, mas nos permite aprender com os erros, receber o perdão de Deus e ser renovados e transformados;

b) Por isso mesmo, não retalha nosso “eu”; não divide a nossa personalidade;

c) Ensina que Deus é suficientemente misericordioso e poderoso para nos perdoar e renovar sem que precisemos passar por reencarnações;

d) Dá uma grande resposta ao sofrimento e à morte, sem precisar de recorrer a faltas de vidas passadas;

e) Ensina que não podemos nos salvar a nós mesmos, pagando centavo por centavo pelo mau que praticamos, mas que precisamos de um Salvador que nos perdoe e renove;

f) Dá-nos a oportunidade de sermos salvos por Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou.

g) Faz-nos viver de Cristo e por Cristo, não de nós e por nós mesmos: “Vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).

h) Ensina que o mundo material, incluído o nosso corpo, como criatura de Deus que é, participará também da salvação: “Creio na ressurreição da carne”.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Liturgia não rima com simpatia (simpatia barata ou as invenções "cativantes")

"A liturgia não vive de surpresas 'simpáticas', de invenções 'cativantes', mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério do Sagrado" (J. Ratzinger).

Está aí uma citação que expressa muito bem a minha compreensão da liturgia da Igreja. Se não recebermos a liturgia como um dom, ela se tornará simplesmente disponível e já não nos poderá educar para o Mistério. Salvemos a liturgia!

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Metafísica: Que é? Qual o seu objeto?

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

O termo metafísica (tá metá tá fisiká) designa o que está além ou o que vem depois da física, isto é, dos entes naturais, materiais ou sensíveis. O objeto da metafísica, segundo a filosofia clássica, é o ser como tal e em seu todo, o ser separado de determinações que o limitem.

Com efeito, podemos estudar o ser sob determinações diversas: o ser enquanto sensível móvel (objeto da física), o ser enquanto sensível vivente (objeto da biologia), o ser enquanto quantitativo (objeto da matemática), etc. A única ciência, entretanto, que se propõe a estudar o ser como tal e em seu todo é a metafísica. Por isso, a metafísica procura oferecer uma cosmovisão ou uma visão omniabrangente do real.

O domínio da metafísica está para além das coisas físicas ou sensíveis porque o ser como tal não é nem pode ser objeto de nossos sentidos. Pode ser reconhecido pelo intelecto, mas nunca tocado pelos sentidos. A metafísica vem depois da física porque só podemos chegar ao ser como tal após entrarmos em contado com os entes físicos, uma vez que nosso conhecimento se desperta pelo contato com as coisas do mundo material.

O estudo do ser implica: procurar esclarecer, na medida do possível, o sentido do ser; procurar descobrir a causa ou as causas do ser, se é que existem. Cremos, como quer que seja, que a melhor introdução à metafísica seja o estudo dos autores que se aprofundaram na investigação do ser, a começar de Parmênides, na Grécia antiga (séc. VI a.C.). Alguns grandes nomes - Platão, Aristóteles, Plotino, Tomás de Aquino – devem guiar-nos no caminho. Este último chega a uma concepção inovadora do ser, algo verdadeiramente revolucionário no campo da metafísica: o ser como ato de existir.

Com a filosofia moderna, o interesse da metafísica deixa de se concentrar no ser, deslocando-se para o sujeito do conhecimento. As condições de possibilidade do conhecimento do ser (identificadas na subjetividade do sujeito pensante) adquirem uma importância capital, e isso desde Descartes (séc. XVII), a ponto de o ser mesmo ficar em segundo plano, às vezes concebido até como pura criação do Eu (Idealismo Alemão). A metafísica tende a se transformar em teoria do conhecimento. Ou o problema do conhecimento tende a absorver o problema do ser.

Na contemporaneidade, o antigo lugar ocupado pelo ser, depois pelo sujeito, passa para a linguagem. A linguagem, para muitos, parece ser a fonte originária de toda inteligibilidade das coisas. A linguagem criaria o ser; a linguagem seria a “morada do ser” (Heidegger). Os grandes autores do atual momento do pensamento filosófico (Wittgenstein, Heidegger, Gadamer, Habermas, Apel), cada qual a seu modo, dão uma importância fundamental à linguagem. Com a prevalência da linguagem no establishment filosófico atual, a velha metafísica caiu em certo descrédito, sendo que muitos falam de “morte da metafísica” e mesmo de "morte do sujeito", já que o sujeito nada mais seria que um fruto de nosso hábito linguageiro.

Sustentamos, como quer que seja, que o ser humano tem uma inegável dimensão metafísica, e questões autenticamente metafísicas sobre o ser em seu todo serão sempre colocadas pelo animal metaphysicum que é o homem. O nosso espírito é constitutivamente aberto à universalidade do ser, e, por assim dizer, ao infinito. A própria negação da universalidade ou infinitude do ser supõe que o espírito pense no ser, e, assim, mostre sua relação estrutural com ele e com sua transcendência infinita.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Tocar o Absoluto


O Pensador, de Rodin
Padre Elílio de Faria Matos Júnior

É possível ao homem tocar, ainda que de esguio, o Absoluto? Toda a tradição filosófico-teológica cristã o afirma. Aliás, no campo da filosofia, os gregos iniciaram essa empresa.

De Deus, embora não possamos conhecer-lhe a essência (quid est), podemos, contudo, conhecer-lhe a existência e alguns atributos que lhe convêm em virtude de ser ele o Ser Absoluto e a Causa de todas as causas. Evidentemente, pela fé na revelação divina realizada por Jesus e transmitida pela Igreja, podemos ter um acesso especial aos “aposentos” da Divindade que jamais nos seria possível de outro modo.

 É certo, entretanto, que, pela reflexão raciocinante, isto é, pela razão natural, podemos reconhecer que em nosso espírito existe a presença de uma poderosa luz, sinal do Absoluto em nós. Todas as vezes em que eu emito um juízo - ita est (é assim) -, na verdade, eu submeto o conteúdo da afirmação (qualquer que seja, não importa) ao absoluto formal do princípio de não-contradição (o que é, é, e não pode não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto), cuja negação representa a própria ruína da vida intelectual.

Para que a inteligência tenha vida e possa se exercer (o juízo é o ato pelo qual a inteligência completa o conhecimento), é preciso valer-se do princípio de não-contradição, ao qual se submete o conteúdo de qualquer afirmação. É preciso, ainda, reconhecer que esse princípio goza de um caráter absoluto (uma necessidade absoluta). Do contrário, toda e qualquer afirmação minha poderia ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto,  e estaria, assim, submetida às flutuações da instabilidade da consciência, do tempo... O que arruinaria a própria inteligência e a linguagem. Sem o absoluto ao qual o juízo conduz a afirmação, não há vida para a inteligência, nem a linguagem se pode fazer inteligível. Tal absoluto está tacitamente pressuposto em cada ato judicativo nosso. A filosofia não faz outra coisa senão reconhecê-lo e mostrá-lo.

Uma vez reconhecido o caráter absoluto do princípio (absoluto formal), deve-se reconhecer também que ele só pode ser entendido se se fizer referência a um Absoluto realmente existente que o explique e o fundamente (Absoluto real).

A luz do Absoluto real, desse modo, reflete-se na inteligência humana e, pelo absoluto formal do princípio de não contradição, tocamos, de alguma maneira, o Absoluto real.

Essa breve reflexão, que poderia ser bem mais desenvolvida, baseia-se nas minhas leituras da obra o grande filósofo jesuíta brasileiro, o Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Forças de descristianização




Na América Latina existe, sem dúvida, um movimento muito forte que visa a destruir as suas raízes cristãs, que ainda são muito vivas no coração do povo. Infelizmente, vivemos um processo de descristianização, que, ao que parece, está sendo muito bem arquitetado por adeptos de uma ideologia secularista e pós-modernista.

O secularismo se expressa pelo banimento de Deus e dos valores religiosos da vida social ou pública. Não se pergunta se tais valores estão em conformidade com a razão e com a dignidade humana. Simplesmente não se quer que as expressões da fé em Deus interfiram no âmbito da sociedade como tal. Assim, chega-se mesmo a proibir o uso de símbolos religiosos no âmbito público, como tem acontecido já em alguns países. O pós-modernismo se expressa pelo descrétido à verdade e pelo relativismo moral. Nesse sentido, a religião fica restrita ao âmbito do privado e entendida como simples escolha do gosto pessoal, sem nenhum vínculo com a verdade ou com o bem moral ou social.

Algumas estratégias usadas para descristianizar nossa América Latina:

a) Dar a crer que o povo fiel pode seguir a Jesus Cristo sem pertencer à Igreja; ora, se a Igreja se enfraquece, a fé aos poucos vai cedendo lugar aos modismos de cada época (um certo discurso dos evangélicos que apregoa Cristo sem religião muito contribui para isso);

b) Apagar da mente dos latino-amercanos a imagem de Jesus Cristo Deus e homem, para reduzi-lo a um simples homem, ainda que tomado como um grande vulto da história da humanidade;

c) Extirpar a noção mesma de Deus pela falsa ideologia do cientificismo (a ciência negaria Deus), do sociologismo (Deus seria apenas uma função social), do psicologismo (Deus seria apenas uma criação de nossas necessidades ou enfermidades psíquicas); e pelo banimento do nome de Deus da vida social (censura da manisfestação pública da fé);

d) Enfraquecer a família tradicional, já que é nela que se forja a personalidade e se dão os primeiros passos no caminho da fé;

e) Exaltar a liberdade humana a ponto de dizer que o certo e o errado não existem objetivamente, mas resultam da escolha de cada um, o que leva ao relativismo moral, à disseminação galopante das drogas e à libertinagem sexual, como temos assistido...

Veja que não está fácil crer em Cristo hoje em dia, como, aliás, nunca o foi.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Santo Tomás de Aquino

Desde muito cedo, antes de entrar no seminário, aprendi a amar Santo Tomás de Aquino, seja por sua lucidez intelectual, que não deixa nada a desejar em relação aos corifeus da modernidade e pós-modernidade (e até os sobrepuja em muitos aspectos), seja por sua fé profunda no mistério de Cristo, Deus e homem, tal como o professa a Igreja Romana. Soube unir a exigência de uma razão que indaga e procura com a humildade que o fez acolher a Palavra de Deus transmitida pela voz da Esposa, a Igreja.

Santo Tomás de Aquino, rogai por nós!