Pular para o conteúdo principal

Modernidade, autonomia e Deus

O mistério está no fato de que as coisas existam!

Penso que um dos ganhos da modernidade, de perene atualidade, é a consciência da justa autonomia das realidades terrenas . A ideia da autonomia é um legado da modernidade, que se afirmou de modo particular no campo das ciências, mas também no campo da antropologia filosófica. Sabemos hoje, de modo mais consciente do que no passado, que o mundo e o homem têm sua consistência própria. Uma visão mítica, sobrenaturalista, em que o mundo perde sua consistência por causa das contínuas intervenções de seres sobrenaturais, já não goza de respaldo. Mas isso não significa que Deus tenha perdido o seu lugar. Ao contrário, creio que uma concepção mais adequada de Deus nos leve justamente a afirmar a justa autonomia da sua criação.
 
Deus é o Mistério por excelência, ou, como se expressa Karl Rahner, o Mistério Santo. Sua realidade nos ultrapassa, e tudo o que podemos dizer dele, o fazemos pelo recurso à analogia, com a consciência de que, se há semelhança entre nós e a sua realidade, muito maior é a dessemelhança. É preciso, pois, ter consciência da insuficiência da nossa linguagem, embora sejamos forçados a dizer, de alguma maneira, o Inefável. O certo é Deus não deve ser apresentado como um soberano que, separado ou a partir de fora, faz concorrência com o universo e o homem. O verdadeiro Deus não pode ser um ente entre os outros, ainda que seja o mais elevado. Deus é o Ser que transcende os entes e os funda desde as suas raízes. É o Ser que faz ser os entes. É a imóvel Fonte transcendente de todo o movimento, entendido aqui, filosoficamente, como passagem da potência para o ato. O movimento universal não se explica por si mesmo, já que a potência não pode preceder absolutamente o ato, e o movimento universal pressupõe um Ato puro, que não é o primeiro ato de uma série, mas o primeiro em sentido único, que funda o conjunto de moventes movidos e o próprio ser deles. 

Nesse sentido, Deus não representa concorrência ou empecilho para a criatura. No caso da criatura livre, é Deus quem funda a sua liberdade, a suscita e estimula o seu exercício. Sua presença é tão íntima que se encontra nas raízes mesmas do ser criado, de modo especial no homem, capaz de pensar o Ser e de refletir sua luz. Deus não é uma causa entre outras no mundo, mas a Causa das causas (causa causarum). É a Causa primeira, mas não a primeira de uma série. É a Causa transcendente, que funda em nível metafísico o próprio conjunto de causas do universo. Deus como o Ser-que-doa-ser-aos-entes, não como ente-entre-os-entes, não é um Deus que possa ser captado pelas ciências modernas, não porque não existe, mas porque está para além do nível de entidade tratado por elas. Se Deus estivesse no mesmo nível de entidade tratado pelas ciências e nunca pudesse ser captado por elas, então poderíamos dizer que não existe, mas não é o caso. Ele está em outro nível, no do Fundamento transcendente, captado, de certo modo, pelo senso comum, pela intuição, pela reflexão filosófica ou metafísica ou ainda pela fé religiosa e pela teologia. A metafísica em sua valência teológica (teologia racional) não chega a entes particulares ou a um ente particular invisível, mas ao Ser-que-explica-os-entes; chega a Deus como o Ser sempre pressuposto pelo exercício do ser dos entes.

Comentários

  1. Excelente reflexão, que aclara o conhecimento.

    ResponderExcluir
  2. Que liberdade seria esta das outras criaturas, que não o homem? Só seres racionais podem ser livres, não?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O homem é a única criatura livre sobre a Terra.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Criação "ex nihilo"

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Em Deus, e somente em Deus, essência e existência identificam-se. Deus é o puro ato de existir ( Ipsum Esse ), sem sombra alguma de potencialidade. Ele é a plenitude do ser. Nele, todas as perfeições que convém ao ser, como a unidade, a verdade, a bondade, a beleza, a inteligência, a vontade, identificam-se com sua essência, de tal modo que podemos dizer: Deus é a Unidade mesma, a Verdade mesma, a Bondade mesma, a Beleza mesma... Tudo isso leva-nos a dizer que, fora de Deus, não há existência necessária. Não podemos dizer que fora de Deus exista um ser tal que sua essência coincida com sua existência, pois, assim, estaríamos afirmando um outro absoluto, o que é logicamente impossível. Pela reflexão, pois, podemos afirmar que em tudo que não é Deus há composição real de essência (o que alguma coisa é) e existência (aquilo pelo qual alguma coisa é). A essência do universo criado não implica sua existência, já que, se assim fosse, o universo, contingen...

Se Deus existe, por que o mal?

O artigo ( leia-o aqui ) Si Dieu existe, pourquoi le mal ?,  de Ghislain-Marie Grange, analisa o problema do mal a partir da teologia cristã, com ênfase na abordagem de santo Tomás de Aquino. O autor explora as diversas tentativas de responder à questão do mal, contrastando as explicações filosóficas e teológicas ao longo da história e destacando a visão tomista, que considera o mal uma privação de bem, permitido por Deus dentro da ordem da criação. ⸻ 1. A questão do mal na tradição cristã A presença do mal no mundo é frequentemente usada como argumento contra a existência de um Deus onipotente e benevolente. A tradição cristã tem abordado essa questão de diferentes formas, tentando reconciliar a realidade do mal com a bondade e a onipotência divinas. 1.1. A tentativa de justificar Deus Desde a Escritura, a teologia cristã busca explicar que Deus não é o autor do mal, mas que ele é uma consequência da liberdade das criaturas. No relato da queda do homem (Gn 3), o pecado de Adão e E...

Convite ao eclesiocentrismo

O Cardeal Giacomo Biffi, arcebispo emérito de Bologna, faz um convite quase insuportável aos ouvidos que se consideram avançados e atualizados em matéria teológica: trata-se de um convite ao eclesiocentrismo. O quê? Isso mesmo. Um convite ao eclesiocentrismo. É o que podemos ler, estudar e meditar em seu livro sobre eclesiologia - La Sposa chiacchierata: invito all’ecclesiocentrismo -, que ganhou uma tradução portuguesa sob o título Para amar a Igreja . Belo Horizonte: Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém do Pará / Editora O Lutador, 2009. . O motivo que leva o arcebispo e cardeal da Igreja Giacomo Biffi a fazer um convite assim tão «desatual» é o seu amor pela verdade revelada em Cristo. A teologia para Biffi não se deve ocupar com discursos divagantes sobre hipóteses humanas, não deve fazer o jogo do «politicamente correto», mas deve, isto sim, contemplar a « res », isto é, a realidade que corresponde ao desígnio do Pai, a sua verdade. E com relação à ver...