A lógica que parece dominar o mundo contemporâneo é, antes de tudo, a lógica da eficiência. Trata-se de uma racionalidade que valoriza, acima de qualquer outro critério, a capacidade de produzir resultados, otimizar processos e alcançar objetivos com o máximo de rendimento possível. Essa lógica manifesta-se de modo particularmente visível no sistema econômico moderno, cuja dinâmica se estrutura em torno da produtividade, da utilidade e da maximização de resultados.
No entanto, seria um equívoco pensar que essa lógica pertence exclusivamente ao capitalismo. Na realidade, ela expressa algo mais amplo: uma verdadeira ideologia da eficiência. Segundo essa ideologia, o valor das coisas tende a ser medido pela sua utilidade, pela sua funcionalidade ou pelo seu desempenho. Tudo passa a ser avaliado segundo critérios operacionais: o que serve, o que funciona, o que produz efeitos mensuráveis.
Nesse horizonte, prevalece aquilo que muitos pensadores chamaram de razão instrumental, isto é, uma forma de racionalidade que estabelece relações entre meios e fins, buscando sempre os procedimentos mais eficazes para alcançar determinados resultados. Essa razão possui, sem dúvida, um papel legítimo na organização da vida social, na ciência, na técnica e na economia. O problema surge quando ela passa a ocupar todo o horizonte da racionalidade humana.
Quando isso acontece, uma dimensão essencial da existência humana tende a ser obscurecida: a dimensão contemplativa da vida.
O ser humano não vive apenas de ação, produção e utilidade. Há nele também a capacidade de contemplar, de admirar, de saborear o sentido das coisas e de fruir a beleza do existir. Trata-se de uma experiência que não se reduz à utilidade, mas que se relaciona com o valor intrínseco do real — com a verdade, a beleza e o sentido do ser.
Essa dimensão contemplativa não está presente em toda forma de filosofia, assim como também não se encontra em toda forma de religião. Contudo, ela aparece com grande clareza em algumas das tradições filosóficas mais altas da história do pensamento. Em Sócrates, por exemplo, a filosofia é entendida como busca da sabedoria e como cuidado da alma. Em Platão, ela assume a forma de uma ascensão do espírito em direção à contemplação da verdade e do bem. Em Aristóteles, a vida contemplativa aparece como a forma mais alta de realização humana, pois nela o intelecto participa da atividade que lhe é mais própria: a contemplação da verdade.
Essa mesma orientação pode ser encontrada em outras correntes da filosofia antiga, como o estoicismo e o neoplatonismo, nas quais a vida filosófica se apresenta como um caminho de transformação interior e de acesso a uma ordem mais profunda do real.
A tradição cristã herdou e aprofundou essa intuição, conjugando-a com a fé bíblica na bondade de Deus e na lógica do Evangelho, que, definitivamente, não é a lógica da eficiência. Em pensadores como Agostinho de Hipona, a busca filosófica da verdade encontra-se inseparavelmente unida à busca de Deus, que não é um ente entre outros que se conquista, mas a Subjetividade absoluta que de doa à subjetividade humana sedenta da sua raiz. Algo semelhante pode ser dito de muitos Padres da Igreja e de grandes teólogos medievais, entre os quais se destacam Tomás de Aquino e Boaventura. Em todos esses autores, a teologia e a filosofia a serviço da teologia não são concebidas apenas como exercícios intelectuais técnicos, mas como caminhos de elevação do espírito em direção à verdade.
Dentro dessa tradição, Tomás de Aquino expressou de modo particularmente claro a superioridade da vida contemplativa sobre a vida ativa. Isso não significa que a ação seja dispensável ou sem valor. O ser humano precisa agir no mundo, organizar a vida social, trabalhar e responder às exigências concretas da história. Mas, para Tomás, a ação encontra sua orientação e seu sentido último na contemplação da verdade. A verdade primeira almejada pelo espírito não é um verdade qualquer, mas aquela que estrutura a inteligência e se mostra como o sentido radical do ser. A verdade subsistente deixa a sua marca indelével no espírito, pois que, como observou Tomás, a verdade transcendental (veritas in communi) é inegável, incancelável: quem pretende que a verdade transcendental não exista, professa que é verdade que a verdade não existe, caindo em contradição consigo mesmo. A verdade trascendental no espírito - a verdade como horizonte básico da inteligência - é o índice que que a questão da verdade do ser é incancelável, por mais que haja teorias que tentem dizer o contrário.
A contemplação representa, portanto, uma forma mais alta de realização do espírito humano, porque nela o homem não busca apenas transformar o mundo, mas participar da verdade do ser.
O drama do mundo contemporâneo é que essa dimensão parece cada vez mais obscurecida. A expansão da lógica da eficiência e da racionalidade instrumental está ligada também a um fenômeno mais profundo: uma crescente descrença no poder da razão e do espírito relativo à verdade meta-empírica e meta-cultural. Quando a razão deixa de ser percebida como capaz de se orientar para a verdade e quando o espírito deixa de ser reconhecido como aberto ao horizonte do ser, resta apenas a dimensão pragmática da existência. Nesse contexto, a pergunta pela verdade cede lugar à pergunta pela utilidade, e o valor das coisas passa a ser medido apenas pela sua funcionalidade.
Uma análise particularmente radical desse fenômeno foi proposta pelo filósofo italiano Emanuele Severino. Para Severino, a técnica tornou-se a força dominante do mundo ocidental. Inicialmente, a técnica aparece como um aparato destinado a alcançar determinados fins: produzir bens, resolver problemas, ampliar o poder humano sobre a natureza. Nesse sentido, ela parece ocupar apenas o lugar de um meio.
Entretanto, segundo Severino, ocorre progressivamente uma inversão decisiva. As diversas forças que estruturaram historicamente o Ocidente — como o capitalismo, a democracia, a política, a ciência e até mesmo o cristianismo — passam a utilizar a técnica como instrumento para alcançar seus próprios objetivos. Cada uma delas mobiliza o poder técnico para obter resultados mais eficazes.
Contudo, nesse processo, algo mais profundo acontece: todas essas forças acabam se subordinando ao próprio crescimento da técnica. Aquilo que inicialmente era apenas um meio transforma-se progressivamente em fim. A técnica deixa de ser um instrumento entre outros e passa a tornar-se o verdadeiro horizonte dominante dentro do qual todas as outras forças se movem.
Dessa forma, a técnica acaba assumindo a posição de grande dominadora da história contemporânea.
Para Severino, essa situação revela o ponto extremo de uma atitude típica da civilização ocidental: a pretensão de que o homem pode dominar completamente o ser. O poder técnico parece confirmar essa crença, pois permite transformar o mundo de maneira cada vez mais ampla e eficaz. Mas essa confiança ilimitada na técnica contém, segundo ele, um elemento profundamente ilusório.
Ela se funda na ideia de que o ser não possui uma lógica própria e que pode ser indefinidamente manipulado pela vontade humana. O homem técnico acredita poder dispor do ser como de um material totalmente disponível para a sua intervenção. Nesse sentido, a expansão ilimitada da técnica manifesta aquilo que Severino chama de o delírio extremo do Ocidente: a convicção de que o ser pode ser dominado.
Mas se o ser possui uma verdade própria — uma lógica que não depende da vontade humana — então essa pretensão de domínio absoluto revela-se profundamente problemática.
Nesse contexto, torna-se ainda mais evidente a importância de recuperar a dimensão contemplativa da existência. A contemplação não é apenas uma atividade espiritual entre outras. Ela representa uma forma de reconhecer que a realidade possui um sentido que não se reduz à manipulação técnica. Contemplar é admitir que o ser não é simplesmente objeto de domínio, mas também mistério a ser reconhecido e verdade a ser acolhida.
Recuperar a contemplação não significa rejeitar a técnica ou a eficiência. Significa apenas recolocar cada coisa no seu devido lugar. A ação é necessária, e a técnica pode ser um instrumento valioso. Mas o ser humano não vive apenas para produzir resultados ou ampliar indefinidamente o seu poder de intervenção.
Ele vive também — e talvez sobretudo — para contemplar, compreender, admirar e participar da verdade e da beleza do real. Experimentar a doação do ser e sentir-se impelido a doar-se também.
Sem essa dimensão contemplativa, a própria ação corre o risco de perder o seu sentido.
No entanto, seria um equívoco pensar que essa lógica pertence exclusivamente ao capitalismo. Na realidade, ela expressa algo mais amplo: uma verdadeira ideologia da eficiência. Segundo essa ideologia, o valor das coisas tende a ser medido pela sua utilidade, pela sua funcionalidade ou pelo seu desempenho. Tudo passa a ser avaliado segundo critérios operacionais: o que serve, o que funciona, o que produz efeitos mensuráveis.
Nesse horizonte, prevalece aquilo que muitos pensadores chamaram de razão instrumental, isto é, uma forma de racionalidade que estabelece relações entre meios e fins, buscando sempre os procedimentos mais eficazes para alcançar determinados resultados. Essa razão possui, sem dúvida, um papel legítimo na organização da vida social, na ciência, na técnica e na economia. O problema surge quando ela passa a ocupar todo o horizonte da racionalidade humana.
Quando isso acontece, uma dimensão essencial da existência humana tende a ser obscurecida: a dimensão contemplativa da vida.
O ser humano não vive apenas de ação, produção e utilidade. Há nele também a capacidade de contemplar, de admirar, de saborear o sentido das coisas e de fruir a beleza do existir. Trata-se de uma experiência que não se reduz à utilidade, mas que se relaciona com o valor intrínseco do real — com a verdade, a beleza e o sentido do ser.
Essa dimensão contemplativa não está presente em toda forma de filosofia, assim como também não se encontra em toda forma de religião. Contudo, ela aparece com grande clareza em algumas das tradições filosóficas mais altas da história do pensamento. Em Sócrates, por exemplo, a filosofia é entendida como busca da sabedoria e como cuidado da alma. Em Platão, ela assume a forma de uma ascensão do espírito em direção à contemplação da verdade e do bem. Em Aristóteles, a vida contemplativa aparece como a forma mais alta de realização humana, pois nela o intelecto participa da atividade que lhe é mais própria: a contemplação da verdade.
Essa mesma orientação pode ser encontrada em outras correntes da filosofia antiga, como o estoicismo e o neoplatonismo, nas quais a vida filosófica se apresenta como um caminho de transformação interior e de acesso a uma ordem mais profunda do real.
A tradição cristã herdou e aprofundou essa intuição, conjugando-a com a fé bíblica na bondade de Deus e na lógica do Evangelho, que, definitivamente, não é a lógica da eficiência. Em pensadores como Agostinho de Hipona, a busca filosófica da verdade encontra-se inseparavelmente unida à busca de Deus, que não é um ente entre outros que se conquista, mas a Subjetividade absoluta que de doa à subjetividade humana sedenta da sua raiz. Algo semelhante pode ser dito de muitos Padres da Igreja e de grandes teólogos medievais, entre os quais se destacam Tomás de Aquino e Boaventura. Em todos esses autores, a teologia e a filosofia a serviço da teologia não são concebidas apenas como exercícios intelectuais técnicos, mas como caminhos de elevação do espírito em direção à verdade.
Dentro dessa tradição, Tomás de Aquino expressou de modo particularmente claro a superioridade da vida contemplativa sobre a vida ativa. Isso não significa que a ação seja dispensável ou sem valor. O ser humano precisa agir no mundo, organizar a vida social, trabalhar e responder às exigências concretas da história. Mas, para Tomás, a ação encontra sua orientação e seu sentido último na contemplação da verdade. A verdade primeira almejada pelo espírito não é um verdade qualquer, mas aquela que estrutura a inteligência e se mostra como o sentido radical do ser. A verdade subsistente deixa a sua marca indelével no espírito, pois que, como observou Tomás, a verdade transcendental (veritas in communi) é inegável, incancelável: quem pretende que a verdade transcendental não exista, professa que é verdade que a verdade não existe, caindo em contradição consigo mesmo. A verdade trascendental no espírito - a verdade como horizonte básico da inteligência - é o índice que que a questão da verdade do ser é incancelável, por mais que haja teorias que tentem dizer o contrário.
A contemplação representa, portanto, uma forma mais alta de realização do espírito humano, porque nela o homem não busca apenas transformar o mundo, mas participar da verdade do ser.
O drama do mundo contemporâneo é que essa dimensão parece cada vez mais obscurecida. A expansão da lógica da eficiência e da racionalidade instrumental está ligada também a um fenômeno mais profundo: uma crescente descrença no poder da razão e do espírito relativo à verdade meta-empírica e meta-cultural. Quando a razão deixa de ser percebida como capaz de se orientar para a verdade e quando o espírito deixa de ser reconhecido como aberto ao horizonte do ser, resta apenas a dimensão pragmática da existência. Nesse contexto, a pergunta pela verdade cede lugar à pergunta pela utilidade, e o valor das coisas passa a ser medido apenas pela sua funcionalidade.
Uma análise particularmente radical desse fenômeno foi proposta pelo filósofo italiano Emanuele Severino. Para Severino, a técnica tornou-se a força dominante do mundo ocidental. Inicialmente, a técnica aparece como um aparato destinado a alcançar determinados fins: produzir bens, resolver problemas, ampliar o poder humano sobre a natureza. Nesse sentido, ela parece ocupar apenas o lugar de um meio.
Entretanto, segundo Severino, ocorre progressivamente uma inversão decisiva. As diversas forças que estruturaram historicamente o Ocidente — como o capitalismo, a democracia, a política, a ciência e até mesmo o cristianismo — passam a utilizar a técnica como instrumento para alcançar seus próprios objetivos. Cada uma delas mobiliza o poder técnico para obter resultados mais eficazes.
Contudo, nesse processo, algo mais profundo acontece: todas essas forças acabam se subordinando ao próprio crescimento da técnica. Aquilo que inicialmente era apenas um meio transforma-se progressivamente em fim. A técnica deixa de ser um instrumento entre outros e passa a tornar-se o verdadeiro horizonte dominante dentro do qual todas as outras forças se movem.
Dessa forma, a técnica acaba assumindo a posição de grande dominadora da história contemporânea.
Para Severino, essa situação revela o ponto extremo de uma atitude típica da civilização ocidental: a pretensão de que o homem pode dominar completamente o ser. O poder técnico parece confirmar essa crença, pois permite transformar o mundo de maneira cada vez mais ampla e eficaz. Mas essa confiança ilimitada na técnica contém, segundo ele, um elemento profundamente ilusório.
Ela se funda na ideia de que o ser não possui uma lógica própria e que pode ser indefinidamente manipulado pela vontade humana. O homem técnico acredita poder dispor do ser como de um material totalmente disponível para a sua intervenção. Nesse sentido, a expansão ilimitada da técnica manifesta aquilo que Severino chama de o delírio extremo do Ocidente: a convicção de que o ser pode ser dominado.
Mas se o ser possui uma verdade própria — uma lógica que não depende da vontade humana — então essa pretensão de domínio absoluto revela-se profundamente problemática.
Nesse contexto, torna-se ainda mais evidente a importância de recuperar a dimensão contemplativa da existência. A contemplação não é apenas uma atividade espiritual entre outras. Ela representa uma forma de reconhecer que a realidade possui um sentido que não se reduz à manipulação técnica. Contemplar é admitir que o ser não é simplesmente objeto de domínio, mas também mistério a ser reconhecido e verdade a ser acolhida.
Recuperar a contemplação não significa rejeitar a técnica ou a eficiência. Significa apenas recolocar cada coisa no seu devido lugar. A ação é necessária, e a técnica pode ser um instrumento valioso. Mas o ser humano não vive apenas para produzir resultados ou ampliar indefinidamente o seu poder de intervenção.
Ele vive também — e talvez sobretudo — para contemplar, compreender, admirar e participar da verdade e da beleza do real. Experimentar a doação do ser e sentir-se impelido a doar-se também.
Sem essa dimensão contemplativa, a própria ação corre o risco de perder o seu sentido.
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