domingo, 28 de fevereiro de 2010

Entre a morte e a ressurreição - Parte III

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Parte III

3. POSICIONAMENTO TEOLÓGICO DE JOSEPH RATZINGER

Diante de tudo o que dissemos até agora, surgem pelo menos três questões: é aceitável o novo conceito da relação entre tempo e eternidade? O novo conceito de corporeidade pode ser assumido como sendo cristão? A tradição eclesial, professando a imortalidade da alma, de um lado, e a ressurreição no fim dos tempos, de outro, teria corrompido o que é genuinamente cristão com conceitos gregos dualistas?

Em vista da solução desses problemas, vocês, caros ouvintes, estão aqui para saber o que o teólogo Joseph Ratzinger tem a dizer. Nossa palestra tem um subtítulo que nos arremete à escatologia de Ratzinger. É dela, pois, que devemos tratar.

Vimos que Ratzinger começou querendo “desplatonizar” a escatologia tradicional, o que significa: queria rejeitar o conceito de alma imortal, queria afirmar uma antropologia monista, queria reivindicar a idéia de ressurreição no momento da morte. Mas, como ele mesmo afirmou, em virtude de seus estudos e aprofundamentos, distanciou-se dessa pretensão e percebeu a lógica profunda da tradição eclesial, que afirma uma escatologia intermediária, isto é, uma situação provisória e definitiva ao mesmo tempo entre a morte e a ressurreição.

Ao perceber a lógica profunda da tradição e distanciar-se da pretensão de “desplatonização” da escatologia, Ratzinger tornou-se um crítico da nova tese escatológica que postula a ressurreição no momento da morte. A crítica de Ratzinger está baseada sobre três grandes pilares: a noção da relação entre tempo e eternidade, a noção de alma e a noção de corporeidade. É criticando os novos conceitos concernentes a esses três pilares que Ratzinger constrói seu pensamento teológico sobre o que tange o problema da relação entre morte e ressurreição.


Tempo e eternidade

Vejamos em primeiro lugar, o que Raztinger tem a nos dizer sobre a questão relativa ao tempo e à eternidade. Será que, como os proponentes da nova concepção escatológica dizem, o homem, ao deixar este mundo pela morte, entra na eternidade tout court? Ratzinger diz que esta tese é sustentada por muitos teólogos católicos, que, “apoiando-se no pensamento de E. Troeltsch e de K. Barth, acentuam a incomensurabilidade total entre tempo e eternidade. Quem morre sai do tempo e penetra no 'fim do mundo', que não é o último dia dos calendários, mas algo de diferente de nosso tempo”[1].  Não haveria, pois, tempo intermediário entre a morte e a ressurreição. O “estar com Cristo” de Fl 1,23 logo após a morte seria idêntico à ressurreição e o “fim dos tempos”. Assim, a ressurreição e o “fim dos tempos” se dariam na morte mesma. Esta tese da ressurreição na morte foi elaborada, como vimos, para resolver a dificuldade de uma outra tese, a de que o homem todo desaparece na morte, o que apresentava o grave problema a respeito da permanência da identidade entre o que desaparece e o que ressuscita. Todavia, Ratzinger julga que a tese da ressurreição na morte não deixa, ela também, de apresentar sérias dificuldades. Ela postula, como vimos, que, saindo o homem do tempo, entra ele na eternidade. Mas ouçamos os questionamentos de Ratzinger:

É verdade que não existe alternativa além do tempo físico e do não-tempo, identificando-se este com a eternidade? É logicamente admissível transladar o homem ao estado de pura eternidade, tendo ele passado como tempo o decisivo da existência? Pode ser eternidade de verdade uma eternidade que começa? Algo que começa não é, por isso mesmo, necessariamente não-eterno, temporal? E pode-se negar que a ressurreição do homem tenha começo, concretamente, depois da morte? Se se negasse isso (a ressurreição depois da morte), seria logicamente forçoso situar o homem na esfera da eternidade enquanto ressuscitado desde sempre, com o que se suprimiria toda antropologia séria, caindo, de fato, naquele platonismo caricaturesco que é, antes de tudo, o que se queria combater[2].

A nova tese, segundo Ratzinger, cai no dualismo que queria combater. Seguindo sua lógica até as últimas conseqüências, a nova tese nos leva a postular duas esferas na ordem do criado radicalmente distintas, incomensuráveis e, sem embargo, coexistindo. A história do mundo estaria, ao mesmo tempo, encerrada e continuando, isto é, haveria uma história consumada por detrás da história que se faz: um dualismo imperdoável, que impediria a consumação do próprio Universo, que segue sua caminhada ao lado de uma história já consumada para os que morreram, sem jamais poder atingi-la. São palavras de Ratzinger:

Como se explica que a história tenha chegado a seu termo em alguma parte (menos em Deus!), quando, na realidade, ela continua sua caminhada? A noção fundamental, em si correta, da incomensurabilidade entre este mundo e o outro não foi, porventura, indevidamente simplificada, e isto a ponto de chegar às raias do mal-entendido? (com efeito, não de deveria falar de eternidade a não ser a propósito do próprio Deus). Que futuro se pode esperar para a história e para o universo? Chegarão eles um dia juntos à sua realização total ou subsistirá um eterno dualismo entre o tempo e a eternidade, que o tempo jamais atingirá?[3].

Para Ratzinger, a eternidade, como posse total e simultânea do todo, é própria apenas de Deus. Somente em Deus há o eterno presente. Só Deus contempla todas as coisas em um único instante. À criatura é vedada a eternidade tout court. Em primeiro lugar, porque não há eternidade que tenha começado. Ora, toda criatura tem um começo. A criatura está sempre no tempo, pois não pode ser senhora total e simultaneamente de uma vida sem começo e sem fim. Nem mesmo a morte introduz o homem na eternidade, em que não há passado ou futuro. O homem sempre terá um passado e um futuro, e o seu presente não abarca de um só golpe de vista ambas as coisas. Mas qual a natureza da temporalidade que cabe ao homem? Ratzinger diz que esta questão é estritamente antropológica, e não podemos tomar como modelo um outro ser que não o homem. Trata-se de determinar a temporalidade que cabe ao homem enquanto homem[4]. “Analisando esta questão, vê-se que a temporalidade se dá no homem em distintos níveis e também de distintas maneiras”[5]. O homem, enquanto corpo, participa do tempo físico, cujos parâmetros se dão conforme a velocidade de rotação de certos corpos. Enquanto corpo vivo, participa da temporalidade própria do ritmo biológico. Acontece, porém, que o homem não é só corpo segundo Ratzinger; é também espírito, e, como tal, assume o tempo físico e biológico, elevando-os ao nível da consciência ou dos atos espirituais. Estes são também temporais, pois trazem as marcas do tempo físico e biológico, mas num nível distinto e de um modo mais profundo. Tais atos espirituais humanos, temporais, são ilustrados por Ratzinger pelo recurso à concepção agostiniana do tempo como presente do passado, presente do presente e presente do futuro. O passado e o futuro no homem se fazem presentes no presente da memória, mas sem a atualidade que é própria do presente[6]. A temporalidade humana tem ainda, frisa Ratzinger, uma outra nota essencial: a relacionalidade, isto é, o homem só se faz ele mesmo em virtude de seu ser-com-os-outros e em-ordem-aos-outros.

Desse modo, pode-se dizer que há um tempo antropológico, que Ratzinger, valendo-se de Agostinho, chama de “tempo da memória”. Isso significa que, ao sair do tempo do bíos, o homem se desliga do tempo físico ou biológico, caindo no puro “tempo da memória”, sem, contudo, atingir a eternidade. O tempo da memória não é eternidade. O homem continua submetido a uma espécie de tempo. Destarte, a história, que para ele se encerrou de algum modo com a morte não lhe é estranha, porque ele não atinge o “fim dos tempos” enquanto a história continua seu curso. A história em curso é algo real para ele, embora ele já não esteja inserido nela. A rede de relações, que está na essência mesma do homem, o mantém vinculado ao curso real dos acontecimentos do mundo à espera de sua consumação em Deus. Assim, é preservada a seriedade e a importância da história que está acontecendo, o que não seria possível se afirmássemos que o homem entra na eternidade tout curt após a morte.


[1]    RATZINGER, Entre a morte e a ressurreição, p. 78.
[2]    RATZINGER, Escatología, p. 110.
[3]    RATZINGER, Entre a morte e a ressurreição, p. 79.
[4]    Cf. RATZINGER, Escatología, p. 170.
[5]    RATZINGER, Escatología, p. 170.
[6]    RATZINGER, Escatología, p. 170 e 171.


2 comentários:

  1. A proposta de Ratzinger seria sair de um platonismo e acabar concordando com Agostinho?

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  2. Prezado Fabiano,
    Ratzinger queria sair do dualismo que era considerado como platonismo. Ele pensava que a tradição teológica estava sob a influência negativa do dualismo. Mas depois veio a reconhecer que o que existe é uma sadia dualidade na tradição teológica, dualidade que não pode ser negada sem sérios problemas. Agostinho o ajuda a pensar a temporalidade post mortem.

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