Pular para o conteúdo principal

Niilismo. Para começar a entendê-lo

 Segundo Nietzsche, o niilismo teria começado com Eurípedes e Sócrates na Grécia antiga. Eles começaram a racionalizar a vida, que, na sua essência, não teria nada de racional. Platão, discípulo de Sócrates, elaborou a teoria das ideias eternas e imutáveis, e, assim, teria  desvalorizado o que verdadeiramente existe: o mundo caótico do vir-a-ser. 

A vida em geral, e a humana em particular, segundo Nietzsche, seria feita de vontade de poder, isto é, de tendência constante à autoafirmação. Os indivíduos fortes, com instintos saudáveis, se autoafirmariam. Já os fracos, com instintos débeis, procurariam inventar um mundo invisível (Deus e os valores morais) para compensar sua fraqueza. Nesse sentido, teriam criado o nada. Os fracos seriam os primeiros niilistas, inconscientes de sê-lo. Mas a partir da modernidade, cada vez mais se teria percebido que o mundo metafísico e teológico não se sustenta. A vontade de verdade, inculcada pelos amantes do mundo invisível, teria ironicamente destruído, uma por uma, todas as antigas persuasões que sustentavam a existência de Deus, da Verdade eterna e dos valores imutáveis. 

Veio, então, o niilismo cosciente, mas incompleto: procurou-se substituir Deus, o garante do mundo invisível, pelos ideais de conhecimento científico certo e de progresso inabalável. O niilismo consciente completo aparece em seguida, quando se percebe que os ideais da ciência e do processo são também invenções, mitos sem consistência. O niilismo completo passivo promove a atitude de que nada vale a pena, de que tudo é ilusão; não restaria ao homem senão deixar de querer qualquer coisa (Schopenhauer). 

Ao contrário, o niilismo completo ativo é o proposto por Nietzsche. Diz que, ao invés de tudo aquilo que inventa e projeta para além de si, que é nada, o homem deveria valorizar as próprias invenções enquanto invenções, não as projetando em algo objetivo, mas com a consciência de que são criações suas. O homem deveria fazer valer a sua vontade de potência para criar a sua própria vida como uma obra de arte, sabendo que não deve confiar em nada que  seja estranho ao próprio movimento de autocriação humana. Com o niilismo completo ativo, Nietzsche acreditava ter superado o niilismo vazio que imobiliza o homem. Nietzsche propunha ao homem criar os seus próprios valores e dar ele mesmo um sentido à própria vida.

Para Heidegger, diferentemente, o niilismo é causado pelo esquecimento do Ser. Esse esquecimento teria começado já nos inícios da filosofia, com Platão. Esquecer-se do Ser significa confundi-lo com um ente. A metafísica ocidental teria transformado o Ser num ente — o ens summum, o ente supremo (Deus). Perguntando-se pelo sentido do Ser (ontologia), a metafísica teria colocado o seu fundamento no ente supremo (teologia). Esse caráter onto-teológico da metafísica teria encoberto o Ser mesmo, aplainando o caminho do homem para o domínio total do ente. Com Descartes, o processo de redução ao ente tomou o contorno explícito e agressivo da manipulação do ente pela primazia da consciência. Esse processo de esquecimento do Ser teria atingido o seu mais alto grau com Nietzsche, cujo conceito de “vontade de potência” é a expressão mais abrangente do domínio do homem sobre o ente. Vê-se, pois, que, segundo Heidegger, Nietzsche não supera o niilismo nem a metafísica ocidental, mas é a sua expressão mais acabada.

Emanuele Severino, por sua vez, acusa o próprio Heidegger de ser niilista e de promover o niilismo. Não só Heidegger é acusado, mas toda a filosofia ocidental. Severino vê que Parmênides começou a trilhar a estrada justa, mas logo foi “refutado” por Platão. O princípio de Parmênides seria o único verdadeiro: o ser é e não pode não ser; o não-ser não é e não pode ser. Platão, no entanto, defendeu uma passagem — impossível aos olhos de Severino — do não-ser ao ser e do ser ao não-ser. O devir entendido como oscilação entre o ser e o não-ser tornou-se a grande marca do pensamento ocidental. Como suporte do devir assim entendido, como remédio para o vir-a-ser que inquieta a alma, os filósofos, de Platão até Hegel, colocaram o Imutável, reconhecido ao término do trajeto do pensamento: o Bem, o Motor Imóvel, Deus, o Sujeito, o Espírito... No entanto, a oscilação entre o ser e o nada sempre foi uma evidência para a mente ocidental. E a força dessa suposta evidência teria levado a filosofia, a partir do século XIX, a negar qualquer Imutável. A suprema convicção da filosofia do nosso tempo, pensa Severino, é que o devir, entendido como passagem do ser ao nada, reina soberano e, portanto, não pode ser contrastado por nenhum Imutável. Eis o niilismo em sua máxima expressão. A metafísica do Imutável seria impossível porque a suprema verdade seria o devir como oscilação entre o ser e o nada. Ser e nada se confundiriam. Heidegger não supera o niilismo porque o Dasein heideggeriano é um ente que oscila entre o não-ser do antes de ser lançado no mundo e o não-ser para o qual caminha na morte. O Ser heideggeriano é apenas uma projeção dos afetos inconstantes do Dasein. Severino propõe como antítodo ao niilismo a verdade do princípio de Parmênides: o ser é. O devir não seria passagem do não-ser ao ser e do ser ao não-ser, mas o aparecer e o esconder-se dos entes eternos no círculo da aparição. Para Severino, que vai até mais longe que Parmênides, cada ente é eterno. Parmênides falava da eternidade do Ser, mas não falava da eternidade dos entes. Severino sustenta que a razão é capaz de mostrar a eternidade de cada ente. A passagem ou oscilação entre o ser do mesmo e o não-ser do mesmo é impossível.

Já a filosofia cristã, tal como é representada por Fabro, Gilson, Vittorio Possenti, Lima Vaz e outros, vê que a superação do niilismo consiste na reafirmação do ser como actus essendi e da sua inteligibilidade radical. Tal reafirmação conduziria a razão ao reconhecimento do Ser subsistente (Ipsum Esse Subsistens) como totalmente inteligível em si mesmo (maxime intelligibile), cuja luminosidade, porém, é escuridão para nós. Assim como o Sol, claríssimo em si mesmo, obscurece os olhos da coruja, a máxima inteligibilidade do Ser perturbaria nossa frágil inteligência e nossa vontade de tudo conquistar e dominar. O Ser é reconhecido por nós como existente, mas sua essência nos cega e destitui do trono nossa vontade de potência. O Ser se apresentaria como totalmente indisponível aos caprichos humanos. Podemos reconhecê-lo, amá-lo, adorá-lo, mas não dominá-lo. Isso apontaria um caminho para a superação do niilismo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Criação "ex nihilo"

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Em Deus, e somente em Deus, essência e existência identificam-se. Deus é o puro ato de existir ( Ipsum Esse ), sem sombra alguma de potencialidade. Ele é a plenitude do ser. Nele, todas as perfeições que convém ao ser, como a unidade, a verdade, a bondade, a beleza, a inteligência, a vontade, identificam-se com sua essência, de tal modo que podemos dizer: Deus é a Unidade mesma, a Verdade mesma, a Bondade mesma, a Beleza mesma... Tudo isso leva-nos a dizer que, fora de Deus, não há existência necessária. Não podemos dizer que fora de Deus exista um ser tal que sua essência coincida com sua existência, pois, assim, estaríamos afirmando um outro absoluto, o que é logicamente impossível. Pela reflexão, pois, podemos afirmar que em tudo que não é Deus há composição real de essência (o que alguma coisa é) e existência (aquilo pelo qual alguma coisa é). A essência do universo criado não implica sua existência, já que, se assim fosse, o universo, contingen...

Se Deus existe, por que o mal?

O artigo ( leia-o aqui ) Si Dieu existe, pourquoi le mal ?,  de Ghislain-Marie Grange, analisa o problema do mal a partir da teologia cristã, com ênfase na abordagem de santo Tomás de Aquino. O autor explora as diversas tentativas de responder à questão do mal, contrastando as explicações filosóficas e teológicas ao longo da história e destacando a visão tomista, que considera o mal uma privação de bem, permitido por Deus dentro da ordem da criação. ⸻ 1. A questão do mal na tradição cristã A presença do mal no mundo é frequentemente usada como argumento contra a existência de um Deus onipotente e benevolente. A tradição cristã tem abordado essa questão de diferentes formas, tentando reconciliar a realidade do mal com a bondade e a onipotência divinas. 1.1. A tentativa de justificar Deus Desde a Escritura, a teologia cristã busca explicar que Deus não é o autor do mal, mas que ele é uma consequência da liberdade das criaturas. No relato da queda do homem (Gn 3), o pecado de Adão e E...

Convite ao eclesiocentrismo

O Cardeal Giacomo Biffi, arcebispo emérito de Bologna, faz um convite quase insuportável aos ouvidos que se consideram avançados e atualizados em matéria teológica: trata-se de um convite ao eclesiocentrismo. O quê? Isso mesmo. Um convite ao eclesiocentrismo. É o que podemos ler, estudar e meditar em seu livro sobre eclesiologia - La Sposa chiacchierata: invito all’ecclesiocentrismo -, que ganhou uma tradução portuguesa sob o título Para amar a Igreja . Belo Horizonte: Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém do Pará / Editora O Lutador, 2009. . O motivo que leva o arcebispo e cardeal da Igreja Giacomo Biffi a fazer um convite assim tão «desatual» é o seu amor pela verdade revelada em Cristo. A teologia para Biffi não se deve ocupar com discursos divagantes sobre hipóteses humanas, não deve fazer o jogo do «politicamente correto», mas deve, isto sim, contemplar a « res », isto é, a realidade que corresponde ao desígnio do Pai, a sua verdade. E com relação à ver...