Pular para o conteúdo principal

O grande legado de Bento XVI




Bento XVI teve como grande orientação para o pensamento e para a vida o primado de Deus, tema realçado de modo particular pela espiritualidade da escola daquele que certamente lhe inspirou o nome: Bento de Núrsia.

Procurar o primado de Deus num mundo que, sob diversos aspectos, quer-se pós-cristão e pós-teísta é um grande desafio. Realçar as raízes que nossa vida tem no Eterno para uma mentalidade que vive submersa no tempo é uma empreitada difícil. Chamar a atenção para as coisas da alma e para do encontro íntimo com o Verbo de Deus num tempo em que só se quer o espetáculo e a exibição é colocar-se num caminho de incompreensão.

Sem negar — muito ao contrário! — que a Igreja tem uma missão temporal, social e até política (sem que ela mesma deva tomar o governo político), Bento XVI enfatizou a sede de infinito que caracteriza a alma humana e procurou apontar para a Fonte de Água Viva que é Deus. Nesse sentido, esforçou-se por defender a fé da Igreja diante do que considerava obnubilar o seu caráter transcendente. Defendeu a sacralidade da liturgia diante de tendências consideradas redutivistas. Quando o establishment realçava a relatividade das coisas humanas a ponto de, em muitos casos, abrir caminho para o relativismo e o niilismo, Bento XVI insistia na marca do Definitivo que está impressa no núcleo do coração humano. Se somos finitos e se nosso conhecimento é relativo, nem tudo, porém, deve desaguar nas falsas equiparações ou no vazio. Nossa finitude é atravessada pela positividade do Infinito de Deus, de um Deus tão próximo que quis mostrar-se visível aos nossos olhos carnais e fazer história conosco como verdadeiro homem, em Jesus de Nazaré.

Ratzinger não foi muito bem compreendido por muitos porque, de certa maneira, nadava contra a correnteza. Mas foi justamente assim que nos deu sua parcela de contribuição e deixou sua grande marca na Igreja e no mundo. Nossas questões temporais têm muito a ganhar se abrimos, de par em par, nossa alma para o Eterno. Não é preciso estar de acordo com todas as posições de Ratzinger para reconhecer a importância e a clarividência do núcleo do seu pensamento. 

Eis o legado de Bento XVI, pastor e teólogo: o anúncio vivo, com todos os os recursos argumentativos da razão e da fé, de que sem Deus, sem o Infinito, a vida humana fica estreita. Com Deus, ao contrário, tudo muda; sem tirar-nos nada do que faz a vida humanamente boa, Ele nos dá muito mais: abre-nos o horizonte de sua Vida, Luz eterna e Amor indestrutível.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Criação "ex nihilo"

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Em Deus, e somente em Deus, essência e existência identificam-se. Deus é o puro ato de existir ( Ipsum Esse ), sem sombra alguma de potencialidade. Ele é a plenitude do ser. Nele, todas as perfeições que convém ao ser, como a unidade, a verdade, a bondade, a beleza, a inteligência, a vontade, identificam-se com sua essência, de tal modo que podemos dizer: Deus é a Unidade mesma, a Verdade mesma, a Bondade mesma, a Beleza mesma... Tudo isso leva-nos a dizer que, fora de Deus, não há existência necessária. Não podemos dizer que fora de Deus exista um ser tal que sua essência coincida com sua existência, pois, assim, estaríamos afirmando um outro absoluto, o que é logicamente impossível. Pela reflexão, pois, podemos afirmar que em tudo que não é Deus há composição real de essência (o que alguma coisa é) e existência (aquilo pelo qual alguma coisa é). A essência do universo criado não implica sua existência, já que, se assim fosse, o universo, contingen...

Uma questão eclesiológica séria

O Vaticano II usa a expressão subsistit in para falar da identidade da Igreja de Cristo com a Igreja católica entregue a Pedro e a seus sucessores. Como a expressão substitui o verbo est , tradicionalistas atacam injustamente o concílio. Entedamos o que se passa.  O teólogo que sugeriu o uso da expressão “subsistit in” no Concílio Vaticano II, especificamente no documento Lumen gentium (n. 8 ), foi Sebastian Tromp, S.J. (1889–1975). Contexto:  • Sebastian Tromp era secretário da Comissão Teológica do Concílio e exerceu grande influência na redação dos documentos, especialmente na Lumen gentium, a constituição dogmática sobre a Igreja.  • Ele foi também colaborador próximo do então Santo Ofício (atual Dicastério para a Doutrina da Fé) e teólogo profundamente influenciado pelo tomismo. A mudança de formulação: Antes do Concílio, a linguagem oficial afirmava que a Igreja de Cristo “é” a Igreja Católica (est Ecclesia Catholica). No Vaticano II, essa formulação foi modificada...

Deus como “Esse Subsistens”: um “conceito saturado” para a razão

Na filosofia de Santo Tomás de Aquino, uma das expressões mais densas e provocadoras do mistério divino é aquela que designa Deus como ipsum esse subsistens — o próprio Ser subsistente . Esta fórmula, que representa o cume do pensamento metafísico, não pretende, contudo, oferecer uma definição de Deus no sentido estrito e exaustivo. Antes, ela marca o limite e a elevação máxima a que a razão pode chegar no exercício de sua abertura ao ser. Com efeito, o ser ( esse ) é aquilo que primeiro se apreende pelo intelecto; é o ato mais íntimo e profundo de tudo o que é. Apreendemos o ser presente nos entes antes de reconhecermos o Ser puro subsistente como seu fundamento absoluto.  Ora, ao afirmar que Deus é o Ser subsistente, Santo Tomás quer dizer que em Deus não há distinção entre essência e ato de ser pleno, entre o que Ele é e a sua existência necessária. Ele é o próprio Ser — não como um ser entre outros, nem como um gênero supremo, mas como o Ato puro de ser, sem nenhuma composição...