terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Jesus de Nazaré: manifestação da Beleza entre nós


Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Jesus de Nazaré, afirma a fé católica, é o Verbo de Deus encarnado[1]. A segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumiu a natureza humana do seio virginal de Maria Santíssima sob a ação do Espírito Santo, de modo que a humanidade do Filho de Deus tornou-se o sacramento por excelência do Deus vivo e da Beleza infinita entre nós. Jesus é a manifestação definitiva de Deus na história. Os primeiros concílios da Igreja definiram, diante de interpretações errôneas do mistério de Jesus, o realismo da encarnação do Verbo divino: Jesus possui duas naturezas distintas, a divina e a humana, unidas sem confusão e sem divisão na única pessoa do Verbo eterno[2].

Ele, e somente ele, revela Deus ao homem e o homem a Deus. "Por isso, nele o cristianismo e a Igreja têm não só sua origem, mas também seu centro e fundamento permanentes: 'ninguém pode colocar outro fundamento' (1Cor 3,11; cf. Mc 12,10s)."[3] O evento Jesus Cristo, com efeito, situa-se no horizonte das promessas de salvação do Antigo Testamento. De acordo com as afirmações do Novo Testamento, Jesus é o cumprimento das antigas profecias. Desse modo, Jesus, plenitude da revelação, é o centro mesmo da Sagrada Escritura e a chave de sua interpretação.

Vê-se, pois, que o fundamento da fé cristã não é uma idéia abstrata, mas uma Pessoa, a Pessoa do Verbo encarnado. O sábio plano salvífico de Deus respeitou a historicidade do homem e sua natureza noo-psico-somática, porquanto Deus mesmo apresentou-se na história e de forma visível e bem adaptada às condições humanas.

A sede de beleza que nos habita encontra no evento Jesus Cristo a sua explicação. Nossa sede de beleza não é vã, e Jesus Cristo é a "água viva"[5] a jorrar para a vida eterna, água que nos sacia para além de nossas expectativas. Ele nos revela a Beleza infinita e nos convida à comunhão com a felicidade completa e eterna do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

A encarnação do Verbo de Deus é a manifestação por excelência da glória e beleza divina no mundo criado; manifestação essa, deve-se dizer, não necessária, isto é, livre. Na vida íntima de Deus, o Verbo já é desde toda a eternidade o esplendor da glória do Pai. A encarnação é a expressão amorosa e livre ad extra do esplendor, que, desde todo o sempre, constitui a vida de Deus em sua intimidade. Essa manifestação histórica de Deus em Jesus está em consonância com o que se sabe do Deus bom, "o único bom"[6]. Além de criar e de falar aos homens pela obra da criação e pelos profetas, Deus quis falar-nos "por seu Filho"[7].

Jesus Cristo manifesta e comunica o conhecimento de Deus, que é alegria e felicidade eternas. O evangelho de João enfatiza o júbilo/deleite de Jesus Cristo. É a plenitude da alegria (3,29) que Jesus deseja compartilhar com seus discípulos (15,11); ela vai transformar a tristeza deles em alegria (16,21). Jesus faz alusão à alegria do parto, de uma nova vida (16,22). Ele promete a alegria plena que ninguém pode nos tirar (16,22).[8]

Deus, certamente, poderia valer-se de outros modos para dirigir-se ao homem e elevá-lo à comunhão consigo, salvando-o da lama do pecado. No entanto, quis comunicar-se de modo inefável, sublime e expressivo por excelência do amor; quis comunicar-se em Cristo, no qual "habita corporalmente a plenitude da divindade"[9].


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[
1] Diz o Símbolo de Nicéia: "... Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado não criado, consubstancial ao Pai, por quem foram feitas todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra; que por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou e se fez homem ..." (COLLANTES, Justo. A Fé Católica. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 2002, n. 4.001). [2] Cf. o que definiu o Concílio de Calcedônia (COLLANTES, Justo. A Fé Católica. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 2002, n. 4.017). [3] Klessler, Hans. D. Cristologia. In: Schneider, Theodor (org.). Manual de dogmática. Petrópolis: Vozes., p. 220. [5] Cf. Jo 4,14. [6] Mt 19,17 [7] Hb 1,1. [8] Navone, John. Por uma teologia da beleza: São Paulo: Paulus, p. 45-46; [9] Cl 2,9.

6 comentários:

  1. O texto é belíssimo e cristocêntrico.
    Pe. Elílio, solicito esclarecimentos
    sobre a chamada "doutrina kenótica"
    atualmente muito difundida nos meios
    evangélicos e que nega a divindade
    de Jesus Cristo, quando este
    esteve encarnado.
    Ou seja, os propagadores
    dessa doutrina aduzem que a carne
    de Jesus era carne de pecado: igual
    a de Adão depois da desobediência,
    sendo o Filho de Deus simplesmente homem,
    não trazia em si a natureza divina, não era Deus.
    Entendo que o pecado não faz parte
    da essência humana, portanto creio
    que Jesus trazia a imagem do Adão obediente.
    Qual a repercussão da "doutrina kenótica"
    no contexto da ortodoxia cristã/católica?!
    Em que sentido se deu o "esvaziamento"
    de Cristo, conforme apregoa São Paulo?!
    O que significa o verso: "Ele(Jesus)
    se fez pecado por nós" (II Cor 5, 21)?!
    Num corpo de pecado, há possibilidade
    de realização do plano salvífico
    do Pai em Jesus Cristo?!
    Sendo carne de pecado, somos "lavados"
    por um sangue contaminado pelo pecado?!
    A patrística tratou do assunto diretamente?!
    Negar que Cristo veio em um corpo de pecado
    significa negar a encarnação de Jesus,
    conforme admoesta II São João, 1, 7?!
    Sempre, muita Paz e Bem!!

    Nelton - Goiânia.

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  2. Prezado Nelton,
    A "kenose" do Filho de Deus não implicou a renúncia à divindade, o que seria absurdo, mas a assunção da natureza humana, finita e limitada como é. O verbo encarnado não assumiu o pecado, mas as consequências do pecado, e é nesse sentido que São Paulo diz que se fez pecado por nós. Jesus Cristo é o Novo Adão e, como tal, o pecado não poderia dominá-lo.
    Abraços.

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  3. Rev. Pe Elílio
    Salve Maria!

    Encaminhei o e-mail com minhas dúvidas mais uma vez para seu endereço eletrônico pessoal pelilio@yahoo.com.br.
    Para que não haja risco do senhor deletar achando que é spam verifique meu nome e endereço eletrônico: lucas_sidarta@yahoo.com.br. O sr pode add meu e-mail aos seus contatos para melhor identificar a origem...

    O título da mensagem está assim: De Lucas.Pergunta que citei no seu blog. NAO DELETAR. Aguardo resposta

    Fiz a pergunta por e-mail pq não sei se é conveniente postá-la no seu blog.

    Aguardo sua resposta. Abraços

    Sem mais

    Lucas Lima

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  4. A paz de Jesus e o Amor de Maria Pe. Elílio!!!
    O Santo Padre Bento XVI em seu livro Jesus de Nazaré "maravilhoso livro diga-se de passagem" escreveu uma frase qe me deixou impressionado eis a frase: Mas o que Jesus verdadeiramente trouxe, senão foi paz ao mundo, bem-estar para todos e um mundo melhor? o que trouxe? A resposta é muito simples: DEUS. ELE TROUXE DEUS!!! Nosso Senhor Jesus trouxe-nos DEUS e deixou-nos sua Igreja cujas portas do inferno jamais a vencerão pois foi fundada por ele. Deixou-nos também seu Santíssimo Corpo Sangue Alma e Divindade no Santíssimo Sacramento que é o tesouro maior de sua Única Igreja Católica Apostólica Romana como ensina também o Papa Bento XVI: "Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica – radicada na sucessão apostólica – entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica: "Esta é a única Igreja de Cristo [...] que o nosso Salvador, depois de sua ressurreição, confiou a Pedro para apascentar (cfr. Jo. 21, 17), encarregando-o a Ele e aos demais Apóstolos de a difundirem e de a governarem (cfr. Mt. XXVIII, 18 ss.); levantando-a para sempre como coluna e esteio da verdade (cfr. Tim, III, 15). (Dominus Iesus, 16). Faço minhas as suas palavras Pe. Elilio "Jesus sem a sua Igreja é um Jesus falsificado. Rezemos para que Jesus abençoe e guarde o nosso Santo Padre Bento XVI conservando-lhe saúde e luz para guiar o rebanho confiado a Pedro e seus legitimos sucessores. Que Jesus e Maria te guarde . amem.

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  5. Caro Christiano,
    Sim; Jesus veio trazer-nos Deus. E Deus basta! E só Deus basta! Bento XVI, em seu livro "Jesus de Nazaré", chega ao ponto, ao contrário de muitos que ora vêem em Jesus um moralista, ora um revolucionário, ora um bonachão... O homem tem sede é de Deus mesmo, e foi exatamente Deus que Jesus nos trouxe. E o senhor compreendeu muito bem que Jesus é inseparável de sua Igreja. Parabéns! Deus o abençoe sempre!

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  6. Padre Elílio,
    Graça e Paz!
    Agradeço-lhe pela resposta!
    Havendo algum livro ou estudo católico
    tratando especificamente do tema, que
    seja de seu conhecimento, por gentileza,
    indica-me...
    Abraços!

    Nelton.

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