Pular para o conteúdo principal

Relato do nosso encontro de padres com o Papa Bento XVI (14/02/2013) - Parte IV

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Finda a calorosa acolhida com uma saudação do Cardeal Vigário Agostino Vallini e com o canto “Tu es Petrus”, o Papa ancião pôs-se a falar. Em primeiro lugar, agradeceu a todos os sacerdotes pela oração em seu favor. Ele nos confessou, repetindo o que dissera Quarta-feira de Cinzas, que sentiu quase fisicamente a força das preces de todos. Disse ainda que ficaremos unidos, ele a nós e nós a ele, pela força da oração, ainda que, para o mundo, ele permaneça oculto.

Bento XVI confessou também não haver preparado um grande e elaborado discurso para a ocasião, por causa da idade. Ele disse que teria lugar, em vez, uma “piccola chiaccherata”, isto é, uma conversa amigável sobre o Concilio Vaticano II e sobre como ele o viu. Sabe-se que Joseph Ratzinger participou da grande assembleia de Padres na qualidade de perito quando era ainda um muito jovem teólogo. Tinha apenas 35 anos de idade. A conversa sobre o concílio veio a propósito, uma vez que celebramos os 50 anos da abertura desse evento que marcou irreversivelmente a vida da Igreja.

Bento XVI falou brevemente sobre o sentido da convocação do concílio. O Concílio Vaticano I, que havia proclamado a infalibilidade papal em matéria de fé e moral quando fala “ex cathedra”, teve de ser interrompido abruptamente por causa da guerra franco-prussiana. Com isso, ficou faltando o desenvolvimento da eclesiologia tratada pelos Padres. O Vaticano I falou da função do Papa na Igreja e de seu papel insubstituível, mas não pôde desenvolver-se no que tange ao papel dos bispos. Sempre se ficou na expectativa de que o Vaticano I pudesse ser reaberto para levar a termo a matéria eclesiológica, que tinha sido focada de modo não completo.

João XXIII, entretanto, não quis simplesmente reabrir o Vaticano I, mas, sim, convocar um novo concílio, cuja meta principal seria o “aggiornamento” (atualização) da Igreja. Bento XVI disse que a Igreja gozava, à época da convocação do grande evento, de certa estabilidade e tranquilidade. A frequência aos sacramentos, de modo especial à Missa dominical, era boa. Havia bom número de vocações. As missões aconteciam. Entretanto, ressaltou o Papa, a Igreja parece que era vista mais como uma coisa do passado que do presente. E muito menos do futuro. Sentia-se a necessidade de que a Igreja pudesse ser vista, não só como aquela que traz a sabedoria do passado, mas também como aquela que abre caminhos para o futuro.

De qualquer modo, pairava no ar a sensibilidade de que a Igreja, que sempre apoiara o estudo, a ciência e o desenvolvimento da civilização, precisasse colocar-se diante do mundo moderno para cancelar aquela sensação, que tivera seu início emblemático com o caso Galileu, de desajuste entre a sua mensagem e as novas e legítimas conquistas.

Bento XVI disse que o momento do concílio foi vivido por ele com grande esperança e entusiasmo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Transformação em Deus: fonte de vida e renovação

Há momentos em que se tem a impressão de que a vida cristã contemporânea se tornou excessivamente ocupada consigo mesma. Multiplicam-se reuniões, planejamentos, projetos, estratégias pastorais, metodologias de gestão, técnicas de comunicação, iniciativas de visibilidade e eficiência. Em muitos ambientes eclesiais, parece haver uma preocupação constante com organização, desempenho e resultados. Em outros, observa-se uma forte centralidade da emoção religiosa: experiências afetivas intensas, entusiasmo devocional, busca de consolações espirituais e de sentimentos de pertença. Tudo isso possui seu lugar e sua legitimidade relativa. A Igreja, enquanto realidade histórica, necessariamente se organiza; e a experiência religiosa toca também a dimensão afetiva do ser humano. Contudo, permanece a pergunta: onde está o caminho da transformação interior? Onde está a busca silenciosa da união com Deus?  Os grandes místicos cristãos recordam que o centro da vida espiritual não consiste nem na e...

Deus se revela

A Igreja sempre defendeu que Deus revelou-se positivamente na história dos homens, ao contrário do deísmo, que vê na Divindade algo um tanto quanto impessoal. Não se revelaria pessoalmente o Criador das pessoas? O Amor-Doação não se doaria ao homem? A Igreja sustenta que a Beleza infinita quer que participemos de seu esplendor, e, para tanto, manifestou-se na história para além daquilo que chamaríamos de revelação natural. A finalidade da Revelação de Deus na história é a elevação do homem à vida divina 1 , elevação essa que, ultrapassando as possibilidades meramente humanas, leva o ser humano a participar da felicidade absoluta no seio da Trindade eterna, que é o único Deus verdadeiro. Deus revela-se a si mesmo e o plano de sua vontade salvífica; ele, "levado por seu grande amor, fala aos homens como a amigos, e com eles se entretém para os convidar à comunhão consigo e nela os receber" 2 . A Revelação divina é histórica e progressiva, de modo que, tendo começado com os patr...

A Primeira Via de Santo Tomás

A primeira via de São Tomás de Aquino para provar a existência de Deus é a chamada prova do motor imóvel, que parte do movimento observado no mundo para concluir a existência de um Primeiro Motor imóvel, identificado como Deus. Ela é formulada assim: 1. Há movimento no mundo. 2. Tudo o que se move é movido por outro. 3. Não se pode seguir ao infinito na série de motores (causas de movimento). 4. Logo, é necessário chegar a um Primeiro Motor imóvel, que move sem ser movido. 5. Esse Primeiro Motor é o que todos chamam de Deus. Essa prova se fundamenta em princípios metafísicos clássicos, especialmente da tradição aristotélica, como: • A distinção entre ato e potência. • O princípio de que o que está em potência só passa ao ato por algo que já está em ato. • A impossibilidade de regressão ao infinito em causas atuais e simultâneas. Agora, sobre a validade perene dessa via, podemos considerar a questão sob dois ângulos: 1. Validade ontológica e metafísica: sim, perene A estrutura m...