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A sede do infinito Espiritualidade, pseudo-absolutos e a missão da Igreja

I. Uma profecia que não se cumpriu

A religião deveria ter acabado. Assim pensaram alguns dos espíritos mais brilhantes da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX. A ciência ocuparia o lugar da fé, a razão emancipada dissolveria os mitos, e a humanidade adulta não precisaria mais de Deus.

O tempo, porém, desmentiu a profecia. A busca espiritual não desapareceu. Mudou de rosto, dispersou-se, às vezes se extraviou, mas continua viva, insistente, quase obstinada. Os templos podem esvaziar-se aqui e ali, mas a pergunta pelo sentido não se cala.

Por que a previsão falhou? A resposta, creio, está menos no que esses pensadores afirmaram do que naquilo que deixaram de pensar.


II. Um reducionismo: a negação do espírito

Seria injusto não reconhecer o quanto esses pensadores contribuíram. Eles nos ajudaram a compreender muita coisa: o peso da matéria e dos condicionamentos biológicos, as forças inconscientes do psiquismo, as estruturas econômicas que moldam a vida social. Não raro, denunciaram também as deformações de uma religiosidade que se tornara moralismo ou instrumento de dominação.

Seu grande defeito foi o reducionismo. Cada um à sua maneira, os grandes mestres da suspeita reduziram o homem a uma de suas dimensões, tomando a parte pelo todo.

– O positivismo o reduziu à matéria e ao que pode ser medido.

– Nietzsche o reduziu à vida biológica, à vontade de potência que se afirma e se expande.

– Freud leu o humano a partir do psiquismo, e viu em Deus a projeção de um desejo infantil de proteção.

– Marx o reduziu às relações econômicas, e viu na religião o reflexo de uma sociedade alienada.

O que une pensadores tão diferentes é a negação do espírito. Nem sempre se tratou de um pressuposto oculto; por vezes, ele era bem visível. Mas a questão do espírito no homem não foi tematizada de modo suficiente, nem adequado. Simplesmente não foi levada em conta. E isso porque esses autores partiam de outro pressuposto, para eles quase inconsciente: uma aversão à tradição e, de modo particular, à moral e à religião. Aversão em parte compreensível, dado tudo o que de negativo a moral e a religião, em suas formas históricas, haviam trazido. Mas ela os tornou incapazes de reconhecer a originalidade do espírito, que é o verdadeiro sustentáculo da religião. Coisa que Hegel soube reconhecer, e também, no século XX, os fenomenólogos da religião.

Não falo do espírito em sentido vago ou sentimental, mas em seu sentido mais rigoroso. Para o Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz, um dos maiores filósofos brasileiros, o espírito é a abertura do homem ao Ser em sua amplitude ilimitada: uma homologia, uma conaturalidade com o Ser enquanto tal, e não apenas com este ou aquele ente.

Daí uma consequência decisiva, que Vaz não deixa de sublinhar: a negação do espírito é impossível, porque impossível é a negação do Ser em seu caráter ilimitado. Para negar o Ser, o espírito precisa antes concebê-lo; ninguém nega aquilo que não pode pensar. O próprio gesto da negação, portanto, testemunha a efetiva correspondência entre espírito e Ser. O espírito é capaz do Ser em sua ilimitação, e é exatamente essa capacidade que o negador põe em ação no instante mesmo em que a recusa.

É por isso que o homem nunca se satisfaz com o finito. Ele pergunta pelo todo, deseja o bem sem restrição, intui uma verdade que nenhum objeto esgota. Negar o espírito é amputar exatamente essa abertura. E uma amputação teórica não suprime a realidade: apenas a deixa sem nome.


III. Os pseudo-absolutos e a fome de reconhecimento

O que a teoria nega, a vida confirma. O ser humano pode recusar o espírito nos livros, mas não consegue deixar de ser espírito no seu agir. A abertura ao infinito, quando não encontra o Infinito, não se fecha: desloca-se. O homem passa a erigir para si absolutos de substituição.

A posse, o prazer, o poder. São os velhos ídolos de sempre, e todos eles giram, a meu ver, em torno de uma necessidade imensa de reconhecimento. Queremos ser vistos, confirmados, afirmados em nosso valor. No fundo, desejamos aquele reconhecimento que só o Espírito absoluto pode conferir: ser conhecido e amado de modo incondicional.

O drama é que os pseudo-absolutos não reconhecem ninguém. Diante deles, o homem encontra apenas a própria imagem, ampliada, refletida, multiplicada. É o destino de Narciso: debruçado sobre a água, confunde o reflexo com um encontro. Mas um espelho não responde. E uma vida construída sobre espelhos termina por descobrir-se profundamente só.


IV. Hoje: não a negação, mas a desorienta ao

O cenário atual é outro. Já não vivemos sob o signo do ateísmo militante e sistemático dos grandes pensadores da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX. Hoje a negação explícita de Deus cedeu lugar a algo mais difuso: uma desorientação na busca espiritual. Fala-se muito de espiritualidade, mas sem mapa, sem tradição, sem critério.

Nesse vazio de orientação, ganham espaço os grandes influenciadores digitais, que se oferecem como guias da alma contemporânea. Seria injusto condenar tudo o que vem desse meio. Há ali vozes legítimas, intuições verdadeiras, espiritualidades bonitas.

Mas, em ampla medida, muitos desses guias estão eles mesmos à procura de reconhecimento. Os likes, o dinheiro, a influência e o poder tornam-se novos pseudo-absolutos, agora em versão digital. E quem procura orientação acaba conduzido por quem também está perdido.

O resultado costuma seguir dois caminhos opostos. Alguns são levados ao vazio: uma espiritualidade sem consistência, feita de frases de efeito, que consola por um instante e não sustenta uma vida. Outros são levados ao fanatismo: uma espiritualidade rígida, que oferece certezas fáceis e inimigos claros. Num caso e noutro, a dimensão espiritual do homem é manipulada, e não libertada.


V. O desafio da Igreja: escola, casa, hospital

Diante desse quadro, o grande desafio das Igrejas cristãs, e da Igreja Católica em particular, não é competir com os influenciadores no mesmo terreno. É ser aquilo que nenhum algoritmo pode ser. O teólogo tcheco Tomáš Halík tem insistido nessa direção, retomando a imagem do Papa Francisco da Igreja como hospital de campanha. A meu ver, essa missão tem três rostos.

Escola de sabedoria para quem procura uma espiritualidade autêntica. A Igreja guarda um tesouro de dois mil anos de oração, pensamento e discernimento. Ela pode oferecer profundidade sem fanatismo, firmeza sem rigidez, mistério sem obscurantismo.

Casa de acolhimento para quem duvida e procura, para quem questiona e apresenta objeções. A dúvida honesta não é inimiga da fé; muitas vezes é o seu caminho. Quem busca precisa encontrar portas abertas, e não um tribunal.

Hospital de campanha para quem está ferido. Muitos chegam à busca espiritual pela via da dor, da perda, do fracasso. Antes de explicações, precisam de cuidado.

Em tudo isso, a Igreja deve ser o espaço onde o horizonte se torna mais límpido, onde o céu se abre para que possamos voltar o olhar para o infinito. Sua tarefa é cuidar da dimensão espiritual do homem para que ela não seja manipulada, mas se torne fonte de verdadeira liberdade: lugar do encontro com a verdade, o bem e a beleza, com aquilo que dá sentido à existência.


VI. Deixar-se tocar pelo Ser

Pela dimensão espiritual, o homem se descobre abraçado pela infinitude, pela plenitude do Ser. E aqui está o ponto decisivo, que separa a fé autêntica de suas caricaturas: não é o homem que projeta esse Ser. Não se trata de uma ilusão fabricada pelo desejo, como supunha Freud, nem de um reflexo das condições materiais, como pensava Marx.

É o contrário. O homem se deixa tocar pelo Ser, deixa-se penetrar por ele e, assim, é transformado. A atitude fundamental do espírito não é a da conquista, mas a do acolhimento. Reconhecer o Ser, acolhê-lo como dom, é o que torna a vida habitável. Sem esse reconhecimento, a existência humana se converte num grande deserto.

O perigo do nosso tempo é justamente esse deserto. Corremos o risco de ser dominados pela tecnocracia e pela ideologia da eficiência, em que tudo vale apenas pelo que produz. Nesse regime, perdemos a capacidade de contemplação, aquela que permite saborear a vida no sentido mais nobre da palavra. Não por acaso, sabedoria e sabor têm a mesma raiz.

A Igreja, se for fiel à sua vocação, pode ser em nosso tempo uma escola desse sabor. Um lugar onde se reaprende a parar, a olhar, a agradecer. Um lugar onde a sede do infinito, em vez de ser explorada, é finalmente reconhecida pelo que é: o sinal de que fomos feitos para Deus.

Comentários

  1. Olá, que lindo o que você compartilha aqui. Me tocou muito essa reflexão sobre a sede do infinito — como posse, prazer e poder prometem preencher o coração, mas não reconhecem ninguém — e a imagem da Igreja como escola, casa e hospital, um lugar onde essa sede é finalmente reconhecida como sinal de que fomos feitos para Deus. Sou o Matias, do Música Cristiana. Desde que conheci seu blog, gosto muito do que você faz, e tenho uma ideia simples que acredito que pode nos abençoar aos dois. Se te interessar, escreva para mcristianas.online@gmail.com e te conto com calma. Você também pode visitar https://musicascristianas.online Bênçãos!

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