Pular para o conteúdo principal

Níveis ontológicos

Podemos considerar vários níveis ontológicos. A realidade é multifacetada e rica de níveis distintos de profundidade. Eis três níveis fundamentais para a inteligibilidade da estrutura do ente: 

a) a simples matéria, que é o de quê as coisas sensíveis são feitas. A matéria é moldável por si mesma. É o que permanece sob as diversas formas no processo das mudanças das coisas sensíveis.

b) a forma, que é o contorno inteligível das coisas. É a forma que dá o ser determinado das coisas. Sem a forma, nada teria inteligibilidade; nenhum ente seria possível, pois todo ente é um ente determinado, e a determinação (inteligibilidade) vem da forma. Pode-se aqui perguntar pelo fundamento da forma. Platão disse que tal fundamento radica-se num mundo superior, puramente inteligível. Agostinho sustentou que a mente de Deus é o fundamento de toda inteligibilidade. 

c) o ato de ser, que é aquilo pelo qual tudo o que existe, existe. Sem o ato de ser, nada seria efetivo. Este é o fundamento mais radical de todas as coisas. Está acima da forma, pois sem o ato de ser nenhuma forma seria efetiva. Aliás, sendo o ato de ser a perfeição das perfeições e o ato de todos os atos, lá onde ele é puro (em Deus), é perfeição infinita ou ilimitada, não determinada, mas superdeterminada. Nos entes, o ato de ser se dá de acordo com a determinação (limitação) da forma finita (essência). 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Primeira Via de Santo Tomás

A primeira via de São Tomás de Aquino para provar a existência de Deus é a chamada prova do motor imóvel, que parte do movimento observado no mundo para concluir a existência de um Primeiro Motor imóvel, identificado como Deus. Ela é formulada assim: 1. Há movimento no mundo. 2. Tudo o que se move é movido por outro. 3. Não se pode seguir ao infinito na série de motores (causas de movimento). 4. Logo, é necessário chegar a um Primeiro Motor imóvel, que move sem ser movido. 5. Esse Primeiro Motor é o que todos chamam de Deus. Essa prova se fundamenta em princípios metafísicos clássicos, especialmente da tradição aristotélica, como: • A distinção entre ato e potência. • O princípio de que o que está em potência só passa ao ato por algo que já está em ato. • A impossibilidade de regressão ao infinito em causas atuais e simultâneas. Agora, sobre a validade perene dessa via, podemos considerar a questão sob dois ângulos: 1. Validade ontológica e metafísica: sim, perene A estrutura m...

Marín-Sola e o desenvolvimento da teologia da graça

  Francisco Marín-Sola, um teólogo dominicano do século XX, foi um dos principais responsáveis pela reformulação da tradição bañeziana dentro do tomismo. Ele buscou suavizar alguns aspectos da doutrina da graça e predestinação, especialmente no que diz respeito à relação entre a liberdade humana e a causalidade divina. Sua obra tentou conciliar a soberania absoluta de Deus com uma maior ênfase na cooperação humana, evitando o determinismo implícito no modelo de Bañez e Garrigou-Lagrange. ⸻ 1. Contexto da Reformulação de Marín-Sola • A escola tomista tradicional, especialmente na versão de Domingo Bañez e Reginald Garrigou-Lagrange, defendia a moción física previa, segundo a qual Deus pre-move infalivelmente a vontade humana para o bem ou permite o pecado através de um decreto permissivo infalível. • Essa visão levantava críticas, pois parecia tornar Deus indiretamente responsável pelo pecado, já que Ele escolhia não conceder graça eficaz a alguns. • Francisco Marín-Sola...

Que civilização queremos?

Nossa civilização ocidental passa por uma crise cujos contornos atingem, de maneira inédita, seus próprios fundamentos. Ora, todos sabemos que as bases constitutivas de nossa cultura ocidental estão na Grécia antiga, de um lado, e no cristianismo, que se difundiu pelo antigo Império Romano no início de nossa era, de outro. O que hoje está em jogo é exatamente a concepção que essas bases de nossa civilização apresentam sobre quem é o homem. Tanto a Grécia antiga, com a filosofia, quanto a fé cristã reconheceram o que se pode chamar de Transcendência. A Transcendência é uma Realidade que está acima do homem e do mundo, e é o fundamento de ambos. É o que podemos também chamar de divino ou de Deus. A Grécia antiga elevou-se até a Transcendência através do pensamento. Exercitando a razão em busca da verdade, principalmente em seus mais ilustres representantes – Sócrates, Platão e Aristóteles -, a filosofia grega deparou-se com o Princípio e Fundamento de tudo, que Platão celebrou como Sumo ...