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Realismo metafísico e consciência transcendental: para uma mediação entre Tomás de Aquino e a modernidade crítica

A perspectiva trascendental de Kant pode ser lida como complemento e aprofundamento crítico da perspectiva realista de Tomás de Aquino


A tradição metafísica clássica, cuja expressão mais elevada encontra-se na síntese tomista, alcançou um notável grau de inteligibilidade ao conceber o ser como ato e a inteligência como naturalmente ordenada à realidade. O realismo de Tomás de Aquino não é uma adesão ingênua ao sensível, mas uma afirmação radical da inteligibilidade do ente enquanto tal. A metafísica do ato de ser (actus essendi), ao reconhecer na estrutura do real a presença de uma participação finita do Ser por excelência, sustenta uma filosofia da presença e da abertura, em que o intelecto, ao conhecer, reconhece-se como participação do Intelecto absoluto, guiado e regrado pela luz infinita do ser, que é o verdadeiro Cânon do espírito, e aberto ao ser dos entes. 

Entretanto, seria um erro supor que a emergência da crítica moderna – com sua atenção à subjetividade e às condições de possibilidade do conhecimento – deva ser lida como mera ruptura ou regressão em relação à metafísica clássica. O questionamento moderno, sobretudo a partir de Kant, desloca a atenção do quid sit ao quomodo, ou seja, da essência das coisas à maneira como são conhecidas; o interesse se desloca da afirmação do ser ao problema da legitimidade da afirmação. Longe de ser uma questão ociosa ou secundária, esta transição aponta para uma exigência legítima de fundamentação, não apenas no nível ontológico, mas também no plano do conhecimento.

É precisamente nesta intersecção que se situa a contribuição insigne de Joseph Maréchal. Sua proposta de um “tomismo transcendental” não representa uma renúncia ao realismo metafísico, mas uma tentativa rigorosa de pensar, à luz de Tomás de Aquino, as exigências transcendentalmente colocadas pela crítica moderna. Maréchal compreende que a inteligência humana, ao operar segundo certas estruturas a priori, não se fecha em si mesma, mas se abre à realidade como horizonte constitutivo. A subjetividade, longe de ser barreira, torna-se condição de possibilidade de uma relação objetiva com o ser. O grande e fundamental a priori do espírito humano - procura fazer ver Maréchal - é a luz do ser, indice de sua participação ao Ser absoluto e condição de possibilidade da afirmação do ser dos entes em qualquer juízo concreto. 

A justificação transcendental do conhecimento – isto é, a análise das condições pelas quais o sujeito pode alcançar a verdade – não se opõe à doutrina do intelecto como capax entis, mas a pressupõe. O dinamismo do espírito humano, em sua abertura constitutiva ao ser, revela que a subjetividade é estruturada para ultrapassar-se em direção ao real. a luz do ser no espírito é a condição de possibilidade do conhecimento e do consentimento do ser real - do ser dos entes e do Ser que dá ser aos entes. Assim, o problema kantiano da mediação é acolhido, mas resolvido em outra chave: não mais pela interposição de formas puras que limitam o conhecimento, mas pela afirmação de um sujeito cuja atividade intencional é já participação no ser.

O realismo, portanto, não é negado, mas depurado. Ele emerge não como dado bruto, mas como resultado de uma análise crítica que reconhece na própria estrutura da subjetividade o selo da objetividade possível. Trata-se de compreender que a metafísica não pode mais prescindir de uma reflexão sobre a mediação do sujeito, mas que essa mediação não destrói, antes confirma, a possibilidade de uma verdade objetiva.

Maréchal, ao unir o rigor da crítica transcendental à profundidade da metafísica tomista, mostra que é possível uma síntese superior: uma metafísica que pensa o ser a partir da consciência, sem cair no idealismo, e uma teoria do conhecimento que reconhece o sujeito, sem cair no subjetivismo. A modernidade não é suprimida, mas superada (aufgehoben), reconciliada com a tradição a partir de uma mais alta inteligência do real.

Em tempos de dissolução niilista da verdade, essa via de mediação apresenta-se como um caminho promissor para a filosofia.

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