Pular para o conteúdo principal

Física e metafísica. Päs e Tomás de Aquino

Heinrich Päs, físico teórico alemão, propõe uma reinterpretação radical da realidade à luz da física quântica contemporânea. Seu ponto de partida é a constatação de que, quando a mecânica quântica é aplicada não apenas a sistemas particulares, mas ao universo como um todo, ela conduz a uma concepção de realidade que coincide com uma das ideias filosóficas mais antigas da humanidade: tudo é um. Essa tese, tradicionalmente chamada de monismo, é retomada por Päs não como um misticismo ou uma crença espiritual, mas como uma hipótese cientificamente sustentada pela física de ponta, sobretudo pela cosmologia quântica e pela teoria do entrelaçamento.

A realidade, segundo essa concepção, não é composta por partes isoladas que interagem entre si, mas por uma totalidade indivisa. A multiplicidade que percebemos no mundo – os objetos, os corpos, os eventos, o tempo e o espaço – é uma aparência derivada. O fundamento último de tudo o que existe não está nos átomos, nas partículas ou nas forças que regem a natureza, mas em uma única estrutura quântica universal: a função de onda do universo. Essa função, matematicamente representada por equações como a de Wheeler-DeWitt, descreve o estado total do cosmos como um sistema coerente, não dividido, que não depende do tempo nem de coordenadas espaciais para existir.

A matéria, nessa perspectiva, não é uma substância primária, mas uma manifestação localizada da totalidade. O que chamamos de “objetos” ou “partículas” são projeções parciais que emergem da função de onda global quando observadas a partir de perspectivas específicas. O mecanismo pelo qual essa emergência acontece é conhecido como decoerência: quando partes do sistema se separam do entrelaçamento com o todo, elas adquirem uma aparência de existência autônoma. Mas essa aparência é relativa e provisória. A realidade última permanece sendo una, indivisa, e atemporal.

O papel do observador, nesse quadro, não é o de criador da realidade, mas o de ponto de vista a partir do qual certos aspectos do todo se tornam visíveis. Cada consciência é como uma janela através da qual a função de onda se “colapsa” em um determinado mundo possível. A experiência subjetiva de tempo, causalidade, identidade e separação emerge apenas a partir dessa localização. Fora desse ponto de vista, não há distinção entre passado e futuro, aqui e ali, eu e outro. Tudo está, de certo modo, contido numa mesma realidade total.

Essa concepção leva à afirmação de que o tempo não é fundamental. A equação de Wheeler-DeWitt não possui uma variável temporal. O tempo é uma construção que resulta da observação parcial da totalidade. O mesmo vale para o espaço e para a causalidade: são categorias derivadas da experiência de sistemas localizados, mas não pertencem ao nível mais profundo da realidade. No nível fundamental, o universo é uma única entidade entrelaçada, onde todas as possibilidades coexistem em estado puro.

A filosofia que emerge dessa visão é um monismo quântico. Não se trata apenas de uma hipótese cosmológica, mas de uma ontologia. Tudo o que existe é expressão de uma única realidade subjacente. A multiplicidade é um modo de manifestação, não uma divisão real. Essa ideia aproxima-se, com surpreendente proximidade, das intuições de Heráclito, de Plotino, dos místicos como Mestre Eckhart, e das tradições orientais como o advaita vedānta. Mas, no caso de Päs, essa unidade não é metafísica no sentido clássico: ela é uma estrutura formal, uma entidade matemática e física que contém todas as possibilidades de ser.

Essa proposta não está isenta de consequências filosóficas profundas. Em primeiro lugar, ela desloca a questão do ser: não se trata de perguntar o que são as coisas, mas como as coisas aparecem a partir de uma realidade que não é composta de coisas. Em segundo lugar, ela reintroduz a noção de ilusão, mas num sentido técnico: o mundo tal como o experimentamos é real para nós, mas não é a realidade última. Ele é uma perspectiva, uma projeção parcial de uma estrutura maior. Finalmente, ela exige uma revisão da relação entre consciência e mundo: a consciência não é um fenômeno separado no universo, mas uma expressão da própria totalidade, como se o universo olhasse a si mesmo a partir de dentro.

A filosofia de Heinrich Päs é, assim, uma reconciliação entre ciência e sabedoria antiga. Não se trata de abandonar a física, mas de levá-la às últimas consequências. Quando a mecânica quântica é levada a sério como descrição da realidade total, ela não conduz a uma multiplicidade irracional, mas a uma unidade racional e abrangente. A ciência mais moderna, ao invés de refutar os antigos, reencontra por outros caminhos aquilo que eles já intuíram: que tudo é um. E que o mundo, com toda sua fragmentação, é apenas o reflexo passageiro de uma realidade eterna, silenciosa e inteira.


Que dizer à luz da filosofia de S. Tomás? 

A proposta de Heinrich Päs, segundo a qual tudo o que existe é, em última instância, manifestação de uma única realidade quântica — uma função de onda universal, eterna, atemporal e indivisa — aproxima-se de forma surpreendente de algumas intuições metafísicas clássicas. Mas à luz da filosofia de Tomás de Aquino, essa aproximação se revela, ao mesmo tempo, profunda e insuficiente. Profunda, porque reconhece a unidade do real e a derivação da multiplicidade a partir de uma fonte única; insuficiente, porque parece permanecer no plano da imanência física e não alcança o princípio transcendente que, para Tomás, é o próprio ato de ser subsistente, isto é, Deus.

Na ontologia tomista, o ser não é um conceito genérico nem o conjunto indeterminado de todas as possibilidades, mas um ato, o ato mais radical de todos: o esse, que confere a atualidade a qualquer essência finita. Deus é o ipsum esse subsistens, o ser por si mesmo, eterno, simples, infinito e ato puro. As criaturas, por sua vez, são compostas de essência e ato de ser; elas não são ser por si mesmas, mas possuem o ser por participação. Sua existência não decorre, em última análise, de uma estrutura cósmica imanente, mas de um ato livre do ser subsistente, que comunica, por amor e sabedoria, a participação no ser a entes diversos, finitos e contingentes.

A visão de Päs capta, pela via da física quântica, que a multiplicidade não é absoluta e que a realidade profunda é una e indivisível. Ele vê, corretamente, que a separação entre os seres é, de certo modo, ilusão derivada de uma perspectiva localizada. Mas para Tomás, essa unidade não é apenas uma função matemática ou um campo quântico unificado. A verdadeira unidade do real é o próprio Deus, ser subsistente, em quem não há distinção entre essência e existência, e que é causa atemporal de todo o ser participado. O mundo não é Deus, nem é um aspecto necessário do ser: ele é, como diz Tomás, um “ens ab alio”, um ente que recebe o ser, e não o possui por natureza.

Päs descreve a totalidade quântica como um todo atemporal, onde todas as possibilidades estão contidas. Para Tomás, contudo, o ser participado não se confunde com o ser subsistente. A eternidade de Deus não é um “tempo absoluto” ou um campo que tudo contém, mas é uma vida na qual há a posse total, simultânea e plena do ser. E o ser das criaturas, ainda que brote do ato divino, não é uma ilusão: é real, mas finito, contingente, dependente. O ente finito não pode ser absolutização. Ele seria falso se fosse considerado o absoluto. Mas ele não é mera ilusão, pois participa da eternidade do Ser subsistente.

Por isso, Tomás não falaria em monismo, mas em analogia do ser. O que há entre Deus e a criatura não é identidade, nem separação absoluta, mas participação. Deus é “tudo”, no sentido de que é o ser por excelência, fonte de todo o ser. Mas o mundo não é Deus, nem um “modo de ser” de Deus. É efeito, reflexo, expressão — mas também radicalmente distinto em sua ontologia.

O pensamento de Heinrich Päs, ao reduzir tudo à unidade de uma estrutura físico-matemática, permanece preso ao horizonte daquilo que aparece. A filosofia de Tomás de Aquino, ao contrário, rompe esse horizonte para ir além do ser participado até sua fonte subsistente, que é livre, pessoal, criadora e amorosa. Por isso, embora Päs intua algo verdadeiro — a unidade do real e a emergência da multiplicidade —, falta-lhe o princípio que verdadeiramente funda o ser: ipsum esse subsistens, Deus. E sem esse princípio, toda ontologia do Uno permanece incompleta.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Criação "ex nihilo"

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Em Deus, e somente em Deus, essência e existência identificam-se. Deus é o puro ato de existir ( Ipsum Esse ), sem sombra alguma de potencialidade. Ele é a plenitude do ser. Nele, todas as perfeições que convém ao ser, como a unidade, a verdade, a bondade, a beleza, a inteligência, a vontade, identificam-se com sua essência, de tal modo que podemos dizer: Deus é a Unidade mesma, a Verdade mesma, a Bondade mesma, a Beleza mesma... Tudo isso leva-nos a dizer que, fora de Deus, não há existência necessária. Não podemos dizer que fora de Deus exista um ser tal que sua essência coincida com sua existência, pois, assim, estaríamos afirmando um outro absoluto, o que é logicamente impossível. Pela reflexão, pois, podemos afirmar que em tudo que não é Deus há composição real de essência (o que alguma coisa é) e existência (aquilo pelo qual alguma coisa é). A essência do universo criado não implica sua existência, já que, se assim fosse, o universo, contingen...

A Bíblia defende a submissão da mulher ao homem?

  O livro The Sexual Person: Toward a Renewed Catholic Anthropology , de Todd A. Salzman e Michael G. Lawler, aborda a questão da dominação do homem sobre a mulher na Bíblia de forma crítica e contextualizada. Os autores exploram como as Escrituras refletem as normas culturais de suas épocas e argumentam que a tradição cristã deve discernir entre elementos históricos condicionados e princípios universais de moralidade e dignidade humana (8,6). ⸻ 1. A Bíblia defende a dominação do homem sobre a mulher? A resposta, segundo os autores, depende de como se interpreta a Bíblia. Existem textos que podem ser usados para sustentar uma visão hierárquica entre os sexos, mas também há passagens que sugerem uma relação de igualdade e dignidade mútua. O livro analisa essas duas perspectivas dentro do desenvolvimento da teologia cristã. 1.1. A visão subordinacionista Essa perspectiva entende que a Bíblia estabelece uma ordem natural em que o homem lidera e a mulher lhe deve submissão. Os principa...

A morte de Jesus. Visão de Raymond Brown

  A visão de Raymond E. Brown sobre a morte de Jesus é uma das mais respeitadas no campo da exegese católica contemporânea. Brown foi um dos maiores especialistas em literatura joanina e autor da monumental obra The Death of the Messiah (1994, 2 vols.), que analisa de maneira técnico-teológica os relatos da Paixão nos quatro evangelhos. Seu trabalho é uma síntese rigorosa de crítica histórica, análise literária e teologia bíblica, sustentada por fidelidade à fé católica e abertura ao método científico. Abaixo, apresento um resumo estruturado da sua interpretação da morte de Jesus: ⸻ 1. A morte de Jesus como fato histórico e evento teológico Para Brown, a morte de Jesus deve ser compreendida em duplo registro:  • Histórico: Jesus foi condenado e crucificado por decisão de Pôncio Pilatos, sob a acusação de reivindicar uma realeza messiânica que ameaçava a ordem romana.  • Teológico: desde o início, os evangelistas narram a Paixão à luz da fé pascal, como o momento culminant...