sábado, 31 de outubro de 2009

O "Tratactus logico-philosophicus" como obra iniciática


Padre Elílio de Faria Matos Júnior


Obs.: Nosso pequeno texto sobre o Tratactus logico-philosophicus de Ludwig Wittgenstein pretende tão-somente mostrar, em grandes linhas, como o autor não negava o domínio metafísico da realidade; antes, o considerava o mais importante. Nosso texto baseia-se nas posições defendidas pelo Prof. Margutti Pinto, cujas referências bibliográficas podem ser conferidas abaixo. Esclarecemos que não concordamos com Wittgenstein quando ele defende que o domínio metafísico não pode ser dito de maneira alguma pela linguagem, mas apenas mostrado. Pretendemos publicar neste blog, em breve, um confronto entre as posições de Wittgenstein e de Padre Vaz no que concerne à problemática do domínio metafísico e da capacidade da linguagem de dizê-lo ou não.



O Tratactus logico-philosophicus pode ser lido como uma obra de iniciação ao silêncio. Em que sentido? Wittgenstein, em uma carta ao editor do Tratactus diz que a obra possuía duas partes: a que tinha sido escrita e que iria ser publicada, e a que não tinha sido escrita; e acrescentou que a última era de longe a mais importante. O Tratactus, assim, seria uma obra dita para fazer-nos passar ao domínio mais importante do que não se pode dizer.

O projeto do Tratactus, na verdade, à semelhança de Kant, é o de levar a cabo uma crítica transcendental. A atenção do Tratactus, à diferença de Kant, se volta para as condições de possibilidade da linguagem ou para as condições de possibilidade de pensar ou dizer[1] o mundo. O Tratactus procura estabelecer o que pode e o que não pode ser dito com sentido, e, ao fazê-lo, restringe o campo do que pode ser dito e reconhece o largo horizonte do que pode apenas ser mostrado[2].

Com efeito, o Wittgenstein do Tratactus, ao fazer uma crítica da linguagem sobre o que pode e o que não pode ser dito, teve de falar de muitas coisas que, segundo sua teoria mesma, não podem ser ditas (sujeito transcendental, limite do mundo, mundo, o que pode ser dito, o que não pode ser dito...). Mas é exatamente ao tentar falar do que não pode ser dito que Wittgenstein “vê” ou “experimenta” os limites da linguagem e, clarificado, reconhece o que apenas pode ser mostrado. Toda tentativa de falar das condições transcendentais do dizer envolve contradição, pois que supõe as próprias condições transcendentais do dizer. Eis a grande mostração do Tratactus, e é justamente aqui que reside o seu caráter iniciático, de iniciação ao silêncio.

Ora, segundo a teoria do Tratactus, só as proposições que descrevem os fatos ou estados de coisas do mundo têm sentido; só elas são suscetíveis de ser verdadeiras ou falsas. Ao estabelecer quais as proposições têm sentido e quais não o têm, Wittgenstein segue a tendência lógico-científica (Hertz, Boltzmann, Frege e Russell), que enfatiza a necessidade de resolver ou superar os problemas científicos através da clarificação conceitual, desenvolvendo-a. Tal tendência se mostrou eficaz no campo da linguagem científica e garante, portanto, contra o ceticismo radical da crítica da linguagem de um Mauthner (para o qual a linguagem é de todo incapaz de dizer qualquer coisa), o campo no qual a linguagem é competente. Já as proposições da ética, da religião, da filosofia ou da metafísica, por exemplo, por não se referirem a um conteúdo descritivo, são contrassensos. As “proposições” do próprio Tratactus, que tentam dizer as condições de possibilidade da linguagem, não tendo conteúdo descritivo, são contrassensos.

A analogia da escada que deve ser jogada fora depois que se a usou para subir, já presente em Mauthner, quer mostrar exatamente que as “proposições” do Tratactus, como proposições que tentam dizer as condições de possibilidade da própria linguagem e que, como tais, são contrassensos, “devem ser percorridas até o momento decisivo em que a experiência mística se efetive. Uma vez alcançado o místico, elas podem ser simplesmente abandonadas”[3].

O fato de não se poder dizer com sentido nada sobre a ética, a religião, a filosofia ou a metafísica não quer dizer que o domínio que as engloba, o domínio “metafático”, não exista. Simplesmente quer mostrar que esta realidade da qual a ética e a metafísica pretendem tratar, realidade que não coincide com os fatos do mundo, ou realidade “nuoménica”, se quisermos kantianamente chamá-la assim, justamente por não ser um fato mundano, não é passível de representação ou de expressão lingüística[4]. Ao reconhecer que o que há de mais importante para o homem (o sentido da vida, a ética, enfim, o místico) existe, mas não pode ser expresso pela linguagem, Wittgenstein segue fundamentalmente uma tendência ético-metafísica (Schopenhauer, Weinninger, Tostoi, Willam James) que reconhece o místico, mas reconhece também a incapacidade da linguagem de expressá-lo.

Se, no entanto, não é passível de ser dita, a realidade “noumenal” se mostra ao sujeito, que a contempla. Com efeito, ao realizar a crítica da linguagem, Wittgenstein “vê” (ou a ele se mostra) que a forma lógica é o que há de comum aos fatos do mundo e à linguagem que os figura, de modo que o espaço lógico é a condição transcendental de tudo o que é possível e de tudo que pode ser dito com sensatez. Assim, os limites da realidade, da linguagem e do espaço lógico são os mesmos. Ao ver isso, Wittgenstein vê a própria essência do mundo. A essência do mundo é a lógica, é o espaço lógico, a estrutura transcendental dos fatos do mundo e do pensamento. Mas dessa essência não se pode falar, pois que toda tentativa de dizê-la implicaria a contradição de se ter de supô-la. Implicaria também o erro de se ter de considerá-la um fato do mundo como os outros:

O espaço lógico, por sua vez, enquanto condição última de possibilidade de qualquer representação, enquanto fundamento absoluto do mundo e do pensamento, não pode ser ele mesmo proposicionalmente representado, pois para isso teria de ser um fato como os outros fatos do mundo que se submetem ao trabalho da representação do mundo.[5]

A essência do mundo pode apenas ser mostrada. Tal é a mostração lógica, que implica, por sua vez, o sujeito transcendental que a contempla. O sujeito que contempla a essência do mundo não está ele próprio no mundo. Ele é, para usar a metáfora de Schopenhauer, o olho que vê sem jamais ser visto; é “limite do mundo”. Como tal, não é um fato do mundo e, assim, não pode ser conhecido ou expresso pela linguagem: “O eu filosófico não é o homem, nem o corpo humano, nem a alma humana de que se ocupa a psicologia, mas o sujeito metafísico, o limite, não sendo, pois, parte do mundo”.[6] O sujeito pode ser apenas se mostrar, não pode ser dito. “Para Wittgenstein, o sujeito empírico é objeto de ciência e o sujeito espiritual situa-se na dimensão mística porque o sujeito pensante não é uma coisa que ocorre no mundo descritível.[7]

É, então, que se estabelece uma ligação entre crítica da linguagem e ética. “A filosofia subjacente ao Tratactus revela-nos que a crítica da linguagem tem como contrapartida a dimensão ética caracterizada pela experiência mística”.[8] O sujeito transcendental, ao se apresentarem as condições do dizer, mostrou-se. Ora, este “eu” que está fora do mundo é entendido por Wittgenstein, com base em Schopenhauer, como sujeito volitivo, que, embora pressuponha a existência do mundo[9], está “de fora”; e é exatamente este sujeito volitivo que dá sentido ao mundo. Se o fato do mundo independe do sujeito, não podemos dizer a mesma coisa a respeito do seu sentido, já que ele - o mundo - é visto com os olhos de um sujeito que lhe confere, de alguma forma, o significado. “O mundo é dado e independe da vontade, constituindo uma base para ela, ou seja, fornecendo-lhe um objeto. A vontade corresponde ao sujeito transcendental e está para o mundo, assim como o olho está para o campo visual”.[10]

O sentido do mundo não está, pois, no mundo, mas fora dele. Isso nos leva a dizer que o sentido do mundo não pode ser articulado pela linguagem, já que esta, juntamente com os fatos que descreve, está no interior do mundo. A linguagem só nos fala de como as coisas são. Só ao sujeito transcendental, que é o limite do mundo, se mostra o quid do mundo. Sem poder alterar os fatos do mundo, o sujeito de volição pode atingir o mundo desde seu limite, pois que alterando o limite do mundo, alterará, por tabela, mundo. A alteração do sujeito metafísico refluirá para o próprio mundo sem, contudo, mexer com seus fatos. “Com efeito, a volição ética pertence ao sujeito transcendental, que é incapaz de alterar os fatos do mundo. Mesmo assim, ela consegue alterar, de maneira inexprimível, os limites do mundo, o que constitui uma alteração do próprio mundo”[11].

Assim, o sentido e o valor do mundo e da vida pertencem a um domínio que foge absolutamente à capacidade da linguagem, não podendo ser ditos, mas apenas mostrados. Tal é a mostração ética.

O projeto do Tratactus logico-philosophicus pode, pois, ser visto como uma obra de iniciação ao silêncio. Reconhecendo os limites da linguagem, reconhece, ao mesmo tempo, aquilo que está para além da linguagem e que pode ser apenas objeto de mostração. A essência do mundo, o seu sentido e valor só podem ser mostrados; toda tentativa de dizê-los implica contrassensos lógico-linguísticos. A tarefa da filosofia é a de clarificação lógica da linguagem. Nesse sentido, a filosofia não é uma doutrina, mas uma atividade. Tarefa modesta, que está longe de ser a mais importante, pois que mesmo que a filosofia resolvesse todos os problemas, aquilo que verdadeiramente importa nem seria tocado...[12] Este é objeto de contemplação silenciosa.


[1] Numa carta a Russell, Wittgenstein, ao tratar do propósito do Tratactus e do principal problema da filosofia, estabelece a relação existente entre pensamento e linguagem em termos de: poder ser dito pela linguagem equivale a poder ser pensado e vice-versa: “O principal argumento [do Tratactus] é a teria do que pode ser expresso por proposições – isto é, pela linguagem – (e o que vem a dar no mesmo, do que pode ser pensado) e do que não pode ser expresso por proposições, mas apenas mostrado; esse, acredito, é o problema principal da filosofia” (apud GRAYLING, A.C. Wittgenstein. São Paulo: Loyola, 2002, p. 30). [2] O que pode ser apenas “mostrado” é o que se apresenta para ser apenas contemplado, ultrapassando todas as possibilidades de ser dito pela linguagem. [3] MARGUTTI PINTO, Paulo Roberto. Iniciação ao silêncio. São Paulo: Loyola, 1998, p. 251. [4] Wittgenstein vê a relação linguagem/fatos do mundo basicamente como representação. Tal é a “teoria pictórica” do Tratactus, segundo a qual a linguagem “figura” ou representa os fatos do mundo, justamente por terem a mesma forma lógica. [5] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Filosofia: lógica e metafísica. In: IMAGUIRE, Guido et alii (orgs.). Metafísica contemporânea. Petrópolis : Vozes, 2007, 178. [6] WITTGENSTEIN, Ludwig. Tratactus logico-philosophicus, 5.641. [7] ZILLES, Urbano. O racional e o místico em Wittgenstein. Porto Alegre: EDIPUCRS, p. 35. [8] MARGUTTI PINTO, Paulo Roberto. Crítica da linguagem e misticismo no Tratactus. Revista portuguesa de filosofia (2002), vol. 58, n. 3, p. 506. [9] O sujeito transcendental está para o mundo como o olho para o campo visual; nesse sentido, assim como olho que vê pressupõe o campo visual e vice-versa, o sujeito transcendental e mundo, embora distintos, são mutuamente pressupostos. [10] MARGUTTI PINTO, Crítica da linguagem e misticismo..., art. cit., p. 506. [11]MARGUTTI PINTO, Crítica da linguagem e misticismo..., art. cit., 508. [12] Cf. WITTGENSTEIN, Ludwig. Tratactus lógico-philosophicus, 6.52.

2 comentários: