Pular para o conteúdo principal

Criação na Sagrada Escritura e no Magistério

.
Padre Elílio de Faria Matos Júnior



O Antigo Testamento

        O que afirmamos sobre o conhecimento que Israel alcançou a respeito de Deus deve ser afirmado também no que se refere ao conceito de criação. Israel não atingiu a noção de criação, que, como se disse, revolucionou a filosofia, através de uma reflexão filosófica. Israel chegou à fé explícita na criação a partir da experiência da atuação de Iahweh na história. Nesse sentido, "o primado teológico não diz respeito à criação, mas à aliança"[1].

       A pedagogia mesma da Revelação divina ensina-nos, assim, que a noção de criação não deve ser entendida à parte da noção de salvação. Israel só chegou a perceber a criação porque antes experimentou a ação salvífica do Criador.  A criação, portanto, não se reduz ao átrio dos gentios, mas faz parte do plano geral da salvação como seu primeiro ato. O Deus Triúno, na verdade, cria para salvar.

Os dois relatos bíblicos clássicos sobre as origens pertencem, não ao início da fé de Israel, mas a épocas relativamente tardias. O relato sacerdotal (Gn 1-2,4a) surge por volta do século V a.C., e o javista (Gn 2,4b-25), por volta do dos séculos IX-VIII a.C.  Uma profissão de fé (Dt 26,5-10) que pertence à camada mais antiga da fé de Israel não faz menção à natureza, mas à história. Foi o poder de Deus manifestado na história que levou Israel a reconhecer seu domínio sobre todo o universo e, enfim, a noção de criação[2].

No que se refere aos primeiros capítulos do livro do Gênesis, deve-se ter em mente que, graças ao avanço dos estudos bíblicos, sabemos que os textos não têm pretensão alguma de nos fornecer um relato de tipo jornalístico do que se passou no início do mundo. Basta notar que o redator ou compilador final não se preocupou em harmonizar as contradições que se podem encontrar no texto dos primeiros capítulos, mas simplesmente as justapôs[3]. Esses capítulos do Gênesis pertencem ao gênero literário profético-sapiencial, gênero este que tem em vista um ensinamento teológico sobre as origens, e não científico.

O certo é que os israelitas tomaram consciência de uma novidade radical para a época: o mundo, tal como o vemos, não é fruto de antagonismos entre forças primitivas, mas provém inteiramente de Deus, que o cria livremente. Tal consciência é expressa já no relato sacerdotal, que começa assim: "No princípio, Deus criou o céu e a terra"[4]. Enquanto outras tradições da Antigüidade, que subsistiram na área cultural e nas demarcações geográficas às quais pertencia Israel, como se pode verificar pelos poemas babilônicos, egípcios, sumérios, feníncios e caldeus, possuem um esquema cosmogônico idêntico, a consciência do povo bíblico apresenta a grande novidade. O esquema dos relatos míticos cosmogônicos comum aos povos mencionados consiste basicamente no seguinte: existência de um caos aquático primordial e de deuses; combate entre um deus e o caos, que é personificado; origem do universo, tal como é, a partir da vitória lograda pelo deus sobre o caos. Ora, o que vemos em Gn 1,1 é completamente novo. Aí Deus aparece como o criador de tudo o que existe ("céu e terra") desde quando existe ("no princípio"). Deus não aparece lutando contra forças adversas, como nos mitos cosmogônicos, a fim de impor a ordem sobre o caos, mas a idéia veiculada no versículo é a de que a soberania de Deus sobre a criação é total. O verbo usado para designar a criação por parte de Deus (bara') é um verbo que, sempre quando aparece, "significa uma ação que tem por sujeito exclusivo a Deus, que não se exerce sobre uma matéria preexistente, que dá como resultado um efeito absolutamente inédito"[5]. Já Gn 1,2 apresenta uma linguagem familiar aos mitos cosmogônicos, pois parece insinuar que Deus agiu sobre uma matéria preexistente, embora não apareça traços de luta entre Deus e o caos ("Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo"). Entretanto, bons exegetas tem dito que Gn 1,2 pertence a uma cosmogonia popular muito antiga, de que o redator final (P) lança mão para falar das origens, sem se preocupar com reflexões abstratas ou em harmonizá-lo logicamente com Gn 1,1, que, por sua vez, amortece o alcance da cosmogonia popular de Gn 1,2. Com outras palavras, Gn 1,2 teria origem nos relatos míticos, mas Gn 1,1 seria a interpretação teológica do redator sacerdotal, interpretação que apresenta a grande novidade, que dá a Gn 1,2 o seu devido sentido[6].

O relato javista (Gn 2,4b-25) é mais antigo do que o sacerdotal, e seu centro é a criação do homem. Muitos estudiosos já não o consideram um relato sobre a criação propriamente considerada, mas sim, com o Gn 3, um relato sobre a origem do mal. No entanto, percebemos aí uma intenção didática. O javista, servindo-se das imagens das cosmogonias de seu tempo, apresenta todas as criaturas como obras de Deus, das quais o Homem é o rei.

O Dêutero-Isaías (Is 44-55), provavelmente anterior ao relato sacerdotal do Gênesis, é um profeta do exílio, cuja intenção é reanimar os israelitas que correm o risco de perder a esperança. Ele incute a idéia de que Deus, o mesmo que promoveu o êxodo e elegeu para si um povo, pode fazer ainda maravilhas. A razão disso, é que o Senhor Deus é o criador do universo: "Assim diz o Senhor, o teu redentor, aquele que te formou desde o ventre materno: eu, o Senhor, é que tudo fiz, e sozinho estendi os céus e firmei a terra; com efeito, quem estava comigo?"[7]. Nessa perícope, a criação do nada é insinuada[8].

A criação rigidamente conceituada como creatio ex nihilo não vem dita explicitamente porque os hagiógrafos não tencionavam fazer reflexão rigorosamente filosófica, mas é certamente insinuada. Foi no século II a.C., que o Segundo Livro dos Macabeus consegue exprimir, em termos quase filosóficos, a antiga doutrina: "Suplico-te, meu filho: contempla o céu e a terra, e observa tudo o que neles existe. Reconhece que não foi de coisas existentes que Deus os fez"[9].

O Novo Testamento

O Novo Testamento apresenta-se em continuidade com o Antigo na afirmação de que todo o universo procede de Deus, mas apresenta-nos um novo e fundamental elemento: a inserção do Verbo. "Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito"[10], afirma o prólogo joanino. Significativo também é a seguinte perícope de Paulo: "Para nós, contudo, existe um só Deus, o Pai, de quem tudo procede e para quem nós somos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem tudo existe e por quem nós somos"[11]. Essa afirmação realça, a um só tempo, o proprium da Revelação vétero-testamentária em contraposição aos mitos cosmogônicos e o proprium da Revelação cristã, a afirmação de que tudo existe por Cristo. Textos muito ricos são os de Cl 1,15-20 e Ef 1,3-14. Neles Cristo é apresentado como o princípio, o centro e o fim da criação.

A afirmação da centralidade do Verbo/Cristo na obra da criação leva-nos naturalmente a perguntar se a encarnação aconteceria independentemente do pecado. Muitos teólogos atualmente são pela tese de que o Verbo, mesmo sem o pecado, encarnar-se-ia para arrematar a obra criadora. Outros já não ousam afirmar isso, dizendo que não há documentação suficiente para tal afirmação; dizem que o Verbo, antes da encarnação, já exercia o papel de centro da criação, como ressalta o prólogo joanino que citamos acima, e, com o pecado, tornou-se, a novo título, Cabeça dos seres criados, realizando a recriação do mundo ferido pelo pecado por meio da encarnação[12]. São duas teses sobre as quais não há consenso entre os teólogos. A nosso ver, ambas podem ser tomadas pela reflexão teológica sem perigo para a fé.

O Magistério da Igreja

O Magistério da Igreja reiteradas vezes repetiu o ensinamento segundo o qual Deus criou todas as coisas ex nihilo no início dos tempos. Assim professamos no Credo: "Creio em Deus Pai todo poderoso, criador do céu e da terra"[13].

Contra as heresias dualistas dos cátaros e valdenses, o Concílio de Latrão IV (1215) definiu a existência de um só e verdadeiro Deus, "criador de todos os seres, visíveis e invisíveis, espirituais e materiais que, com seu poder onipotente, criou do nada (...), no princípio do tempo"[14]. Contra os erros modernos, a saber, o materialismo, o panteísmo e o deísmo negador da liberdade criadora de Deus, insistiu o Concílio Vaticano I:

A Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana crê e confessa que há um só Deus, verdadeiro e vivo, Criador e Senhor do céu e da terra, onipotente, eterno, imenso, incompreensível, infinito em inteligência e vontade e em toda perfeição [...], distinto do mundo, soberanamente feliz [...]. Este único Deus [...] com liberalíssimo desígnio "criou do nada"...[15]


[1] Frosini, Giordano. Teologia hoje. Editorial Perpétuo Socorro: Porto, 2001, p. 110.
[2] Cf. Peña, Juan L. Ruiz de la. Teologia da criação. São Paulo: Loyola, 1989, p. 13-22.
[3] Cf. Ibidem, p. 24ss.
[4] Gn 1,1.
[5] Peña, Juan L. Ruiz de la., op. cit., p. 29.
[6] Ibidem, p. 24ss.
[7] Is 44,24.
[8] Cf. também Sl 104; Pr 8,23-30; Jó 26,10-14; 38,4-41; Is 40,12-28.
[9] 2Mc 7,28.
[10] Jo 1,3.
[11] 1Cor 8,6.
[12] Com efeito, professamos no Credo: "por nós, homens, e por nossa salvação... encarnou-se"; cf. ainda Jo 3,16ss; 1Tm 1,15. O Concílio Vaticano II, por sua vez, afirma: "O Filho Unigênito de Deus foi enviado ao mundo pelo Pai, a fim de que, feito homem, remisse todo o gênero humano e assim o regenerasse e unificasse" (UR, n.2).
[13] A Fé Católica (FC), n. 0.502.
[14] FC, n. 3.010.
[15] FC, n. 3.019-3.020.

Comentários

  1. Pe Elílio, a partir da leitura do seu texto acerca da Criação na Sagrada Escritura e no Magistério, me veio uma dúvida, a saber, como a teologia, tb o magistério, vê a teoria da evolução?

    ResponderExcluir
  2. Prezado Robione,

    A hipótese da evolução (macroevolução ou também a evolução biológica) em nada se contrapõe à doutrina da "creatio ex nihilo". Esta trata de explicar a origem radical de todas as coisas ou a posição no ser de todos os entes; responde à pergunta "por quê?". Aquela diz respeito apenas ao modo como as coisas, uma vez existindo, se comportam ou evoluem; responde à pergunta "como?".

    ResponderExcluir
  3. Completando...
    Desse modo, nem a teologia nem o Magistério nada tem a opor à hipótese da evolução, desde que ela se conserve no plano de explicação científica da realidade. O que acontece, muitas vezes, é que alguns autores a erigem em teoria filosófica e, pretendem, por ela, tudo explicar. Ora, a hipótese da evolução não explica a origem radical do ser dos entes. Nem pode pretender explicar o espírito no homem, na medida em que o espírito não é uma realidade empírica, e, por isso, não está sujeito ao controle das ciências particulares.

    ResponderExcluir
  4. Olá padre, sua benção meu nome é Rosana trabalho com música liturgica na minha paróquia a 15 anos gostaria que o senhor escrevesse sobre matrimônio ou me sugerisse leituras a respeito desse tema pois tenho procurado escrever letras de músicas para casamento uma vez que estou sempre cantando neles mas o nosso repertório católico anda dificil por favor me ajude. Obrigada.

    ResponderExcluir
  5. Oi padre esqueci de deixar meu endereço: rosanamoriah@hotmail.com

    ResponderExcluir
  6. Prezada Rosana,

    Há muitos livros sobre o matrimônio. Indico-lhe, em primeiro lugar, o Catecismo da Igreja Católica publicado por João Paulo II. Na seção de sacramentos há um bom estudo inicial sobre o matrimônio.

    Pe. Elílio

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Deus é Trindade: uma abordagem filosófico-teológica

I. A questão terminológica: hypóstasis , persona e subsistência A afirmação cristã de que Deus é Trindade tem sido sistematicamente mal compreendida — tanto por seus críticos quanto, por vezes, por seus próprios professores — em razão de uma imprecisão no uso do conceito de pessoa. Quando os Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (381) definiram a fé trinitária, recorreram ao vocábulo grego hypóstasis para designar aquilo que distingue o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Este termo, traduzido para o latim como persona e daí para as línguas modernas como “pessoa”, carrega um sentido técnico preciso que não deve ser confundido com o uso corrente do vocábulo: hypóstasis significa subsistência, isto é, aquilo que existe em si e por si, de modo estável e permanente, como modo real de ser de uma natureza. Dizer, portanto, que em Deus há três pessoas não equivale a afirmar que há três indivíduos distintos, três centros de consciência separados ou três divindades justapostas — o que seria...

A respeito da encíclica “Magnifica Humanitas”

A encíclica Magnifica Humanitas , do Papa Leão XIV, dedicada à inteligência artificial, representa uma das intervenções mais importantes recentes da Igreja no debate sobre tecnologia e humanidade. Longe de assumir uma postura meramente alarmista ou tecnofóbica, o documento procura discernir, à luz da tradição cristã e da doutrina social da Igreja, as possibilidades e os riscos da nova revolução tecnológica. Entretanto, o núcleo mais profundo da encíclica não é tecnológico, mas antropológico e metafísico: quem é o homem diante da ascensão das inteligências artificiais? O primeiro grande eixo do documento é a defesa da dignidade humana. A encíclica insiste que o valor da pessoa não pode ser reduzido à produtividade, à eficiência ou à capacidade de desempenho. Em uma civilização cada vez mais marcada pela lógica algorítmica, existe o risco de interpretar o próprio homem como sistema operacional sofisticado, avaliável segundo métricas de rendimento, adaptação e utilidade. Contra isso, o P...

S. Gregório de Nissa e a escravidão

Gregório de Nissa foi um dos autores cristãos antigos mais radicais na crítica à escravidão. Em um contexto no qual a escravidão era considerada algo normal no mundo greco-romano — inclusive por muitos filósofos — ele formulou uma crítica profundamente teológica e antropológica à ideia de que um ser humano pudesse possuir outro. O texto mais famoso sobre isso aparece em suas Homilias sobre o Eclesiastes, especialmente comentando a frase bíblica: “Comprei servos e servas” (Ecl 2,7). Gregório reage com indignação. Ele pergunta: como alguém pode “comprar” um ser humano, se o homem foi criado à imagem de Deus? Quem poderia atribuir um preço àquilo que reflete o próprio Deus? A argumentação dele é impressionante para o século IV. Ele diz, em essência: Deus fez o homem livre; nenhum homem é senhor da natureza humana; vender ou comprar uma pessoa é usurpar um direito que pertence somente a Deus; reduzir alguém à condição de propriedade é uma violência contra a imagem divina. Gregório chega a ...