COSTADOAT, Jorge. «Desacerdotalizar» el ministerio presbiteral: un horizonte para la formación de los seminaristas. Seminarios, Madrid, v. 67, n. 231, p. 249-267, 2022. DOI: 10.52039/seminarios.v67i231.1526.
1. Apresentação
Jorge Costadoat é teólogo da Pontificia Universidad Católica de Chile. Neste artigo, ele parte da crise dos abusos sexuais, de poder e de consciência cometidos por clérigos para diagnosticar um problema de fundo: a progressiva "sacerdotalização" do ministério presbiteral. Sua proposta é repensar a formação dos seminaristas a partir de uma volta às origens do ministério ordenado.
2. Conceitos-chave
Sacerdotalização. É o processo histórico pelo qual se passou a nomear os ministérios cristãos com vocabulário sacerdotal e a compreender seus titulares como sacerdotes em sentido cultual. Nesse sentido, o sacerdote é visto como mediador separado do povo, encarregado do sagrado.
Desacerdotalização. É o movimento inverso proposto pelo autor. Não se trata de suprimir a função sacramental dos presbíteros, mas de recuperar a identidade original do ministério: a presidência de uma comunidade concreta.
Ordenação absoluta. É a ordenação de alguém sem vínculo com uma Igreja local determinada. O Concílio de Calcedônia a proibiu, e o autor vê nessa proibição um testemunho de que ministério e comunidade eram inseparáveis.
Clericalismo. O autor o entende como um sistema hierárquico-autoritário no qual o sacerdote, por ocupar uma posição considerada superior, tende a dominar os fiéis não ordenados. O abuso seria sua manifestação extrema.
3. O problema: do presidente da comunidade ao "homem sagrado"
No primeiro milênio, era impensável uma comunidade sem presbítero ou um presbítero sem comunidade. A razão de ser do ministério era presidir e guiar o Povo de Deus. No segundo milênio, a identidade do presbítero passou a se definir pelo que o leigo não pode fazer, sobretudo celebrar a Eucaristia. Retomando Schillebeeckx, o autor resume essa mudança: o presbítero antigo era incorporado como cabeça da comunidade, enquanto o medieval passou a ser ordenado para poder celebrar a missa.
A consequência é um paradoxo atual: há ministros sem comunidades e comunidades sem ministros. Para Costadoat, a sacerdotalização reintroduziu no cristianismo uma concepção do sagrado como separação do profano. Essa concepção seria contrária à novidade de Cristo, em quem Deus se aproximou da humanidade. O autor sustenta ainda que o clericalismo começa a ser forjado nos seminários, onde os candidatos são desenraizados do mundo de seus contemporâneos.
4. O Vaticano II e sua recepção incompleta
4.1 O que o Concílio propôs
O Vaticano II tentou reverter a sacerdotalização, mas de modo incompleto. Cada documento trouxe avanços e, ao mesmo tempo, conservou elementos da concepção anterior:
- A Lumen gentium afirmou o sacerdócio comum dos batizados e a igual dignidade de todos os fiéis. Manteve, porém, a diferença "essencial e não apenas de grau" entre o sacerdócio comum e o ministerial, fórmula que se presta a sugerir uma excelência do clero.
- A Presbyterorum ordinis restituiu a primazia do anúncio do Evangelho e preferiu deliberadamente o termo "presbítero" a "sacerdote". Ainda assim, conservou a ideia de uma obrigação especial de perfeição do sacerdote.
- A Optatam totius abriu espaço para a criatividade das conferências episcopais na organização da formação, adaptando-a às necessidades locais.
4.2 O recuo pós-conciliar
Com base em Routhier, Sesboüé e Legrand, o autor interpreta a exortação Pastores dabo vobis como uma involução. O documento voltou a acentuar a identidade e o "estado" sacerdotal, em vez da participação do presbítero na missão evangelizadora da Igreja. Essa linha teria influenciado fortemente a Ratio fundamentalis de 2016.
4.3 O caso latino-americano
Medellín impulsionou uma formação voltada à evangelização e ao discernimento dos sinais dos tempos. Surgiram experiências de seminários em pequenas comunidades, inseridos nos bairros ou adaptados a camponeses, indígenas e operários. As conferências seguintes recuaram, porém, e prevaleceu o retorno ao seminário tridentino, separado da vida do povo.
5. O sacerdote como fator de divisão
Para ilustrar a mentalidade que critica, o autor cita uma homilia do cardeal Robert Sarah sobre os "poderes de Deus" conferidos ao sacerdote. Nessa visão, o presbítero é um "homem sagrado", alter Christus separado dos demais. Costadoat não aceita a posição de Greshake, para quem a sacralidade se vincula ao serviço sacramental e não à pessoa do ministro. Sua objeção é que, na prática, os fiéis projetam essa sacralidade sobre a pessoa.
Dessa separação decorreriam, segundo o autor, diversas consequências:
- Relações assimétricas e infantilizadas, que dificultam a crítica e favorecem o abuso.
- Um fosso epistêmico entre clero e fiéis: os clérigos passam a ensinar sobre experiências humanas que não conhecem. O exemplo emblemático é a recepção da Humanae vitae.
- Ausência de prestação de contas ao Povo de Deus e hierarquização entre os próprios ministros.
- Postura condenatória diante das mudanças culturais, como se o Espírito estivesse ausente da história.
- Uma cisão psíquica no presbítero, dividido entre a perfeição que representa e sua humanidade frágil.
6. Caminhos de superação
6.1 Fundamento bíblico
O autor recorre à Carta aos Hebreus, lida com Vanhoye e Taborda. Com o sacrifício existencial de Cristo na cruz, terminam os sacrifícios cultuais. Jesus é sacerdote não por separação dos demais, mas por se fazer semelhante aos que sofrem. A ordenação deveria, portanto, justificar-se antes pela presidência da comunidade que pela celebração eucarística.
6.2 Paradigma calcedônico: uma exigência de humanidade
Assim como o Verbo encarnado foi plenamente humano, o presbítero deve ser profundamente humano. Por analogia com as heresias cristológicas, o autor identifica dois desvios:
- O padre "nestoriano" é o secularizado, que não vive uma experiência profunda de Deus e, ainda assim, domina os outros em seu nome.
- O padre "monofisita" sacrifica a própria humanidade a uma divindade que exige perfeição, simula pureza e se julga superior aos demais.
A formação deveria integrar a humanidade do formando em relações fraternas, à maneira de Jesus.
6.3 Paradigma eclesiológico: in persona Christi et in persona Ecclesiae
O ministro age em nome de Cristo e também em nome da Igreja. Por isso, os chamados ao ministério devem ser escolhidos tanto por Cristo quanto pela comunidade. Retomando uma proposta de Enrique Angelelli durante o Concílio, o autor defende três medidas:
- As comunidades, com participação de leigos, famílias e profissionais de diversas áreas, devem tomar parte efetiva na seleção e na formação dos seminaristas.
- Nenhum presbítero deve ser imposto a uma comunidade que o rejeita.
- Os futuros presbíteros devem aprender desde cedo a prestar contas a instâncias colegiadas com participação laical.
7. Conclusão do autor
Desacerdotalizar não significa eliminar a função sacramental, mas recolocar as coisas em seu lugar segundo a tradição mais antiga da Igreja. Para Costadoat, a sacralização do clero favorece os abusos, agrava a exculturação do Povo de Deus e dificulta o anúncio do Evangelho, e por isso deve ser considerada patológica. As questões práticas, como locais de formação alternativos, currículos e apostolados, ficam explicitamente para estudos posteriores.
8. Apreciação crítica
O artigo tem o mérito de relacionar a crise dos abusos a fatores sistêmicos da teologia do ministério. Também recupera, com base documental consistente, a intenção conciliar de compreender o presbiterado a partir da missão evangelizadora e da presidência da comunidade.
Seus pontos mais discutíveis estão no diálogo limitado com a teologia do caráter sacramental e com a distinção clássica entre sacerdócio comum e ministerial. É o caso da recusa do argumento de Greshake e da extensão da expressão in persona Christi, em sentido lato, a todo batizado. Uma leitura a partir da tradição escolástica encontraria nesses pontos um campo fecundo de debate.
Ótimo texto. Obrigado!
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