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Inteligência artificial e monopsiquismo

O artigo (L'Intelligence Artificielle et le monopsychisme : Michel Serres, Averroès et Thomas d'Aquin) de Fr. David Perrin, O.P. (leia-o aqui) examina as semelhanças entre a Inteligência Artificial (IA) e a concepção averroísta de um intelecto único e separado, destacando a questão central: o homem ainda pensa, ou apenas acessa um conhecimento externo, como se conectando a um princípio separado?


1. A metáfora da “cabeça decapitada” e a externalização do pensamento

Michel Serres, no ensaio Petite Poucette, sugere que a revolução digital transformou a relação do homem com o saber. Ele compara essa mudança à lenda de São Denis, bispo de Paris, que, após ser decapitado, teria carregado sua própria cabeça. Para Serres, a informatização do conhecimento representa uma decapitação simbólica: o pensamento humano foi deslocado da mente para dispositivos externos (computadores, IA). Esses dispositivos armazenam e processam memória, imaginação e razão de maneira amplificada, criando um deslocamento da inteligência para fora do sujeito humano.

Serres argumenta que isso não marca o fim do saber, mas uma mudança no sujeito da inteligência. O conhecimento, antes interno e pessoal, agora é coletivo, acessível e conectado, gerando uma nova forma de pensamento, mas ao custo da passividade: o homem se relaciona com o conhecimento como algo externo a si.


2. Averroísmo e a questão “Utrum hic homo intelligit?”

No século XIII, o averroísmo latino levantou uma questão semelhante: o homem pensa? Para Averroès, o intelecto humano não pertence individualmente a cada pessoa, mas sim a um intelecto único, separado, eterno e comum à humanidade. Isso significa que o pensamento individual seria apenas uma participação em uma inteligência universal – uma visão que causou grande controvérsia entre os filósofos e teólogos medievais.

A crítica de São Tomás de Aquino ao averroísmo enfatiza que a verdadeira inteligência exige dois elementos:

1. O homem deve ser o agente de sua própria intelecção, ou seja, ele deve produzir o ato de pensar.

2. O homem deve ser o sujeito da sua própria intelecção, possuindo e compreendendo o conhecimento que adquire.

O averroísmo negava ambos os aspectos, argumentando que o intelecto individual não pensa por si mesmo, mas apenas fornece imagens (phantasmata) que são processadas pelo intelecto separado. Para São Tomás, isso nega a experiência subjetiva da consciência, reduzindo o homem a um mero transmissor de dados, sem um verdadeiro domínio sobre sua própria razão.

Essa discussão medieval encontra eco na era digital: se delegamos à tecnologia nossas funções cognitivas, continuamos realmente pensando?


3. Conexão, externalização e passividade

O artigo destaca um ponto crucial na revolução digital: a conexão. Assim como no averroísmo o homem “pensa” apenas na medida em que se une ao intelecto separado, no mundo digital o pensamento parece ocorrer externamente, nos servidores e algoritmos, enquanto o homem apenas acessa esse conhecimento.

Essa mudança cria novos desafios epistêmicos:

A simples conexão ao conhecimento basta para produzir inteligência?

O acesso imediato a bases de dados substitui a reflexão e a compreensão?

A facilidade de obtenção da informação leva à superficialidade do saber?

Serres argumenta que o conhecimento tornou-se disponível e compartilhado de maneira instantânea, tornando a aprendizagem tradicional menos relevante. Mas o artigo alerta que essa externalização pode resultar em uma perda da autonomia do pensamento: o homem deixa de ser o agente da sua intelecção e torna-se passivo, recebendo informações sem a necessidade de um esforço cognitivo profundo.

A crítica aqui remete a Platão, que, no Fedro, já advertia que a escrita poderia enfraquecer a memória humana ao transferir o saber para um suporte externo. O mesmo ocorre com a tecnologia digital: ao facilitar o acesso ao conhecimento, pode tornar o pensamento humano menos ativo e independente.


4. A inteligência artificial e o risco da servidão voluntária

A relação entre averroísmo e inteligência artificial torna-se ainda mais visível quando consideramos a passividade do usuário diante dos sistemas digitais. O artigo ressalta que a IA não pensa por si mesma, mas opera sobre dados coletados dos próprios usuários. Assim, quem usa a IA também é utilizado por ela – os algoritmos funcionam com base nas informações fornecidas pelos humanos, transformando-os em objetos de análise e predição.

Essa relação de dependência levanta preocupações políticas e éticas. Bernanos, já no pós-guerra, advertia que o perigo das máquinas não está em sua multiplicação, mas no fato de que os homens podem ser reduzidos a consumidores passivos, acostumados a desejar apenas o que as máquinas lhes oferecem. Isso pode levar a um duplo tipo de servidão:

1. Servidão ao conforto da tecnologia, onde o homem abandona seu esforço intelectual e crítico.

2. Servidão às corporações tecnológicas, que controlam e direcionam o fluxo da informação, tornando-se novos centros de poder.

A concentração de dados em poucas empresas globais (Google, Microsoft, etc.) cria uma situação análoga ao monopsiquismo averroísta: um único “intelecto” (ou poucos grandes sistemas) processa e distribui o saber para milhões de indivíduos conectados. Assim como no averroísmo o intelecto separado pensa por todos, no mundo digital os algoritmos organizam e fornecem o conhecimento, enquanto os indivíduos apenas o recebem.


5. Conclusão: Quem realmente pensa?

O artigo encerra ironicamente relatando uma interação com o próprio ChatGPT, que reconhece o paralelo entre o intelecto averroísta e a inteligência coletiva da IA, mas não consegue aprofundar a questão. A última resposta gerada pela máquina – “Qu’en penses-tu?” – revela um paradoxo: a IA pergunta, mas não compreende. Ela processa, mas não pensa.

Essa questão final retorna ao debate medieval: se a inteligência se desloca para um princípio externo, quem realmente está pensando? A crítica tomista ao averroísmo reaparece no contexto digital: não basta fornecer dados ou processá-los rapidamente – a verdadeira inteligência exige apropriação subjetiva, reflexão e agência pessoal.

O artigo, portanto, não condena a tecnologia, mas alerta para o risco de uma alienação cognitiva, onde o homem se tornaria um “semblant de savant”, um “aparente sábio”, que acessa informações sem de fato compreendê-las ou dominá-las.



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