O artigo “Teilhard de Chardin e a Questão de Deus”, de Henrique Cláudio de Lima Vaz, publicado na Revista Portuguesa de Filosofia, é uma profunda análise filosófico-teológica da obra de Pierre Teilhard de Chardin. A seguir, um resumo detalhado:
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1. Objetivo do artigo
Lima Vaz pretende demonstrar a atualidade e o valor permanente do pensamento de Teilhard de Chardin. A chave de leitura é a centralidade da questão de Deus, que constitui o eixo estruturador de toda a sua obra. Para Teilhard, trata-se de responder à pergunta fundamental: é possível crer e agir à luz de Deus num mundo pós-teísta?
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2. Contexto histórico
Teilhard, jesuíta, paleontólogo e filósofo, viveu as tensões entre fé e ciência no século XX. Apesar de suas intuições filosófico-teológicas audaciosas, foi marginalizado institucionalmente: não pôde publicar suas principais obras (O Fenômeno Humano, O Meio Divino) em vida.
Seu pensamento ganhou grande repercussão no pós-guerra, tornando-se fenômeno editorial mundial. No entanto, sofreu tanto admiração fervorosa quanto críticas ferrenhas – inclusive do Santo Ofício em 1962.
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3. A crise da modernidade e a sombra da pós-modernidade
A partir dos anos 1970, com a ascensão da pós-modernidade (marcada por irracionalismo, desconfiança da ciência e crítica às metanarrativas), a proposta teilhardiana perdeu força. A crítica ao progresso, ao humanismo e à razão deslocou os pressupostos sobre os quais sua visão se erguia.
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4. A cultura pós-teísta e o desafio de pensar Deus
Lima Vaz analisa a erosão da ideia de Deus desde o Iluminismo até o século XX. A teologia cristã entra em crise com a virada antropocêntrica de Kant e a crítica de Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud. O Deus transcendente é substituído por interpretações psicológicas, sociológicas e simbólicas.
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5. O itinerário de Teilhard para Deus
Teilhard busca Deus no interior do processo evolutivo do universo, partindo da experiência científica para uma fenomenologia do cosmos. Sua chave hermenêutica é a noção de “energia psíquica” e “centro de complexidade”, que permite uma leitura convergente da evolução em direção a um ponto final: o Ponto Ômega.
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6. O Ponto Ômega
É a imagem de Deus reinterpretada: centro de unificação, transcendência e finalidade última da evolução. Teilhard conjuga uma ontologia vertical (influência clássica) com uma fenomenologia evolutiva longitudinal (influência moderna), vendo no homem reflexivo o ápice da consciência cósmica. A convergência final da evolução aponta para um Fim transcendente, pessoal, absoluto – Deus.
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7. Teilhard e o diálogo com a tradição cristã
Embora audacioso, seu pensamento permanece enraizado na tradição teológica cristã. Influenciado por figuras como Blondel, Marechal e De Lubac, Teilhard representa uma tentativa original de reconfigurar a fé cristã no contexto científico e cultural moderno.
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Conclusão
Lima Vaz vê Teilhard como um clássico do pensamento cristão do século XX. Sua visão permanece relevante ao buscar responder com profundidade filosófica e espiritual à pergunta sobre Deus no mundo pós-teísta. Mesmo fora de moda em certos círculos teológicos e filosóficos, seu legado continua como uma proposta vigorosa de integração entre fé, ciência e evolução.
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Lima Vaz percebia aspectos problemáticos no pensamento de Teilhard de Chardin?
Sim, Henrique Cláudio de Lima Vaz, embora profundamente respeitoso e admirador da grandeza espiritual e intelectual de Teilhard de Chardin, não deixa de apontar certas limitações e ambiguidades no seu pensamento, ainda que o faça de forma discreta e crítica-construtiva.
Aqui estão os principais aspectos problemáticos que Lima Vaz assinala ou sugere:
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1. Ambiguidade conceitual e vocabulário pouco técnico
Lima Vaz observa que Teilhard, por não ter formação sistemática em filosofia, muitas vezes não distingue com precisão os planos fenomenológico, metafísico e teológico, e emprega termos com significados flutuantes (como “energia psíquica”, “dentro do fenômeno”, “espiritualização” etc.). Isso pode gerar confusão conceitual e dificuldade de interpretação rigorosa.
Teilhard não se interessava pelas “tecnicidades filosóficas” e foi influenciado por amigos jesuítas mais versados na filosofia moderna, como Valensin e Rousselot .
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2. Hibridismo entre ciência e teologia
Teilhard tenta construir uma leitura unitária da realidade (científica, antropológica e teológica), mas corre o risco de confundir os métodos e escopos da ciência e da fé. Ao postular, por exemplo, o Ponto Ômega como exigência do processo evolutivo, há o risco de transpor indevidamente categorias da fé para dentro de uma leitura científica do mundo.
Lima Vaz sugere que, embora o itinerário teilhardiano se inicie no campo da ciência, ele acaba por fazer uma “transposição metafísica” que requer critérios mais estritos de distinção entre o empírico e o transcendente.
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3. Frágil recepção na teologia pós-conciliar
Lima Vaz reconhece que, nos anos 1970, Teilhard teve pouca ressonância entre os teólogos católicos mais influentes, mesmo dentro da Companhia de Jesus. Isso se deve, em parte, ao fato de que, apesar de sua linguagem audaciosa, Teilhard permanecia fortemente ligado à tradição, enquanto muitos teólogos buscavam romper com ela.
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4. Risco de teleologismo evolutivo excessivo
Teilhard interpreta a evolução como orientada para um fim necessário e positivo (o Ponto Ômega). Lima Vaz parece sugerir que há aí um otimismo evolutivo que pode soar excessivo ou ingênuo diante da complexidade do mundo histórico real — especialmente em tempos de crise e niilismo pós-moderno.
Mesmo quando critica os modelos cíclicos ou aleatórios do universo, Teilhard confia quase inevitavelmente na convergência universal — e isso pode parecer, para alguns, uma leitura excessivamente idealizada da história e do cosmos.
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5. Rejeição por parte de expoentes do neotomismo
Embora não seja exatamente uma crítica própria de Lima Vaz, ele registra o distanciamento de autores como Maritain e Gilson diante do pensamento de Teilhard, o que revela uma certa tensão entre o pensamento teilhardiano e os parâmetros clássicos da metafísica tomista.
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Síntese da postura de Lima Vaz
Lima Vaz reconhece em Teilhard um gênio espiritual e uma intuição poderosa, mas também um pensador não sistemático, cuja linguagem poética e simbólica requer interpretação cuidadosa. Sua originalidade, embora rica, precisa ser complementada por análises mais rigorosas, especialmente no plano filosófico-metafísico.
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