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Discípulo de S. Tomás






Eu me considero discípulo de S. Tomás porque sigo as grandes teses do seu pensamento filosófico: a realização plena do Ser (Esse), perfeição máxima, em uma única e incomunicável subsistência (Deus), a distinção entre essência e ato de ser nos entes finitos, o primado absoluto do intelecto sobre a vontade, a mútua pertença entre ser e intelecto…

Tomás é meu mestre também porque me ensinou a dar valor à argumentação e a procurar distinguir o que é discurso racional e o que é discurso de fé. Aprecio muito o rigor com que Tomás procurou tratar as coisas, sem ceder a um discurso talvez impressionante e esteticamente bonito, mas logicamente inconsistente ou vazio. Tomás me ensinou que o belo é tal por estar em consonância com o verdadeiro, não simplesmente porque emociona. Ainda neste tópico, Tomás me ensinou que os conceitos humanos são analógicos quando falamos (mais em termos de negação do que afirmação) do Ser subsistente, e estão mais próximos da equivocidade do que da univocidade. Ainda assim é preciso pensar e argumentar, com a consciência de que o discurso está em constante tensão para a Res sempre maior. Nada de agnosticismo. Nada de sentimentalismo. Nada de racionalismo. 

Como quer que seja, sei que, como discípulo de S. Tomás, não devo ser escravo de sua letra. As relações entre razão e fé, cujos princípios estão lançados pelo mestre, precisam ser repensadas diante de: a nova exegese bíblica (nova compreensão de inspiração e da historicidade dos textos), as mudanças profundas da explicação científica da natureza e do cosmo (dinamismo em vez de estaticismo), a maior consciência da imersão do homem no tempo e na história, o pluralismo religioso e cultural…

A filosofia de S. Tomás, obra de gênio por causa, sobretudo, do inovador conceito intensivo de ato de ser (actus essendi), precisa, contudo, ser desenvolvida a partir dos ganhos do idealismo (a reflexão sobre as condições transcendentais do ser na inteligência), a hermenêutica (o caráter perspectivo e histórico do conhecimento) e da filosofia da linguagem (a linguagem como casa do ser).  Sobre os ganhos do idealismo, deve-se dizer, como viu Joseph Maréchal e sua escola, que em Tomás temos bases a serem desenvolvidas que nos mostram como a natureza e o dinamismo do conhecimento humano sempre pressupõem, implícito no explícito, o Absoluto, que é o Ser e a Inteligência sempre em ato, alfa e ômega do espírito finito.

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