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O ofício do sábio segundo S. Tomás de Aquino

Trecho da minha monografia de graduação em filosofia. Escrevi-a aos 21 anos de idade, mas a monografia hoje está perdida. Eu tinha uma cópia, emprestei-a e não me devolveram. ——— Ser sábio é dito daqueles que, considerando o fim, tudo ordenam em conformidade com ele: "pertence ao sábio ordenar". As artes arquitetônicas ou principais dirigem as inferiores, assim como a arte médica ordena a arte farmacêutica, uma vez que o fim da farmácia é a medicina. Desse modo, são chamados sábios os artífices das artes arquitetônicas, pois que lhes compete ordenar para o devido fim as artes inferiores. Todavia, o sábio por excelência, o único propriamente digno desse nome, é o que considera o fim último de todas as coisas e, por isso, está em condições de tudo ordenar em conformidade com ele: "O nome sábio, porém, é simplesmente reservado só para quem se dedica à consideração do fim do universo, que é também o princípio". O propósito fundamental de Santo Tomás é realizar o ofício ...

Qual o maior mandamento?

Ao responder ao fariseu sobre qual era o maior mandamento da Lei (cf. Mt 22, 34-40), Jesus uniu duas passagens da Escritura, de dois livros distintos: Dt 6,6 e Lv 19,18. A primeira fala do amor a Deus com todas as forças e o entendimento; a segunda, do amor ao próximo como cada um ama a si mesmo.  Era comum entre os mestres de Israel procurar a chave de interpretação de toda a Lei. Nesse sentido, o Rabi Akiva, pouco depois de Jesus, dirá que o princípio da Torah é o amor ao próximo. Advertia-se a urgência de encontrar essa chave que, ao mesmo tempo, pudesse ser a própria Lei em compêndio.  Afinal, em torno da Lei se tinha criado uma “cerca” de inúmeros preceitos com o intuito de a proteger e não permitir jamais a sua violação. No entanto, a multiplicação de preceitos acabou por empalidecer a própria Lei em seu frescor. No seu sentido originário, mais do que norma a Lei ( Torah ) é a “instrução” para que o povo de Deus percorra o justo caminho. É via de vida e felicidade....

Estamos no horizonte da Verdade

Retenho que o primeiro ponto do início crítico da filosofia seja a consciência de que estamos no horizonte da verdade . Não é preciso — nem mesmo é possível — determinar criticamente, de início, um conteúdo específico da verdade. Com efeito, só poderemos determinar, filosoficamente falando, conteúdos específicos mínimos de verdade, e isso depois de muito trabalho. A filosofia é a epistème  das poucas e grandes verdades, ao contrário das ciências particulares, que são detalhistas, discorrem sobre muitas coisas, mas nunca pretendem alcançar grandes verdades nem mesmo demonstrar seus pressupostos. A filosofia é o único saber que não pode dar-se o luxo de assumir pressupostos de forma dogmática.  No entanto, seria vão filosofar (e também fazer qualquer outra ciência) sem a intenção voltada para a verdade . Sem a intencionalidade da verdade, nada poderia ser tido como verdadeiro nem falso, e não haveria sentido algum em argumentar sobre o que quer que seja. Podemos estabelecer que ...

Lima Vaz e o tomismo transcendental

O tomismo transcendental de Lima Vaz, na linha de seu correligionário Joseph Maréchal, leva em consideração Kant e procura ultrapassá-lo. Leva em consideração Kant porque atribui valor especulativo à forma do conhecimento que está no sujeito ou no espírito cognoscente. Tal forma é o ser formal . O espírito só conhece assumindo todo e qualquer conteúdo na forma do ser . Tomás dizia que o que primeiramente cai sob a consideração do intelecto é o “ens”, sem o qual o intelecto não pode apreender nada.  Lima Vaz ressalta que o espírito finito do homem assume o conteúdo do conhecimento sob a forma do ser, de modo especial no juízo, quando declara ita est . O est do juízo assume aqui um papel decisivo, pois que ele revela que o espírito confere ao conteúdo do conhecimento uma forma necessária e absoluta - absolutamente necessária e necessariamente absoluta .  De onde vem ao espírito a capacidade de instituir o absoluto da forma senão do Absoluto real? Quando o espírito humano finito ...

Jesus, os pobres e os pobres pelo espírito

Beati pauperes spiritu, quoniam ipsorum est Regnum coelorum (Mt 5,3). Makárioi hoi ptokói tw pnéumati, hóti autwn estín h basiléia twn ouranwn (Mt 5,3). Bem-aventurados os pobres pelo espírito, porque deles é o Reino dos céus  (Mt 5,3). O Jesus mateano proclama bem-aventurados os pobres pelo espírito ( tw pnéumati ). O Jesus lucano proclama bem-aventurados os pobres sem mais, os lascados, aqueles que o escutavam (cf. Lc 6,20). Qual versão reflete a pregação histórica de Jesus? Os exegetas não têm dúvida de que seja a versão de Lucas. Jesus, que tinha como centro da sua mensagem a vinda do Reino de Deus, lançava uma palavra de esperança para aqueles que não podiam esperar nada do mundo. O Reino haveria de colocar ordem onde o pecado dos homens só causara desordens.  Mas então Mateus espiritualizou a mensagem de Jesus ao acrescentar tw pnéumati ? Ter-se-ia afastado da concretude dos desesperados a quem Jesus se dirigia? Eu diria que não! Mateus, certamente procurou atualizar ...

Sobre Nietzsche: há verdade?

A propósito de Nietzsche, uma questão levantada é se ele nega a verdade. Ele estaria representando a segunda posição nesta grande luta: “A verdade existe” X “Não há verdade alguma”?  Se Nietzsche nega a verdade, ele não cairia na contradição de todo negador da verdade? Ele não deveria, para ser consequente, negar a própria negação?  Tudo seria questão de perspectiva? Mas então o próprio perpectivismo não seria meramente uma perspectiva! O ceticismo ou o relativismo puro são insustentáveis. Precisam sempre de apoiar-se em qualquer coisa de sólido.  Há quem defenda, com efeito, que Nietzsche não é um puro negador da verdade ou um puro relativista. O que ele teria negado é a verdade de Platão e do Cristianismo, isto é, a verdade da tradição, que é uma verdade que pretende impor-se ao homem como algo já decidido, a verdade objetiva e imutável. Nietzsche estaria alinhado com o criticismo de Kant, que, com sua “revolução copernicana” na filosofia, estabeleceu que a verdade não ...

Jó e o mistério do sofrimento humano

O livro de Jó é um dos mais interessantes da Bíblia Hebraica. Trata-se de um drama escrito por um autor (ou redator final) inconformista, que se pôs a criticar a tradicional teologia da retribuição, muito arraigada no pensamento israelita de então. A época é certamente pós-exílica (século V ou IV a.C.). O autor critica uma determinada teologia, mas não o faz por meio de um tratado sistemático como faríamos hoje; veicula seu pensamento num conto dramático. O inconformismo do autor expressa-se no inconformismo do personagem Jó. Sendo justo e profundamente religioso, Jó deveria ser sempre abençoado em sua saúde, em seus filhos e em suas posses. Essa, ao menos, era a teoria, a teologia da retribuição. Mas à teoria é apresentada a realidade. Ao discurso teológico abstrato vem contraposta a existência concreta de um homem. Jó, que fora muito abençoado na saúde, nos filhos e nos bens, de repente perde tudo. É golpeado duramente. Será que Jó se conservará sempre paciente? Não é bem isso que ac...

Bíblia: noções introdutórias

Bíblia. A palavra vem do grego bíblos , livro. O diminutivo é bíblion , livrinho, que no plural se diz bíblia , livrinhos. O diminutivo perdeu sua força com o passar do tempo, de modo que bíblia ficou sendo sinônimo de livros. A Bíblia é uma coleção de livros: 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento. Quando foi escrita a Bíblia? A Bíblia é formada por uma porção de livros, que foram escritos por diversos autores em diversas ocasiões e épocas. Os mais antigos textos da Bíblia são do século VIII/VII a.C. O Pentateuco não foi escrito antes do Exílio da Babilônia (séc. VI a.C.). Os livros dos Macabeus foram escritos às portas do Novo Testamento, no século II a.C. O Novo Testamento, por sua vez, foi escrito dos anos 50 d.C. até os anos 100 d.C. A 1ª Carta de São Paulo aos Tessalonicenses foi o primeiro escrito do Novo Testamento; os escritos joaninos, os últimos. Os evangelhos foram escritos nesta ordem cronológica (que não é ordem em que se encontram na Bíblia): Marcos (65), Mateus...